Paleontologia

Cenozóico - Uma História Natural


 

 

Sr. Mamute

"Entre as injúrias lançadas contra um presidente em exercício em toda a história dos Estados Unidos, o epíteto com que os inimigos de Thomas Jefferson o mimosearam em 1808 foi especial:

«Sr. Mamute.» O embargo que Jefferson lançara contra todo o comércio externo, destinado a castigar a Grã-Bretanha e a França pelo monopólio das rotas de navegação, tinha saído pela culatra. Enquanto a economia dos EUA entrava em colapso, e a dos seus opositores prosperava, o presidente Jefferson podia ser visto na Sala Leste da Casa Branca brincando com a sua colecção de fósseis.

 Era verdade. Jefferson, um naturalista apaixonado, tinha sido cativado durante anos por relatos acerca de enormes ossos encontrados num lago salgado algures no Kentucky. As várias descrições sugeriam que eram semelhan-tes a restos, descobertos na Sibéria, de uma espécie de elefante gigante, que os cientistas europeus julgavam extinto. Escravos africanos tinham reconhecido os gigantescos molares encontrados nas Carolinas como pertencentes a um tipo de elefante, e Jefferson tinha a certeza de que era o mesmo.

Em 1796 recebeu um carregamento, supostamente de ossos de mamute, de Greenwich County, Virgínia, mas uma enorme mandíbula alertou-o imediatamente para o facto de isto ser coisa diferente, possivelmente uma espécie gigantesca de leão. Ao consultar anatomistas, acabou por identificá-lo e é-lhe creditada a primeira descrição de uma preguiça terrestre norte-americana, hoje denominada Megalonyx jefersoni.

O que mais o entusiasmara, no entanto, eram os testemunhos de índios das imediações do lago salgado do Kentucky, alegadamente corroboradas por outras tribos mais para Oeste, de que o monstro de grandes presas em questão ainda vivia lá para o Norte.

Depois de se tornar presidente, enviou Meriwether Lewis estudar o local do Kentucky a caminho de se juntar a William Clark na sua histórica missão. Jefferson tinha encarregado Lewis e Clark não só de atravessarem a Luisiana e procurarem uma passagem fluvial para o Pacífico, mas também de encontrarem mamutes e mastodontes vivos, ou qualquer coisa igualmente grande e invulgar.

Por outro lado, esta parte da sua espantosa expedição revelou-se um fracasso; o mais impressionante mamífero de grandes dimensões que eles referiram foi o carneiro de chifres grandes. Mais tarde, Jefferson contentou-se em enviar Clark de volta para o Kentucky para trazer os ossos de mamute que exibiu na Casa Branca e que hoje fazem parte de museus dos Estados Unidos e de França.

Atribui-se-lhe muitas vezes a fundação da ciência da paleontologia, apesar de não ser essa verdadeiramente a sua intenção. A sua vontade era des-mentir uma opinião, expressa por um proeminente cientista francês, de que tudo no Novo Mundo era inferior ao Velho, incluindo a sua vida selvagem. "

"O Mundo sem Nós". Weisman. Estrela Polar

Afinal como se extinguiram os mamutes?

Uma Teoria - Paul Martin e a Blitzkrieg!!

Quebec (Canadá) - 1956

Num fim-de-semana de neve, cansado de contar minúsculos grãos de pólen, a Paul Martin, abriu um teste de taxinomia e começou a contar o número de mamíferos que tinham desaparecido na América do Norte ao longo dos últimos 65 milhões de anos. Quando chegou aos três milénios finais do Pleistoceno, que duraram de 1,8 milhões até cem mil anos atrás, começou a notar algo de estranho.

Durante o período de tempo que coincidia com as suas amostras de sedimento, que começava há cerca de treze mil anos, ocorrera uma explosão de extinções. Pelo início da época seguinte - o Holoceno, que continua hoje -cerca de quarenta espécies tinham desaparecido, todas elas de grandes mamíferos terrestres. Ratos, ratazanas, musaranhos, e outras pequenas criaturas de pêlo, tinham sobrevivido, tal corno os mamíferos marinhos. A megafauna terrestre, no entanto, tinha sofrido um golpe letal.

Entre os desaparecidos estava uma legião de Golias do reino animal: tatus gigantes e os ainda maiores gliptodontes, semelhantes a Volkswagens blindados, com caudas que acabavam em massas com espinhos. Havia gigantescos ursos de focinho pequeno, com quase o dobro do tamanho dos grizzlies e, tendo membros extralongos, muito mais rápidos - uma teoria sugere que estes ursos gigantes do Alasca foram a razão por que os seres humanos não atravessaram mais cedo o estreito de Bering.

Castores gigantes, tão grandes como os actuais ursos pardos. Pecaris gigantes, que poderão ter sido presas dos Pant-hera leo atrox, o leão americano que era consideravelmente maior e mais ágil dos que as espécies africanas hoje sobreviventes. Igualmente, um horrendo lobo, o maior dos caninos, com uma enorme bateria de dentes aguçados.

O mais conhecido dos colossos extintos, o mamute de pelo longo do norte, era apenas uma das muitas espécies de Proboscidea, que incluíam o mamute imperial, o maior de todos, com dez toneladas; o mamute da Columbia, sem pêlo, que vivia em regiões mais quentes. E, nas Ilhas do Canal da Califórnia, um mamute anão não maior do que um humano - só os elefantes do tamanho de um cão das ilhas mediterrânicas eram menores. Os mamutes eram animais de pasto, evoluíram para as estepes, para as pastagens e para a tundra, ao contrário dos seus parentes muito mais antigos, os mastodontes, que andavam por bosques e florestas.

Os mastodontes tinham existido durante trinta milhões de anos, estendendo-se do México ao Alasca e à Florida - mas, de repente, também eles desapareceram.

Três géneros de cavalos americanos: desaparecidos.

Múltiplas variedades de camelos e tapires norte-americanos, numerosas criaturas com cornos, dos doces antilocapras ao cervalces scotti que parecia um cruzamento entre um alce e um elande, mas maior que qualquer um deles, todos extintos, bem como o tigre dentes-de-sabre e a chita americana (razão por que as únicas espécies de antilocapras restantes são tão rápidas).

Todos extintos. E todos sensivelmente ao mesmo tempo.

O que é que, pensou Paul Martin, poderia ter provocado isso?

No ano seguinte, estava ele em Tumamoc Hill, com o seu corpo robusto de novo empoleirado num microscópio. Desta feita, em vez de grãos de pólen salvos da decadência por uma camada impermeável de sedimentos no fundo de um lago, observava fragmentos preservados numa caverna do Grande Canyon livre de humidade.

 Logo depois de ter chegado a Tucson, o seu novo chefe no Desert Lab tinha-lhe entregado um bloco terroso cinzento com o tamanho aproximado de uma bola de futebol americano. Tinha pelo menos dez mil anos de idade, mas era inegavelmente um bloco de fezes. Mumificado mas não mineralizado, continha fibras identificáveis de ervas e florações de malva. O abundante pólen de zimbro que Martin encontrou confirmou a idade avançada do seu objecto: as temperaturas junto ao solo do Grande Canyon não tinham sido suficientemente frias para manter o zimbro durante oito milénios.

O animal que o defecara fora uma preguiça terrestre Shasta. Hoje, as únicas preguiças sobreviventes são duas espécies que vivem nas árvores nos trópicos da América Central e do Sul, pequenas e suficientemente leves para habitarem silenciosamente nas copas longe do solo, fora de perigo. Esta, no entanto, era do tamanho de uma vaca. Caminhava sobre os nós dos dedos como outro dos seus parentes sobreviventes, o papa-formigas gigante da América do Sul, para proteger as garras que usava para escavar e se defender. Pesava meia tonelada, mas era a mais pequena das cinco espécies de preguiças que erravam pela América do Norte, do Yukon à Florida. A variedade da Florida, do tamanho de um elefante moderno, ultrapassava as três toneladas. Era só metade do tamanho de uma preguiça terrestre da Argentina e do Uruguai que, com quase seis toneladas, era maior do que o maior dos mamutes.

Passaria uma década antes de Paul Martin visitar a falha no arenito vermelho do Grande Canyon, acima do rio Colorado, onde tinha sido recolhida a sua primeira bola de estrume de preguiça. Por essa altura, as preguiças terrestres extintas da América tinham começado a significar, para ele, muito mais do que meros mamíferos descomunais que tinham caído no esquecimento. O destino das preguiças forneceria o que Martin acreditava ser a prova conclusiva deuma teoria que se formava no seu espírito à medida que os dados se acumulavam como sedimentos estratificados. No interior da caverna de Rampart existia um monte de estrume depositado, segundo concluíram ele e os colegas, por incontáveis gerações de preguiças fêmeas que se abrigaram ali para dar à luz. A pilha de estrume tinha metro e meio de altura, três metros de largura e mais de trinta metros de comprimento. Martin sentiu-se como se tivesse penetrado num local sagrado.

Quando vândalos lhe pegaram fogo há dez anos, a camada fóssil de estrume era tão grande que ardeu durante meses. Martin ficou abalado, mas por essa altura já tinha influenciado o mundo da paleontologia com a sua teoria sobre o que é que tinha liquidado milhões de preguiças terrestres, porcos selvagens, camelos, Proboscidea, vinte espécies de cavalos - sessenta géneros inteiros de grandes mamíferos do Novo Mundo, todos desaparecidos num piscar de olhos geológico de cerca de mil anos.

«É muito simples. Quando as pessoas saíram de África e da Ásia e alcançaram outras partes do mundo, foi a grande confusão.»

A teoria de Martin, logo alcunhada de Blitzkrieg tanto pelos seus apoiantes como pelos seus detractores, dizia que, a começar pela Austrália há cerca de 48 mil anos, à medida que os seres humanos chegavam a um novo continente encontravam animais que não tinham razão para suspeitar que aquele pequeno bípede fosse particularmente ameaçador.

 

Foi demasiado tarde que perceberam o contrário. Mesmo quando os hominídeos eram ainda Homo erectus, já estavam a produzir em massa machados e cutelos em fábricas da Idade da Pedra como a de Olorgesailie, no Quénia, descoberta um milhão de anos mais tarde por Mary Leakey. Na altura em que um grupo chegou ao limiar da América há treze mil anos, já eram Homo sapiens há pelo menos cinquenta mil anos. Usando os seus cérebros maiores, os humanos já tinham então dominado não só a tecnologia de prender pedaços de pedra aguçados na ponta de paus de madeira, mas também o atlatl, uma alavanca de madeira que lhes permitia atirar uma seta de forma suficientemente rápida e precisa para derrubar animais relativamente grandes de uma distância relativamente segura.

"O Mundo sem Nós". Weisman. Estrela Polar

 

Outros estudos as mesmas conclusões (Caitlin Sedwick)

 

O mamutes sofreram uma experiência terrível provocada pela destruíção do seu habit, à medida que os glaciares recuavam durante a última glaciação do Holocénico, mas o fim veio com o Homem!

The authors' findings demonstrate that mammoths experienced a catastrophic loss of habitat: as the last glaciers retreated and the planet warmed, 90% of the animals' former habitat disappeared. Prime mammoth habitat progressively shrank from 7.7 million square kilometers 42,000 years ago (in the midst of the last glacial advance) until just 0.8 million square kilometers remained 6,000 years ago. The animals were restricted to isolated tracts spotted across Eurasia and tiny patches squeezed up against the northern coastal edges.

Although the near obliteration of their habitat would have placed great pressure on the species, the situation appeared even more dire during the previous glacial retreat 126,000 years ago, when only 0.3 million square kilometers of prime habitat existed. At that time, the species probably teetered on the brink of extinction, as geographically isolated groups experienced declines in genetic diversity and fitness. Even so, the mammoths had managed to survive that crucible.

What was different about the Holocene? The remaining mammoth herds faced a foe that hadn't existed 126,000 years ago: human hunters.

Humans evolved to their modern form during the Pleistocene and migrated north with the final retreat of the glaciers, hunting mammoths as they advanced. By the middle of the Holocene, mammoth populations were so vulnerable that it would not have taken much hunting pressure to push them to extinction. Under the authors' most optimistic estimates of mammoth population size and density, if each human killed just one mammoth every 3 years, the species would go extinct.

Fonte : What Killed the Woolly Mammoth?< xml="true" ns="urn:schemas-microsoft-com:office:office" prefix="o" namespace="">

Caitlin Sedwick© 2008 Public Library of Science. This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution

 

 

Extinções no Pleistocénico: nossos primeiros crimes?



A última era glacial iniciada há 40 mil anos e que perdurou até 12 mil anos provocou grandes modificações na composição da fauna mundial.

 
O desparecimento de várias espécies nesse período devido às transformações ambientais drásticas seriam inevitáveis, porém as extinções durante a última glaciação concentram-se em espécies terrestres e de grande porte (megafauna), um fenómeno que empobreceu bastante a fauna mundial e que intriga até hoje a comunidade científica.

Durante esse período foram extintos 19 géneros e mais que 50 espécies na Austrália e mais de 70 géneros nas Américas – quase todos eram animais terrestres e, vitualmente, todos eram de grande tamanho.
 
A fauna americana, por exemplo, empobreceu-se após perder mamutes, cavalos, camelos, preguiças gigantes capazes de alcançar o segundo andar de um prédio, além de castores gigantes, gliptodontes maiores que fuscas, tartarugas, espécies de roedores do tamanho de rinocerontes, leões e tigres de dente-de-sabre.
 
Combinadas, as Américas perderam cerca de ¾ de suas espécies de grande porte, enquanto que, na Europa, desapareceram 1/3 ou metade de seus animais.

Existem três teorias mais aceitas para se tentar descrever a extinção da megafauna pleistocênica: (1) a ocorrência de mudanças climáticas radicais;
(2) um excesso de caça dos nossos antepassados e o
(3) surgimento de uma pandemia.
 
Porém, todas estas hipóteses têm recebido uma série de críticas.
O aumento da temperatura da terra durante o final do Pleistocenio foi a primeira hipótese sugerida para explicar as extinções durante esse período. Segundo seus proponentes, o stresse causado pelas elevações da temperatura em animais adaptados a climas frios teria levado as espécies a extinção. E o facto de que este processo tenha afectado espécies de grande porte poderia ser explicado porque estes organismos teriam maiores dificuldades de se adaptarem às mudanças climáticas devido a sua reduzida razão entre a superfície e massa corporal.
 
A extinção de carnívoros e sapróftitas seria uma consequência da eliminação de suas presas, os herbívoros de grande porte.
 
Contudo, pesquisas têm mostrado que as mudanças de temperatura ocorridas no final do Pleistocenio já haviam sido verificadas em períodos interglaciais anteriores sem que ocorressem extinções.

Uma outra possibilidade sugerida é que as mudanças climáticas tenham afectado o regime de chuvas e a vegetação (transição de florestas para pradarias) e, consequentemente, a oferta de alimento para esses organismos. Contudo, há exemplos de animais que sobrevivem a essas mudanças. Além disso, os cavalos que foram extintos na época foram reintroduzidos com sucesso na América do Norte em um período pós Pleistocênico. A ocorrência de gramíneas, a fonte alimentar desses herbívoros, durante a transformação de florestas em pradarias é, inclusive, aumentada.
 
Além disso, várias dessas extinções não coincidem com os períodos de mudanças ambientais mais drásticas ou com outros factos observados no período como o surgimento do ligação entre a Ásia e a América do Norte através do estreito de Bering.

A hipótese da caça excessiva foi porposta pelo Professor de Geociências da Universidade do Arizona Paul Martin e basea-se no facto de que 80% das extinções da megafauna ocorreram nos primeiro milénio após a chegada do homem no continente.

O desaparecimento de um só golpe de tantas espécies de grande porte coincidiu com a chegada da espécie humana a esses continentes. Porém, as populações caçadoras primitivas eram pequenas e o número de espécies animais era enorme, indicando que a hipótese de que um excesso de caça pode ter levado esses animais à extinção.

Opositores dessa teoria afirmam que não há evidências de que algumas das espécies extintas (como camelos e preguiças gigantes) foram alvo de predação dos nossos antepassados.
 
 
 
 
 
 
Além disso, alguns animais como bisntes comprovadamente caçados pelos humanos durante esse período não se extinguiram. Outra questão levantada é que não há uma relação entre alguns dos episódios de extinção e a presença de seres humanos em determinadas regiões.

Uma hipótese associada a essa é a teoria de que os colonizadores humanos tenham eliminado os predadores dos herbívoros durante o final do Pleistocenio. Isso poderia causar um   desequilíbrio populacional dessas espécies que, com um super-crescimento populacional, teriam esgotado seus recursos alimentares e se extingüido.
 
Contudo, há evidências de extinção da megafauna em locais onde não existiam seres humanos ou apenas populações muito esparsas.
A teoria da pandemia afirma que doenças trazidas pelos colonizadores humanos e os  seus animais de estimação podem ter dizimado as espécies animais durante o final do Pleistocenio.
 
Porém, não há evidências da ocorrência desse patógenico ou de qualquer organismo que fosse capaz de eliminar todos os indivíduos de tantas espécies.
 
Em vista de que nenhuma dessas teorias explica a extinção em massa da megafauna durante o Pleistocenio, uma outra possibilidade sugerida por alguns psquisadores para solucionar esse mistério
é que mudanças climáticas associadas a uma pressão humana de caça tenham contribuído para essa extinção. Porém, esse processo permanecerá  um mistério até que alguma descoberta nova venha a trazer novos dados para solucionar esse problema.
Actualmente subsistem em nosso planeta apenas 4 animais terrestres de tamanho similar ao das espécies varridas de nosso planeta durante o Pleistocénio: elefantes, girafas, rinocerontes e hipopótamos.
 
Certamente a Terra tornou-se um lugar mais seguro porém bem menos bonito para se viver.
 
Imagens:
Desenhos de uma preguiça gigante e de um gliptodonte
(
http://mapmf.pmfst.hr/~adolic/slika13.jpg)
Desenho de um matodonte
Crânio de um tigre de dentes-de-sabre

 

 

 

Guerra Fóssil (À Procura de Mamutes!)

Os mamutes lanudos extinguiram-se, mas as suas presas, como esta, escavada na Sibéria, fazem parte de um crescente comércio internacional de fósseis que tem tanto de lucrativo como de polémico.

Texto de Lewis M. Simons; Fotografias de Lynn Johnson, National Geographic

 

"Fyodor Shidlovskiy e Mike Triebold não se conhecem, mas partilham a paixão por animais há muito mortos e enterrados. Todos os verões, Shidlovskiy organiza uma expedição com homens, autocarros, camionetas, veículos anfíbios, aviões, helicópteros e lanchas, e aventura-se até à tundra do Nordeste da Sibéria.

Aproveitando os dias longos do Verão árctico, ele e a equipa passam várias semanas a recuperar ossos e presas de mamutes lanudos, os desajeitados precursores dos elefantes da actualidade que, até há cerca de dez mil anos, deambulavam pelas estepes lado a lado com os nossos antepassados.

 

As descobertas de melhor qualidade são restauradas (com betume de bate-chapas e verniz) e montadas em esqueletos completos. Os ossos e presas de menor qualidade são entalhados e transformados em tabuleiros de xadrez e bugigangas. Os menos valiosos de todos são triturados para uso na farmacopeia tradicional chinesa.

Tudo acaba por se vender, sobretudo em Hong Kong e nos EUA. "

 

Parque Pleistocénico (Original em Português do Brasil)

Colunista mostra a quantas andam as tentativas dos cientistas de recuperar genes dos mamutes

Artigo original em : http://cienciahoje.uol.com.br/63248

Os mamutes lanudos ( Mammuthus primigenius ) viveram nas regiões frias da América do Norte, Europa e Ásia (arte: Museus Nacionais da Escócia).

Ao lado dos dinossauros, os mamutes estão entre os animais extintos que mais mexem com o imaginário popular. Esses paquidermes me fascinam desde a infância, quando eu gostava de passear no zoológico de Belo Horizonte e ver seus parentes atuais, os elefantes africanos. Ultimamente, uma grande quantidade de descobertas científicas têm tornado os mamutes os animais pré-históricos mais conhecidos pela ciência.

Os antepassados das quatro espécies conhecidas de mamutes surgiram na África há 4,8 milhões de anos e posteriormente se dispersaram para a Europa, América do Norte e Ásia. Nas regiões frias desses continentes, esses mamíferos eram ornados com uma pelagem abundante e longa (em torno de 50 cm) – por isso, foram denominados mamutes lanudos ( Mammuthus primigenius ).

Apesar de terem se originado na África, os mamutes têm um parentesco maior com os elefantes indianos do que com seus primos africanos, como mostrou o seqüenciamento do DNA mitocondrial desses proboscídeos, finalizado em dezembro de 2005 por uma equipe comandada por Michael Hofreiter, do Instituto Max Planck em Leipzig (Alemanha). Isso acontece porque a divergência entre as linhagens de elefantes indianos e africanos só ocorreu entre 5,5 e 6,3 milhões de anos atrás.

Apesar do grande sucesso dos mamutes lanudos, que chegaram a alcançar uma densidade populacional bastante elevada, esses paquidermes se extinguiram ao final da última era glacial, há cerca de 11 mil anos, durante o Plestoceno, embora alguns relatos afirmem que os últimos mamutes resistiram até 3500 anos atrás em regiões isoladas.

Representação de um mamute encontrada na caverna de Lascaux, no sudoeste da França. As pinturas rupestres da caverna são datadas entre 18 mil e 15 mil anos atrás (foto: Universidade de Aberdeen).

As razões para a reviravolta na história desses animais são controversas. A maioria dos autores cita as mudanças climáticas como o principal fator responsável pelo desaparecimento dos mamutes – uma triste jornada em direção à extinção que foi retratada no filme A era do gelo 2 . Contudo, alguns pesquisadores afirmam que doenças ou a pressão de caça exercida por nossos antepassados pode ter, pelo menos, acelerado o ocaso desses animais (vou encerrando por aqui essa minha descrição paleontológica, para evitar que o Alexander Kellner puxe minha orelha caso eu fale alguma besteira!).

De volta à vida?
Os mamutes andam em evidência nos últimos tempos, pois diversos grupos de pesquisa têm se empenhado em desenvolver estratégias para “revivê-los”. Mas não espere ver esses cientistas extraindo DNA de pernilongos pré-históricos preservados em âmbar como no filme Jurassic Park . O material genético dos mamutes tem sido recuperado de fontes tão surpreendentes quanto essa e que contribuem para que esses animais sejam mais bem conhecidos.

Diferentemente do que acontece com a maioria dos animais extintos, as informações sobre a biologia dos mamutes têm sido obtidas diretamente a partir de tecidos preservados. Esse material é obtido de cadáveres desses animais conservados praticamente intactos sob o gelo da Sibéria. Um exemplo disso foi o relato feito em maio deste ano por grupos de pescadores de Novoselovo, no norte da Rússia, que encontraram uma carcaça bastante preservada de um mamute após o degelo causado por uma enchente.

Os cientistas estimam que um grande número de corpos ainda esteja por ser descoberto sob o gelo eterno da Sibéria. Historicamente, essas carcaças têm sido utilizadas como alimento por alguns habitantes dessa região inóspita. Conta-se inclusive que elas foram consumidas pelo exército russo durante a campanha contra as tropas de Napoleão Bonaparte (apesar de fontes afirmarem que a carne estava putrefata e que foi devorada apenas por cães). Além disso, as longas presas desses animais (com até 1,8 metro) têm sido comercializadas há milhares de anos por mercadores siberianos.

Reconstituição do esqueleto de um mamute (foto: J.C. Outrequin).

Uma das alternativas cogitadas para a clonagem desses animais consiste na retirada de óvulos e/ou espermatozóides de mamutes, que poderia levar à fertilização in vitro e à gestação em fêmeas de elefante indiano que, assim, seriam empregadas como “barrigas de aluguel”. Contudo, isso depende de se encontrar gametas femininos e masculinos viáveis desses animais pré-históricos. Se forem encontrados apenas espermatozóides viáveis, poderia se tentar produzir um animal híbrido entre mamute e elefantes indianos. Cruzamentos selecionados poderiam posteriormente restabelecer algumas características genéticas dos mamutes.

Equipes de pesquisadores da Universidade de Kinki (Japão) e do Centro Viktor de Pesquisas em Virologia (Rússia) têm também tentado o isolamento do DNA de mamutes e a sua introdução (por transferência nuclear somática) em gametas anucleados de elefantes indianos. Porém, a degradação do material genético desses paquidermes, aliada às condições inadequadas de preservação, faz com que a maior parte do DNA das amostras coletadas esteja fragmentado, sendo assim inadequado para a essas tentativas de clonagem.

Desse modo, a clonagem dos mamutes continuará inviável até que um golpe de sorte mude tudo e esses animais possam ser “revividos” à semelhança do que ocorreu com o com o gauro indiano, primo dos búfalos ameaçado de extinção que foi clonado no ventre de uma vaca há seis anos.

O mais provável, no entanto, é que consigamos ter acesso apenas a alguns genes dos mamutes que tenham sido, por sorte, preservados após milhares de anos, e não a seu genoma integral. Assim, embora esses magníficos animais não possam provavelmente reviver como os dinossauros de Jurassic Park , os cientistas terão acesso em seus tubos de ensaio a algumas das proteínas produzidas em suas células, que podem ser o começo de um “Parque Pleistocênico” molecular.

Jerry Carvalho Borges
Colunista da CH On-line 
01/12/2006