A história do nego fujão

 
A história do nego fujão

 

Os negros e os índios, embora considerados insignificantes, sempre tiveram presentes no ciclo de acontecimentos mais importantes da história dessa pátria, o Brasil,

Durante e após os vários movimentos revolucionários precedentes aos séculos até a data da “Proclamação da República” e fim da escravidão. Eles eram peças de interesse comum a todos. Durante e após os principais movimentos, como os movimentos nativistas, complexos e de interesses bastante contraditórios, senhores, escravos, metrópoles e colônias inteiras sofreram mudanças significativas no segmento de suas vidas.

 

No período da Guerra dos Emboabas (1709), em Minas Gerais, um respeitável senhor e sua numerosa família vindos de Tietê, S.P, fixou residência nas proximidades de Vila Rica. Inúmeros escravos e índios domesticados, ou melhor, civilizados, faziam parte de seus bens e eram elementos fundamentais para que ele alcançasse a tão almejada riqueza que ia muito além de ser próspero senhor de engenho e proprietário de minas de ouro. Ele queria uma posição, um lugar na corte, um título, um brasão. E para tanto precisava de muitos escravos e serviçais. O foco era ficar perto do ouro. Caso fosse preciso, se instalaria dentro de uma mina, mas faria fortuna. Ah faria!

 

Naquela época o Vale do Rio Doce causara euforia às metrópoles e principalmente a Portugal, maior potência do comércio Europeu. O Brasil era realmente o país do futuro. Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais dariam um futuro glorioso a todos os portugueses que aliados ao Rei se dispusessem a extrair riquezas dessa terra generosa.

 

Depois de o Rei elevar São Paulo à categoria de cidade, em 1711, e separá-lo administrativamente da região das Minas, muitos viram nessas atitudes engenhosas reais possibilidades de rápido enriquecimento nessas regiões.

 

As regiões montanhosas dificultavam o transporte das tropas tanto do porto para São Paulo quanto, ou muito mais, de São Paulo aos vales do ouro. As tropas sofriam. Ademais as mudanças dos bens e famílias eram cheias de transtornos. Sendo assim, melhor era ao homem deixar bem acomodadas na metrópole suas esposas ou famílias de consideração e levar consigo mulheres... as segundas.

 

Metade dos escravos, os jovens mais saudáveis, experientes tropeiros e valentes jagunços acompanharam tal senhor. Entre eles algumas negras de ancas largas, por serem fortes e boas parideiras, completaram a comitiva.

Entre tantos bens desse notável senhor havia um negro que se destacava por suas habilidades de liderança, coragem, fidelidade e boa convivência com outros escravos. O que nele mais impressionava era sua facilidade de aprendizagem e afeição junto aos brancos. Ora! raros os que tinham sorte de ter um escravo assim com tais qualidades. Ele aprendeu com os animais como conviver com os índios e com os brancos. O segredo era não confiar neles, não traí-los e jamais maltratá-los. A maioria dos senhores tinha seus bens aos cuidado de contratados, agregados ou parentes, mas eles não eram confiáveis. Tais indivíduos um belo dia tentavam algum golpe. Um escravo de confiança, fiel e corajoso, valia mais do que um bom cão de guarda ou uma boa espingarda. O negro não era um cão de fila, mas era ágil na peixeira e bão de briga.

 

Durante a revolta de Vila Rica (1720), as qualidades se tornaram como defeitos, deficiência maligna, que o levaria inevitavelmente à morte. Suas artimanhas eram consideradas muito perigosas para ser ensinada aos negrinhos que se reuniam nas rodas de cantoria. Apesar do medo e apreensão constante mantinha-se ao lado do seu senhor. Consideravam-se sangue do mesmo sangue ou quase isso. Contudo, ao que se apercebia, a vida do seu senhor não teria um fim muito diferente, pois, a um senhor de posses, pobreza e morte são equivalentes. E esse senhor tornara-se inimigo dos inimigos dos amigos do Rei. Idealistas negrófilos e simpatizantes da categoria eram presos, tinham os bens confiscados, e quase sempre eram mortos para a repressão dos movimentos. E o sinhozinho, embora ambicioso e importante explorador, era totalmente a favor da Abolição da Escravatura.

 

Do alto das serras de Minas o negro olhava os horizontes sonhando voar rumo ao topo das montanhas distantes. Nada no mundo tem mais valor que a liberdade, dizia ele a si mesmo, nem todo o “Ouro de Aluvião”, nem toda riqueza do império; nada, nada tem mais sentido que as asas da liberdade; asa que nasce no coração de todo mundo e fica presa dentro da carcaça; asa que nessa terra ninguém tem. Por isso todo mundo acorda de carranca.

E com tanta veemência gemia seus desejos, murmurando com tal paixão, que até os bichos, os ventos e as fontes se calavam para ouvi-lo. E toda natureza sentia no imo uma forte explosão.

 

Portugal recuperava seu poder econômico. Saia espantosamente de uma crise graças ao ouro das terras brasileiras. Entusiasmado, o governo tratou de organizar um eficiente poder administrativo. Entretanto, apesar da Intendência Mineira, órgão controlado pelo rei para distribuir terras para a exploração do ouro, fiscalizar e cobrar impostos, muitos exploradores barganhavam entre si grande parte do ouro em pepitas, grãos e até diamantes. Usando desses meios o próspero senhor simpatizante da negrofilia conseguiu adquirir posses na Bahia onde sequer conseguiria imaginar a localização quando se orientando de entre as montanhas de Minas.

 

Também o simpático negro, fiel, ágil e robusto, tinha sua riqueza: uma pedra esverdeada e uma nitente pepita que ele deixava escondidas no oco dum pau-d’arco-amarelo.  Esse era seu tesouro, mas de nada valia se comparado à sua bela nheengatu, jóia tupi, capturada às margens do amazonas. A pedra verde fora encontrada, certa vez, no fundo do córrego quando ele se refrescava enquanto os animais as nulas bebiam água. Mas a pepita, no entanto, lhe vinha causando dores de cabeça, tirava-lhe o sono. Sua consciência gritava mais alto que seu desejo de voar. E quando nas tempestades o relâmpago riscava o céu e clareava a mata, o trovão soava assustador som sua voz de repreensão divina à consciência do neguinho.  Quando morrece não entraria no céu. Deus não o receberia e no inferno os capetas saltitando à sua volta zombando do seu triste fim. O que causa a ganância do ouro! Definitivamente não deveria tê-la roubado, não devia. Justo no dia do seu batismo! Logo após o batizado! Malditos fiscais aqueles que apareceram justo naquele dia; e por medo o sinhozinho o fez esconder um caixote de ouro debaixo da casa do moinho. Uma pedra lá ficou muito tempo, perdida, e quando ele a encontrou teve medo de devolvê-la e ser acusado de roubo. Ficou com ela. É deveras perturbador o efeito que certos pensamentos causam a um neófito. Ser cristão não e fácil não. Ah, não é! O convertido aprendera mesmo a lidar com os homens, os índios e os animais, mas não conseguia conviver com sua própria consciência. Um dia faria alguma coisa pra se redimir.

 

Tempos depois partiram em viagem com destino à Bahia, o velho senhor e nhazinha, e dois sinhozinhos seus filhos medianos de sua prole de 14 rebentos. Levaram com eles três escravas assistentes, dez tropeiros, o negro fiel e sua companheira, a jóia tupi do Amazonas, prenha desde a última lua cheia. 

 

O lado bom de se relembrar fatos, principalmente tempos difíceis, é que se tem certeza de que tudo na vida é superável, tudo passa, nada é eterno, exceto o que retém os olhos e a alma captura. Só não há jeito pra morte, no mais, toda dor passa e em qualquer momento da vida, por pior que seja, há sempre um motivo para ser grato e ser feliz; basta olhar dentro de si mesmo e à sua volta.

 

Na cidade baiana pai e filho papeavam enquanto subiam lerdos, ladeira acima, agarrados ao rabo dos burros suados que gemiam sob o peso da cangalha abarrotada de lenha. Falavam dos enforcados e esquartejados. Pobres almas sonhadoras, gente humilde e miserável que se atreviam a embarcar nos movimentos da revolta organizada pelos adeptos da “Inconfidência Baiana”. Pecavam por sonhar; Uns com a liberdade; outros com a independência, república... O pai muito abatido, quase a cochichos, dizia essas coisas ao filho inconformado. Sonhe, mas sonhe em silêncio; esse é o caminho que deve trilhar um sábio, e então, só depois de acordado e de pés firmes no chão se deve movimentar-se, senão o pobre corre o risco de perder o chão. O neguinho com todo seu gingo baiano se imaginava sem chão. “Cruz credo! Se tê liberdade é tão difíce, então cumé que os branco consegue tanta coisa?” Pensava ele, pouco entendo do que seu pai lhe dizia. Mas seu velho sabia que do pouco que ele ouvisse lhe valeria a vida, e quem sabe, suas asas. Seu pai tinha muita história pra contar, parecia até coisa inventada. Mas se tava, no seu tempo, acontecendo aquela matança entre os brancos por conta de impostos e liberdade, que dirá antigamente pras bandas da zona da mata, relevava o neguinho. Precisava escutar mais os causos do vô que vivia murmurando canções e falando aos ventos. Agora com mais de cem anos mal montava e raramente subia as montanhas. Firmava-se na bengala e na companhia do valente, seu cão, passava horas fazendo pari, quebra-tatú, e pescando na curva do rio. Quase ninguém lhe dava atenção, exceto nas rodas de fogo quando ele contava da vinda pra Bahia. Os negrinhos miúdos da senzala adoravam ouvir, enquanto ele contava casos raspava a madeira dando forma ao pião ou fazia petecas. Seu avô, dizia-lhe o pai sempre dizia após repassar os causos, viu coisa de arrepiá os cabelos ““.

 

Ao contar seus causos o velho centenário orgulhoso, de voz rouca e cansada, batia nas costas do seu primogênito e dizia: “Nós viemo de lá, daquelas banda de Minas” e apontava o dedo pras serras longínquas, depois completava: “Sinhô patrão, nhá Maria, os dois sinhozinhos fio de nhô patrão, a comitiva, Eu, minha fulô, e ôce pititico na barriga dela”.

Mas ele não sabia que a índia nheengatu, jóia tupi, trazia no ventre uma pequena semente que sobreviveria a pestes e maus tempos, e em terras Baianas lhe daria netos e lutaria pela liberdade para deixar de herança ao filho que se chamava “Mané, mané fujão”. No entanto Manuel herdara no sangue os sonhos do avô e ainda menino já sonhava bater asas e buscar novos horizontes.

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