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ATP Maria Cristina Riondet Cunha

cristinariondet@gmail.com

 

 LÍNGUA PORTUGUESA / LÍNGUA ESPANHOLA

 

                                   OFICINA PEDAGÓGICA | DIRETORIA DE ENSINO | SECRETARIA | CENP 

 

*Relação de contos que estão postados abaixo*

 

1. O jovem tigre e o homem velho 

2. Nasrïn

3. O touro e o homem

 

 1. O jovem tigre e o homem velho 

Era uma vez um velho e sábio tigre que morava no bosque. Um dia, sentiu que se aproximava a
hora de sua morte e chamou o seu jovem e robusto filho para fazer-lhe umas perguntas:

“Meu filho, sabes qual é o animal que tem o rugido mais potente?”

“Claro que sim, pai”, respondeu orgulhoso. “O rugido do tigre é o mais potente e enérgico.”

“E agora diz-me”, continuou o velho, “sabes quem possui as garras mais perigosas?” “Sem dúvida
são as garras do tigre, pai.”

“Quero que respondas a uma última pergunta e te peço que penses muito bem antes de
responder: Quem achas que é o ser vivo mais poderoso do mundo?”

Depois de emitir um sonoro e intenso rugido, disse o jovem tigre com orgulho:

“Pai, como é possível que não o saibas? É evidente que o animal mais veloz, com as garras mais
afiadas e com o mais potente rugido será, em conseqüência, o mais forte e poderoso da terra, e
este sou eu.”

“Querido filho, antes eu também pensava assim,” admitiu o ancião com a voz entrecortada, “porém
um dia descobri que não são os tigres os animais mais poderosos do mundo, mas sim os homens”.

O jovem tigre agitou sua cabeça em sinal de protesto, porém o pai, ao perceber um certo grau de
vaidade nesse gesto, pediu-lhe que não ficasse contrariado e tentou tranqüilizá-lo:

“Não te preocupes, filho. Escuta-me bem. São os últimos momentos de minha vida e como legado
gostaria de deixar-te alguns conselhos.”

Obedecendo a seu pai, o jovem tigre levantou as orelhas e dispôs-se a ouvir as sábias palavras do
ancião:

“Filho, deves temer o homem e agir com cautela diante dele. Cuidado com suas más intenções e,
se não for necessário, não o enfrentes e não ouses medir forças com ele, porque os homens são
mais poderosos que os tigres. Não duvides disso.”

Depois de pronunciar essas palavras, o velho tigre fechou os olhos e morreu.

Triste e pensativo, o jovem sentou-se por um momento a fim de meditar sobre como poderia ser
esse homem que seu pai descrevera. E pensou com certo ceticismo: “Não creio que seu rugido
possa ser mais temeroso que o meu, nem que suas garras sejam mais afiadas. Oxalá pudesse
conhecê-lo, ainda que fosse só para dar uma olhada de longe. Preciso encontrar suas pegadas e
saber onde mora.” Deixou, então, voar sua imaginação: “Será forte e robusto como uma montanha,
rápido e barulhento como o vento ou escorregadio como a água...? Preciso encontrá-lo logo.”

Com todas as dúvidas, especulações e perguntas dançando na mente, saiu à sua procura.

O primeiro animal que encontrou em seu caminho era grande e de pele negra. Estava comendo
pasto sob a sombra de uma árvore. Com precaução decidiu permanecer a certa distância e gritou:
“És tu um ser humano?” Não lhe pareceu que suas garras fossem muito perigosas e, ao ver como
girava a cabeça lentamente e o olhava com desprezo, também não acreditou em sua habilidade.

“Sou um touro selvagem”, respondeu o negro animal com voz aguda e pausada.

O tigre perdeu o medo. Mais tranqüilo, aproximou-se para interrogá-lo:

“Já viste um homem alguma vez?”

“Claro que conheço os homens. Já os vi muitas vezes.”

“Diz-me”, interessou-se o tigre, “como são? É verdade que seu rugido é penetrante e suas garras
podem destruir qualquer coisa?”

“Mas que bobagens!”, caçoou o touro. “O homem não emite rugido algum e suas garras são tão
fracas e pequenas que não servem nem para fazer um buraco na terra.”

“Com certeza entendi mal”, disse o tigre não muito convencido. “Então deve ter as mãos muito
fortes.”

“Que ignorante e imaturo és. As mãos do homem são tão delicadas como o corpo de um peixe.
Seu corpo também não é grande. Se deres um sopro sairá voando.”

“Não acredito em ti, estás enganado”, disse um tanto ofendido. “Meu pai era mais sábio que tu e
tua descrição não tem nada que ver com o que ele me contou.”

O jovem tigre continuou a caminhada em direção ao deserto. Lá encontrou um animal muito alto,
com as pernas muito compridas, coberto por um pêlo queimado e uma curiosa corcova. “Que
esquisito”, pensou. “Por que tem a pele tão peluda se faz tanto calor? Deve ser um pouco
friorento.” Dirigiu-se até ele e em tom amável perguntou:

“Tu não serás um ser humano?”


O animal soltou uma gargalhada e agitando a cabeça de um lado para o outro respondeu:

“Eu sou um camelo e não me pareço em nada aos seres humanos. Conheço-os bem porque faz
muito tempo que trabalho para eles dia e noite.”

“Pois se trabalhas para eles, devem ser maiores que tu”, disse o tigre surpreso.

“Que nada! O homem é muito pequeno. Para poder subir na minha corcunda, preciso agachar-me.”

“Como é possível?” pensou o tigre. “Pelas coisas que ouço, creio que meu pai talvez nunca tenha
conhecido os homens..., mas ele não poderia ter-me enganado. Não! Preciso encontrar um ser
humano seja como for e averiguar como é esse estranho ser.” Com esse propósito, despediu-se do
camelo e foi embora.

Depois de percorrer um longo caminho, chegou a um prado e atrás de umas árvores ouviu alguém
que estava cantando. Dirigiu-se para lá nas pontas das patas para não assustar quem estava
cantando e qual não foi a sua surpresa ao ver um ser de corpo nu.

“Que ser mais ridículo!” Resmungou em voz baixa. “Nunca vi algo semelhante. Não tem nem
garras, nem a pele grossa..., é tão sem graça que nem sequer pode cortar a lenha com seus
dentes.”

De um pulo aproximou-se e observou-o por algum tempo.

“Ei, você!” gritou. “Até hoje nunca tinha visto um ser tão estranho. Como se explica que os ursos e
os lobos não te tenham devorado até agora? Talvez sejas a formiguinha de que tanto ouvi falar.”

“Não, não sou uma formiga”, respondeu ele um tanto assustado.

“Por acaso és um ouriço?” insistiu o tigre.

“Não senhor, não sou um ouriço. Não vês que meu corpo não está cheio de espinhos?”

“Pois então, o que és, um lagarto?”

“Não, energúmeno. Por que me fazes tantas perguntas? Eu sou um ser humano.”

O tigre ficou chocado e começou a rir.

“Jô, jô, jô...Tu, um ser humano. Eu poderia matar-te só de te tocar. E meu pai te temia tanto.”

“Teu pai não devia estar em seu juízo perfeito quando te falou a respeito dos homens,” disse
aquele velho lenhador para tranqüilizá-lo.

“Deve ser verdade, pois estava à beira da morte quando falou comigo. Talvez estivesse delirando”,
concordou o tigre um pouco duvidoso.

“É provável. Porque se estivesse bem de saúde não teria por que temer os homens. Com teu
punho podes mandar-me ao outro lado do mundo em um instante.”

“Pois isso é o que vou fazer. Por tua culpa faz dias que não durmo e agora tu vai me pagar.
Começa a pensar em teu último desejo porque não posso me conter.”

“A verdade é que não me importaria deixar de viver. Na minha idade, se não morro hoje será em
breve, e antes de transformar-me em carniça para outros animais selvagens prefiro que um tigre
como tu me comas. Porém antes, e como não tenho a quem deixar minhas propriedades, deixa-me
que te mostre o que tenho para que possas aproveitar.”

“Esta bem”, concordou o tigre, “mas apressa-te que estou com muita fome.”

Os dois dirigiram-se à choça do lenhador e lá chegando o ancião disse:

“Senhor tigre, isto é tudo o que possuo.”

O tigre olhou o interior da choça e perguntou:

“Para que serve isso, para que a construíste?”

“Não sabes como é confortável morar aqui. Graças a ela nem a neve, nem a chuva, nem o sol,
nem o inverno interrompem meu sono.”

“Hum! Eu gosto. Depois de comer-te deitarei um pouco e descansarei.”

“Há um problema”, disse o velho com picardia. “É que não sabes como usá-la, como abrir a porta e
como fechá-la.”

“Pois mostra-me”, insistiu o jovem tigre com pressa.

“Está bem. Mas não deves aborrecer-te nem impacientar-te”, aconselhou o ancião. “Verás. Eu
entro na cabana e fecho a porta. Agora, experimenta para ver se consegues abri-la”, gritou ao tigre
que tinha ficado do lado de fora.

O robusto tigre empurrou com suas patas uma e outra vez, porém a porta não se abria. O
lenhador, do lado de dentro, disse-lhe:

“Vês que lugar seguro? Aqui não tenho medo nem sequer de ti”.

“Talvez não penses sair mais”, disse-lhe o tigre um tanto aborrecido.

“Enganas-te, pequeno, eu sempre cumpro minha palavra. Já vou sair.”


E abriu a porta para mostrar ao tigre que podia confiar nele. “Que estúpido chega a ser o homem”,
pensou, “podendo estar a salvo de minhas garras, está disposto a sair para que eu o devore.”

O lenhador convidou novamente o tigre para que desse uma olhada na sua cabana e ele, sem
pensar, saltou para dentro. Não podia imaginar que aquele insignificante ser humano fosse capaz
de preparar-lhe uma armadilha. Porém equivocou-se. Assim que seu rabo cruzou o umbral, o
lenhador fechou a porta com força e colocou-lhe um cadeado muito seguro para que ele não
pudesse escapar. Pegou seu machado e tranqüilamente continuou seu trabalho.

 Contos Mágicos Persas – Coleção Arca da Sabedoria – Editora A

 

                         

2. Nasrïn

Há muitos anos viveu uma menina chamada Nasrïn. A menina era órfã de mãe e seu pai casara-se de novo. A madrasta tinha uma filha, mais ou menos da sua idade, porém mimada excessivamente e de muito mau caráter.

Nasrïn fazia o trabalho mais pesado da casa: limpava, ordenhava as vacas, saía para cortar lenha, fazia a comida... enquanto sua meia-irmã passava a maior parte do tempo dormindo, comendo e olhando-se no espelho. Nasrïn, além de ser a que mais trabalhava, ainda era insultada, recebendo um tratamento vexatório.

Um dia, a madrasta deu-lhe um monte de lã e ordenou-lhe com tom ameaçador:

"Sobe a montanha e fia toda esta lã. Se não voltares até o entardecer, não entrarás em casa."

Acompanhada por sua vaca amarela, Nasrïn dirigiu-se à montanha. Sentou-se sobre a relva e quando se dispunha a iniciar sua tarefa, um forte vento espargiu toda a lã pelo monte. A menina correu atrás para tentar recuperá-la e ao ver que era impossível, gritou:

"Por favor, querido vento, não leves minha lã! Minha madrasta não me deixará voltar para casa."

O vento compadeceu-se dela e com um pequeno redemoinho agrupou de novo toda a lã, colocando-a no quintal de uma cabana próxima. Justamente quando Nasrïn ia recolhê-la, uma velha foi ao seu encontro e perguntou-lhe:

" Que fazes, pequena?".

"O vento levou minha lã", disse um tanto assustada.

"Bem, podes levá-la. Mas antes responde a uma pergunta. A menina permaneceu de pé, tentando segurar a lã entre os braços.

"O meu cabelo está mais limpo que o da tua mãe?"

A menina fixou o olhar no cabelo da anciã e viu milhares de piolhos locomovendo-se inconscientemente, mas para não ofendê-la, respondeu:

"Sim, sem dúvida. Seu cabelo está muito mais limpo."

"Bem, pequena", respondeu-lhe a velha muito satisfeita, "agora entra na casa, levanta o tapete e diz-me se encontras algo embaixo."

Ela entrou e percebeu que não era necessário levantar o tapete para adivinhar o que encontraria. O pó cobria todos os móveis, muitas teias de aranha se balançavam pelos cantos e uma multidão de insetos percorria a casa. Porém, como o que ela mais queria era ir embora daquele lugar sujo, tornou a mentir:

"Devo admitir que minha mãe não tem a casa tão limpa. Posso ir agora?" perguntou-lhe apressadamente.

"Menina", disse a anciã docemente, "entreguei tua lã ao vento para que ele a leve onde está tua vaca. Agora já podes ir, porém antes escuta meu conselho : no caminho, encontrarás três rios. Lava-te nas águas transparentes do primeiro, molha teu cabelo e tuas sobrancelhas no mais escuro e umedece teus lábios no rio de água avermelhada. Quando terminares, levanta a cabeça e cumprimenta a lua."

Antes de encontrar-se com a vaca, Nasrïn banhou-se nos três rios, seguindo as instruções da velha. Ao chegar, descobriu com surpresa que a lã já estava limpa e fiada. Ficou muito contente e voltou para casa.

Estava escurecendo e a madrasta permanecia atrás da janela, esperando que o sol se escondesse no horizonte a fim de não deixar Nasrïn entrar. De repente viu uma forte luz que descia pelo caminho e enfureceu-se ao descobrir que era Nasrïn com uma intensa lua que iluminava sua frente. A madrasta gritou-lhe:

"Onde te meteste? Apressa-te que ainda tens que preparar o jantar."

No dia seguinte, a madrasta pensou em mandar sua filha à montanha. Preparou-lhe uma cesta de comida e com muita ternura pediu a sua filha que fosse fiar a lã.

Assim que chegou, a garota pôs-se a dormir. Um vento forte a acordou de repente e ela começou a amaldiçoá-lo e insultá-lo por ter espalhado a lã. Como ocorreu com sua meia-irmã, as lãs foram jogadas no quintal de uma anciã. Quando a menina chegou, a velha perguntou-lhe:

"Que desejas, menina?"

"Senhora, dê-me minhas lãs que estou com muita pressa," ordenou-lhe em tom depreciativo.

"Não tenhas tanta pressa. Diz-me antes se meu cabelo está mais limpo que o da tua mãe."

"Seu cabelo está cheio de piolhos", exclamou a menina com cara de nojo. "Como posso achar que esteja mais limpo que o da minha mãe?

Percebendo o gênio da menina, disse-lhe:

"Toma tuas lãs. De volta para casa encontrarás três rios. Toma banho no rio escuro, molha teu cabelo no rio avermelhado e umedece teus lábios com a água transparente."

A menina saiu correndo e quando chegou aos rios fez o que ela lhe tinha sugerido.

Ao chegar a casa, sua mãe não podia acreditar no que tinha acontecido com sua filha. O rosto estava preto como o carvão e seu cabelo era de um vermelho intenso.

Em vez de reconhecer a falta de capacidade da filha, derramou sua ira sobre Nasrïn e começou a imaginar como poderia livrar-se de sua vaca amarela para poder atingi-la.

Resolveu fingir que estava doente, esfregando o rosto com açafrão para parecer mais pálida e abatida e dizer ao marido que o único remédio para recuperar a saúde seria comer carne de vaca.

Quando Nasrïn comentou com a vaca as intenções da madrasta, ela a tranqüilizou:

"Não te preocupes, assim que tiverem separado minha carne dos ossos, recolhe-os e esconde-os em lugar seguro. Se tiveres algum problema que queiras contar a alguém, desenterra os ossos e conta-o a eles. Ah, outra coisa", acrescentou a vaca, "podes ter a certeza de que minha carne não será do agrado de tua madrasta. O sabor lhe será amargo como se tivesse comido veneno. Por outro lado, tu saborearás a mais deliciosa carne do mundo."

A menina ficou profundamente triste. Não queria provar a melhor carne, queria que sua amiga permanecesse ao seu lado para sempre.

A madrasta conseguiu realizar seu capricho e a vaca foi sacrificada ao amanhecer. O guisado de carne de vaca foi servido na hora do jantar e ao introduzir o primeiro pedaço na boca, a madrasta deu um grito e cuspiu a carne no chão. "Isto é puro veneno!", exclamou. Nasrïn ria disfarçadamente, quando a madrasta olhando fixamente para ela, obrigou-a a prová-la. Ela obedeceu e seu rosto enrubesceu de prazer. A mulher enfurecida e envergonhada mandou-a para a cama sem que terminasse o jantar.

Passou o tempo. Um dia, o filho do rei organizou uma festa para comemorar sua maioridade. Convidou os vizinhos mais distintos dos arredores e a madrasta fez o possível para não perder o acontecimento.

Vestiu a filha com os melhores trajes e durante uma semana ensinou-lhes bons modos para que ela pudesse transitar pela corte. No entanto, nada fez por Nasrïn, simplesmente porque não pretendia levá-la ao baile. Finalmente chegou a noite da festa e ela foi deixada em casa. "A vida não podia ser tão injusta comigo", pensou. E como estava muito decepcionada, foi contar tudo aos ossos da vaca. Ao terminar o relato, eles começaram a brilhar com uma luz tão intensa como a da lua cheia. E, de repente, apareceram: um vestido branco, uma coroa e um belo cavalo. Uma grande alegria apoderou-se dela. Sem hesitar vestiu-se, encheu seu bolso esquerdo com pétalas de rosa e o direito com cinzas. Montou no cavalo e partiu velozmente em direção do palácio.

Ao entrar no salão, todos os presentes ficaram perplexos, e abriram caminho para ela. Todos os jovens queriam dançar com Nasrïn. Antes de terminar o baile, ela despediu-se agradecida, atirando pétalas de rosas aos convidados que a aplaudiam, e jogando as cinzas que trazia no outro bolso na madrasta e em sua filha.

As duas mulheres entraram na casa enfurecidas pelo humilhante gesto daquela bailarina pretensiosa. Nasrïn escutava do seu quarto os gritos das mulheres.

Dias mais tarde houve uma segunda festa no palácio. Também não a levaram e ela novamente pediu ajuda aos ossos da vaca. Desta vez a luz resplandecente presenteou-a com um bonito vestido rosa, uma coroa e um cavalo. Foi uma noite tão extraordinária como a anterior. Até dançou com o filho do rei. Ao despedir-se lançou as pétalas sobre os presentes e as cinzas sobre os vestidos das duas mulheres. Porém, desta vez, ao descer as escadarias do palácio tropeçou, e dividido à pressa, esqueceu-se do sapato que saíra do seu pé ao cair. O príncipe que corria atrás dela recolheu-o .

No dia seguinte, o rei, a pedido de seu filho, ordenou que procurassem a moça das pétalas de rosa. Os mensageiros chegaram à casa da madrasta que, após uma recepção calorosa, chamou sua filha para que experimentasse o sapato. Por mais que tentasse forçar com um calçador, o sapato não serviu... Então perguntaram à mulher se tinha outra filha. Diante da negativa de sua madrasta, Nasrïn começou a fazer barulho na cozinha onde a tinham trancado. Os mensageiros

abriram a porta e quando viram sua beleza, decidiram tentar a sorte. Efetivamente, o sapato era justamente do seu tamanho.

Os criados do rei pediram-lhe que se arrumasse e fosse ao palácio quando estivesse pronta. Agradecida, ela dispunha-se a tomar banho quando sua madrasta, enfurecida, trancou-a no banheiro mandando sua filha em seu lugar.

Mas o príncipe não era bobo, e quando viu que o rosto daquela moça não refletia a bondade da menina das pétalas de rosas, desconfiou e chamou seu criado para que lhe fizesse provar o sapato. Farto já das artimanhas da mulher, decidiu ir pessoalmente buscar Nasrïn para levá-la ao palácio. Ordenou que trancassem a madrasta no calabouço até que o casamento fosse celebrado.

Depois de sete dias e sete noites de festas, Nasrïn pediu ao príncipe que perdoasse a madrasta. Finalmente ele a deixou ir, mas mandou que fosse morar num lugar muito distante.

Contos Mágicos Persas – Coleção Arca da Sabedoria- Editora A

 

3.O Touro e o Homem

Um touro, que vivia nas montanhas, nunca tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por todos os animais que era ele o animal mais valente do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se resolveu a ir procurar o homem para saber se tal dito era verdadeiro. Saiu das brenhas, e, ganhando uma estrada, seguiu por ela. Adiante encontrou um velho que caminhava apoiado a um bastão.

Dirigindo-se a ele perguntou-lhe :

-

Você é o bicho homem ?

-

Não! – respondeu-lhe o velho.- Já fui, mas não sou mais!

O touro seguiu e adiante encontrou uma velha :

-

Você é o bicho homem ?

-

Não! Sou a mãe do bicho homem!

Adiante encontrou um menino :

-

Você é o bicho homem ?

-

Não!Ainda hei de ser, sou o filho do bicho homem.

Adiante encontrou o bicho homem que vinha com um bacamarte no ombro.

-

Você é o bicho homem?

-

Está falando com ele!

-

Estou cansado de ouvir dizer que o bicho homem é o mais valente do mundo e vim procurá-lo para saber se é mais do que eu!

-

- Então, lá vai! – disse o homem, armando o bacamarte e disparando-lhe um tiro nas ventas.

O touro, desesperado de dor, meteu-se no mato e correu até sua casa, onde passou muito tempo se tratando do ferimento.

Depois, estando ele numa reunião de animais, um lhe perguntou :

-

Então, camarada touro, encontrou o bicho homem?

-

Ah! Meu amigo, só com um espirro que ele me deu na cara, olhe em que estado fiquei!

José de Carvalho. "O Matuto cearense e o Caboclo do Pará", em Contos Tradicionais do Brasil, recolhidos por Luís da Câmara Cascudo, Global Ed