O difícil recomeço no morro do baú


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Uma versão condensada desta reportagem foi publicada em 18.12.2008 pelo jornal
Valor Econômico no caderno especial Pequenas e Médias Empresas. Leia aqui a íntegra.


E também:


Por Dauro Veras, de Ilhota

Fotos de Juliana Kroeger


 

Braço do Baú, em Ilhota, foi devastado pela enxurrada

 

As chuvas de novembro provocaram a morte de 128 pessoas em Santa Catarina, segundo a Defesa Civil do estado. Ainda há 26 desaparecidos, 6,2 mil desabrigados e 27,2 mil desalojados. Em Ilhota, município conhecido como a “capital catarinense da moda íntima e de praia”, a contagem oficial já chega a 41 mortos. A estrutura turística foi afetada com a destruição de parques aquáticos e pesque-pagues, mas as empresas de confecções têm mostrado grande capacidade de resistência. “Comprem e nos ajudem na reconstrução”, apela a secretária municipal de Indústria, Comércio e Turismo, Marisa Pereira.
 

No dia 10 de dezembro a reportagem esteve no Morro do Baú, região rural mais atingida. Braço do Baú é uma comunidade agrícola de 1.300 habitantes onde 13 pessoas morreram soterradas por deslizamentos gigantes dos morros. Na estrada vicinal de acesso, arrozais cobertos de lama contrastam com a beleza da paisagem, que em breve seria incluída em um projeto de cicloturismo envolvendo 11 municípios. Duas barreiras policiais restringem o acesso à “área vermelha”, interditada por causa do grande risco. Falta energia elétrica e o acesso é precário.
 

Nelson Richarts, dono de um posto de combustíveis e de uma pequena confecção de toalhas, se oferece como guia. Ele perdeu oito parentes e dois funcionários. Pelo caminho, árvores e postes tombados, detritos de todo tipo. Marrom é a cor predominante. A estrada escorregadia margeia um riacho turvo que teve o curso desviado. Nos morros do entorno, enormes fendas barrentas em meio à mata virgem dão idéia da força destruidora das avalanches.  



O quadro é de devastação. Cheiro de matéria orgânica se decompondo. Residências, pequenos negócios e galpões destruídos. Casas abandonadas com portas e janelas abertas, indicando que seus moradores deixaram tudo para trás às pressas. Estátuas de Branca de Neve, do Príncipe, dos Sete Anões e da Bruxa estão semi-enterradas na lama do que já foi um jardim bem cuidado. Lá dentro, fotos na estante, um crucifixo, poltronas, papéis e roupa de cama são vestígios da rotina familiar interrompida. O piso de madeira foi erguido e retorcido pela força da água.
 

Branca de Neve, o Príncipe, a Bruxa e os Anões na lama

 

Gelásio Richarts (dir.): prejuízo estimado em R$ 100 mil

 

 Alguns moradores visitam pela primeira vez a “área vermelha” e ensaiam o início de limpeza nas poucas casas liberadas pela Defesa Civil. O Mercado Richarts, de um primo de Nelson, é o último ponto onde se pode chegar de carro – a partir dali as estradas foram varridas do mapa, deixando isoladas as comunidades do Alto do Baú e do Baú Seco. Com uma mangueira de água bombeada por um caminhão-pipa, Gelásio Richarts retira a lama de seu comércio. Ele estima o prejuízo em R$ 100 mil e diz que precisa de crédito barato para recomeçar: “Senão vou ter que trabalhar de empregado, ou sei lá...”.
 

Gentil Pedro Reichert, dono da Marcenaria São Pedro, mostra como as suas 80 máquinas foram soterradas. Ele calcula uma interrupção de 60 dias na produção e que seu prejuízo ficará em torno de R$ 100 mil – só não será maior porque muitos equipamentos podem ser recuperados e porque ele está comprando mercadoria de concorrentes para entregar encomendas. “Todos os meus funcionários estão flagelados, não escapou nenhum”, diz, ainda perplexo.
 

No campo, milhares de bananeiras carregadas de frutas maduras estão inacessíveis. Há uma irritação palpável dos locais em relação aos policiais militares – que restringem o acesso às suas casas e plantações para evitar novas mortes – e aos especialistas, que vão e vêm sem lhes dar retorno sobre as avaliações técnicas. Os olhos das pessoas revelam tristeza imensa, não só pela destruição do que juntaram com anos de trabalho, como pela súbita perda de parentes, amigos e vizinhos. Vários moradores já se mudaram para outros municípios, por estarem com as casas condenadas ou porque querem esquecer o que viveram ali.
 

 

Ginásio de esportes abriga famílias que perderam as casas

 

Na volta, Nelson Richarts fica no seu posto de combustíveis e nos faz uma pequena, mas significativa gentileza: pega nossas galochas enlameadas e as lava cuidadosamente com jatos de água sob pressão. Próximo à BR-470, na comunidade de Baú Baixo, 70 pessoas desabrigadas estão em um ginásio de esportes e 150 fazem as refeições lá. Um surto de diarréia foi controlado pela Vigilância Sanitária, cujos técnicos ensinam agora como enterrar os animais mortos e a cuidar da água potável. Enquanto esperam moradia nova, as crianças desenham helicópteros e casas protegidas por grandes corações.