Março 2007

 

Lisboa, 20 de Março de 2007

Galeria Potthoff

 

                   África na memória e no coração

 

 


 

Sete poemas escreví para acompanhar os quadros desta exposição.

As imagens não foram suficientes para esgotar, esvaziar,

toda a intensidade destes sentires e destas memórias,

precisaram de falar de várias maneiras,

precisaram de sair também pela música das palavras,

expandirse e dançar ao compasse dos pincéis.

 

Página Principal          Últimas obras         Novembro 2007          Maio 2007            Acrílico sobre papel 2007          Contactos  

 

 

A Quitandeira

 

Chuva miudinha que acende mil odores,

Cúrcuma, pau santo, e flores,

Vestem-se de amarelo

as espinheiras.

Ananás, abacates, cajus,

Na cabeça das quitandeiras.

 

Panos garridos,

pó nas esteiras,

Passos de ébano

Caminho da aldeia.

 

Espuma de mar

Pinta de branco as canoas,

Redes ao ar, promessas boas.

 

Fumeiros, batuques,

Agua de coco,

Cheiros e cores,

Saturaram de intensidades,

Toda a minha vida,

Todos os meus amores.

 

 

 

 

 

 

 

    Fuba

    45 x 60

    Acrílico sobre tela

 

 

 

 

 

 

 

 

Na praia

 

 

Não sou daqui, nem de lá,

Não sou de parte alguma.

 

Fico pouco tempo, ou fico muito,

Mas enquanto estou,

Estou onde fico inteiramente.

 

Vivo, aprendo, sofro, rio, amo,

Pertenço.

Um segundo, dois dias,

Alguns meses, dois anos,

Tanto faz.

 

A medida do tempo

é a qualidade daquilo que vivemos.

 

A minha vida terá sido longa

Se valeu a pena

E, se assim foi,

Eu terei sido feliz.

 

  

 

Sem nada e tudo

A distancia entre os corações

Pode ser tão pequena…!

 

Podemos nem precisar de tempos e percursos

Para nos encontrar.

Se és consciente,

És confiavel.

 

Então abraça-me,

Não desperdices o nosso tempo!

 

 

 

 

 

Prazer

 

O tempo moldeia, deforma,

Enjeita, compõe ou rejeita,

Conserva, alegra ou chora,

Entende, conserta ou sangra,

Mas acaba por ensinar.

 

Amar é tão fácil,

Pode ser tão fácil,

Basta deixá-lo sair,

só isso basta.

Não é preciso nada,

Nem saber, nem aprender,

Apenas dar e receber,

Sentir o corpo falar,

ouvir os sentidos,

Tornar-se de novo criança

E deixar-se encantar.

 

Verás como as mãos se encontram,

Verás a luz,

Chegarás ao céu!

 

 

 

 

 

África a sorrir

 

Para esse povo

que na infância conheci,

Para essa terra que me deu a vida,

Terra onde ainda habitam

os olhares mais lindos

E os sorrisos mais belos.

 

Terra fecunda de contrastes,

Embalaste-me em teus braços,

Mãe de amores e de abraços.

Acolhedora e bela.

África- mãe, que nunca solta,

Marca que nunca arrefece,

marca-nos a fogo,

E jamais se esquece.

 

 

 

 

       Crianças

         40 x 30

   Acrílico sobre tela

        

 

      Ela

      50 x 28

    Acrílico sobre tela

      

     Ele

     56 x 34

     Acrílico sobre tela

 

 

Noites de luar,

Batuques na sanzala,

Uma criança dorme,

Outra criança a embala.

 

Noites de luar,

Batuques e vozes,

Todos cantam,

África está a dançar!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A espreitar

(Retrato de Josefina Ortúzar)

 

Tu que espreitas

E tentas perceber

Este país estranho,

E aprendes da vida

semelhanças e diferenças.

Já deixaste lágrimas e dores

Nesta nossa terra,

A terra antiga do teu sangue.

 

Tu, minha doce filha,

De África só tens

os meus contos todos,

Mas os ecos dessas histórias

embora tu não saibas,

Puseram no teu rosto

Aqueles olhos belos

E gravaram na tua alma

A força toda

Daquele fogo.

 

 A Quitandeira

    100 x 140 Acrílico sobre tela 

O quadro "A Quitandeira" abriu esta exposição e fazia a transição para o que pintei depois, desfazendo o zoom que permitiu actualizar na memória os tempos de infancia.

 

Esta obra encerra o espírito de África dentro de mim, uma marca que me marcou para sempre e me impregnou de todas aquelas cores, cheiros e sentires. 

Escrevi o poema porque o pincel não me era suficiente, não chegava, e só depois consegui acabar o quadro.

 

Foram ambos uma espécie de grito saído do fundo da alma e do coração, são uma imagem  de tudo aquilo que aquelas terras me ofereceram para sempre.

 

Comecei a pintá-lo no Chile e não o consegui acabar. Mesmo assim, o Museo de Bellas Artes de Santiago registou-o, e carimbou por trás a tela. Mas ele só conseguiu a sua forma final quando cá cheguei e vi de novo o meu país, nesta diversidade permanentemente presente, nas nossas ruas e nas nossas vidas. Foi assim que ele fechou um ciclo e marcou o começo de outro.

 

Veio desmontado e foi o senhor Julio, aqui na velha Lisboa, que lhe fabricou um novo bastidor a partir de uma antiga viga de casa demolida - "..esta não empena menina, tem mais de 400 anos! "

 

É por isso que fico tão contente de que ele tenha sido comprado para ser dado de presente, já que ele exprime o que foi, e é para mim, um  dos maiores presente que a vida me deu: ter nascido em Angola.

 

 

                                  Na praia

                          87 x 142  Acrílico sobre tela

 

  

Sem nada e tudo

120 x 80 Acrílico sobre tela

 

 

 

   Prazer

                     81 x 60  Acrílico sobre tela

 

   

 

 

África a sorrir

    76 x 110  Acrílico sobre tela

 

Miúdo

                 80 x 60  Acríico sobre tela

                  

                    Observo

                    140 x 100  Acrílico sobre tela

 

 

África a dormir

   60 x 90  Acrílico sobre tela

 

         Porta Bereber

         Acrílico sobre tela 

 

  

              A espreitar

                       80 x 54  Acrílico sobre tela

 

Este retrato fechou a exposição.

       África e Europa, fundidos na herança que no sangue

nos deixa a travesia da alma.