Os Conflitos de fé dos filósofos

                                                                           

Jônatas Francisco da Cunha 

 

    É pastor evangélico da Igreja Cristã Evangélica no Jardim das Indústrias em São José dos Campos. É também professor de Filosofia e fé, Cultura e religiosidade brasileira no CETEVAP. Como escritor, é autor das obras Igreja U.T.I, Apocalipse Agora, Os conflitos de fé dos filósofos e das peças Epitáfio em alto mar e Não atire a primeira pedra.  Na área da música gravou dois Cd’s e atualmente decidiu engajar-se na causa do meio ambiente com a obra Lembranças do Rio Paraíba do Sul.

 

Tema central

 

    O autor apresenta aos leitores, uma comovente luta com os principais ícones da filosofia moderna, abordando a fé que herdaram dos pais e o impacto provocado pelo racionalismo em suas vidas. Comprova que apesar da gigantesca influência ateísta provocada por suas idéias em várias civilizações, ainda lhe restavam um vislumbre de fé. Trata-se de um livro ímpar a começar pelo berço biográfico de cada um dos filósofos ateus, enfocando algumas razões pelas quais deixaram de advogar em favor da fé optando pelo racionalismo. Ressaltamos a grande diversidade de assuntos no contato com cada filósofo abordado.

 

Abordagem

 

    Com um pouco de imaginação, o autor faz uma viagem apologética no tempo, se reportando a terra natal de cada filósofo, conseguindo encontros com cada um deles. Os encontros começam descontraidamente falando das curiosidades culturais, geográficas e riquezas de suas cidades, até o momento das entrevistas. O calor dos seus debates são temas e conteúdos das próprias obras dos filósofos, confrontadas pela veracidade da fé. Com um pouco de habilidade, o autor vai desvendando nas próprias idéias de cada filósofo, muitas coisas comum entre razão e fé. Destaca sobre a importância destas duas vias para o encontro da verdade absoluta. Refletindo cuidadosamente sobre suas vidas, idéias, obras e premissas, descobre que eles tão somente tentaram negar a fé no Deus vivo, que na verdade estava adormecido dentro deles. 

                                         

Relevância para público

 

    A grande vantagem deste livro está no fato de o leitor poder conhecer um pouco a biografia de cada filósofo denominado ateu, e talvez pela primeira vez surpreender-se com seu berço de fé. É possível que nenhum outro livro ofereça um conteúdo com uma vasta investigação neste sentido, para líderes e professores cristãos. A abordagem através de debates pessoais torna o livro ainda mais atrativo.Seu alvo é oferecer uma reflexão abrangente da filosofia sob a ótica cristã, advogando sua importância para a fé. Ao iniciar sua leitura com Nietzsche, o leitor logo se desmistificará do conceito que toda filosofia é vã, e usará este livro como uma boa ferramenta. Esta obra foi trabalhada no sentido de oferecer um bom instrumento acadêmico para discussão de temas relevantes e conflitantes em favor da fé cristã. 

 

 

Encontros com:

 

Friedrich Nietzsche -  1844 – 1900

Kal Marx - 1818 – 1882

Imanuel Kant - 1724 – 1804  

David Friedrich Strauss -  1808 – 1874

Sigmund Freud - 1856 – 1932

Baruch Espinosa - 1632 - 1677

Ludwig Feuerbach -  1804 – 1872

Charles Darwin -  1809 – 1882  

Giordano Bruno - 1548 – 1600

Jean-Jacques Rousseau - 1712 – 1778

René Descartes - 1596 – 1650

Agostinho dos Santos - 354 - 430 DC
                                                                    Temas relevantes para reflexões em grupos
 
                 

 

                                                                              NIETZSCHE

                                   
                                                           A questão do movimento 
                                                                     
 
O Senhor ressalta o “Devir” no pensamento de Heráclito de Éfeso, onde tudo não passa de um movimento sem fim, afirmando não haver permanência e repetição de nada dentro do movimento intuitivo.6 Usou também a metáfora do fogo que faz acender e apagar existências, para afirmar o início de todas as coisas, mas que não permanecem idênticas, mesmo por um instante sequer, por causa do movimento. Vejo que o senhor adota o pensamento de Heráclito onde tudo não passa de um “Vir a Ser”.
 
    Será que nesta linha reflexiva, “O Vir a Ser” de Heráclito não poderia ser um movimento favorável na busca da perfeição? Não seria interessante pensar, que a cada instante presente, quando eu deixo de Ser concupiscente posso ser um pouco mais espiritual? E todas as vezes que deixo de Ser concupiscente, eu estou em ação com o Ser espiritual, que já está em potência na minha essência? Eu penso, que é neste movimento que nós crescemos e nos aperfeiçoamos. Assim como ninguém passa duas vezes num mesmo rio ou toca duas vezes numa mesma substância, porque nada permanece idêntico em si mesmo, tal é o homem na sua inquietude. Que tal se olhássemos para o movimento como parte central da esperança do “Vir a Ser” eterno para alma? Se no Devir deixamos de Ser para um “Vir a Ser”, por que não deixarmos o futuro se manifestar em nós pelas leis Divinas? “Pois nele vivemos, e nos movemos e existimos, como alguns dos vossos poetas tem dito: porque dele também somos geração” At 17:28.
 

                                                              Segurança da certeza imediata

 

Em sua obra Ecce homo, o senhor afirma existir por traz de cada expressão uma complexidade de relações reais que em muito ultrapassam nossas possibilidades cognitivas. “Só os ingênuos observadores de si mesmos, acreditam existir certezas imediatas como eu penso, ou eu quero, como se o conhecimento preenchesse seu objeto puro e nu, como uma coisa em si” Considerando tal equivocação em nossas buscas, inclusive dos impulsos fisiológicos de caráter volitivo, não seria coerente recorrer a mecanismos extra razão como a fé na busca da segurança Divina?

 

 “Eu sou o bom pastor, eu conheço as minhas ovelhas e elas conhecem a mim” Jo 10:14, “ Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva a sua vinda é certa” Os 6:3 

                                                                                 

                                                                Existências e Existências

 

É interessante como o senhor deixa claro que não está em pauta nesta psicologia, patologias usuais da medicina, mas sim doenças que se manifestam nos diversos tipos de humanidade. Nesta linha de raciocínio, nasce a existência de uma construção aversiva contra qualquer negação em nome de um “nada” que está além de um outro “nada.” Mas ao mesmo tempo procura firmar a existência e a vida, caracterizada na luta por mais poder.

 

 

Eu penso que do ponto de vista da religião ou auto-ajuda, perdemos muito em negar existência nesta vida. Mas do ponto de vista fé, não se nega existência nesta vida como tal, mas porém alguns tipos de existências que se contrapõe as expectativas do porvir.  Eu creio que a verdadeira essência da alma começa com o ato de negar. O senhor concordaria com minha modesta convicção, de que é preciso negar algo para possibilidade de ganhar outro?

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome sua cruz e siga-me, porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? “ Mt 16:24-26.

   

                                                                    Religião e modo de vida

 

Vejo também com certo pesar o cristianismo sendo confrontado em Dionísio por causa da negação desta vida em nome do além. Mas admiro os argumentos na sua obra “o anti-cristo”, a posição do sacerdote que faz de suas doutrinas religiosas a negação desta vida. Eu creio que se o cristianismo for colocado nesta lógica, obviamente prestaria o mesmo papel das religiões. Em minhas considerações, tenho o cristianismo como um “modo de vida” que nega apenas certos sistemas de outros “modos de vida” que são impostos pela doença do niilismo espiritual. Neste caso, eu não viria a figura de Cristo como parte deste niilismo, mas na construção de um cristianismo  autêntico. O grande problema entre vida dionisíaca e cristianismo, está no tipo psicológico colocado pelo senhor do além-do-homem como figura superior e exemplar, e a evolução para uma espécie superior num sentido biológico.

 

                                                  Conhecimento elementar e conhecimento de Deus

 

Achei profundamente conclusivo quando o senhor afirma que o fato de termos controle sobre algo, não significa que temos conhecimento deste algo. Podemos dominar um animal, ampliar nossos conhecimentos sobre ele a partir de elementos da física e da biologia. Ma ainda sim, não sermos capazes de dizer o que significa este animal, e o que ele é em si mesmo. Eu creio com base na ciência, que o homem conhece o mundo em que vive, mas o conhece num sentido muito elementar. Por isto não consegue aproximar a razão no seu mundo com seus propósitos. Estou convencido que nada que não se curve diante do seu criador, possa conhecê-lo e nem tão pouco seus propósitos.

 

                                

                                                              A transvalorização de valores 

 

Conforme seus termos nietzschiano, seria efetuar uma completa transvalorização de todos os valores do cristianismo. Para este propósito, o senhor se firma sobre a vontade de potência permitida pensar o “querer-mais” e não o querer-continuar-assim” ou no “querer-sobreviver” pela força e poder. Não consigo crer que os valores do “Deus na cruz” foram dominantes e os valores potenciais subordinados a dois milênios. 

     O senhor não acha que o caminho dionisíaco de “auto-superar-se” para vislumbrar um mundo de novos valores, não poderia entrar em conflitos tão logo também com ele? Eu penso que por mais que se direcione a humanidade acreditar em si mesmo, o humano se despencará no reino da terra porque é pó da terra. Eu creio que o “não querer-continuar assim” seria ao contrário; valorizar os valores do cristianismo que já têm sido transvalorizados ao longo da história trazendo o caos.

      “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graça; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” Rm 1:21

      “Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito e eternamente amém” Rm 1:25.

 

 

                                                                          Karl Max

                      

                                          Quem pode mudar? O cristianismo ou os indivíduos?

 

Através do amor de Cristo, voltamos nossos corações ao mesmo tempo para nossos irmãos que intimamente sãos ligados a nós e pelos quais Ele deu-se a Si mesmo em sacrifício”. A união com Cristo pode dar dignidade interior, conforto na tristeza, tranqüila confiança e um coração suscetível ao amor humano, a tudo o que é nobre e grande. Não por causa da ambição e glória, mas somente por causa de Cristo”  Marx

       Depois de me deleitar com estas palavras tão sublimes sobre o “vir a ser cristão” e a necessidade de “se fazer cristão,” o senhor me impressionou ao ler algumas de suas idéias na obra “ O Capital”. Suas reflexões sobre religião e fé são de pouca importância valorizando o “maduro” como o anti-religioso e sem fé. Não consegui compreender como o senhor que começou cristão pode contradizer o que de mais lindo havia escrito. O que teria mudado? O cristianismo ou a sua forma de pensar?

       “Pois toda carne é erva; seca-se a erva e cai a sua flor; e a palavra do Senhor porem permanece eternamente. Ora esta é a palavra que vos foi evangelizada” 1Pd 1:24,25.

 

                                                          A vaidade e o poder

   

   “Meu desejo é de construir um trono, seu topo seria frio e gigantesco. Sua fortaleza seria o medo sobre humano, e a negra dor seria o seu general. Quem olhar para ele com olhar são, voltará mortalmente com olhar pálido e silencioso, arrebatado por cega e fria morte”.

        Em seus poemas, vemos a oração de um homem desesperado e ao mesmo tempo altivo, exaltando sua própria grandeza. Se o homem está condenado através da sua própria grandeza, não seria isto uma verdadeira catástrofe?

        Pelo seu bom conhecimento cristão, este desejo de construir um trono para poder governar com suas idéia socialistas, embora em favor dos menos favorecidos, não teria uma certa semelhança com a jactância de um anjo que caiu do céu?

       “Antigamente você pensava assim: subirei até o céu e me assentarei no meu trono, acima das estrelas de Deus. Reinarei lá longe, no norte, no monte onde os deuses se reúnem. Subirei acima das nuvens mais altas e serei como o altíssimo Deus. Mas você foi jogado no mundo dos mortos no abismo mais profundo. Os mortos vão olhar espantados para você e vão perguntar: Será este o homem que fazia os reinos tremerem, e o mundo inteiro tremer de medo?”

       ”Is14:13-16( BLH).

 

                                                            A religião do ópio

 

Quando a revista Época trouxe a público como matéria de capa “os caloteiros da fé”, edição de 20/05/2002, foi de grande prejuízo para todas as igrejas sérias. Durante anos as notícias de estelionatos, processos na justiça e milhões de dívidas caloteadas pela igreja citada na revista, que sempre esteve na mídia, denegriram muito a imagem do evangelho e fizeram muitos Marx. Entendemos que fatos como esses e reportagens com fotos de pessoas lesadas, pedindo justiça contra esse tipo de igreja, é que se constituem na religião do ópio de Marx.

 

 

 

                                                         IMMANUEL KANT

 

                                                      Definindo o Sumo Bem

 

O senhor mesmo afirma em sua obra “A religião nos limites da razão”, que se o Sumo Bem na razão pura é propósito do criador, e diante disso, o homem pode e deve se esforçar para realizar do fim último para qual foi criado, o Sumo Bem. Ao dizer que cada sujeito vê-se obrigado a efetivar o Sumo Bem, como forma de consumar o fim supremo do gênero humano, eu creio que a escassez da felicidade está numa busca mais particularizada e não regulada de acordo com o mandamento Divino. Eu presumo que tanto o senhor como eu, admitimos que só a presença do Criador, pode fortalecer a lei moral, e que o homem ciente disso deve esforçar-se neste concerto, como seu fim último para alcançar o bem supremo.

       “Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e aos que resistem trarão sobre si mesmos condenação” Rm 13;1,2.    

 

                                    O desafio de sair da menoridade(Aufklãrung) pelo esclarecimento

 

Eu creio que só a busca em Deus pode levar o homem ao verdadeiro Aufklãrung.4 Depois de refletir sobre esta profunda questão, embora me considero um longo aprendiz, me senti bem a vontade nas ponderações de Berlinische sobre este tema. Eu também penso que o homem tem responsabilidade na sua menoridade. Uma vez que ela é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem direção de outro individuo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade, quando a sua causa estiver na ausência de entendimento, ausência de decisão e coragem de aplicar seu próprio entendimento.                                       

           “A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha, continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. É tão cômodo ser menor! Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros que hão de se encarregar em meu lugar nos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade (incluindo todo o belo e o sexo) considera difícil e também perigosa à passagem da maioridade, pois aqueles tutores de bom grado se encarregaram de supervisioná-la”

 

       Sabemos que não é uma tarefa fácil desvencilhar-se da menoridade, quando ela acaba se tornado parte da sua natureza.

Pena que são poucos os que se permitem sair da caverna em busca de luz. Não é fácil sair da menoridade, para isso é preciso que homem saia da sua letargia

 

      “Ouço agora, porém, exclamações de todos os lados: “não raciocineis!” O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos. O financista exclama: “não raciocineis, mas pagai!” O sacerdote proclama: “não raciocineis, mas acreditai!”(Um único senhor no mundo diz: “raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!”). Eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade. Mas que limitação impede o esclarecimento [ Aufklärung]?”

                         

                                                                         STRAUSS  

 

                                                             A questão dos sinóticos

 

Não consigo entender porque um teólogo gastaria sua vida acadêmica toda, trabalhando minuciosamente sobre o Novo Testamento, passagem por passagem, usando o grego e estudos comparativos, para comprovar que o texto deveria ser lido como mito e não como história. Foi realmente uma terrível decepção quando a igreja descobriu que seu principal alvo era encontrar os “mitos fundantes” no material do novo testamento e libertar o cristianismo da leitura dos “literalistas”. Foi um choque para os teólogos ouvir de alguém que nasceu no cristianismo, afirmar que os relatos dos Evangelhos são como uma concha de conceitos religiosos.

 

 

                                                                Vocação e equivocação

 

Muitos alunos se ingressam nos seminários teológicos como o fez, mas logo que percebem sua equivocação cristã desistem. São poucos os equivocados que vão até o fim, porque sabem que ao insistirem, trarão prejuízos para suas vidas, como também para o evangelho. Considerando que uma vocação cristã é causa “intra-uterina,” não teria sido uma atitude nobre ter desistido? “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que te saísses da madre, te consagrei e te constitui profeta às nações” Jr 1:5.

       Ao atribuir a tentação de Cristo uma interpretação simbólica ou simplesmente lenda cristã primitiva, confirmou que desconhece a natureza das provações. A propósito, o senhor nunca foi tentado? Nunca passou por sua cabeça que teria dado uma brecha para o “Feindlich geistlich” (inimigo espiritual) em sua vida? 

 

                                                                    O valor da exegese

 

Como estudou teologia, o senhor sabe que a palavra sinóptico vem do grego συν, “ syn” (junto) e οψις “opsis” (ver) os assuntos correspondentes abordados da mesma fonte. Como os primeiros exegetas foram alemães, designaram esta fonte por “Quelle” que significa precisamente “Fonte.” “Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” Jo 4:14.

 

  

                                                                   SIGMUND FREUD

 

                                                            O homem em busca de respostas

 

De acordo com o tema psique, pensadores como Colin McGinn consideram que a consciência não é um problema tratável, já que existem limites na cognição humana. Para ele a consciência é a conseqüência de funções cognitivas altamente complexas e parte do cérebro em operação. Se a própria ciência admite não saber como a atividade elétrica dos neurônios se transformam na experiência subjetiva dos indivíduos, isto significa que o homem continua buscando respostas.

      Porque não incluir nesta busca o fato dos neurônios se relaxarem diante das promessas da fé? Como também se enrijecerem sem ela provocando ansiedade?

      “Finalmente, irmãos, tudo que é verdadeiro, tudo que é respeitável, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isto que ocupe o vosso pensamento” Fp 4:8.

 

                                                          A Conexão da visão com o cérebro

 

Sabemos que experimentos da “neuroimagem” e da “rivalidade binocular,” proveram evidência de que a ativação de áreas nos córtices parietal e frontal, correlaciona-se com a consciência visual. E isso ocorre naturalmente quando a percepção consciente de uma pessoa transita de uma imagem a outra.

      Não seria interessante pensar na possibilidade da violação dos preceitos de Deus, estarem intimamente relacionados com a consciência visual deixando seqüelas no inconsciente? Quando a própria neurociência adota a linha da “neuroimagem,” não teria sido a visão como “janela primeira” para uma transgressão contra Deus? (Adão e Eva)

      “Da mesma forma que no ponto de entrada do nervo ótico a retina tem seu “ponto cego”, assim também o espírito é precisamente na sua origem. É cego a toda auto-observação e auto-reflexão, tornando-se inconsciente de si mesmo” Dr Victor Frankl.

 

                                               É possível obter um Eu saudável sem o apoio da fé?

 

Quando o senhor define libido como um reservatório de energias psíquicas que comporta todas as nossas pulsões, a questão é como pensar na possibilidade de um “Eu” saudável, para interagir com o mundo interior de maneira cômoda ao ide e superego. Eu entendo mestre, que o ser humano por si só é frágil diante de suas necessidades primitivas. Não seria mais seguro buscar o apoio na fé, uma vez que ela se propõe exatamente ajudar o homem equilibrar e domar suas vontades e impulsos?

      “Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário a nossa suficiência vem de Deus” 2Cr 3:5, “ Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitira que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que possais suportar” 1Cor 10:13

 

                                  De onde procede a punição na consciência, de Deus ou da transgressão?

 

 O psicanalista Gregory Zilboorg que centralizou um diálogo entre a psiquiatria e a religião, também desafiou Freud com relação ao papel da consciência na saúde emocional. Para Freud, o superego é um mal que capta apenas os impulsos naturais do indivíduo. Estes impulsos são moderados por um ego firmemente enraizado numa realidade sem nenhum espaço para um Deus punitivo. Zilboorg incentivava o diálogo entre os psicanalistas e teólogos na busca de uma compreensão melhor do comportamento humano.

 

                                                 Quais são os prejuízos da rebelião contra a fé?

 

Levando em conta a sua importância, talvez possamos dizer que Freud não conseguiu superar as imagens sofridas na sua infância e adolescência, que carregava do desprezo e das perseguições sofridas, vivendo como judeu num país de regime nazista. Nos momentos em que sua alma mais precisou do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, ele fez greve de fome espiritual. Poderia ter tido a mesma perseverança do Dr. Viktor E. Frankl, médico psiquiatra que viveu nos campos de extermínio durante a segunda guerra mundial em Aushwitz, na Polônia.4

“A vida é sofrimento, e sobreviver é encontrar sentido na dor; se há algum propósito na vida, deve havê-lo também na dor e na morte” (Viktor E. Frankl). “Temo uma coisa,  não ser digno do meu tormento” (Dostoievski).5

 

 

                                                                          Espinosa

 

                                 Deus é “Substância” e fora Dele nenhuma outra pode ser concebida

 

O senhor define substância como aquilo que existe em si mesmo, e é concebido por si mesmo inteiramente independente de qualquer outra coisa. Tanto no que se refere à sua existência quanto à sua essência. Achei muito interessante como descreveu Deus na condição de substância infinita, usando o exemplo do próprio homem.      

       Pensemos num homem qualquer. Um homem não existe por si mesmo, mas por outro (seus pais). Justamente por depender de outro, o conceito desse homem depende não apenas dele próprio, mas do outro que causou sua existência. A essência completa deste homem deve envolver outra coisa que não o próprio homem. (Ec 3:20-23) Logo ele não é substância, se o fosse, existiria e seria concebido a partir da própria força e potência de seu Ser. Se Deus é uma substância, logo Deus é causa de si mesmo, eterno e infinito. Eu creio que Deus não é apenas uma substância, Deus é a “Substância”, e fora Dele nenhuma substância pode ser dada ou concebida.

 

                                              Qual poderia ser a causa do vazio existencial?

 

Seria possível uma criatura se realizar como tal não conhecendo a natureza de sua origem? Assim como uma obra de arte exige a autenticidade de seu autor o homem não poderia ser ou ter afetos fora desta busca. Eu penso que é nesta busca que o homem descobre que a falta do Criador poderá ser o principal motivo do seu vazio existencial. A transgressão ou violação dos desígnios do seu Criador ou Substância divina, leva as carências afetivas da alma. “Virtude é fazer aquilo para qual foi criado” Sócrates.

 

                                                             A culpa do pecado

 

Nesta entrevista, Chaui diz que sua descoberta de Espinosa foi muito ligada as suas questões existenciais e particularmente a questão da religião, e na religião a culpa. A culpa sempre foi um duplo problema para mim, diz ela, pois não há nada mais terrível do que a culpa, e eu tinha a tendência de me sentir culpada pelo que tinha feito, pelo que não tinha feito e pelo o que acontecia no mundo. Meio “sartriana”2 Chauí vê um mistério no fato, de que um Deus onipotente, onisciente  misericordioso e bom, criasse uma criatura para pecar, sabendo que ela pecaria porque foi feita para pecar.

       

          “O vazio existencial manifesta-se através do tédio e indiferença. Representa a falta de iniciativa para melhorar ou modificar algo em si e no mundo” Dr Victor Frankl (A presença ignorada de Deus)

                          

                                                  Qual foi o autêntico papel de Moisés?

 

Afinal, Moisés como libertador do seu povo foi um escravista ou abolicionista, perguntava Espinosa. Provavelmente começou a cair por ter aprendido desde criança sobre um Moisés escravista, e não um abolicionista libertador. Não compreendeu que na trajetória rumo a Canaã, estava implícito por Deus, na libertação do povo, o fim da opressão, da idolatria e tirania egípcia. E que os melões, alhos e pepinos silvestres do Egito tinham um preço amargo, enquanto que o maná desprezado pelo povo era uma dádiva de Deus.

 

  

                                                                FEUERBACH
  
                                                       O desafio do além céu
       

Ao invés de preocupar-se com a hipótese de que o fundamento religioso venha fixar o homem nas nuvens, e a um reino fora do terreno, não seria interessante perscrutar, o que poderia estar por detrás destas nuvens que tanto teme? 

      “Há mais coisas entre o céu e a terra do que aquelas que se pode encontrar nas abstrações e generalizações dos filósofos” Gabriel Marcel ( 1889-1973).

     

                                     Qual reino seria capaz de ascender a terra ao céu?

 

Eu creio que seria inútil lutar pelo “auto-dilaceramento” religioso como escreveu sobre o reino não terreno. Apesar de suas contradições teológicas, este reino é inextinguível, ele teve preço de sangue na cruz. Em uma de suas considerações sobre religião, o senhor diz que enquanto a filosofia alemã desce do céu à terra, e a fé almeja ascender da terra para o céu.

 

                                                                                         Visão do aqui agora ou do porvir

 

 O senhor acha mesmo que o homem estaria limitado em olhar só para o homem?  Eu compreendo que a busca parte dos homens realmente ativos e a partir de seu processo de vida real. Como também expõe-se ao desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos deste processo de vida. Mas pensar no “vir a ser” apenas no “aqui e agora” não seria um viver angustiante?

      “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” 1Cor 15:19.

   

                                                                    Ser e essência

 

“Só na vida humana distinguem-se ser e essência, mas apenas em casos anormais. Infelizes onde se tem seu e não se tem essência. Mas justamente por causa dessa separação, não é verdade que se esteja também com a alma, onde se está realmente com o corpo. Somente onde está o teu coração, estás tu por inteiro. Mas todas as coisas com exceção dos casos contra a natureza, gostam de estar onde estão e de ser o que não são.”

       Como foi bom caminharmos juntos na questão de que não se pode separar o ser de sua essência, uma vez inseparáveis, a não ser nos seus acidentes.

      “O ser é, e não pode ser outra coisa” Parmênides.

      Quando o senhor abre uma exceção para a rebelião daqueles que tentam lutar contra sua própria natureza, não seria o mesmo que negar a origem do seu ser? Eu creio que lutar contra a fé seria o mesmo que lutar contra sua própria essência. Se ontologicamente viajarmos de causa em causa, onde chegaríamos? Não seria Naquele que dá a essência e que constitui a natureza do ser?

 

 

                                                                          DARWIN 

                                                       Gatos e ratos e o amor perfeito

 

Para exemplificar, o senhor citou este caso interessante: Em uma região da Inglaterra, a quantidade de gatos tem influência na fertilização da flor amor-perfeito. Por que isso acontece? Porque o número de abelhões, insetos indispensáveis na fertilização da flor amor-perfeito existentes em uma área, depende do número de ratos silvestres, já que esses animais destroem os favos e ninhos daquele inseto. Os ratos, por sua vez, têm sua quantidade determinada pelo número de gatos existentes no local. Assim, a presença maciça de felinos em uma certa área pode determinar, em razão de sua influência direta sobre o número de ratos e indireta sobre o de abelhões, a presença maior ou menor da flor amor-perfeito nessa área.

       Não poderíamos aplicar esta mesma teoria de sobrevivência no mundo racional? Eu diria que a quantidade de seres humanos mais justos e dignos tem influência com a fertilização do “amor perfeito” nos ninhos de seus pares. Com tal fertilização, estes pares evitariam a procriação de “gatos” e “ratos” que destroem ninhos (famílias) e favos (paz) porque nada sabem sobre o “amor perfeito”.

 

                          

                                                         Obra Causal ou do acaso?

 

Ao discorrer sobre as variações no capítulo cinco da Origem das Espécies, o senhor atribuiu as ocorrências de causas e efeitos como “obra do acaso”. Será que estas variações não ocorrem justamente ao “caso” e não ao “acaso”, uma vez que as leis naturais reagem e seguem Aquele que as estabeleceu? Isto explicaria também o controle das sucessões geológicas dos seres vivos, distribuição geográfica, afinidades naturais dos seres organizados com morfologia, embriologia, órgãos rudimentares e até o hibridismo. Eu creio que nada acorre por “acaso”, até mesmo o senhor afirma que o “acaso” causa desordem e desorienta, já a seleção natural organiza e direciona. Por que se direciona? É porque existe algo lhe confere tal direção (o Criador).

 

 

                                                               Criador e criação

 

Vamos imaginar que no século vinte e um, surgirão grupos de biólogos trabalhado num sentido de substituir Deus por um “Desing Inteligente.” Eu não penso que só a teoria de um “Desing Inteligente” seria o suficiente para arrancar o Criador da sua criação, porque ela sempre exigirá sua presença e clama por ela. A teoria de um “Design Inteligente” jamais conseguirá explicar todos os detalhes da evolução e dos fenômenos naturais.

 

 

                              A necessidade de uma evolução voltada para o futuro

 

Não seria mais útil se as investigações cientificas se voltassem para alimentação, pensando no futuro? O passado já tem sua história, mas precisamos pensar como sobreviver em meio de extinções e possíveis novas mutações. Nós precisamos de biólogos tão dedicados como o senhor, para quem sabe podermos tentar compreender a origem da vida que surgiu há 1 milhão de anos e foram extintas e substituídas por novas espécies.

         Quem sabe com a ajuda de homens como o senhor, no futuro os pais poderão ter seus filhos como bons atletas, músicos, professores, sem ofender a ética. Quem sabe em breve poderemos eliminar totalmente doenças genéticas, como fibroses, simplesmente substituindo os genes defeituosos. Eu penso que talvez esta seria uma boa forma de conduzir a evolução. Quem sabe até usar a engenharia genética para melhorar indivíduos humanos.

 

 

                                                                       BRUNO 

                         

                                             O poder do cosmos e o poder do seu Criador

 

Creio que o senhor deixou de ser considerado cristão, ao por em dúvidas a divindade de Cristo e os dogmas fundamentais do catolicismo e protestantismo. Aprendi que o senhor é considerado o mais original dos pensadores renascentistas. Mas ao procurar fundir em uma ousada síntese entre o neoplatonismo e a magia, o que sobrou do cristianismo autêntico em seu coração, servindo-se de imagens talismânicas, o senhor esperava adquirir conhecimentos e poderes universais sintonizados com a força do cosmos. Por que não centralizar nossa busca no Criador do cosmos?

 

                                                    Revelação ou raios de ultravioletas?

             

 Ao cultuar o sol, o senhor afirma que seus raios trazem a mente “o sol ideal”. O que seria este “sol ideal”? Um astro? Ou uma figura mística? Por que não o Cristo? “Graças a entranhável misericórdia de nosso Deus pela qual nos visitará o sol nascente das alturas” Lc 1:79.

       Nesta busca, o senhor diz que a sombra das idéias deixa de ser apenas sensível passando refletir as idéias da mente divina, das quais as coisas sensíveis são apenas cópias. O senhor acha que Deus poderia compartilhar conosco sua mente pelos raios do sol?

       “Transgredindo a sua aliança, que vá, e sirva outros deuses, e os adore, ou ao sol ou a lua, ou a todo exercito do céu, o que eu não ordenei” Dt 17:2,3,

        “Mas há um Deus no céu, o qual revela seus mistérios, pois faz saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias” Dn 2:28

 

                                         Qual é o grande problema do ecumenismo religioso?

      

Apelar para tolerância nas seitas ou ecumenismo religioso, não seria adequar todo universo e os seus efeitos ao que chamou de primeiro “Princípio”? A questão é quem seria este primeiro princípio? E para chegar a ele, não seria necessário remontar dos efeitos ao conhecimento de sua causa?

       “Eu sou o Alfa e o ômega, o primeiro e o último, o Principio e o fim” Ap 22:13

     Eu penso que não conseguimos negar Deus como “Principio”, assim como uma estátua não pode negar seu escultor, porque traz nela a sua marca. O senhor afirma que só podemos conhecer vestígios do “Princípio” porque nossas faculdades discursivas estão tão distantes dele.

 

   

                                                                      ROUSSEAU 

 

                                                    A dogmatização dos fundamentos da fé

 

 Rousseau negou a fé, dizendo que o dogma do pecado e da salvação sobrenatural deixava os homens indefesos diante das tiranias sociais. Para ele, religião tornava os homens distantes da realidade da terra, e o cristianismo, ao invés de aperfeiçoar o homem como cidadão do estado o afastava das coisas do mundo. Foi neste ponto que o seu ateísmo começou a ser assumido, trocando o sonho de Calvino de uma republica de santos (igreja) por idéias revolucionárias, buscando uma volta ao primitivo puro. Ele trocou a profissão de fé pelo racionalismo sem Deus.

 

                                                                     A questão da família

    

– Rousseau : “A família é, pois, se assim quiser, o primeiro modelo das sociedades políticas; o chefe é a imagem do pai; o povo, a dos filhos, e todos, tendo nascido iguais e livres, só alienam sua liberdade em proveito próprio. A diferença toda está em que, na família, o amor do pai pelos filhos o paga pelos cuidados que lhes dispensa, enquanto no estado o prazer de mandar substitui tal amor, que o chefe não dedica a seus povos

       Quando o senhor se refere aos pais como primeiros modelos para os filhos, e que eles por sua vez representam modelos para a sociedade, talvez não tivesse imaginado tais expectativas que abarcariam as famílias na sua evolução social. A cultura dos filhos por exemplo, se propagou de certa forma, que passaram a ser uma nova espécie de riqueza.

 

                                                     A questão da teocracia moderna

      

 “Pelo simples fato de colocar-se Deus à frente de cada sociedade política, conclui-se que houve tantos deuses quantos são os povos. Dois povos estranhos um ao outro, e quase sempre inimigos, não poderiam reconhecer por muito tempo um mesmo senhor; e dois exércitos batalhando, não poderiam obedecer ao mesmo chefe. Eis como das divisões nacionais resultou o politeísmo e, daí, a intolerância teológica e civil que naturalmente é a mesma”.

        Eu concordo quando o senhor diz que o politeísmo, ódio e as guerras santas sangrentas, estão no fato dos homens colocarem Deus num governo social e político. Ao olhamos para a história, percebemos que as distorções teológicas se tornaram um tanto perniciosas. Chegam ao absurdo de governantes tentarem reascender o governo teocrático fora do contexto bíblico-histórico

 

  

                                                             Cristianismo e religião

 

Achei plausível a forma como o senhor abordou os tipos de religiões. A primeira sem templos, altares e ritos, se limitando apenas ao culto puramente interior do Deus supremo, submetendo-se aos deveres da moral e da prática simples do evangelho. A segunda, entregam-se aos deuses fazendo-os seus padroeiros tutelada em seus dogmas, ritos, cultos e deveres prescritos nas suas leis. A terceira seria uma espécie de religião estranha que dá aos homens duas legislações, duas pátrias, e o submete a deveres contraditórios, impedindo-os seus deveres ao Estado.

       Entendo que é neste ponto que o evangelho se diverge de todas as religiões. Se trocássemos o nome do primeiro exemplo de religião, a qual se refere sem altares e sem dogmas por “modo de vida,” conforme os princípios aprovados pelas sagradas escrituras, estou certo de que Estado e igreja seriam beneficiados

 

                                                          Os conflitos da conversão

 

Qual teria sido o exato motivo de sua conversão ao catolicismo? E quanto aos ensinos sob a tutela de seu tio protestante piedoso Bernard, e seus estudos teológicos com o ministro Lambercier em Bossey?  O senhor se lembra que foi lá em Bossey, em 1724, aos doze anos, onde fez o voto de tornar-se um ministro protestante? Não creio que tenha esquecido.5

      Quando dormiu na noite de 15 de março de 1728 na esplanada externa das portas da cidade, jurou que quando o sol raiasse, partiria em busca de seus sonhos. Mas logo descobriu que a vida não era feita de festins e flores. Quando a fome apertou e já não tinha dinheiro, como o senhor mesmo disse, a Sra. de Warens era sua melhor forma de subsistência.

  

 

                                                                   DESCARTES

 

                                                           O corpo e o relógio cartesiano

 

Caminhamos juntos quando o senhor diz que a ausência da alma causa a interrupção dos movimentos do corpo, assim como calor natural e todos os movimentos estão sujeitos a alma. E quando ela se retira do corpo, o calor do corpo é cessado. Mas tenho dificuldade em continuar contigo ao julgar que o corpo de um homem vivo, se difere de um morto, como um relógio construído com tudo que se exige para sua ação.

       Nesta questão, distingue-se como duas máquinas, onde uma se encontra em pleno funcionamento, enquanto que a outra deixou de funcionar. É possível haver uma analogia nesta metáfora? Uma vez que peças ou até mesmo todas as engrenagens de um relógio podem serem substituídas, conservando o invólucro. Já no caso do corpo, quando sua alma se vai o invólucro também segue o seu destino

 

                                                   Qual deve ser via da transcendência à Deus?

 

O senhor não acha que a existência de uma pequena glândula no celebro na qual a alma exerceria suas funções, seria muito pouco em virtude da complexidade do corpo? Penso ser mais eficaz aceitar o funcionamento do corpo com suas virtudes, tal como Deus determinou. Talvez até mais racional do que uma ação de espíritos através de uma glândula.

       Se conseguirmos trazer o homem de volta para sua natureza e propósitos de Deus, admitiremos que todas as suas lutas consistem, entre os seus desejos e vontades, que muitas vezes conflitam com os propósitos de Deus; que age em Espírito no seu coração. Se levarmos em consideração, o argumento de que a parte inferior da alma é a sensitiva e sua parte superior é a racional, e que os espíritos agem em função de sua glândula, não seria razoável substituir a parte inferior da alma por emoções e a superior pela mediação racional? E com a ação do Espírito de Deus entre razão e emoção, a ação dos espíritos não estariam bem administrados? Por que a necessidade de uma glândula?

       Um só Deus e pai de todos, o qual é sobre todos, age por meios de todos e está em todos” Ef 4:6      

  

                                                       O bom Dieu  contradiz com o Deus vivo

 

Do modo como limitou Deus em sua versão cartesiana (bom Dieu), Ele deixou de ser o Deus da religião. Como o senhor mesmo diz, Ele está fundamentado apenas na ciência e na filosofia. Assim sendo, o Deus certo não induziria aos erros sistemáticos no espírito humano. Porque é a bondade do Deus certo que impede a sustentação da hipótese do tal gênio maligno. E que também pode justificar o otimismo cientifico e a própria crença na razão. Substituindo o Malin génie pelo Deus vivo, o senhor poderia afirmar com segurança, que a evidência seria o mesmo critério da verdade. E que as idéias esclarecidas por Ele, correspondem as idéias da verdade. Ele é o poder que protege das idéias obscuras que correspondem a cair nas armadilhas do gênio enganador e cruel. O vivo Deus é a garantia da objetividade e do conhecimento cientifico, enquanto o bom Dieu torna-se a expressão do otimismo racionalista que pressupõe pouca clareza, e não responde a objetividade.

 

                                 Quais são os conflitos entre o Adão da Bíblia com o Adão cartesiano?

 

O Adão de Descartes não passa de uma máquina pensante, enquanto que o Adão da Bíblia é um ser livre para glorificar ou não seu Criador. Quando Descartes diviniza o pensar, arroga toda a glória de Deus para o seu Adão cartesiano. Mas quando o homem usa a linguagem e a razão no temor a seu criador, torna-se mais autêntico e verdadeiro. A própria capacidade de reger a criação e desenvolver suas potencialidades que foi outorgada por Deus a Adão.

        O Adão da Bíblia foi o primeiro a firmar aliança com Deus no Éden acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal, e teve como conseqüência a morte, em extensão a toda humanidade. Já o Adão de Descartes é um Adão desalienado de Deus e comprometido com a razão que o próprio Deus lhe deu.

 

                                                            Estamos no mundo para ser

 

Tillich escreveu muito e sobre vários assuntos. Sua obra abrange história da teologia, textos filosóficos, políticos, estéticos, etc. Seu texto maior, foi a teologia sistemática, que ainda é referência teológica para nossos dias. Todas suas obras são de profundos impacto principalmente a obra “A coragem de Ser”. Eu penso que não haveria obra mais adequada para os cristãos do que os evangelhos de Cristo no sentido de desafiá-lo a morrer para nascer e esvaziar-se para encher-se do Espírito Santo

 

                                                    Qual deve ser a direção correta de saltar?

 

Tillich não vê a teologia do “salto” como a resposta final do problema apresentado pela crítica histórica, pois, surge uma outra pergunta: em que direção devo saltar? E isto, partindo do princípio que estamos sem rumo, a única forma de se dar um salto correto, é através de Cristo. Na ótica de Tillich, Jesus não foi um simples mestre existencial como Sócrates, mas sim o Salvador que viera para acabar com a distância entre Deus e homem. Eu penso que para não cairmos no vazio existencial, é preciso estabelecer o salto correto também no contexto social que vivemos.

 

                                                          É preciso fazer jus ao existir

Nas ponderações de Tillich, só o existir não é o bastante para o homem achar-se neste universo. É preciso ter coragem para caminhar um pouco mais do que o cogito cartesiano. É preciso descobrir o porque existimos.
                

                                                   AGOSTINHO DOS SANTOS  

                                        
                                                             A perfeição do louvor

Dentro deste raciocínio, eu entendo como uma forma de comunicação ou louvor, o chilrar dos pássaros, o relinchar dos cavalos, o mugido dos bois, o assobio dos ventos, o retumbar dos trovões, o flash dos relâmpagos ou até mesmo o som das cascatas e cachoeiras. Fiquei surpreso por não encontrar em Confissões, o homem como um “quase perfeito” instrumento de louvor do Criador. Até mesmo porque sem ele os demais instrumentos como metais couro ou cordas jamais teriam vida. Seria como o violino de Niccoló Paganini ou de Antonius Stradivarius dentro do estojo.

        Eu creio que o “perfeito instrumento” de louvor é uma dádiva de Deus exclusiva ao mundo angelical e animal irracional. Aos bons anjos nos céus porque se mantém em estado original de perfeição. Aos animais porque não tem consciência do bem e do mal, e se porém tivessem, deixariam de ser louvor “perfeito”.

 

                                                        A importância da fé e da razão

 

Como já dissemos no início, muitas vezes não é tão importante como começamos, mas sim como terminamos. O ideal seria nunca perdermos de vistas o “ratio et fides” (a razão e a fé). A razão e a fé são duas asas que levam o homem ao encontro do Deus real. Pela via da razão compreendemos as contingências que levam o homem afastar-se de Deus, mas pela fé podemos crer no seu retorno.

       Quando olhamos para os mistérios do ceticismo perguntamos: mas afinal, onde estaria o problema? Na deficiência da razão ou da fé? Por mais eficiente que seja uma semente pode não germinar, caso o solo seja pedregoso ou a terra muito pobre. 

       

                                        O valor do evangelho está naquilo que ele faz e pode fazer

 

 Dostoievski jamais se recuperou da terrível experiência. Ao acreditar que recebera de Deus uma segunda chance para atender o seu chamado, passou a estudar com afinco a Palavra de Deus. Dez anos depois, saiu da prisão com convicções cristãs inabaláveis para ser um instrumento de Deus.

       Se alguém me provasse que Cristo está afastado da verdade, então eu preferiria permanecer com Cristo longe da verdade” (Dostoievski).

         Já o outro gigante mencionado por Yancey foi Aleksandr Solzhenitsyn, que relata o próprio despertamento em um de seus livros. Conta que certa noite estava numa cama do hospital da prisão quando um médico judeu assentou-se a seu lado e falou longamente sobre sua conversão ao cristianismo. Naquela mesma noite o médico foi morto à paulada, enquanto dormia. Solzhenitsyn escreveu que as últimas palavras do médico ficaram encravadas no seu coração. A partir dessa experiência, passou a se dedicar entre 14 a 16 horas por dia buscando  conhecer e moldar sua vida para servir a Deus.

       “Só deitado lá, na palha podre da prisão, foi que senti dentro de mim os primeiros ímpetos do bem. Gradualmente foi-me revelado que a linha de separação entre o bem e o mal passa não através de classes ou partidos políticos, mas bem no meio de cada coração humano” (Solzhenitsyn).

   

VOCABULÁRIO

 

Agnóstico - sem rejeitar as teses metafísicas, as consideram impossíveis de  ser estabelecidas.

Aporia -  dificuldade difícil de ser superada ou impasse.

Ataraxia - tranqüilidade da alma que resulta da sabedoria atingida pela moderação.

Ceticismo - nega decisivamente a possibilidade de conhecer, porque o homem não pode  chegar a nenhuma certeza de nada, quer seja metafísico, ético, ou religioso.

Contingente - categoria daquilo que é pensado, podendo não ser ou ser de outra maneira.

Despotismo - regime político que é um só que decide sem lei e sem regras.

Determinismo - principio segundo o qual todos os fenômenos estão ligados uns aos outros por relações necessárias.

Dogmatismo - aceita-se a verdade, pura e simplesmente, sem qualquer discussão. Crêem piamente ou empiricamente como verdade, sem necessidade da mediação ou reflexão de maneira fideista.

Estoicismo - escola fundada em Atenas em 300 A.C por Zenão de Citio 332-262 A.C. O termo é derivado da (stoa poikilé) ou pórtico pintado, local em Atenas onde os membros da escola se reuniam. O estoicismo consiste sistematicamente na seguinte composição de uma árvore onde a física corresponde à raiz, a lógica o tronco e a ética são os seus frutos. As três virtudes básicas para o estóico são: inteligência, coragem e justiça. Isto  se consegue em harmonia com o cosmos, uma vez que somos microcosmos do macrocosmos “quando vejo alguém se afogando devo deixar” porque tudo já está determinado.

Epicurismo - Epícuro (341-270) fundou a escola em Atenas em 306, reunindo seus discípulos num jardim (kepos). A ética epicurísta, assim como os estóicos consistiam na (eudaimonia) ou felicidade em harmonia com o cosmos na virtude da imperturbabilidade (ataraxia) “o homem age eticamente na medida em que dá vazão a seus prazeres”. A valorização aos prazeres  (hedoné).

Epistemologia - estudo crítico das ciências, a fim de determinar sua origem lógica, seu valor, seu alcance e sua validade.

Essência - aquilo sem o que uma coisa não pode nem ser e nem ser concebida.

Ente -  aquele que é.

Factilidade - característica daquilo que existe como puro contingente sem razão.

Gnose - aquele que aspira a um conhecimento de ordem superior,  utilizado também no campo das religiões.

Hedonismo - doutrina que preconiza o prazer enquanto bem soberano.

Idealismo - teoria das idéias, que segundo Platão é a fonte de todo conhecimento.

Logos - discurso racional em busca da verdade ou a faculdade de raciocinar.

Metafísica - passagem para além (meta) do ente (physis) em direção do ser.

Nomologia - estudo das leis.

Monismo - doutrina que considera o conjunto das coisas como redutível à unidade, por oposição ao dualismo, e pluralismo.

Ôntico - designa aquilo que se refere ao ente, isto é, aos seres do mundo.

Ontologia - disciplina que se designa dizer o que é o ser enquanto ser.

Postulado - proposição teórica para aquilo que não pode ser provado.

Pragmatismo – a verdade é a concordância entre o intelecto e o fim prático, ou seja, se tornam expressões lingüísticas no habito de manejar subjetivamente validos. São jogos lingüísticos (Wiliam James).

Predicado - aquilo que é firmado ou negado de um sujeito.

Racionalismo - oposição ao conhecimento vulgar da razão visando a verificação.

Relativismo - não há distinção entre o verdadeiro e o falso, porque os juízos são contraditórios, uma vez que vivemos em sociedade pluralista e ao mesmo tempo etnocêntrica.

Sofista - (sophos) aquele que faz profissão do saber e é inimigo dos filósofos.

Substância - aquilo que não é predicado de um sujeito (Aristóteles).

Subjetivismo - não admite atingir as coisas verdadeiramente como são. Não cabe a certeza da existência onde até mesmo ela é especulativa, vista como “fenômeno” ”quantas cabeças tantas sentenças”, “cada um tem sua opinião”, “o homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras).

Transcendência - superação, aquilo que é metafísico e transcende para além da natureza.

Teoria do conhecimento - é a parte da filosofia que estuda os problemas fundamentais do conhecimento humano: possibilidade, origem, essência, formação e critérios de verdades. Conhecido também como gnosiologia, voltada mais para a origem e a formação do conhecimento, e Epistemologia voltada mais para o estudo da validade do conhecimento científico e resultados das ciências particulares.

 

 

                                  

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