A NOSSA HISTÓRIA

Vivia na Cerdeira um Senhor Desembargador, Dr. José Dinis da Fonseca, homem de bem, que, não sendo de grandes manifestações exteriores, aprendera de seus pais a preocupar-se com os outros. Assim, a sua casa estava sempre disponível, para quantos dela necessitavam, inclusivamente os transeuntes que, a caminho de Coimbra, se dirigiam a Fornos ou a Mangualde a tomar a diligência e aqui precisavam de pernoitar. Era antes dos anos 30.

 

 
D. João de Oliveira Matos
 
Na mesma altura, surgiu, na diocese da Guarda, uma figura carismática, D. João de Oliveira Matos, bispo auxiliar que, nas suas visitas pastorais encontrou muita gente da índole do já referido desembargador. Do grupo faziam parte duas das suas sobrinhas, que viviam no Rochoso, aldeia situada a 5 Km da Cerdeira e que se tornaram colaboradoras diretas do bispo D. João. Por intermédio destas, chegou o bispo auxiliar ao conhecimento do tio que, se bom era, melhor se tornou, em contacto com o citado bispo.

Pensou D. João em reunir essas pessoas com quem contactava de perto e, com elas, fundar uma obra de Igreja, e logo as duas senhoras se propuseram colaborar diretamente com o zeloso bispo, oferecendo os seus trabalhos e colocando à disposição os seus haveres. Essa obra foi fundada em 1924, com o nome de Liga dos Servos de Jesus.

Preocupado com a situação das sobrinhas, pensando, sobretudo, que iriam ficar sem meios de sobrevivência, o Senhor Desembargador deixou-lhes, em testamento, não só a casa onde ele vivia, mas também algumas propriedades rústicas na área circundante.
Morria o Desembargador em Fevereiro de 1931.
 
Grupo de alunos na década de 30
 
Já a Obra de D. João de Oliveira Matos iniciava os seus primeiros passos. Pensando os colaboradores do prelado, e membros da recém fundada Obra, na promoção da gente da aldeia, logo destinaram a residência legada, de si bastante ampla, a uma escola para rapazes, à qual deram o nome de Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca, em memória do generoso Desembargador. Abriu, aqui, em Outubro, o curso liceal para rapazes, com três alunos internos e três externos; e a instrução primária também com três ou quatro alunos. Em Novembro do mesmo ano, foi criada uma escola noturna com cinquenta alunos adultos, alguns dos quais já casados.

O então Bispo da diocese, D. José Alves Matoso, deu pleno assentimento a esta iniciativa, autorizando a criação da Escola e conferindo-lhe o caráter de ESCOLA CATÓLICA.

O número de alunos do curso liceal foi sempre aumentando, mas não era este local que o “destino” lhes tinha reservado.

De facto, em 1938 o colégio masculino foi transferido para o Outeiro de S. Miguel, onde ainda hoje se mantém.

Após obras de adaptação nas instalações, o Colégio feminino, até então instalado no Rochoso, mudou para a Cerdeira, para os espaços anteriormente utilizados pelos rapazes. Aqui se encontra ainda hoje. Isto aconteceu em 1939. Ministrava a instrução primária, lições de corte e costura, bordados, música, pintura, Francês e Religião e Moral. Em simultâneo, as alunas inscritas, aprendiam a realizar as tarefas domésticas, já que estava em causa a formação da mulher, de acordo com as solicitações da sociedade da época, que lhe atribuía, essencialmente, o papel de esposa, mãe e boa dona de casa.

Em 1951/1952, abriu, finalmente, o ensino liceal, com os currículos oficiais. Foi-lhe concedido o alvará, nº 1214. Sabe-se que na história da escola existiu um outro, o nº 434, mas desconhece-se a razão pela qual foi necessário proceder-se à sua substituição.

No primeiro ano letivo, apenas um grupo de doze alunas iniciou os estudos, algumas dos quais já a frequentar a escola na modalidade primitiva. E continuaram os dois grupos a funcionar, em simultâneo, ainda por longos anos. Um era denominado “as estudantes”, outro “a costura”. Constituíam este último, jovens que não tinham possibilidades económicas para estudarem, ou que consideravam não serem detentoras de grande capacidade intelectual. Algumas foram convidadas a estudar, mesmo a expensas da escola. E para tornar o acesso ao estudo mais fácil, foi criado um Lar, no qual eram acolhidas as filhas de agricultores, que, não sendo abastados em dinheiro, colaboravam na despesa das filhas com os produtos agrícolas. Eram elas que ajudavam a confecionar as refeições e a seu cargo tinham também a arrumação das dependências do Lar.

De qualquer modo, o ensino numa escola particular tinha que ser pago pelos pais dos alunos, ao contrário do que acontecia no ensino público, onde era custeado pelo Estado. Com a publicação do D.L. 553/80 de 21 de Novembro, onde é consagrada a liberdade de aprender e de ensinar, incluindo o direito dos pais à escolha e orientação do processo educativo dos filhos, o Estado assumiu uma política de apoio à família, instituindo subsídios destinados a custear as despesas com a educação, celebrando contratos com as escolas particulares. Também esta escola passou a usufruir desse direito, celebrando anualmente um Contrato de Associação, o que lhe permitiu, a partir dessa data, ministrar um ensino gratuito e facilitar o acesso a alunas de todas as condições sociais.

A gratuitidade do ensino e o alargamento da escolaridade obrigatória até ao 9ºAno, fez com que o número de estudantes aumentasse e o grupo da costura decrescesse, pois era obrigatório prosseguir os estudos.


Alguns anos mais tarde, com o aparecimento de algumas indústrias na região, o grupo foi mesmo completamente extinto. Isto deve ter-se verificado por volta dos anos 90.

 

A mudança operada na escola, que passou do ensino de tarefas essencialmente femininas ao ensino ministrado em qualquer outra escola, ficou a dever-se a um forte impulso do então bispo da diocese da Guarda, D. Domingos da Silva Gonçalves, que tinha já horizontes bem mais amplos, prevendo que a mulher viria a igualar o homem em direitos. Quando alguém lhe disse que não tinha sentido criar aqui uma escola nestes moldes, pois existia, na Guarda, o Colégio do Sagrado Coração de Maria, ele foi perentório em afirmar que esta não tirava o lugar à que já existia. Quase impôs que se avançasse com a ideia. Assim se fez, e a escola surgiu.

Continuou a ser gerida pela Liga dos Servos de Jesus, obra diocesana já referida anteriormente. Convém salientar que as já mencionadas sobrinhas do Senhor Desembargador, foram as primeiras a assumir a direção das escolas, uma no Outeiro de S. Miguel, outra na Cerdeira, logo após a sua criação. 

A Irmã Felicidade Aguiar Ramos substituiu a Irmã Maria Rita, no cargo de Diretora Pedagógica entre 1990 e junho de 2013. Faleceu em dezembro de 2013.

 

     

       Irmã Maria Rita       Irmã Felicidade Ramos