A Ciência torna a crença em Deus obsoleta ?

É claro que não.

A ciência em si mesma não contradiz a hipótese de Deus. Ao contrário, nos dá uma janela para um universo dinâmico e criativo que expande nossa apreciação do Divino de maneiras que não poderiam ter sido imaginadas em eras passadas.

Como um franco defensor da evolução, eu sou freqüentemente desafiado por aqueles que presumem que se a ciência pode demonstrar a origem natural da nossa espécie, o que certamente o fez, então Deus deve ser abandonado.  Mas a Deidade que eles tão prontamente rejeitam não é aquela que eu conheço.  Para ser ameaçado pela ciência, Deus não poderia ser nada mais do que um lugar reservado para a ignorância humana.  Este é o Deus dos criacionistas, do movimento do Design Inteligente, daqueles que buscam o seu Deus nos lugares escuros.  Aquilo que não encontramos ou que ainda não entendemos se torna a sua  melhor – senão a única – evidência de fé.  Como cristão, eu acho essa lógica particularmente deprimente.  Ela não apenas nos ensina a temer a aquisição de novos conhecimentos (que podem, a qualquer momento, refutar a crença), mas também sugere que Deus habita apenas nas sombras do nosso conhecimento.  Eu sugiro que, se Deus é real, nós devemos ser capazes de achá-lo em outro lugar – na brilhante luz do conhecimento humano, espiritual e científico.

E que luz é esta. A ciência nos coloca num universo extraordinário, em que estrelas e até galáxias continuam a nascer, onde a própria matéria se torna viva, evolui e se levanta para cada novo desafio do seu ambiente em rica e constante modificação. Nós vivemos num mundo literalmente pulsante com potencial criativo evolutivo, e é perfeitamente razoável se perguntar por que é assim. Para uma pessoa de fé, a resposta para esta pergunta é Deus.

O poeta inglês Matthew Arnold, no nascer da era moderna, uma vez lamentou que tudo que ele podia ouvir do “Mar da Fé ”era seu “longo e melancólico rugido de retirada”. Para alguns, este rugido melancólico é um som para ser apreciado, porque a fé é um delírio, um obstáculo, uma pedra no caminho do progresso e da iluminação. É a antítese da ciência.

Nesta visão, Deus é uma explicação para o fraco, uma saída para aqueles que não podem enfrentar as terríveis realidades reveladas pela ciência. Os corajosos, os firmes, os “brilhantes”, são aqueles que enfrentam a realidade e a aceitam sem a confortante muleta da fé, declarando Deus como obsoleto.

Mas a própria ciência emprega um tipo de fé, uma fé que todos os cientistas compartilham, sejam eles religiosos no sentido convencional ou não. A ciência é construída a partir de uma fé de que o mundo é inteligível e que existe uma lógica na realidade que a mente humana pode explorar e é capaz de compreender. Ela também sustenta, como um artigo de fé científica, que esta exploração vale o esforço, porque o conhecimento sempre deve ser preferido à ignorância.

O erro categórico do ateu é assumir que Deus é natural, e, assim sendo, dentro da esfera da ciência para investigar e testar. Fazendo Deus uma parte comum do mundo natural, e falhando em encontrá-lo lá, eles concluem que Ele não existe.  Mas Deus não é e nem pode ser parte da natureza. Deus é a razão da natureza, a explicação do porquê as coisas são.  Ele é a resposta da existência e não parte da própria existência.

Existe uma grande ingenuidade na suposição de que nossa presença no universo é auto-explicativa e não requer uma resposta.  Muitos que rejeitam a Deus subentendem que razões para a existência de um mundo natural ordenado não devem ser procuradas.  As leis da natureza existem simplesmente porque elas são, ou porque nós nos encontramos em um dos incontáveis “multiversos”, dos quais o nosso acaba sendo adequado para a vida. Não precisa perguntar por que é assim ou inquirir sobre o mecanismo que produz tantos mundos. A curiosidade do Teísta que abraça a ciência é maior, não menor, porque ele busca uma explicação que é maior do que a que a ciência pode oferecer, uma explicação que inclui a ciência, mas que então busca a razão última do porquê a lógica da ciência funcionar tão bem. A hipótese de Deus vem não de uma rejeição da ciência, mas de uma curiosidade penetrante que pergunta por que a ciência é até mesmo possível e por que as leis da natureza existem para que nós as descubramos.

É verdade, obviamente, que as religiões organizadas não apontam para uma simples e coerente visão da natureza de Deus.  Mas rejeitar Deus por causa das admitidas auto-contradições e falhas lógicas da religião organizada seria como rejeitar a física por causa da inerente contradição da teoria quântica e da relatividade geral. Ciência, toda a ciência, é necessariamente incompleta – e é este, de fato, a razão pela qual tantos de nós achamos a ciência um chamado tão revigorante e recompensador. Por que, então, devemos ficar surpresos que a religião é incompleta e contraditória também? Nós não abandonamos a ciência porque nossos esforços humanos de abordar as grandes verdades da natureza são ocasionalmente impedidos  por erros, ganância, desonestidade e até fraude.  Por que então devemos declarar a fé como um “delírio” porque a crença em Deus é sujeita a exatamente as mesmas falhas?

Albert Einstein uma vez escreveu que “o eterno mistério do mundo é a sua compreensibilidade.” Hoje, mesmo com a ciência indo adiante, este mistério persiste. Há um lugar genuíno para a fé no mundo da ciência. Sem dúvida há. Longe de estar em conflito com ela, a hipótese de Deus validade não apenas nossa fé na ciência, mas nosso mais puro deleite nos dons do conhecimento, do amor e da vida.

 

Kenneth Miller é professor de Biologia na Brown University e o autor de “Finding Darwin’s God: A Scientist’s Search for Common Ground between God and Evolution e de Only a Theory: Evolution and the Battle for America’s Soul (ainda sem tradução para o português.) Também é co-autor de “Biology” o livro-texto mais usado no mundo para ensino de Biologia em Ensino Médio em língua inglesa.



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