Français - Español English

Colóquio internacional “Institut des Amériques”
Universidade Paris Diderot, 6, 7, 8 de junho 2012.
A MIGRAÇÃO COMO HERANÇA NAS AMÉRICAS

A palavra migração é contemporânea das primeiras migrações transatlânticas que seguem a“descoberta” da América no final do século XV. As Américas, cuja denominação de “Novo Mundo” remete desde o princípio a uma temporalidade atravessada por experiências migratórias, conheceram múltiplas ondas migratórias, transoceânicas e intra-americanas, quefizeram dos continentes americanos o lugar de encontro, instalação e confrontação, mas também de intercâmbio entre populações que vinham de diferentes partes do mundo. À escala do continente, cabe observar a “longa duração” do fenômeno migratório, para não dizer seu caráter constitutivo. De certa forma, as Américas receberam “a migração como herança”.

As questões migratórias ocupam há muito tempo os pesquisadores em ciências sociais, mas, na ocasião deste colóquio interdisciplinar, gostaríamos de
abordar o tema posicionando-nos o  mais perto possível das experiências, individuais ou coletivas, dos migrantes, qualquer que seja a época, geração, lugar de origem e de destino e itinerário. Enfim, após um período marcado por debates que renovaram as teorias da migração (etnicidade, identidade, transnacionalismo, globalização), este colóquio, sem ignorar esses aportes importantes, pretende colocar o migrante no centro da análise.

Enfocaremos quatro eixos que traçam perspectivas mas não correspondem necessariamente à organização das sessões do colóquio.
  • 1. Temporalidades.
 O aspecto temporal das migrações para, desde ou nas Américas declina‐se segundo vários modos, ritmos e cronologias. Micro‐histórias individuais ou epopéias cíclicas e coletivas tecem a trama de uma constante recomposição, apesar de ritmos contrastados e trajetórias às vezes contraditórias. Nessa perspectiva, a questão dos tempos das migrações e do tempo na experiência migratória pode se construir em uma dupla abordagem macro e micro analítica, que também pode ser considerada em uma abordagem comparativa das migrações. No que se refere à experiência dos sujeitos, será que ela se enquadra na temporalidade de uma vida, na temporalidade familiar, trans‐geracional até, o que traria uma nova inteligibilidade à questão do retorno e dos retornos postergados entre gerações, inclusive a compreensão de “culturas políticas” específicas dos migrantes ?
  • 2. Trajetórias. 
A migração supõe também trajetos que se inscrevem no espaço e raramente se limitam a simples idas e vindas entre dois pontos, odisséias complexas muitas vezes, os itinerários dos migrantes mobilizam recursos humanos, econômicos e tecnológicos diversos. Não somente acompanham as oportunidades do mercado de trabalho, mas também respondem a situações de crises políticas, econômicas ou ecológicas com conseqüências variadas. Em todos os casos, ajustam‐se também aos eventos da vida familiar e social e têm um impacto tanto naqueles que viajam quanto naqueles que ficam. Como os migrantes percebem, analisam e usam as etapas, os incidentes e os obstáculos da viagem? Como são decididos, organizados e desviados os trajetos ? pode‐se falar neste caso de herança (de saberes, competências, itinerários) ou o trajeto mesmo é inovação? Interessar‐nos‐emos também pela influência dos mediadores e organizações formais e informais e suas interações.
  • 3. Experiências.
 Experiência individual mas também coletiva da migração, do deslocamento e da confrontação com um novo universo. As interações com um mundo de normas, de sons, de imagens, de percepções e sensações inéditas podem ser apreendidas como modos de ler e se apropriar deste meio. O vínculo entre as informações e as imagens conhecidas antes da migração, o capital de experiência transmitido por migrações anteriores e a experiência que os indivíduos têm vivido situa‐se na articulação das experiências individuais e dos  saberes coletivos dos migrantes. A confrontação cotidiana entre as práticas antigas, os imaginários e as situações novas contribui para constituir uma experiência da migração como reorganização das normas individuais e coletivas; trate‐se, por exemplo, da higiene, saúde, alimentação, trabalho, práticas culturais ou estruturas familiares, papéis de gênero e gerações ou identidades étnicas, experiência que afeta também as sociedades de destino. A experiência da precariedade e da clandestinidade também será questionada. Portanto, é a capacidade dos migrantes inventarem novas normas/formas de vida que procuraremos perceber com esse olhar. Seja produzindo discursos, relatos e imagens ou conduzindo ações que se inscrevem em um processo crescente de politização, os migrantes provam que são “atores”.
  • 4. Transmissão. 
A experiência migratória também pode ser percebida como um “patrimônio” sendo objeto de uma transmissão entre gerações. Esse caráter patrimonial da migração encontra‐se em várias situações: A nível coletivo, as produções culturais dos grupos migrantes incorporam as  experiências migratórias, por exemplo, nos saberes e mestiçagens lingüísticos ou “culturas de migração”. A importância de um patrimônio coletivo migratório aparece também na produção de instituições sociais ou econômicas que constituirão os vetores de transmissão dos valores do grupo nas gerações seguintes.  A nível familiar ou individual, a migração é um patrimônio a ser investido, valorizado, recomposto, segundo lógicas similares às que implicam patrimônios fundiários ou capitais. Não somente ocasião de transmissão “passiva” de uma herança, mas também objeto de estratégias e negociações nas famílias, ele se destina a ser transmitido de uma geração a outra segundo lógicas sociais que ainda precisam ser evidenciadas. Para entender essas transmissões, propomos privilegiar três ângulos: a observação do momento particular da transmissão; o “fio” pré‐suposto pela transmissão que permite captar continuidades nas sociedades migrantes através das lógicas de  integração nas sociedades de destino; os fenômenos de ruptura aos quais remetem imediatamente essas continuidades, fenômenos que questionam oportunadamente o fato migratório e as distâncias críticas que ele implica na transmissão intergeracional e dentro dos grupos sócio‐culturais.

ORGANIZAÇÃO:
As propostas serão mandadas em uma das três línguas de trabalho do colóquio: francês, espanhol ou inglês. Deverão incluir um título, um resumo da comunicação proposta de
aproximadamente 450 palavras e a menção do vínculo institucional.
O Comitê de organização procurará valorizar um equilíbrio entre doutorandos, jovens pesquisadores e pesquisadores confirmados.
O colóquio está aberto a todas as disciplinas.
Os textos completos definitivos deverão ser mandados um mês antes do colóquio para serem transmitidos aos debatedores.
Email: colloquemigrations2012@institutdesameriques.fr
Calendário:
Entrega dos resumos: fim de junho 2011
Comunicação do resultado da seleção das propostas: fim de outubro 2011
Entrega dos textos completos: fim de abril 2012

Comitê científico:
Fernando Devoto (Buenos Aires), Luin Goldring (University of York, Toronto), Nancy Green (EHESS, Paris), Ramon Gutierrez (University of Chicago), Jocelyne Streiff-Fénart (URMIS, CNRS, Nice), Carlos Vainer (Univ fédérale de Rio de Janeiro), Victor Zuñiga (Univ de Monterrey, Mexique)

Comitê de organização:
Bénédicte Deschamps, Laurent Faret, Pilar Gonzalez Bernaldo, Odile Hoffmann, Maud Laëthier, Catherine Lejeune, Françoise Lestage, Aurélia Michel, Paul Schor, Sylvain Souchaud, Dominique Vidal
larcalaboratoire de recherche sur les cultures anglophones

Comments