Bem a primeira conclusão para mim é em relação ao défice dos EUA. Nunca tinha percebido como tantos Estados continuam a comprar a dívida americana sendo que eles (EUA) terão com certeza mais dificuldade em pagar a dívida deles do que nós a nossa. Certamente que se fala na globalização e que a queda dos EUA iria levar à queda económica do resto do mundo. O que é um bocado verdade. Mas mesmo assim, os chineses estarem a "dar" dinheiro a alguém para lhes comprar os produtos, parece, enfim... excessivo (porque só se "empresta" quando há possibilidade de devolução). Mas agora parece-me haver uma razão extra. O processo que Portugal está a viver é tão humilhante e incontornável. Nós simplesmente montámos todo o nosso sistema económico baseados no ir buscar dinheiro ao exterior. E agora, não é propriamente a questão de dizer: «já não podem ir buscar mais dinheiro!» Com isso até se vivia bem. O défice do Estado, 10 mil milhões ou assim, até se podia reduzir para zero, com sacrifício, mas é possível. Mas a ideia é «pagar o que se pediu», ora isto já não é assim tão fácil! Só de juros passa todo o nosso défice! Sejamos claros: é IMPOSSÍVEL! Seria preciso pagar tudo aquilo que temos andado a usufruir à décadas, com juros! Como é que se faz isso? Não se faz! A nossa "dívida" será próximo de eterna. Ficaremos para sempre (ou pelo menos até onde se consegue vislumbrar) na dependência do exterior.
Agora imaginem pôr os EUA na mesma situação. A maior potência militar do mundo, sem qualquer comparação, com armas nucleares para todo o lado, e sabe-se lá se não terá também armas químicas e biológicas, além de todo o equipamento militar de ponta tradicional... o que é que eles iriam dizer? Se os Islandeses acharam que não tinham nada a ver com a dívida dos bancos, porque haveriam os americanos de hoje em dia achar que tinham de pagar dívidas de há décadas atrás. Poderiam dizer: «mas nós andamos a alimentar a economia do mundo inteiro com as nossas compras, nós deslocalizámos as fábricas para os vossos países. Fomos altruistas. Quantas dívidas perdoámos ao 3º mundo, quantos milhões demos à ONU, e ajudas através do FMI e outros órgãos? Agora é tempo de vocês compreenderem a nossa posição.» Numa palavra: default praticamente sem consequências, porque, na prática, quem tem o "might" faz o "right" - quem tem o poder define o que é justo.
Em relação a Portugal e a estas eleições, há algumas conclusões que retirei.
Em primeiro lugar as reformas que a troika desenhou, em relação à justiça, emprego, educação e outras, já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Não sei se esta crise poderia ter sido evitada, mas certamente que poderia ter sido minorada. Mas dizer isto não é dizer que o PS é que tem a culpa. Porque, ao longo dos anos, não foram apresentadas alternativas. Os partidos ganham lugares no Parlamento, os deputados são pagos, para se pronunciarem sobre o país, apresentarem soluções e denunciarem problemas. No nosso país foi preciso esperar até cerca de um mês antes das eleições para vermos propostas concretas de solução. Faz sentido perguntar: «o que é que andaram a fazer este tempo todo?»
Mas mais grave do que isto é a insustentabilidade das propostas que vêm dos vários quadrantes políticos. O PSD embarca no desejo de reformar o país, oferecendo melhores condições aos bombeiros, incentivos às empresas, reformas de fundo na justiça, maior eficiência energética nos edifícios do Estado, entre muitas outras medidas claramente adaptadas a períodos de expansão económica por acarretarem grande despesa para o Estado. O BE tem imensas propostas que parecem feitas um bocado em cima do joelho, muito apelativas, mas inconcretizáveis, além de incompatíveis com as medidas da troika. Quanto ao PS não nos podemos esquecer de todo o aparelho partidário a pesar sobre a estrutura produtiva - os interesses de alguns privilegiados a prejudicarem os da maioria. Do PP ao PCP vemos a alternância entre populismo e idealismo. Em todos falta a competência, o trabalho árduo ou a capacidade de concretizar! O que todos eles têm é muito Bla, bla, bla...
Enfim, o que apetece dizer é: «eu voto nos senhores da Troika». Venham eles governar o nosso país, porque em apenas algumas semanas descobriram o que os nossos políticos não descobriram em décadas e provavelmente nunca iriam descobrir. Claro que há uma solução muito melhor: porque nós temos muitas pessoas muito competentes. Não estão é na política! Portanto, haveria que reformular o modo como as pessoas são eleitas, para a Assembleia e para o Governo, o modo como os assuntos são discutidos (com mais transparência e objetividade), relativizar o peso dos partidos, elevar a discussão e tirar do "poleiro" todos estes tipos sedentos de fama e de poder que se atacam da forma mais vil e que parecem querer fazer de nós parvos e que vão continuar a levar o país à ruína e a singrar à custa da ignorância e da miséria de um povo que já viveu bem à custa de escravos, ouro e especiarias... e parece continuar à espera de um D. Sebastião que nos volte a levar ao topo do mundo enquanto maldiz tudo e todos incluindo a sua sorte... mas ao menos tem o triste fado onde se revê e se lamenta em sempre novas e infindáveis "gerações à rasca" e que "parvas não são". Vá lá, deem-nos um mundo para explorar, nós queremos sair daqui, seja África, a Índia, a lua, Marte ou o Céu, o que é preciso é darem-nos terreno para calcorrear. Aí sim, estamos em casa, como descobridores, exploradores. Não nos metam a fazer contas e a pensar na segurança social. O nosso coração, sedento dos amplos espaços abertos, arqueja por outras coisas, bem maiores, bem melhores, que a economia e a sociedade.
E, no entanto, precisamos de um sistema político saudável, isento, claro, racional, transparente, capaz de ouvir e responder em tempo útil... para sermos felizes. Menos telenovelas, futebol, vícios, extremismos e simplificações... mais simplicidade, honestidade e realismo!
Ou seja, a minha opinião não mudou muito depois de ler tudo o que anda por aí,
em suma:
Tamos lixados.