Resumo sobre neoliberalismo


segue resumo, dividido por capitulos, do livro: " SADER, Emir & GENTILLI, Pablo (org) et alli. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático.( 1996)" . O objetivo é convidar a ler a obra original na íntegra, porque as análises permitem problematizar sobre novos caminhos neste momento de "crise do ideário neoliberalista".

RESUMO

 

SADER, Emir & GENTILLI, Pablo (org) et alli. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 1996

   

A obra aqui resumida se refere aos trabalhos apresentados dentro do seminário “ Pós-neoliberalismo – As políticas sociais e o Estado democrático” realizado pelo Departamento de Polítca Soacila da Faculdade de Serviço Social da UERJ de 13 a 16 de setembro de 1994.  O livro se divide em cinco capítulos, tendo a palestra principal e a apresentação de debatedores na seqüência da apresentação que enfocavam outras questões relativas a temática principal da mesa. As temáticas e as principais discussões dentro destas foram:

            I.      BALANÇO DO NEOLIBERALISMO:

 

Essa mesa inicia-se com a apresentação de Perry Anderson que realiza uma retrospectiva histórica sobre as origens da perspectiva neoliberal, demonstrando que esta não se trata de uma mera volta ao liberalismo clássico, mas possui uma estruturação própria e responde a interesses específicos de um momento da organização capitalista.

Anderson situa o nascimento da proposta nas teses de Hayck contra o Estado de bem-estar social, nos anos 40. Demonstra que, ideologicamente, as teses neoliberais não foram imediatamente absorvidas em decorrência do contexto econômico ainda ser favorável ao crescimento capitalista, mas quando este entre em crise na década de 70 o ideário começa a ganhar força.

No plano político, esse fortalecimento se manifestou na adoção das receitas neoliberais, inicialmente por regimes de direita, como a Inglaterra com Thatcher e os EUA com Reagan. Posteriormente, mesmos os países sociais-democratas foram obrigados, tanto por pressões internacionais quanto por pressões da elite nacional a se adequarem ao novo modelo de regulação econômica.

O autor argumenta que essa massificação do modelo neoliberal não deve ser vista, entretanto, como hegemonia plena, pois o ideário, em sua plenitude, não foi aplicado em nenhuma nação, e cada país adequou a receita a sua realidade social, política e econômica.

O autor explica que o neoliberalismo conseguiu essa grande parcela de hegemonia pelos êxitos econômicos que alcançou: diminuiu a inflação, recuperou os lucros, ampliou o desemprego (porque há para essa teoria um desemprego estrutural necessário ao sistema), enfraqueceu os sindicatos e gerou um bom grau de diferença entre os altos e os baixos salários.

Entretanto, a hegemonia não foi plena porque o modelo neoliberal também falhou, no caso porque: O crescimento econômico ficou abaixo do esperado, houve incentivo a especulação financeira, os gastos do Estado com desempregados e pensões aumentaram e, ainda como conseqüências das medidas econômicas, aumentou o grau de desigualdade e de pobreza.

Mas o autor analisa que as falhas do modelo não foram suficientes para a superação deste. Tanto que, ironicamente, este projeto pode se mundializar através de um êxito eleitoral, no inicio dos anos 90, alcançado em vários países da Europa, América Latina e nos países pós-comunistas do Leste Europeu. Essa vitória política possui vários motivos, mas o autor destaca como fundamental a queda da União Soviética, de 89 a 91, exatamente no momento em que o neoliberalismo começava a demonstrar suas limitações. Sua vitória foi praticamente pela falta de opositores.

No caso latino americano o autor destaca como elemento importante para a compreensão do êxito do ideário neoliberal tanto a existência de regimes autoritários quanto, quando o país é democrático, pela hiperinflação. Assim, as reformas neoliberais parecem mais aceitáveis num quadro coercitivo, seja este político ou de coerção econômica.

O autor conclui indicando que o neoliberalismo “trata-se de um corpo de doutrinas coerente, autoconsciente, militantes, lucidamente decidido a transformar todo o mundo a sua imagem, em sua ambição estrutural e sua extensão internacional. Eis aí algo muito mais parecido ao movimento comunista de ontem do que ao liberalismo eclético e distentido do século passado” (p22). Assim, a tese que o neoliberalismo não é uma simples volta ao liberalismo clássico se fundamenta ainda mais.

O autor conclui que a hegemonia neoliberal é hoje uma verdade, mesmo que milhões de pessoas não acreditem em suas receitas. Entretanto, faltam novas receitas. Esta é a tarefa, segundo Anderson, de seus opositores. 

 

  • Neoliberalismo à brasileira: 

Na seqüência a palestra de Anderson o professor Francisco de Oliveira traça um cenário de como vem se dando o neoliberalismo no Brasil e inicia afirmando que “temos o costume de avacalhar nossas próprias experiências, posto que he sempre, em cada um de nós, esse complexo de inferioridade que nos foi injetado por um trabalho ideológico de longa duração. Por isso, como somos tentados a rir antes que a refletir, o neoliberalismo brasileiro é avacalhado, também ironicamente, com o que diminuímos sua dose de letalidade” (p24).

Este autor compreende que o endeusamento do mercado iniciou com os militares e o processo de dilapidação do Estado prossegui no governo “democrático” de José Sarney. Com a eleição de Collor ganha força o discurso do Estado desperdiçador que precisava, pois ser diminuído e racionalizado.

O autor destaca a vitalidade da sociedade civil em evitar o avanço da política neoliberal durante o governo Collor, mas a hiperinflação terminou por tornar o terreno fértil a política neoliberal, levada a cabo no governo Itamar Franco por seu então Ministro Fernando Henrique Cardoso.

O regime neoliberal possui no país, segundo o autor, duas facetas: “a primeira é a mais evidente, pois, enquanto a economia se recupera, o social piora” (p26). A segunda é a desestruturação da capacidade de luta opositora (através dos sindicatos, partidos, organizações populares e dos movimentos sociais) que compreende também dois movimentos: 1º. Pelo ataque as bases da esperança coletiva, da força de resistência popular, pelo apelo à amnésia brasileira; 2º. Pela instauração do medo da mudança, do novo, da experimentação, numa reafirmação da raiz elitista que compõe a formação econômico-social da elite brasileira, que marca “ seu atraso cultural, seu preconceito, seu ódio pelo povo” (p27).

        O autor conclui que a invasão neoliberal também permitiu a retirada da aura progressista com que uma parcela da intelectualidade brasileira se vestia. Essa perda intelectual não foi sem importância num país com as desigualdades que o Brasil tem.

  • Repensando o balanço do neoliberalismo:   

Na seqüência, José Paulo Netto analisa que é importante compreender porque a proposta neoliberal tem encontrado legitimação por via democrática. Isso é fundamental para o estabelecimento de alternativas contra o modelo neoliberal.

O autor destaca a importância de se analisar ainda as mudanças culturais em nível planetário, articulando-as as novas formas de organização do capital.

Em relação ao Brasil o autor destaca que além da hiperinflação e da proliferação da desesperança na força coletiva, o que contribui muito para a penetração das propostas neoliberais foi a forma como se definiu, na prática, a redemocratização nacional, pois esta não se reverteu em melhorias efetivas nas condições de vida da massa da população, o que fundamentou uma desesperança, uma desqualificação face à ação política e aos espaços públicos.

O autor conclui enfatizando que os adeptos brasileiros das teses neoliberais dificilmente assumem essa filiação durante o pleito eleitoral havendo um elemento de mistificação e cinismo, que é preciso sempre denunciar. Outra questão é sobre a traição dos intelectuais. Para o autor o mais espantoso não é o visível camaleonismo de uma parcela da intelectualidade brasileira, mas a falta de indignação entre os outros intelectuais nacionais. É preciso, finaliza o autor, distinguir entre tolerância e complacência.

   

  • A hegemonia neoliberal na América Latina:    

Emir Sader enfatiza, na última reflexão desta mesa de debate, que o desenvolvimento do neoliberalismo deve ser pensado, em cada país, a partir das heranças deixadas pelos modelos hegemônicos anteriores. No caso do Brasil, é importante compreender o movimento de consolidação da industria durante a ditadura militar e seu declínio, através do grande individamento público e do crescente reinado do capital especulativo.

O autor destaca ainda que o neoliberalismo brasileiro se fortaleceu pela incapacidade da esquerda de fornecer formas hegemônicas alternativas. 

 

     II.      A CRISE E O FUTURO DO CAPITALISMO 

A palestra central desta mesa foi proferida por Göran Therborn. O palestrante inicia fornecendo algumas teses sobre o neoliberalismo e sua relação com o chamado socialismo real, no caso: 

a)       O neoliberal é uma superestrutura ideológica e política que acompanha uma transformação histórica do capitalismo moderno;

b)      A queda do socialismo real faz parte do mesmo processo de transformação de todo o sistema econômico mundial;

c)      Ocorreu uma virada do desenvolvimento das forças produtivas, orientadas para uma direção de caráter mais privado, negando a tese marxista que o desenvolvimento das forças produtivas seguem um sentido público e que entram em contradição com as relações de produção capitalistas;

d)      Essa nova direção expressa uma nova relação entre Estado e empresas, - em decorrência da organização pós-industrial, que gerou empresas mais dependentes do mercado e da demanda dos clientes, o desenvolvimento de tecnologias flexíveis - que aumentou a capacidade de respostas as demandas -, e a enorme expansão dos mercados financeiros internacionais.

 

Além dessas teses o autor apresenta algumas questões: 

a)      Que o Estado de bem-estar se manteve durante esse período inicial de estruturação do neoliberalismo supreendentemente bem, isto porque este chegou a ser uma instituição absolutamente central, nos países avançados e modernos, na vida cotidiana de grande parte da população;

b)      Que as crise constituem o ritmo de vida do capitalismo, mas no momento atual não há crise estrutural;

c)      Que a contradição do capitalismo atual é ideológica, que se manifesta na destruição social criada pelo poder do mercado, constituindo-se numa contradição sociológica;

d)       Que há uma reestruturação social em andamento: por um lado há a fragmentação e a diversidade social, mas por outro há também um processo de maior capacitação das classes populares;

e)      Que o fim do eurocentrismo e do centralismo americano constitui um dos aspectos da mudança histórica, pelo aparecimento das economias asiáticas, por exemplo;

f)        Que os processos de globalização da economia não são uniformes mundialmente;

g)      Que há limites práticos, “preciosos”, tanto para o capitalismo quanto para o socialismos clássicos, mas que o marxismo se reconfirmou como instrumento analítico;

h)      Que é necessário uma nova concepção acerca da transformação social e da prática política, uma concepção talvez, pós-moderna;

i)        Que necessitamos de práticas diferenciadas, flexíveis, movimentistas, simultaneamente locias e globais;

j)        Que a futura esquerda será mais novomundista que européia. (será?)

 

·        Para uma nova compreensão da crise. 

O autor, Pierre Salama, analisa que a hegemonia alcançada pelo modelo neoliberal, conjuntamente com o colapso do socialismo real levou a uma visão reducionista onde não há cenário possível fora da perspectiva capitalista. Mas para onde vai a América Latina se compreender que só há saída dentro do capitalismo? Para vários caminhos perigosos.

O primeiro é para a falta de capacidade de análise dos problemas desencadeados pelo próprio modelo capitalista neoliberal. Por exemplo: as duas mais graves conseqüências desse modelo na América Latina, no caso, a ampliação das diferenças sociais e a quebra do aparato estatal são atribuídas a uma incompetência do Estado, que não soube proceder aos ajustes, e não ao modelo adotado.

O segundo para é para uma posição perigosa na divisão internacional do trabalho, pois a forma de integração dos países em desenvolvimento com os mercados mundiais é a volta a condição de fornecedores de recursos naturais, o que termina por quebrar a capacidade industrial já instalada nesses países, gerando mais desemprego.

Para o autor sem a intervenção do Estado o futuro do capitalismo na América Latina será um pesadelo.

Ainda para o autor é preciso buscar outras saídas para além do capitalismo, por duas razões: 1ª. Por uma questão ética, onde é inaceitável viver num país onde as desigualdades se acentuam cada vez mais e 2ª Por razões científicas, que afirmam ser necessário pensarmos outras maneiras de se compreender a inflação, a evasão fiscal, a crise, etc, buscando outros caminhos. Por exemplo, segundo o autor, compreender que hoje a abertura econômica é uma necessidade global não nos obriga a aceitar que a única forma de abertura seja a que propõe o neoliberalismo.  

 

  • Neoliberalismo e reestruturação capitalista

 

O autor, Luís Fernandes, concordando com Anderson, enfatizando que o neoliberalismo como doutrina pura não é aplicado em nenhum país do mundo. Sua versão é mais ou menos light, mas com impactos claros e evidentes, que resume em: 1º. Na reversão das nacionalizações realizadas no pós-guerra, via privatização; 2º. Na tendência à desregulamentação das atividades econômicas e sociais pelo Estado, em prol da superioridade da eficiência do mercado e 3º. Na tendência a reversão dos padrões universais de proteção social estabelecidos pelo Estado de Bem-estar.

Para o autor esse processo vem acompanhado de uma viragem política de sentido claramente antidemocrático. Essa diminuição da democracia possui como objetivo impedir ou dificultar que a insatisfação popular com o custo social das medidas neoliberais se expresse.

Além do mais o projeto neoliberal possui um impacto negativo sobre a capacidade popular de pensar um projeto de desenvolvimento nacional. A conseqüência disso no caso brasileiro: “o neoliberalismo, aqui, se apresenta como inimigo do nacionalismo” (p57).

O autor conclui indicando contradições que podem levar a uma revisão do neoliberalismo no Brasil e na Russia, destacando a questão da integração dessas economias, que já possuem níveis relativamente elevados de industrialização, na divisão internacional do trabalho, pois através de medidas neoliberais estas tendem a percorrer caminhos de instabilidade política e na exacerbação da questão nacional.      

 

   III.      A SOCIEDADE CIVIL DEPOIS DO DILÚVIO NEOLIBERAL.

 

A mesa de debate se inicia com a apresentação de Atílio Borön que divide sua apresentação em quatro momentos:

 

1º. Onde explora o significado da democracia e da cidadania e sua convulsionada relação com as estruturas de dominação inerentes a sociedade capitalista. Assim, neste momento, o autor destaca que a democracia erguida sobre a égide do capitalismo é minimalista, limitada a sua arquitetura jurídico-politica, lhe faltando substancia democrática, pois a democracia, segundo o autor, repousa tanto em um conjunto de regras certas que permitem institucionalizar – e,sempre provisoriamente, resolver – os antagonismos sociais e chegar a resultados incertos, ou seja, nem sempre favoráveis as classes dominantes, quanto na idéia de boa sociedade, que dialeticamente desemboca no socialismo. Desta forma, a democracia pressupõe “a igualdade concreta dos produtores e a liberdade efetiva dos cidadãos” (p67). Neste arcabouço, o autor mostra como a real democracia não consegue conviver com um modelo capitalista e muito menos na sua versão neoliberal. O autor argumenta ainda que mesmo a esquerda precisa aprender a incluir em sua luta a democracia real como objetivo político, para tanto recupera o pensamento de Rosa Luxemburgo para fundamentar que é possível unir socialismo e democracia. Não a democracia de fachada do capitalismo, mas uma democracia real, radical, revolucionária. Uma democracia que se materializa numa democratização substantiva de todas as esferas da vida social.

 

2ª. Onde fornece os antecedentes sobre o impacto da recessão e dos ajustes de inspiração neoliberal sobre a condição de vida das classes e camadas populares na América Latina, destacando as privatizações e as políticas sociais voltadas para a diminuição da pobreza, aguçada pela própria política neoliberal.

 

3º. Onde avalia a validade empírica e a consistência lógica de algumas das propostas centrais da ortodoxia neoliberal, principalmente as voltadas aos países em desenvolvimento. destacando que: a história não comprova que uma única nação tenha se desenvolvido usando as receitas neoliberais; que os experts do FMI não conseguem demonstrar que os paises que levam a cabo suas recomendações têm aberta a via do crescimento e do desenvolvimento econômico, ainda que fosse a curto prazo. Não há evidencias estatísticas para isso. Outro problema que o modelo não resolve é que mesmo nos casos exitosos há um aumento da pobreza e da desigualdade social. Esses custos sociais geram duas perguntas, feitas inclusive pelos especialistas do FMI e do BM: 1ª. Haverá sustentabilidade econômica a médio prazo? 2ª. Qual a viabilidade política no âmbito do estado democrático? A segunda remete ao limite da aceitação da pobreza pelos mais pobres. A questão da inculcação ideológica volta a cena.

 

4º. Onde analisa o tipo de sociedade civil resultante do dilúvio neoliberal. Neste momento o autor destaca que como o neoliberalismo debilitou ao extremo a integração social, dissolveu os laços sociais e a trama de solidariedade preexistentes este também gerou uma sociedade onde as representações sociais se acham em crise. A política passa a ser limitada ao mass mediático. Essa situação leva a estratégia predileta que o neoliberalismo impôs as classes populares: o salve-se-quem-puder. “ é a pulverização do mercado transferida para a arena política” (p108).

O autor conclui a apresentação demonstrando a preocupação de que a crise social imposta pelo neoliberalismo leve a uma descrença democrática, abrindo caminhos para a volta de uma ditadura militar de novo tipo. Evitar este cenário e abrir novos horizontes é tarefa que só pode ser realizada por “um conjunto plural de forças de inspiração socialistas  que seja capaz de reconciliar os ideais fundamentais de justiça, liberdade, de democracia e de igualdade com as necessidades práticas de reconstrução econômica e social que haverá que empreender nem bem chegue a seu termo o dilúvio neoliberal” (p112).

 

  • Neoliberalismo e engenharia social: a transformação capitalista da Rússia.

 

Neste o palestrante, Kiva Maidanik, discorre sobre a experiência da Rússia na entrada do mundo capitalista.

Inicialmente o autor lembra que a Rússia se apresentou como possibilidade histórica de desenvolvimento alternativo ao capitalismo, mas que o Estado russo, depois de haver sido um instrumento revolucionário e anti-capitalista se tornou um obstáculo, pelo modelo pouco democrático que adotou, ao desenvolvimento de uma sociedade realmente socialista. O agigantamento do estado burocrático russo permitiu a industrialização nacional, mas trouxe custos altos ao projeto político original.

O autor explica que foi a mudança de base econômica, de industrial para científica e tecnológica, a qual a Rússia não conseguiu realizar, que levou a completa deslegitimação do regime, desembocando nos acontecimentos de 1994.

 O autor explica que não houve uma revolução no sentido radical do termo, porque a elite já havia sido completamente desideologizada, estando muito longe dos ideais socialistas.

Para o autor a entrada da Rússia no mundo capitalista foi desastrosa, o desemprego aumentou, a produção caiu, o potencial científico foi dilapidado pela fuga de cérebros, e a inserção mundial é extremamente frágil e típica de países periféricos – baseada na matéria prima. Assim, pondera o autor que “a Rússia, outra vez, e por desgraça, em outra direção, está mostrando o caminho” (p124). 

O autor conclui que este país que passou de um período de satanização do Estado para outro de satanização do mercado, precisa buscar novos caminhos que não passem pela antiga relação da esquerda com o aumento do papel do Estado. Para ele o problema principal está em ressuscitar a sociedade civil.

 

  • Movimento sindical e política neoliberal.

 

O autor, José Ricardo Ramalho, enfatiza a relação entre o movimento sindical e as políticas neoliberais, destacando : 1. Uma compreensão de que as forças sindicais estão ampliando sua capacidade representativa; 2. Que os sindicalismo se encontra numa encruzinhada entre a proposta política de transformação e uma outra proposta pol´tica de participação nesta nova sociedade; 3. A questão da negociação, pois como definir os limites desse processo? Como lidar com propostas que levem a adesão do modelo? Como conciliar o pensamento socialista com essa prática? 4. A discussão setorial por salários já se mostraram como alternativas efetivas. O autor conclui discutindo que as expectativas serão confirmadas ou não pelo tempo, mas que o movimento se apresenta aparentemente forte e preocupado em expandir suas práticas para além das questões profissionais.  

 

  • A sociabilidade excludente.

 

O autor, Luiz Antonio Machado, argumenta, encerrando essa mesa de debate, sobre aspectos culturais da sociabilidade brasileira. Discorre sobre sua dificuldade de lidar com os conflitos, recuperando a discussão sobre o homem cordial de Holanda.  Discute ainda sobre a relação com espaço público e com o espaço privado na sociedade brasileira, recuperando a discussão sobre a rua e a casa de Da Matta. Ao final analisa como as mudanças neoliberais estão afetando e redesenhando os padrões de sociabilidade do brasileiro. O autor conclui ponderando que o individualismo e a fragmentação do modelo neoliberal trazem duas possibilidades ao desenvolvimento da sociabilidade brasileira: uma que redefini, mas não chega a ameaçar a integração social e outra que ameaça o princípio de reciprocidade nas ralações sociais. Para o autor é contra esse pano de fundo que as políticas públicas devem ser propostas e avaliadas.

     

  IV.      A TRAMA DO NEOLIBERALISMO: MERCADO, CRISE E EXCLUSÃO SOCIAL.

   

O capítulo apresenta uma mesa de discussão composta por Anderson, Therborn, Borön, Sader e Salame. Nesta mesa os temas já debatidos são recuperados entre os autores. As argumentações anteriormente realizadas são basicamente reafirmadas e os autores buscam construir consensos sobre o significado do que seria o neoliberalismo, - destacando-o como doutrina e como uma prática efetiva, sobre os sentidos da crise – nos aspectos éticos, econômicos, políticos, sociais e teóricos. Reafirmam a importância da teoria marxista como mecanismo analítico do capitalismo real e reafirmam também o erro da esquerda ter sucumbido ao neoliberalismo como uma única saída para a crise.  A ênfase que o caminho a seguir deve ser de uma esquerda democrática é constante. Os autores concluem a mesa indicando que é chegada novamente “ a hora das utopias” e “os grandes debates no seio da esquerda poderão nos fornecer a credibilidade política de que ainda precisamos para o desenvolvimento de um projeto alternativo” (p180).

 

     V.      PÓS-NEOLIBERALISMO: A HISTÓRIA NÃO TERMINOU

 

O autor, Therborn, inicia a última mesa do evento, enfatizando alguns consensos. o primeiro é que o neoliberalismo pertence ao império do mal. O segundo é que diante de um neoliberalismo sério precisamos de uma esquerda séria. Os desafios dessa esquerda, segundo o autor, são, resumidamente, três: 1º. Realizar análises empíricas rigorosas sobre os novos mecanismos de acumulação, sobre os processos de mudança cultura e de destruição social, 2º. Reconhecer o valor da capacidade de gerenciamento, ao mesmo tempo que devemos aprender a manejar a produção, a administração e a direção macroeconômica e macropolítica, 3º. Ampliar a sensibilidade artística na arte política da comunicação de massa em busca de um discurso de esquerda voltado para o futuro e vitorioso (um discurso que valoriza o povo, que ouve os novos movimentos, que dialoga com o potencial progressista das classes médias, e usa o egoísmo racional para falar com essas, para ser ouvida por essas, e por fim, um discurso que se volte aos interesses da nação, compreendida para além do discurso nacionalista clássico. “um discurso hegemônico da esquerda deve considerar que a “nação” é a sociedade em sua totalidade, com sua história e seu horizonte cultural coletivo” (p154).

 

  

·        O pós-neoliberalismo é uma etapa em construção

 

O autor, Borön, começa afirmando que não existe o triunfo final do capitalismo, não há pois, nenhum fim da história. O capitalismo, como um modo de produção historicamente determinado é também condenado a transitoriedade. Mas reconhece que o pós-neoliberalismo é, ainda, uma etapa em construção.

Nessa construção é preciso compreender tanto o que é o neoliberalismo quanto sua herança posterior, a sociedade fragmentada que vem criando. É preciso nessa luta de compreensão e de ação um realismo sensato, que deve levar a lutar pelo impossível para conseguir o possível. Uma luta prolongada, mas que dela dependem a construção do socialismo e da democracia real.  

 

·        Além do neoliberalismo

 

Perry Anderson, que iniciou os debates do evento, é quem conclui esta última mesa de discussão. O autor inicia recuperando um ensinamento de Lênin – “jamais subestime o inimigo” para lembrar que é preciso não achar que o neoliberalismo é um fenômeno frágil e arcaico. Antes é um adversário formidável, que obteve várias vitórias, mas que não é invencível.  Para ir além é preciso compreender 3 lições dadas pelos próprios neoliberalistas: 1ª. Não ter nenhum medo de estar absolutamente contra a corrente política de seu tempo, 2ª. Não transigir em idéias, não aceitar nenhuma diluição de princípios, 3ª. Não aceitar nenhuma instituição instituída como imetável.

Sobre os elementos de uma política capaz de vencer a invasão neoliberal o autor destaca três: 1. os valores, ressaltando o princípio da igualdade como critério central, 2. a propriedade, ao pensar e propor novas formas de propriedade popular, que desagregam as funções da rígida concentração de poderes na clássica empresa capitalista e 3. a democracia, não como um ídolo a adorar como se fosse a perfeição final, mas como algo necessário, entretanto provisório e defeituoso que precisa ser melhorado. O ponto dessa mudança deve ser o contrário do que quer o ideário neoliberalista: precisamos de mais democracia.

O autor conclui afirmando que as armas para a luta são as formas modernas de liberdade, igualdade e SOLIDARIEDADE. “Para realizá-los precisamos de um espírito sem complexos, seguro, agressivo - diria não menos alegremente truculento – que era o neoliberalismo em sua origem. Isso seria o que talvez um dia se chamaria o neo-socialismo” (p202). O símbolo desse novo socialismo não seriam novos, mas “símbolos mais velhos, instrumentos de trabalho e de guerra, capazes de golpear e de colher, que talvez seriam de novo mais apropriados” (P202).

     

Finalizando o que me fica enquanto leitora é a necessidade de não cair na onda pessimista que reina atualmente e um ensinamento marxista me parece mais atual que nunca:

“É preciso explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma formação social nunca perece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais ela é suficientemente desenvolvida, e novas relações de produção mais adiantadas jamais tomarão o lugar, antes que suas condições materiais de existência tenham sido geradas no seio mesmo da velha sociedade” (MARX, K. Para a Crítica da Economia Política. In: Marx. Coleção “Os Pensadores”. Abril Cultural. São Paulo, 1979. Prefácio. p. 129 e 130.)

 

E, a partir da leitura dessa obra e desse ensinamento marxista, três movimentos me parecem fundamentais: 1º. Olhar para trás, para nossas raízes socialistas, para os nossos valores historicamente fundamentais, lembrar quem somos, 2º. Olhar pra hoje e compreender a agudeza do presente, suas perversidades, contradições e múltiplas determinações, 3º. Olhar para frente, propondo a mudança, mas sabendo que essa não vem e nem deve vir de uma única mente, mas de um coletivo que deve ser convidado a se experimentar democraticamente. Um futuro onde o direito ao acerto e ao erro seja permitido ao povo.

Palavras-chaves:  neoliberalismo, socialismo, democracia.


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