Maria Helena Vieira da Silva

                                                                                                               

                                            "MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA"  - Página pedagógica criada pela Prof. Anabela Quelhas

                                                                  - Grupo de Artes Visuais - Departamento Expressões I -

                                                               Escola B 2,3 Monsenhor Jerónimo do Amaral - 2007/2008

 

- ANO 2008 -

 

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DA PINTORA

 

A este propósito, o Grupo de Artes Visuais desta escola, propõem-se a homenagear a pintora Vieira da Silva, através de:

 

- Construção de página na internet. (prof. Anabela Quelhas)

- Organização de uma exposição pedagógica, com a finalidade de dar a conhecer à comunidade escolar, a vida e obra da pintora portuguesa. (Prof. Anabela Quelhas e Biblioteca Escolar)

- Criação de Diaporama. (Prof. Anabela Quelhas)

- Recriação das principais obras, a concretizar com os alunos do 3º ciclo. (Profs. Anabela Quelhas e Vitor Pinto)

 

A recusa de Salazar em atribuir a nacionalidade portuguesa a Vieira da Silva explica hoje que o seu espólio esteja em França – país que lhe concedeu nacionalidade e também ao seu marido Arpad Szenes – e não em Portugal.

 

                                                        

                                                                                                                                                                               culturalmente.mja@gmail.com

 

 Clique sobre as imagens para ampliar

Obra apresentada por ordem cronológica e dividida por décadas, para facilitar o entendimento da evolução da mesma 

 

 

DÉCADA DE 30

 

Auto-retrato - 1931

Les balançoires - 1931

La grille - 1931

L'arbre en prisin - 1932

Le cèdre - 1932

Desastre - !932

Cortejo - 1934

 

 

Habitação axadrezada - 1935

 

 

 

 

 "As Bandeiras" -1936

 

Composition - 1936

 

 

 

 

Estúdio em Lisboa - 1936

L'atelier - 1936

Composition - 1936

Les tisserands - !936

 

 

 

 

 

Les lignes - 1936

Les branches - 1937

La machine optique - 1937

Le jeu des cartes - 1937

Les yeux - 1937 

L' insurrection - 1939

 

 DÉCADA DE 40

 

 

L' atelier - 1940

Arpad Szénes - 1942

Sofá - 1942

Le desastre - 1942

Mozart - 1942

Le jeu des cartes - 1942

 

Partida de xadrês - 1943

História trágico-marítima - 1944

La vague - 1945

Le calvaire - 1947

Les dessins - 1948

L' Egypte - 1948

Deux interieures - 1948

Composition - 1948

 A batalha de cuchilos - 1948

Le véranda - 1948

Les petites terrasses - 1948

La bibliothèque - 1949

L'echec et mat - 1949

Maison Stuart - 1949

 Maison Bologne - 1949

 

 

DÉCADA DE 50

 

Abstracção - 1950

Composição - 1951

Passeante invisível - 1951

Inverno - 1951

Paris de noite - 1951

Telefèriques - 1951

La gende chambre bleue - 1951

Cidade colgante - 1952

Les batailles ders ouges et des bleus - 1953 

Le barrièrre - 1953

Sylvestre - 1953 

Castanhos e pretos - 1954

Diques inundados - 1954

 La bibliothèque - 1955

 Composition -1955

Metro aéreo - 1955

Jardins suspendus - 1955

A cidade - 1955

Silvales - grands constructions - 1956 

Trolodytes - 1956

Cidade mártir - 1957

Estação de Monparnasse - 1957

 

Estação inundada - 1956

Lisbonne ville - 1958

 

 

 

 

 

 Ilustração de poema de Calude Aveline - 1958

 

DÉCADA DE 60

 

 

 

 

 

 

 

Le jardin - 1960

 

 

 

 

 

 

Nuit Blanche - 1960

 

O céu das estações - 1960

Cascata - 1960

Caletes - 1960

Tabuleiro de xadrês - 1962

Pouco a pouco - 1963

Stele - 1964

Ne cents pas - 1965

Equidade - 1966

La Bibliothèque 2 - 1966

La coline - 1966

l'auteur bibliothèque de rene char - 1967

Entreprise impossible - 1967

 Esplanade - 1967

 

 

 

 

 

 

Memoire - 1967 

 

 

 

 

 

  Martelo sem mestre - 1968 

 Ilegalidades nos encadeamentos - 1968 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Marte à Lua - 1969

 

 

 

 

 

 

Iresoluções resueltas XXVII - 1969

 

 

 

 

 

 

Le sommeil - 1969

 

 

 

 

 

 

 

L' université - 1969

 

 

 

 

 

Málaga - 1969

 

 

 

DÉCADA DE 70

 

 

 

 

Terre de basse nuit - 1970

Janelas sobre o pátio - 1970

 

 

 

 

 

L' escalier - 1972 

 

 

 

13 portas - 1972

 

 

 

 

 

 

3 janelas - 1973

 

 

 

 

 

La hierba - 1973

 

Acontecimento - 1973

 

 

 

 

Paisagem de Ruun - 1973

 

Liberdade - 1973

Teatro da vida - 1974

 

 

 

 

 

Bibliotecade Malraux - 1974

 

 

Bibliothèque en feu - 1974

 

Indias negras - 1974

 

25 de ABRIL DE 74 - 1974 

 

 

 

 

 

 

Rene Char - 1975

 

 

 

 

 

Composição em 3 partes - 1976

 

 

 

Jubilo - 1976 

 

DÉCADA DE 80

 

 

Projecto para le doux - 1982 

Fragmentos múltiplos - 1983

Inverno - 1983 

 

 

 

 

Caminhos da paz - 1985 

El desgarro - 1985

Memória segunda - 1885 

 

 

 

 

 

Destino - 1986

 

Saída luminosa - 1986

Soles Agosto - 1986

 

 

 

 

 

Ariane - 1988 

 

SEM DATA

 

 

 

 

 

Carnaval 

 

 

 

Dessins

 

 

 

 

 

Dessins inacheve 

 

 

 

 

 

Estação do metropolitano 

 

 

 

 

 

La basilique 

 

 

 

 

 

La biliothèque humoriste

 

 

 

 

La gare de S. Lázare 

 

 

 

 

 

Le memoire 

 

 

 

La ville forte 

 

 

 

 

 

La voie da la sagesse 

 

 

 

 

 

New Amsderdam 

 

 

 

 

Minuit y songe rouge

 

 

 

  

Sem título 

 

 

 

 

 

Retorno a orfeu 

 

 

 

 

 

Souvenir d' architecture

 

 

 

 

 

Vidro e aço 

 

VIEIRA DA SILVA, Maria Helena 

Biografia:

- 1908: Nasce em Lisboa a 13 de Junho.

- 1911: Morre o seu pai. Instala-se com a sua mãe na casa do avô materno

- 1919: Recebe lições de música, pintura e desenho.

- 1924: Estuda escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa.

- 1928: Vai com sua mãe para Paris. Frequenta a Academia La Grand Chaumière e o atelier de Bourdelle. Visita Itália.

- 1930: Casa com o pintor Arpad Szenes. Conhece a Hungria e a Transilvânia.

- 1933: Primeira Exposição individual, em Paris.

- 1934: Adoece com icterícia.

- 1939 - Regressa a Portugal, devido à guerra, já que para o seu marido, judeu húngaro, a proximidade dos nazis o incomoda, naturalmente. Ficará em Portugal por pouco tempo, pois o governo de Salazar não lhe restitui a cidadania portuguesa, mesmo tendo casado pela igreja. Não deixa de participar num concurso de montras, realizado no âmbito da Exposição do Mundo Português, que também lhe encomendou um quadro, mas cuja encomenda será retirada.

 

-1940: O Estado português recusa-lhe a nacionalidade. Parte com o marido para o Brasil.

- 1942/46: Participa em várias exposições no Brasil.

- 1947: Regressa a Paris.

 

- 1956: Recebe a nacionalidade francesa.

- 1960: Recebe o grau de Chevalier de L’Orde des Arts et des Lettres do estado francês.

- 1964: Morre a mãe; realiza o seu primeiro vitral.

-1975: Realiza dois projectos de cartazes alusivos ao 25 de Abril.

- 1985: Morre Arpard Szenes.

- 1988: Inauguração da estação do Metro da Cidade Universitária (Lisboa), decoração por si concebida.

 - 1990: Criação da Fundação Vieira da Silva-Arpad Szenes.

-1991: Recebe o Officer de la Légion d’Honneur.

- 1992: Morre em Paris a 6 de Março.

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Caracterização da sua pintura:

Estilo:  lírico-abstracto

( o que os criticos dizem:)

"As suas pinturas caracterizam-se por serem composições estruturadas, abstractizantes, de rendilhado geométrico que evocam o espaço na sua tridimensionalidade, e por vezes alguma figuração. ".

"Vieira da Silva é considerada uma das grandes pintoras do século XX. A influência do seu país de nascença e da sua cidade influenciaram a sua pintura."

"Pintora de temas essencialmente urbanos, a sua pintura revela, desde muito cedo, uma preocupação com o espaço e a profundidade."

 "O contínuo fluir de espaços e profundidades enredadas em labirintos manifestam a impossibilidade de uma ordem totalizadora do espaço pictórico para inscreverem o intervalo do invisível, a que Vieira da Silva, chamou "essa incerteza, esse terrível labirinto".

"A partir dos anos 50, os guaches e as têmperas tornam-se importantes na sua pintura que se centra agora nas sensações de luz e na exploração de ambientes, caracterizando-se pelos formatos ao alto ou ao baixo de influência japonesa."  

 "...a História Trágico-Marítima, de 44, onde é a figuração que se estrutura como malha espacial; "

 "..linhas que surgem bem definidas na  sua composição e que oferecem múltiplas possibilidades de observação, nada que remeta à “visão monocular do espaço renascentista..."

 " ...pintura de múltiplos tons e leituras. A primeira leitura que podemos fazer da  sua obra desenvolveu-se na harmonia de uma análise específica do tema essencial que a constitui: a natureza. A segunda, fazendo-se sentir de forma igualmente imediata, é fruto de uma imaginação que então nos oferece um mundo mais inesperado, muito mais intenso e ao mesmo tempo mais complexo. Pormeno! res aparentemente imperceptíveis, até então submetidos ao tema principal, manifestam-se, desempenhando um papel capital e revelador. Este encadeamento insólito conduz a uma leitura diferente da pintura de Vieira da Silva, num domínio até agora inexplorado. Assim, esta obra deixa transparecer uma força mas também uma fragilidade, sendo o todo contido por uma determinação aparentemente perfeita. Um equilíbrio e uma beleza nova manifestam-se então. […] " 

"Em 1956, o historiador Walter Zanini escreveu que o primeiro contato dos olhos com a pintura de Maria Helena  Vieira da Silva (1908-1992) é 'um choque desconcertante' - não importa a distância de tempo, a constatação é precisa.

O choque desconcertante, por assim dizer, se refere ao que a pintora conseguia fazer em suas telas com o uso de linhas, mosaicos de quadrados e cubos: uma abstração a partir do 'desafio de questionar a perspectiva, dispositivo que cria a ilusão da terceira dimensão num veículo que possui apenas duas',"

"História Trágico-Marítima, datado de 1944 - nele um navio, com seus tripulantes parece que está sendo engolido (na composição explodem linhas vermelhas) -, foi escolhido, como diz Aguilar, para pontuar o espírito, para a artista, da chegada do casal ao Brasil. Anos difíceis,..."

"A abstração, a partir da figuração, foi seu grande caminho, seus jogos com perspectiva, linhas, quadrados e estruturas modulares em vibração no plano - são característicos de seu repertório fazer composições a partir da representação do tabuleiro de xadrez (outro tema sempre presente é o da biblioteca)."

"Já em Vieira da Silva assiste-se ao estilhaçar do plano do suporte numa multiplicidade de pequenas nuances de cor, através de uma construção mais laboriosa, que vai adensando e complexificando a superfície do quadro, criando assim, bem à sua labiríntica maneira, e numa orquestração sinfónica, múltiplos caminhos ao olhar."

Composition, onde estruturas tubulares e geométricas se entrecruzam formando redes, teias e labirintos. "

"Vieira da Silva  fabrica o seu próprio universo, que alimenta de pequenas coisas e a sua arte apresenta-se livre de etiquetas. O objectivo é imprevisível mas nunca improvisado. O acto de pintar interpreta como meio que levará ao encontro de si própria e do mundo e à realização da união entre corpo e alma. O trabalho apresenta-se doloroso, interrogativo, mas libertador. Só ele era a chave que, perante o acesso a um espaço desconhecido, permitia ir além da dúvida."

"A sua obra apresenta três "géneros": naturezas mortas, figuras e paisagens e a sua temática vai variando ao longo da vida, em relação íntima com os diálogos que estabelece com o fluir dos momentos socio-culturais e históricos que atravessa."

"É difícil enquadrar a obra deVieira da Silva numa só época. Em cada quadro, ela coloca um pouco de si própria, retrata o que a rodeia, partindo do seu mundo interior e mediante a perspectiva sobre a qual expõem a sua visão particular. "

"Em vitrais, azulejos, pequenas telas ou grandes planos, Vieira da Silva apresenta antes de mais as suas próprias construções do espaço de acordo com as suas concepções e o sentido que vai fazendo do mundo."

"Jamais elle ne cerne ni n'enclôt et l'on se sent aspiré vers la lumière par ses perspectives irréelles. Le rythme des lignes et des couleurs est celui d'une musique intense et mystérieuse. Ceux qui ont eu le privilège de croiser le regard lumineux de Vieira da Silva ne peuvent l'oublier.
 Ses toiles reflètent son goût pour les surfaces divisées baignant, surtout à partir des années 1970, dans la lumière si caractéristique du Portugal. (...) Souvent à la frontière entre figuration et abstraction, le monde de cette artiste en quête d’infini est construit à partir d’unités colorées et de lignes qui s’enchevêtrent en créant des espaces labyrinthiques. On pense parfois à Lisbonne, sa ville natale, même si elle y a fort peu vécu. »"

 

"...abstrsccionismo quase construtivo - estruturas e horizontais que quase desaparecem no mito do azul e do branco. O negro aparece sempre nas linhas estruturais..."

"...matrizes infinitamente desmultiplicadas, partindo do abstracto para a visibilidade de um olhar multifacetado. VS parece trabahar num conceito de cidades sínteses, inseridas em arquitecturas atmosféricas, prismaticas."

"...grafismos, espaços cromáticos, xadrezes se conjugam regradamente. La bibliothèque en feu, 1970-1974, é um exemplo notável de outra série temática importante na obra de Vieira da Silva, as bibliotecas.Entramos depois nas salas do edifício antigo, de dimensões reduzidas ."

 

 

 'Quando cheguei a Paris, havia muitas tendências na pintura, comecei a ver tudo. O abstracionismo foi uma escolha difícil, mas tinha de partir de dentro, devia ser uma escolha racional. Para pintar pensando com a cabeça e fazendo com a mão', afirmou a artista em 1978.

 

"A sua interrogação do mundo é elaborada e constante. Procura incessantemente vias de acesso a um conhecimento superior: 

«(...)A meus olhos, a porta é um elemento muito importante. Há muito tempo que tenho o sentimento de estar diante de uma porta fechada, com coisas essenciais que não posso nem conhecer nem ver a passarem-se de outro lado. E é a morte que me vai abrir a porta. Quantas coisas, e não sabemos explicá-las! E eu que gostava tanto de saber (...) para satisfazer a minha curiosidade. Sim, queria entender e tenho a impressão de que a explicação virá com a morte, ela me dará a chave. Enquanto for viva, não saberei!(...)» diz Vieira da Silva.

 

 ... os elementos visuais:

Linhas de tensão

Linhas em quadrícula

Redes, malhas, teias, quadriculados, rendilhado geométrico, grelhas obedecendo geralmente a uma perspectiva

Labirintos

Utilização dos conceitos de equilibrio e desiquilibrio

O espaço

A profundidade

Tridimensionalidade

Pontos de fuga

Diversos pontos de vista em simultâneo

Grafitos e grafismos

Espaços cromáticos

Desfragmentação, desmultiplicação, desconstrução

Densidade de grafismos, acentuando a complexidade da pintura

 

.... os temas mais frequentes:

* as cidades reais e as inventadas

* as bibliotecas

* os tabuleiros de xadrês

* os portos, os diques

* o espaço onde pinta : o atelier

 

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Lê com atenção e tenta descobrir aspectos que influênciaram a sua obra.

 

O PRINCÍPIO DO CAMINHO

Lisboa, 1908, dia de Santo António, o padroeiro da cidade. O diplomata Marcos Vieira da Silva é pai pela primeira vez. Sua mulher, Maria da Graça, teve uma filha a quem é dado nome de Maria Helena Vieira da Silva.

Não terá a companhia do pai por muitos anos.

Maria Helena tem cerca de dois anos quando parte com a família e a sua preceptora para a Suíça. Não se trata de missão diplomática. O pai sofre da doença que muitos vitima no reino de Portugal - a tuberculose; e a Suíça tem bons ares, bons sanatórios – é a esperança de uma cura.

Para Maria Helena será a neve, as montanhas, a tranquilidade de uma infância. Mas não por muito tempo. Em Fevereiro de 1911 o pai morre. É uma perda que não se esquece.

A família regressa a Lisboa. Instala-se na casa do avô materno. Homem de ideais republicanos e editor, director do jornal "O Século". Tudo é agora diferente. À serenidade da Suíça contrapõe-se a agitação que se vive em Portugal.

Lisboa é uma cidade de convulsões. A República tinha sido implantada no ano anterior, e nem a todos agrada. Os movimentos políticos são muitos. As ideias estão ainda em ebulição.

Até 1926 Portugal terá cerca de 50 governos. As revoluções são uma constante. De permeio, Portugal participa ainda na 1ª Grande Guerra. Ao clima de instabilidade política junta-se também a económica e social. É necessário recorrer a empréstimos estrangeiros e, enquanto isso, os trabalhadores reclamam pelo seus direitos. Tempos difíceis estes. Muitos anseiam que venha alguém que ponha tudo em ordem.

Maria Helena está protegida de tudo isto. Vive na grande casa de seu avô. Um mundo de adultos. Não frequenta a escola. A educação é feita em casa. A própria mãe toma isso a seu cargo. Aprende a ler e a escrever em português, francês e inglês. Não tem a companhia de outras crianças. Momentos há em que sente tristeza, angústias, talvez a solidão, como ela própria o dirá mais tarde:

Era a única criança, numa casa muito grande, onde me perdia, onde havia muita coisa, muitos livros ... não tinha amiguinhas, não ia à escola....

Quando a guerra rebenta, a mãe e a tia refugiam-se na leitura do Apocalipse de que Maria Helena é ouvinte. São imagens que lhe ficam e que se hão-de juntar a outras, de outras guerras.

Aos 5 anos faz desenhos, aos 13 pinta a óleo. Dado o interesse da criança, a família apoia a aprendizagem. Emilia Santos Braga será a primeira professora; aliás tem já várias discípulas, às quais ensina no seu estilo de pintora da escola académica. A pintura estará a cargo do Professor da Escola de Belas Artes, Armando Lucena. A música chega a atraí-la, faz composição. Não se considera com talento, optará pela pintura.

Em 1916 a Mãe compra uma casa em Sintra. Alguns Verões serão aí passados. A paisagem que a rodeia impressiona-a, questionando-se como representar tudo o que vê. Mais tarde há-de querer mostrar Sintra ao marido, explicando-a com uma pintura.

Na Escola de Belas Artes de Lisboa frequenta um curso de escultura. A anatomia também a interessa; para melhor a aprender frequenta a disciplina na Escola de Medicina. Em 1926 muda-se para outra casa que a mãe adquire em Lisboa. Mas esta cidade não lhe basta:

Já não podia progredir em Lisboa, a pintura que aí fazia não me satisfazia, não sabia o que fazer, nem como fazer.

Tem de procurar outros caminhos. Dois anos mais tarde parte para Paris, a acompanhá-la vai sua mãe.

 

 

 

 

O CAMINHO DOS OUTROS

Paris é um grande centro. Os grandes movimentos artísticos do século anterior estão ainda muito presentes, ao mesmo tempo que outros surgem. É uma constante mutação. As inovações de Van Gogh, de Gauguin, de Cezanne influenciam muitos dos artistas.

Mãe e filha alojam-se no Medical Hotel, local onde estão instalados ateliers de outros artistas, para além de um ringue de boxe. Maria Helena visita os museus, conhece as obras de mestres. Um deles impressiona-a: Cezanne. Mais tarde há-de inspirar-se num seu quadro para fazer uma tela - "Os jogadores de cartas".

Em Paris contacta com os seus contemporâneos, Picasso, Duchamp, Braque. Está atenta aos novos movimentos, mas não se insere em nenhum. São formas de prisão que não aceita.

Em 1928 visita a Itália. Observa as obras dos grandes mestres italianos. Estuda a perspectiva, as formas. De tudo tira lições para melhor encontrar o seu próprio caminho. Quer que os seus quadros transmitam tudo o que a faz admirar - a forma, o som, o cheiro. Um dia ela própria o dirá:

Procuro pintar algo dos espaços, dos ritmos, dos movimentos das coisas.

De regresso a Paris frequenta a Academia de la Grande Chaumière onde faz escultura no curso do Professor Bourdelle. Nesse mesmo ano, pela primeira vez, participa numa exposição no Salon de Paris.

Em Paris está também Arpard Szenes, pintor húngaro, alguns anos mais velho. Conhecem-se. Não mais se hão-de separar. O trabalho de Vieira da Silva surpreende-o:

Quadros a tal ponto poéticos, simples, adultos, que fiquei profundamente impressionado.

Arpard incentiva-a na sua pintura, na procura do seu caminho. Para lhe facilitar o trabalho dá-lhe apoio moral e financeiro. Em 1930 casam e no mesmo ano visitam a Hungria e a Transilvânia. Da viagem, Maria Helena recolhe a imensidão do espaço, a paisagem que observa. É a contínua busca de uma forma de ver. Quando voltam instalam-se em Paris, na Villa das Camélias. Participam com outros nas reuniões dos "Amis du Monde". Aí discutem ideias, correntes, caminhos, divagações. E a pintura de Vieira da Silva vai-se tornando um pouco mais abstracta.

Mais do que se vê, importa como é que se vê.

O casal não pára de trabalhar. Participam nalgumas exposições. Não tardará a primeira individual. Será Jeanne Bucher, galerista, que a organiza em 1933, onde será também apresentado o livro infantil Ko et Ko, com ilustrações da pintora.

No ano seguinte Vieira da Silva vende o seu primeiro quadro, o comprador é também pintor - Campigli.

Em 1935 Vieira da Silva adoece com icterícia . A doença ataca-a de forma violenta, obrigando-a a permanecer de cama. Não lhe é fácil estar parada. È desta época a tela "O Quarto dos Azulejos". Ao tema português do azulejo, junta-se uma nova forma de representação do espaço. Às vezes a doença descobre outros caminhos...

Em Portugal, António Pedro, o encenador e escritor, prepara a primeira exposição. É necessário vir para cá, e sempre ajuda ao restabelecimento. Para além do mais, em Lisboa, tem também um atelier, na casa que mãe comprara anos antes.

A estadia prolonga-se por algum tempo o que permite a Vieira da Silva e Arpad Szenes realizarem um exposição no seu atelier.

De regresso a Paris volta a expôr. Entretanto, por encomenda, faz cópias de Braque e de Matisse, para projectos de tapeçarias. O casal vai agora viver no Boulevard Saint-Jacques. Não ficarão lá por muito tempo.

E OS CAMINHOS DO MUNDO...

Na Alemanha a ascenção de Hitler não pára. Os conflitos políticos

sucedem-se. Os acordos não fazem cessar os problemas. Em 1939

a Alemanha invade a Polónia. É o limite. A França e Inglaterra

declaram-lhe a guerra, começa a II Guerra Mundial. Até 1945 a

Europa não saberá o que é a paz.

Portugal mantém a velha aliança com a Inglaterra. Mas ao

mesmo tempo não lhe agrada a ideia de combater contra

a Alemanha de Hitler. Ou não esteja Salazar no Governo...

Portugal tentará ficar fora do conflito. Pelo menos

aparentemente, pois sempre poderá ganhar alguma coisa...

fica só e com todos. Habilidades de um político.

E depois é sempre bom para a espionagem, há um sítio para

se conversar... e todos serão benvindos.

Claro, que haverá sempre excepções, que no país não se

quer comunistas.

Vieira da Silva está em França quando a guerra rebenta.

Já não tem a nacionalidade portuguesa devido ao casamento.

Mas nunca deixou de vir a Portugal, onde tem um atelier, e

mais uma vez o casal decide regressar. Sempre poderá estar

num sítio mais tranquilo.

Em Lisboa prepara-se a Exposição do Mundo Português.

Enquanto a Europa está em guerra, o governo quer exibir o

orgulho de um passado heróico e de um presente em paz.

Muitos artistas são chamados a colaborar. Toda a cidade se

prepara para os visitantes que espera ter. O Secretariado da

Propaganda Nacional incentiva uma exposição de montras

 na Rua Garrett, a decoração será feita por diversos artistas.

Entre eles, Vieira da Silva que faz "Luva com Flores" para a

casa "Luva Verde", "Sapatos de 7 léguas" para a "Sapataria

 Garrett, e ainda "Bailado de Tesouras" para a "Sheffield House".

Por esta última há-de receber um prémio. Pinta também por

encomenda do Estado um quadro com destino à Exposição.

Durante a estadia no país Vieira da Silva decide pedir que

lhe seja devolvida a nacionalidade portuguesa. Invoca motivos,

é já uma artista conhecida. Mas o governo português é lá de

ligar às artes... E ainda para mais de uma pintora moderna...

Tem outras preocupações. Casada com um húngaro?

Certamente é um comunista que se quer infiltrar.

Sabe-se lá que perigos poderiam advir.

Talvez se houvesse um divórcio?! Arpad Szenes ainda

coloca tal hipótese, esteve sempre interessado em

apoiar a mulher. Vieira da Silva não aceita, casada

está, casada fica. Consequência: a nacionalidade

portuguesa é-lhe recusada. E quanto ao quadro que se

destinava à Exposição, também não é aceite.

Coisa triste nascer num país que não nos quer.

Melhor será partir.

 

 

 DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO...

 

O casal instala-se no Rio de Janeiro. No Brasil não é ainda

possível um artista viver dos quadros que pinta. Para além

do mais, são artistas que não estão inseridos nas correntes

figurativas tão em voga do Brasil. E depois há os críticos,

que nada ajudam a que o público visite as exposições

dos novos artistas.

Arpad Szenes decide dedicar-se ao retrato, mais tarde ao

ensino artístico. Sempre dá para sobreviver.

Vieira da Silva pinta cerâmica, azulejos. Tentam algumas

exposições, mas a participação não é animadora.. É tudo

tão diferente da Europa... Fazem alguns amigos.

Entre eles estão Murilo Mendes e Cecília Meireles. Desta última

há-de fazer um retrato.

Da Europa continuam a chegar as noticias da guerra.

Vieira da Silva tem momentos de tristeza. Pensa no que se passa .

Imagina o que não vê, lembra-se das outras guerras e

das leituras do Apocalipse. Quando lhe são contadas as

experiências vividas, Vieira da Silva decide pintar "O Desastre".

É a realidade de guerra. Não são momentos fáceis de viver.

Para atenuar, vem a encomenda de um painel de azulejos

para Escola Agrícola do Distrito Federal, Rio de Janeiro.

"Quilómetro 44" é o titulo.

Entretanto, Ardenquin, pintor uruguaio, envia fotografias de

telas de Vieira da Silva ao seu amigo e também pintor -

Torres Garcia. O artigo que este escreve na revista Alfar

é de tal forma favorável que Vieira da Silva sente um novo ânimo.

Em 1945 a guerra acaba. Ficará ainda no Brasil algum tempo.

Dois anos mais tarde o próprio governador de Minas Gerais

convida o casal a expôr em Belo Horizonte. Enquanto isso,

Jeanne Bucher organiza em Nova York a primeira exposição

individual de Vieira da Silva

É agora tempo de regressar a França. Arpad irá

mais tarde pois tem ainda o curso para terminar.

 

 

 

 

 

 

O FIM DO CAMINHO PERCORRIDO

Vieira da Silva é cada vez mais reconhecida. O estado francês

sabe a apreciar o seu mérito. Pela primeira vez adquire

uma obra sua. Irá fazê-lo mais vezes.

 

 

 

 

 

As exposições individuais sucedem-se - Londres,

Nova York, Basileia, Lille, Genebra. Ao mesmo

tempo recebe prémios pelas suas obras - S. Paulo,

Caracas. É reconhecida internacionalmente. Bem o

dissera Vieira da Silva quando fez o pedido de

nacionalidade a Portugal... Agora é demasiado tarde.

Em 1956 é naturalizada francesa, o próprio Estado

francês o decretou.

É tempo agora de possuir melhores condições para

poder fazer o seu trabalho. Adquire um terreno na

Rue de l’Abbé Carton onde o arquitecto Johannet lhe

projecta uma casa em que terá o seu próprio atelier.

Tudo terá mais espaço.

No ano seguinte a sua mãe vem viver para Paris.

Até ao ano da sua morte, em 1964, não terá outra residência.

O Estado francês atribui agora a Vieira da Silva o grau de

Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras; em 1963 será a

vez do grau de Comendador.

Em 1974, Portugal conhece finalmente o fim de um regime

que não favorecia propriamente os artistas. É a revolução

dos cravos. Vieira da Silva não fica indiferente aos

acontecimentos que ocorrem no país onde nasceu.

Faz dois cartazes sobre a revolução, que mais uma

vez a Função Gulbenkian se encarregará de editar.

 

 

 

 

 

 

O trabalho da pintora é cada vez mais importante.

Muitos são aqueles que a admiram. Chegou agora a vez

de fazer uma encomenda para Portugal.

Em 1983 aceita o convite para realizar a decoração da nova

estação do Metro de Lisboa - Cidade Universitária.

Arpad Szenes não assistirá à inauguração. Nos princípios de

1985 morre. A estação só será inaugurada 3 anos mais tarde.

A perda do companheiro de tantos anos afecta naturalmente

a sua pintura. A cor altera-se, é outra forma de luminosidade.

 É no ano seguinte que pinta "O fim do mundo"

Vieira da Silva tem ainda tempo para ver a Fundação com

o seu nome e do seu marido ser criada em Lisboa.

No mesmo ano em que é operada ao coração -1990.

No ano seguinte o Estado francês demonstra mais uma vez o

 apreço em que a tem - é-lhe atribuído o grau de Oficial da

Legião de Honra.

Apesar de tudo, Vieira da Silva continua a pintar. Sabe que o

outro lado não estará muito longe. Ainda em 1992 pinta uma

sucessão de têmperas, com o título "Luta com um anjo".

É o prenúncio do fim. Vieira da Silva não é dada a grandes

místicas, mas há sempre interrogações que se colocam:

 

Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas

fugazes iluminações e então sinto por momentos uma

confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas

entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a

mística explica tudo. Então é preciso dizer que não sou

suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a

morte me dará a explicação que não consigo encontrar.

A 6 de Março de 1992, Vieira da Silva morre em Paris.

Partiu ao encontro de uma explicação.

Será que a terá encontrado?

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PARA CONHECER UM POUCO MELHOR A FILOSOFIA QUE APOIA A SUA OBRA

 

O estilo inconfundível de Vieira da Silva é uma das referências  determinantes na arte abstracta, muito embora ela se identifique preferencialmente com o abstraccionismo lírico

A Escola de Paris é influenciada pelas pinturas abstractas iniciadas após 1935. A pintura, veículo para a apreensão do eu e como meio de conhecimento, surge, posteriormente à guerra que tudo veio modificar, como processo pelo qual a pintora transparece a percepção que tem do mundo.

Vieira da Silva fabrica o seu próprio universo, que alimenta de pequenas coisas e a sua arte apresenta-se livre de etiquetas. O objectivo é imprevisível mas nunca improvisado. O acto de pintar interpreta como meio que levará ao encontro de si própria e do mundo e à realização da união entre corpo e alma. O trabalho apresenta-se doloroso, interrogativo, mas libertador. Só ele era a chave que, perante o acesso a um espaço desconhecido, permitia ir além da dúvida.

Estas primeiras experiências são influentes, na medida em que permanecem na sua memória, onde o passado continua activo, um elemento que a qualquer momento se pode aceder.

Só uma certeza existe, para a pintora, a recusa da certeza. Cada momento é vivido plena e intensamente, mas tudo sofre mudança. O facto de colocar em dúvida a sistematização das evidências, advém da sua sensibilidade à vida, à sua renovação e mistério, que apenas uma análise exterior não atinge. É na pintura pela abstracção do espaço-plano que várias versões se podem explorar.

A sua obra apresenta três "géneros": naturezas mortas, figuras e paisagens e a sua temática vai variando ao longo da vida, em relação íntima com os diálogos que estabelece com o fluir dos momentos socio-culturais e históricos que atravessa.

A sua interrogação do mundo é elaborada e constante. Procura incessantemente vias de acesso a um conhecimento superior: 

«(...)A meus olhos, a porta é um elemento muito importante. Há muito tempo que tenho o sentimento de estar diante de uma porta fechada, com coisas essenciais que não posso nem conhecer nem ver a passarem-se de outro lado. E é a morte que me vai abrir a porta. Quantas coisas, e não sabemos explicá-las! E eu que gostava tanto de saber (...) para satisfazer a minha curiosidade.

Sim, queria entender e tenho a impressão de que a explicação virá com a morte, ela me dará a chave. Enquanto for viva, não saberei!(...)» diz Vieira da Silva.(Jean-Luc Daval, 1994, p.93)

É difícil enquadrar a obra de Vieira da Silva numa só época. Em cada quadro, ela coloca um pouco de si própria, retrata o que a rodeia, partindo do seu mundo interior e mediante a perspectiva sobre a qual expõem a sua visão particular.

Em vitrais, azulejos, pequenas telas ou grandes planos, Vieira da Silva apresenta antes de mais as suas próprias construções do espaço de acordo com as suas concepções e o sentido que vai fazendo do mundo.

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VIEIRA DA SILVA e as crianças

 

Vieira da Silva foi autora de uma série de ilustrações para crianças que constituem uma surpresa no conjunto da sua obra.

Kô et Kô, les deux esquimaux, é o título de uma história para crianças inventada por ela em 1933. Não se sentindo capaz de a escrever, a pintora entrega essa tarefa ao seu amigo Pierre Guéguen e assume o papel de ilustradora, executando uma série de guaches.

É a viagem maravilhosa de dois esquimós, Kô e Kó, à volta do mundo.

 Cada página, o que corresponde a um capítulo da história, é acompanhada por uma pintura da artista com uma beleza e força para encantar as crianças e os adultos. Assim, este livro convida os mais pequenos ao mundo da arte e da imaginação.

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VITRAIS

Não é só à pintura que Vieira da Silva se dedica.

A tapeçaria e o vitral terão também a sua atenção.

Em 1965, é-lhe feita a encomenda de 8 vitrais para a Igreja de Saint Jacques, nos quais irá trabalhar durante algum tempo.

 

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A Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva foi criada a 10 de Maio de 1990, segundo o Decreto-Lei 140/90 e tem como primordial objectivo promover a divulgação e o estudo da obra do casal.

A Fundação gere um museu destinado a expor as obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, tal como de outros artistas contemporâneos. Este património veio para Portugal em função de um acordo estabelecido entre o Estado Francês e o Estado Português.  

 

Fundação Arpad-Szenes/Vieira da Silva

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                        OBSERVA  COM ATENÇÃO e com outro olhar, AS FOTOS E RESPECTIVA RECRIAÇÃO:

                        CIDADES:

 

 

 

 

 

 

 

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              ESPAÇOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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              TABULEIROS DE XADRÊS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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              BIBLIOTECAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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