Tempo de reconstrução em SC

Pequenas empresas atingidas pela enxurrada têm pressa para se reerguer

 

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Uma versão condensada desta reportagem foi publicada em 18.12.2008 pelo jornal
Valor Econômico no caderno especial Pequenas e Médias Empresas. Leia aqui a íntegra.


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Por Dauro Veras, de Blumenau

Fotos de Juliana Kroeger

 

Quatro semanas depois da tragédia climática de Santa Catarina, as empresas atingidas no Vale do Itajaí, uma das regiões de economia mais pujante do país, contabilizam os prejuízos e começam o duro trabalho de reconstrução. Em visita ao estado no dia 12, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a liberação de R$ 1,7 bilhão em crédito com carência e juros menores. Desse valor, R$ 500 milhões são para micro e pequenas empresas. A expectativa dos afetados é que a ajuda chegue com rapidez a quem precisa. Enquanto isso, a tolerância dos credores e a solidariedade entre patrões e empregados amenizam os primeiros passos do recomeço. 

 

 

Uma avalanche destruiu 11 casas e matou 5 neste local

 

“As medidas anunciadas são boas, mas nossa preocupação é saber quando e de que forma esse dinheiro vai chegar”, diz a presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas de Blumenau (AMPE), Sônia Medeiros. Ela teme que a demora na liberação e a burocracia na normatização das linhas de crédito dificultem ou até inviabilizem o repasse. O prejuízo do segmento é calculado em R$ 520 milhões pela Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas de Santa Catarina (Fampesc). Essa estimativa considera que 30% das 31 mil MPEs do Vale do Itajaí foram atingidas diretamente e todas as demais indiretamente – com queda ou paralisação da produção e do faturamento.
 

A fábrica de lajotas Lajetubos Artefatos e Serviços, localizada no bairro da Velha, está parada desde a noite da enxurrada. Seu proprietário Amarildo Ramos, que toca a empresa junto com a mulher Sandra e a filha Paula, fica emocionado ao recordar os acontecimentos de 23 de novembro. Tudo aconteceu em menos de dois minutos: por volta das 22h30, uma avalanche de terra, rochas e árvores soterrou 11 casas próximas, onde funcionavam seis pequenos negócios. Uma das cinco vítimas fatais foi Cassiano, de 14 anos, filho de seu funcionário Vildomar Lazarin. Ramos ainda conseguiu salvar a mãe do empregado. 


“Perdemos galpão, materiais armazenados e alguns equipamentos”, relata, calculando um prejuízo de R$ 300 mil. A empresa utiliza máquinas de vibração e está impossibilitada de operar até que a Defesa Civil elabore um laudo técnico. Isso representa uma perda mensal de R$ 200 mil em faturamento. Mesmo assim, Ramos não cogita demitir pessoal. Ele alerta para o risco de inadimplência tributária e muitas falências se a ajuda às MPEs não chegar a tempo: “Estamos no fundo de um poço, pisando em areia movediça, e precisamos com urgência de crédito barato ou sem juros para alavancar nossa saída”.
 

Ivandro Papst dirige a empresa familiar Papst Jeans, com 20 empregados e faturamento anual de R$ 900 mil. Durante a enxurrada, uma árvore caiu sobre o telhado da fábrica e uma barreira desmoronou no depósito, estragando 20% da matéria-prima e algumas máquinas. A produção ficou paralisada três semanas e as vendas caíram 20%. Ele estima um prejuízo de R$ 130 mil e prevê de quatro a seis meses para a recuperação, mas não tem capital próprio para isso. “Consegui adiar o vencimento de títulos e assim manter a folha de pagamento em dia”, conta. Pabst quer voltar ao trabalho o quanto antes. “O consolo é que nossas perdas foram só materiais”, diz. “Aqui perto passa um córrego em que encontraram o corpo de uma senhora”.
 

Desde menina, Laíde Gomes sonhava em ter sua própria confecção. Há 20 anos, juntou o dinheiro da venda das férias com uma pequena ajuda do pai e abriu a Lai Fashion. Com oito funcionários e faturamento anual de R$ 600 mil, a empresa ia bem até que um desmoronamento de terra arrebentou a parede da fábrica. Diversos documentos, inclusive cheques de clientes, ficaram sob os escombros. Para completar, a casa da empresária foi inundada por um metro de água. O prejuízo estimado para a empresa é de R$ 150 mil, mas pode ser bem maior, caso a Defesa Civil e a Fundação Municipal do Meio Ambiente definam que o prédio não tem mais condições de segurança.
“É angustiante, houve um momento em que quase desisti, mas pensei em meus dois filhos”, conta ela. “Desanimar não adianta, é preciso se manter firme e seguir em frente”. Depois que a água baixou, Laíde transferiu para a própria casa as atividades de acabamento final das peças. O desenvolvimento e talhação estão parados há um mês. A empresária se queixa dos bancos: “Eles exigem garantia real e faturamento comprovado, mas com essas regras, os empréstimos só vão ajudar quem não precisa”.
 

O mineiro Nildo Scussel, 80 anos de idade e 70 de profissão, já viu muitas enchentes. Em 1951, mudou-se do Rio de Janeiro para Blumenau para montar a primeira óptica especializada de Santa Catarina. A enxurrada de novembro lhe trouxe menos danos que a grande cheia de 1983, quando o nível da água ultrapassou a marquise do prédio. Mesmo assim, as duas lojas da Óptica Scussel ficaram paradas uma semana e as vendas caíram 50%. “Três pessoas que trabalham comigo perderam as casas”, conta o empresário, que ficou isolado quatro dias em seu sítio por causa da violência das águas.
As lágrimas brotam quando ele fala da abnegação dos funcionários: “Minha faxineira perdeu a casa e o terreno, mas veja o semblante dela: essa gente herdou o espírito alemão de dedicação ao trabalho e coragem diante das dificuldades”. O empresário também é grato aos credores, que lhe deram prazo para saldar as promissórias, mas diz que não quer abusar e por enquanto não precisa pedir emprestado ao governo. A enxurrada trouxe para ele o aprendizado do desapego: “A gente vai dormir tendo todas as coisas e, meia hora depois, pode não ter nada”.
 

Scussel alerta para a tendência de esquecimento por parte da mídia e das autoridades: “Está todo mundo naquela euforia de ajudar, mas daqui a pouco isso passa e o problema não desaparece, os sem-casa vão continuar assim”, diz, exortando as autoridades a ir além das promessas: “Precisamos de algum tempo e de muito dinheiro para a reconstrução”. Com todas as dificuldades que vislumbra, ele continua otimista. Não pretende se aposentar nem se mudar: “Amo Blumenau e escolhi esta cidade porque aqui é terra em que vale quem trabalha”.