PEQUENOS CONTOS






 
 
CASA VELHA
Durante muito tempo, aquela casa representou
a felicidade para toda a família, e motivos para que
permanecessem unidos. Era lá que todos se reuniam
nos fins de semana. Lá se comemorava os natais, aniversários
e nascimentos de novas pessoas da família
Não era, de maneira alguma, uma rara beleza
de arquitetura nem da paisagem que a cercava.
Pelo contrário, era até uma construção simples
em um local sem muita pompa e sem beleza
estonteante. Um pouco isolada, quando chovia
se tornava difícil o acesso, devido às estradas não muito
bem conservadas. Mas lá havia a beleza
das coisas que viram as crianças crescerem,
que cresceram juntas e foram motivos de alegria
e aprendizados, com a horta e o jardim que todos,
desde pequenos ajudavam a plantar
e conservar. Havia as flores e as tardes lentas
que inspiravam tantos sonhos e versos.
Cada canto da casa e do quintal guardava lembranças
de tempos felizes, de amores, e desamores,
esperanças e desesperanças.
Quando foi anunciada a demolição, houve muitos
protestos, choros e tentativa de reverter à decisão.
Mas seria lutar contra uma força maior que do
que as que possuíam. Afinal, o progresso
tem destas coisa se é preferível olhar o lado
bom dos acontecimentos.
Desta forma, a casa, o quintal, horta e jardim
foram transferidos para o álbum de fotografia.
Fotografias tiradas com sentimento, com desejo de
mostrar ali, todas as emoções vividas em cada cômodo,
cada canto e eternizar as alegrias e bons momentos,
para amenizar as saudades, quando estas viessem
bater à porta sem aviso e sem piedade.

Camélia La Branca
14/10/009
 
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Vejo flores


Havia qualquer coisa de mágico naquelas manhãs
ensolarados, quando saíamos para o costumeiro passeio matinal,
eu e meus três irmãos menores.
Por mais triste que seja a vida, crianças sempre vêem beleza
nas coisas naturais: um pássaro que canta, uma flor que desabrocha,
um riacho transparente e qualquer coisa que lhe chame a atenção.
Até um ruído de folhas secas com movimento de algum inseto.

Refiro a estas coisas da natureza porque assim, foi a minha
infância. Sem nenhum contato com o resto do mundo, a
não ser os professores e os colegas de sala. Só na escola. Não havia rádio,
televisão, jornais ou amigos para conversar. Eram nós, os sete irmãos,
uma mãe ausente e um pai mais ausente ainda.

Mas passar horas numa chácara cheia de encantos, era tudo.
Não precisava mais nada. Ali, tinha companhia,
diversões, conforto e muita alegria.

Meus dois irmãos mais velhos não falavam comigo. Detestavam-me
desde o meu nascimento, ao receberem a notícia de que era
uma menina e não um menino como eles. (Jamais vi um caso semelhante).
As outras que vieram depois de mim, foram perdoadas,
mas eu não poderia ser, já que fui a primeira "intrusa" segundo eles.
Os menores também se entendiam melhor entre eles, tornando
dispensável o meu entrosamento.

Portanto, me restava a natureza; as flores, as árvores, os pássaros
e toda beleza do sol. À noite tinha as estrelas, a lua e meus
sonhos. Aprendi a linguagem das flores, dos pássaros, dos meus
gatos e cães. Passei a me senti completamente integrada a eles.

Havia uma enorme árvore que era meu esconderijo.
Eu subia, escondia entre os frondosos galhos e ninguém me encontrava.
Aquele era o meu mundo mágico. Só meu.
Ninguém mais sabia dos meus sonhos, dos momentos
incríveis que eu passava ali, com minhas fadas imaginárias,
meus príncipes e princesas dos castelos
dos mundos encantados.
 
Tinha que imaginar tudo, já que não possuía livros
para ler e nem amigos para emprestar-me.
Meu maior sonho era um dia, ser dona de uma
biblioteca e poder ler todos os livros que existissem. Estava cansada de ler a velha
bíblia e os raros livros didáticos doados pela escola.

Mas o encanto daqueles dias vividos com a natureza ficaram em mim.
Fazem parte da visão que tenho da vida e do mundo.
Talvez seja por isto que todas as vezes que fecho os olhos, vejo flores,
muitas flores de todas as cores e formatos.


Camélia La Branca.
09/02/009

 

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Ramagem
 
Uma delicada ramagem de samambaia
pendia de um vaso acima da janela
e caia como uma cortina verde rendada,
protegendo a sala dos fortes raios do sol
que àquela hora da tarde castigava
o ambiente aumentando ainda
mais o calor dos longos dias de verão.
Na sombra daquela ramagem eu escrevia
versos e poemas dedicados a você.
Havia qualquer coisa de magia, que tornava o verde mais verde,
o azul mais azul quando eu estava junto àquela samambaia.
Ou seriam os sonhos abrigados em meu coração e mente?
Só sei que eu sonhava com teus lindos olhos e a luz
que deles, emanava, e mesmo distante era o que mais inspirava
meus singelos versos.
Agora em pleno inverno, eu recordo a samambaia e os dias quentes
de verão.
E a luz dos seus olhos continua em meu coração...
Camélia La Branca

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