Localização
Distrito > Coimbra
Concelho > Arganil
Enquadramento > Área protegida da Serra do Açor
GPS > N 40º 13.757' W7º 49.502'
Como chegar
Se vem do Norte ou do Sul:
Apanhe a A1 (sentido Lisboa/Porto) - saída Coimbra Norte;
seguir pela IP3 (sentido Viseu) - saída Covilhã/Arganil;
seguir variante IC6 (sentido Oliveira do Hospital) - saída Côja/Piódão;
Côja - Piódão (EN344)
Porto - Piódão > 202 Km; ~2h30m
Lisboa - Piódão > 299 Km; ~3h40m
Sede de Freguesia, o Piódão está administrativamente integrado no Concelho de Arganil, distrito de Coimbra.
Sendo a freguesia mais extensa do concelho é, no entanto, a menos povoada, com 36,36 km² de área e 224 habitantes (2001).
Densidade: 6,2 hab/km²
A aldeia de Piódão situa-se numa das encostas da Serra do Açor, a qual está classificada como área de paisagem protegida.
As características da Serra do Açor, nomeadamente no que se refere ao seu íngreme declive , condicionaram a adaptação da aldeia ao terreno e, por isso, a povoação do Piódão apresenta uma disposição em anfiteatro, pela encosta abaixo.
Assim, as ruas são estreitas e pequenas, contornando os limites da Serra, circundando a encosta e estruturando o núcleo.
As casas descem de socalco em socalco, para se alargarem na vasta praça que constitui o centro, a sala de visitas do Piódão, onde se ergue a pequena Igreja Matriz.
Esta disposição do aglomerado de casas, conjugado com o aspecto que a luz artificial lhe confere durante a noite, fez com que recebesse a denominação de 'Aldeia Presépio'.
Os materiais de construção são os que a serra oferece: xisto e madeira.
As habitações possuem as tradicionais paredes de xisto, tecto coberto com lajes e portas e janelas de madeira pintada a azul.
Defendido desde 1974 pelo arquitecto Eugénio Correia, o Piódão foi finalmente classificado pelo IGESPAR como Imóvel de Interesse Público em 1978.
Aldeia Mais Típica de Portugal
Na década de 80 o Piódão recebeu o Galo de Prata, condecoração atribuída à 'Aldeia Mais Típica de Portugal'.
Aldeia Histórica
O conjunto arquitectónico da povoação do Piódão forma também uma das Aldeias Históricas protegidas.
A integração nesta rede salvaguardou o seu conjunto urbanístico (todas as casas em cimento e telha estão ou serão convertidas em casas com paredes de xisto e telhados de lousa).
Origem
A aldeia a que agora chamamos de Piódão não é, na verdade, a povoação original.
Houve, em tempos, num vale muito próximo, um outro Casal de Piodam («a gente ou o povo que anda a pé»), atualmente reduzido a ruínas.
Não se sabe muito bem que motivos levaram essa povoação ao abandono. Pensa-se que, devido ao calor, sofria com as investidas das formigas que devoravam o mel (uma das suas principais riquezas) e que, por outro lado, não dispunha de água suficiente para cobrir as necessidades de uma população em expansão. Por outro lado, é provavel que o desejo de diversificação da produção de cereais levasse os habitantes do velho Piódão a se dispersarem pelo vale, dando origem a novos focos populacionais.
As referências a Piódão ao longo dos séculos referem quase sempre o local como refúgio e isolamento do resto do mundo. Diz o povo que Piódão vem de «pior do mundo». Quando um criminoso lá se refugiou, fugido da justiça, enviou notícias para a família, muito longínqua, dando conta do local onde estava - o pior do mundo.
Na sua origem, a população pode ter alguns fora-da-lei, mas tem também a fidalguia e abastança dos seus Senhores, com direito a tribuna própria na Igreja de Lourosa.
Igreja Matriz (séc. XVII)
Costruída pelo povo, em honra de Nossa Senhora da Conceição, foi ampliada no século XIX pelo Cónego Manuel Fernandes Nogueira, com novos elementos: o coro, a torre e a frontaria.
O primeiro olhar prende-se de imediato à sua brancura, em contraste com a pedra escura das casas. A estrutura arquitectónica é peculiar: quatro coruchéus piramidais na frontaria, de estilo amouriscado-mudéjar (estilo arquitectónico com influências islâmicas) tardio.
Esta combinação convida-nos a viajar pela história de mouras encantadas. Será que ainda guardam moedas de ouro algures na serra? No seu interior, cativa a pia baptismal, com um painel de ajuleijos a ilustrar o baptismo de Jesus por S. João Baptista.
Estátua Cónego Manuel Fernandes Nogueira (séc. XX)
Fundador do Colégui de Piódão no séc. XIX. Consta que este colégio existiu até aos anos 70, tendo sido demolido para a construção do atual largo.
Capela de S. Pedro (séc. XVI)
Situada no cimo do emaranhado de casas que compõe a aldeia, passa muitas vezes despercebida. No seu interior, encontra-se a imagem de S. Pedro, Padroeiro do Piódão.
Capela das Almas (séc. XIX)
Foi capela mortuária do Piódão e das aldeias vizinhas. Espreite pela janelinha e, no interior, tem um retábulo em madeira com uma pintura das Almas do Purgatório.
Fonte dos Algares (1968)
Trata-se de um chafariz de xisto, com uma imagem de Nª Srª emoldurada por um arco ogival. Vale a pena fazer uma pausa para beber um pouco dessa água fresca e cristalina.
Eira Comunitária
Fica na parte mais alta na aldeia, por isso prepare-se - a subida das escadarias é íngreme! Lá, o vislumbre da paisagem faz vaguear a nossa imaginação com a visão do malhar o milho sobre a pedra xistosa.
Núcleo Museológico do Piódão (2003)
Antes de funcionar como museu, foi morada do Pintor Torres Vilaça, durante 2 anos. Aí encontrou paz e inspiração necessárias à sua arte.
A partir de 2003 a casa transformou-se num espaço aberto ao público, com alguns quadros e objectos do artista, incluindo a sua paleta de cores.
Este museu situa-se na praça principal e é uma extensão do Museu Etnográfico de Arganil. Aqui terá uma retrospectiva do quotidiano dos habitantes da aldeia até ao séc. XX, com imagens e utensílios, muito deles oferecidos pelos próprios habitantes. A coleção inclui o aerodínamo que trouxe pela primeira vez a luz eléctrica à aldeia.
Festa em Honra da Nª Srª da Conceição
A festa em honra da padroeira da aldeia realiza-se, tradicionalmente, no terceiro domingo do mês de agosto. Após a Missa Dominical realiza-se uma bonita e tradicional procissão onde estão respresentadas, através do mordomos, todas as aldeias que compõem a freguesia (Piódão, Chãs d'Égua, Malhada Chã, Fórnea, Tojo, Foz d'Égua e Torno). Esta tradição já não se realiza há vários anos.
Domingo de Ramos
No domingo de Ramos os fiéis levam um ramo de oliveira para benzer e, nas noites de tempestade, fazem com ele uma cruz que é colocada em cima das brasas da lareira ou na porta principal, invocando assim a proteção de Santa Bárbara para afastar a trovoada.
Páscoa
A celebração da Páscoa começava na quinta-feira. Durante a tarde não se trabalhava e realizava-se a missa com a lavagem dos pés do pároco a doze homens, normalmente os mordomos. No domingo de Páscoa, depois da misssa, o padre e o sacristão levavam a cruz a beijar a casa das pessoas na chamada Visita Pascal ou Boas Festas. Esta tradição ainda se mantém.
Dia de Santa Cruz (3 de maio)
Fazem-se as cruzes de madeira entrelaçadas com as folhas de oliveira e de louro e espanham-se pelos campos, para permitir boas colheitas e boa ventura.
Festas de S. Pedro
A festa de S. Pedro realiza-se a 29 de junho e tem um lugar de destaque atualmente, estando integrada no programa de animação das Aldeias Históricas de Portugal. A Capela de S. Pedro, que fica situada no alto da povoação, alberga a imagem de S. Pedro segurando a chave e o livro.
Natal
Hoje em dia, no Natal, a fogueira ainda é uma componente indispensável. Antigamente era à sua volta que se reuniam todos, levando troncos de oliveira para arderem na fogueira e o que restava, o chamado «tição do Natal», voltavam a levar para casa para acenderem em noites de trovoada. Na noite de Natal comiam-se os bolos da fogueira (filhoses) fritos em azeite no caldeiro de cobre pendurado sobre a fogueira da lareira.
Atualmente ainda se realiza a tradicional Missa do Galo onde dão o Menino Jesus a beijar.
Ano Novo
Na véspera de Ano Novo voltavam a acender a fogueira com os restantes cepos que sobravam do Natal. No dia seguinte após a missa, os mais jovens iam de porta em porta cantar as Janeiras, tradição que atualmente já se perdeu. Os jovens levavam um fargoeiro para transportar os enchidos que iam recebendo.
No passado
Ao longo dos tempos, as populações foram criando condições para a subsistência, conquistando à serra cada leira, cultivada em socalcos. E assim viveram durante séculos do mel, azeite, queijo, centeio e milho a que agregaram a exploração do carvão e das minas de volfrâmio. O carvão era o «ouro negro dos pobres». Para grande parte da população o carvão era a grande fonte de dinheiro. Apesar dos ferreiros, carpinteiros, pedreiros, alfaiates, sapateiros, taberneiros e almocreves ganhavam dinheiro regularmente.
Durante muito tempo a agricultura, as pastorícia e a apicultura construíram as principais actividades das populações do Piódão.
O Piódão foi terra de pastores, com uma alimentação baseada em leite de cabra, queijo, carne de animais de criação domésticos (galinhas, cabras e porcos), mel, pão de centeio e castanha.
A pastorícia era feita pelo membro mais novo da família, com 7 ou 8 anos de idade, que ia para a serra ao pôr-do-sol, enquanto o resto da família se encarregava da agricultura.
A estrada real, que ligava Coimbra à Covilhã, trazia à freguesia as caravanas carregadas de peixe fresco e sal, que partiam com a carne, o queijo e os lanifícios da povoação.
Os moinhos tiveram uma grande importância no quotidiano da população do Piódão, trabalhando noite e dia a moer os cereais. No entanto, atualmente, encontram-se abandonados e alguns em ruínas.
No presente
Os habitantes dedicam-se, sobretudo, à agricultura (milho, batata, feijão e vinho), à criação de gado (ovelhas e cabras), à construção cívil, ao comércio, a actividades relacionadas com o turismo e à apicultura.
Realativamente ao perfil sócio-económico, tendo em consideração a população ativa em 2001, 61% pertencem ao sector primário (maioritariamente na agricultura), 21% ao secunsário (principalmente construção cívil) e apenas 18% ao terceário (quase exclusivamente comércio e actividades relacionadas com o turismo).
A gastronomia do Piódão está em harmonia com a Natureza. Quase tudo é proveniente da terra. O mel, o pão de centeio, a broa de milho, o leite e queijo de cabra, o feijão e a carne caprina são a base da alimentação piodense. Quem passa por aqui tem de petiscar as iguarias serranas: chanfana, bucho ou cabrito assado são alguns dos pratos confecionados.
Dos doces fazem parta a tigelada à moda do Piódão, os bolos do forno, bolos da fogueira ou filhoses e os biscoitos de azeite.
A aguardente típica nesta aldeia é a aguardente de mel e o medronho.
Tigelada
Ingredientes: Açúcar q.b.; 12 ovos; 1l de leite; canela q.b.; casca de limão.
Preparação: Bata muito bem os ovos, o açúcar, a canela, o limão e, por fim, junte o leite. No final retire a casca de limão e deite o preparado numa tigela de barro vidrada. Coloque o preparado a cozer no forno até ficar com uma crosta dourada.
No que diz respeito à aldeia do Piódão, a partir de meados do século XX, a maioria da população emigrou para outros países ou para o litoral. Embora a emigração para o Brasil, África ou Europa tenha sido relevante, o principal fluxo migratório dos habitantes da freguesia do Piódão foi quase sempre em direcção a Lisboa. O primeiro momento de forte emigração para Lisboa sentiu-se com o fecho das minas da Panasqueira. Os trabalhos concentravam-se na estiva, na construção naval ou na lota. Nos anos 70 a alternativa a estes trabalhos era a pequena restauração, criando-se uma rede de cumplicidades que condicionava o acesso ao emprego, à existência de relações de parentesco, amizade ou vizinhança.
Actualmente, a desertificação das zonas do interior, afecta praticamente todas as povoações desta freguesia. As populações mais jovens emigraram para o estrangeiro ou para as zonas litorais à procura de melhores condições de vida, regressam às suas origens, sobretudo, durante as épocas festivas para reviver o passado e se reencontrarem com os seus congéneres.
O padre Manuel Fernandes Nogueira, homenageado com uma estátua no largo da aldeia, teve um importante papel tanto ao nível académico e cultural, como ao nível do desenvolvimento da agricultura e silvicultura, incentivando uma vida comunitária e participando do desenvolvimento económico da aldeia do Piódão.
Relativamente ao perfil de instrução, a maior percentagem da população (42%) tem apenas o 1º ciclo, seguida de 27% de indivíduos analfabetos e 24% de indivíduos com 2º ciclo.