pela esquerda


73- Que Bloco no futuro?

Já cheguei a casa e aguardo com alguma expectativa pelas 21,00 horas para ouvir Francisco Louçã na Grande Entrevista da RTP. Aguardo para ver se consigo, nas entrelinhas, discernir se este Bloco ainda é o que eu julgava (querer) ser; um instrumento de acção política e de unidade plural das esquerdas, em permanente “desconstrução” e construção/renovação ideológica, aberto, desimpedido, sem tabus e de grande lealdade entre as forças envolvidas, tendente a ganhar a confiança da maioria social, para uma alternativa de esquerda e um modelo de desenvolvimento anti-capitalista -tendencialmente socialista … ou se, então, iludido pelos votos de protesto que recebeu e vai continuar a receber de forma substancial nas próximas eleições, se acomodou e abandonou o projecto de mudar a sociedade, para se contentar com os lugares ao Sol do parlamento, numa oposição necessária mas ineficaz do ponto de vista de resolver os grandes problemas de uma sociedade injusta. 

Sendo um projecto desta natureza radicalmente diferente do modelo capitalista, para ter êxito, exige-se um trilhar com passos seguros, passos a passo, conquistas progressivas e grandes confrontos ideológicos sobre os princípios fundamentais do modelo, flexibilidade táctica sem perder as referências, firmeza e radicalidade na defesa dos direitos sociais, da dignidade humana, de princípios éticos da verdade e da honestidade pessoal. Um programa reformista, enfim, mas sério e consequente. Mas isto, é claro, são divagações e apenas uma opinião de quem se julga, mais ou menos conhecedor, das expectativas das pessoas mais desfavorecidas e com uma experiência de vida pessoal e política razoável.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

72- Ter uma boa oposição é bom. Mas é tempo de ter um bom governo.

Greve geral de centenas e centenas de milhares, manifestação nacional de mais de duas centenas de milhares de trabalhadores, dezenas de milhares de populares nas ruas, em todo o país, contra os fechos dos serviços de urgência e escolas, centenas de milhares de funcionários públicos em greves, inflamados protestos dos reformados, médicos, enfermeiros, juízes, polícias, militares. As maiores manifestações e greves de sempre dos professores, em continuidade. Quebra de promessas eleitorais. Falhas na palavra dada. Ataques aos direitos dos trabalhadores. Diminuição dos valores das reformas. Mais desemprego, precariedade, perda de poder de compra. Trapaças políticas. Favorecimento dos banqueiros. Um verdadeiro vendaval tem varrido este país nos últimos três anos.

E que sobra disto? As sondagens vão dizendo-nos que o PS se prepara para ganhar novamente as eleições e com maioria absoluta! Eu previra-o.

Se o PSD não existe neste momento, se o CDS não tem estofo, se o PCP apresenta-se como sempre, uma força de protesto, puro e simples, a tudo e a nada, e o Bloco se satisfaz com o seu crescimento eleitoral e mais alguns deputados, de que estavam todos à espera? Que alternativas têm quem precisa mais? Quem lhes pode oferecer alguma coisa, por pouco que seja? Um salário mínimo, um emprego mínimo, um rendimento mínimo, o direito a uma vida mínima? O PS ou o PSD. Ninguém mais se "oferece" para governar esta é que é a verdade. O PCP e o Bloco parecem apenas estar interessados em disputar outro campeonato. O de saber quem fica à frente ...na oposição. A mim parece-me natural pois, que o PS ganhe com facilidade as próximas eleições.

Eu, cá por mim, culpo esta esquerda. A esquerda à esquerda do PS. Em especial o Bloco. Porque nos apareceu portador de um projecto novo, consistente, plural, aglutinador das esquerdas. Porque é nesta esquerda que posso acreditar. Porque não acredito, não confio, já mostraram o que valem e que interesses servem os que sempre nos governaram. Mas para isso é preciso que essa esquerda queira. E muito sinceramente, parece-me que não quer. Não querem. Por muito que falem em convergências. Em construir alternativas de esquerda. As pessoas que precisam mais, que precisam a sério, não votam em oposições. É por isso que o PS ganha. É por isso que acho que talvez fosse bom o aparecimento de um novo partido à esquerda. Para romper com esta acomodação à oposição parlamentar. O povo, em especial o mais pobre, merecia mais que uma boa oposição.

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

 71- Conversa da treta

Jerónimo de Sousa, há pouco mais de um mês, em declarações à imprensa, surpreendeu ao propor "uma convergência das esquerdas" a todas as "forças políticas, forças sociais, personalidades que se identifiquem com a necessidade de ruptura", sublinhado com um "nós não excluímos ninguém" para incluir o Bloco de Esquerda, numa "alternativa de esquerda" destinada a romper com a política do PS.

Agora, na intervenção de abertura do XVIII Congresso do PCP, Jerónimo de Sousa, se dúvidas houvesse, vem mostrar que é um político falso, como tantos outros e que afinal aquela proposta não passava de uma manobra de diversão, tal como aliás, afirmei aqui.

Disse Jerónimo de Sousa no Congresso. . Sobre os socialistas de esquerda do PS: "as suas movimentações" visam travar a "erosão do PS", "alimentar ilusões" e tentar "suster" a subida dos comunistas. . Sobre o encontro das esquerdas em 14 de Dezembro: "o desenvolvimento de outros projectos políticos tenderão para assegurar as condições que permitam a sobrevivência da política de direita". . Sobre o Bloco de Esquerda: "um partido social-democratizante disfarçado por um radicalismo verbal esquerdizante", "a sua concorrência é sempre contra o PCP, caindo muitas vezes no anticomunismo".

Sendo assim a sua proposta de "convergência das esquerdas" e da criação de uma "alternativa de esquerda", reduz-se, como sempre à "velha" CDU. Tanta treta para nada. O PCP como se vê não está interessado (nem valoriza) qualquer esforço de entendimentos à esquerda. O PCP tem uma cultura de controlo e de vanguarda que impedem qualquer unidade na diferença.

Sábado, Novembro 29, 2008

71- Um teste à credibilidade do Bloco

A crer nos jornais, hoje à noite, o plenário de aderentes da concelhia de Lisboa do Bloco, vai retirar a confiança a Sá Fernandes, decisão que também teria sido já ratificada pela comissão política. A ser verdade, estamos perante um simulacro de democracia interna e de participação democrática dos militantes, na discussão e tomada de decisões colectivas, tão caras ao Bloco, nos discursos e nos documentos programáticos. Mas nada que me admire. Neste segundo mandato, depois do acordo de Lisboa assinado entre o Bloco e o PS, Sá Fernandes nunca teve a vida fácil dentro do Bloco. Sendo que as suas preocupações são e foram as de sempre: o melhor para a cidade. Sendo o que sempre foi. E com o acordo de Lisboa tudo fazer para honrar os seus pressupostos: ser o mais possível solidário na governação e envidar todos os esforços para cumprir os pontos inscritos no acordo. E sobre isso nada a dizer. Esses foram os seus compromissos com o Bloco e com os seus eleitores e tem cumprido. Tudo o resto são diferenças de opinião que deveriam ser naturais, entre o independente Sá Fernandes e um partido que o escolheu, pelo seu carácter, verticalidade e apego aos interesses de Lisboa e dos lisboetas. E que deveriam ser respeitadas de parte a parte.

O Bloco, não o soube compreender infelizmente e alguns dos seus dirigentes, através de mensagens subliminares na imprensa, foram dando a entender que se teria rendido aos encantos do poder, assim como não o protegeram dos ataques soezes de onde se esperava.

O Bloco tem o direito de não se rever em algumas posições de Sá Fernandes e nessa medida entender não o recandidatar a um próximo mandato. Mas se a decisão de logo à noite for as que os jornais pré-anunciam; a retirada de confiança, é uma ferida aberta e profunda na relação com muitos dos seus simpatizantes e militantes. E revela que o Bloco ainda está muito preso a condutas grupistas, sectárias e de pretensa superioridade moral.

Terça-feira, Novembro 25, 2008

70- Um novo partido à esquerda? Sim, talvez.

Haverá um espaço à esquerda para a criação de um novo partido, pergunta o DN de hoje. A minha resposta é sim, talvez. Com um PS virado à direita, um PCP conservador, um Bloco aparentemente contente na oposição, o aparecimento de um novo partido de esquerda, com origem no Manuel Alegre, poderia alavancar uma alternativa de esquerda a sério e obrigar a clarificações nesta área política.

Esse partido, conhecendo as posições de Manuel Alegre, não seria o meu partido, nem teria sequer o meu apoio, concorrendo às eleições e não tendo possibilidades de ganhar. Para ser oposição, prefiro o Bloco. Mas a existência desse partido, em si, obrigaria o Bloco a encontrar-se e a confrontar-se com os seus propósitos fundadores, para não perder os eleitores de esquerda mais moderados e o PCP a mudar se não quiser ficar ainda mais acantonado. Logo, a esquerda toda, só tinha uma saída: entender-se. E uma esquerda assim, sim, poderia vir a ser uma alternativa a sério. Uma alternativa credível. Uma alternativa para governar. À esquerda. Para haver mais justiça social e uma sociedade mais digna.

Nota: tive agora conhecimento das declarações de Manuela Ferreira Leite, pedindo a suspensão da democracia por 6 meses. Sinceramente isto nem merece comentários: estamos entregue aos bichos. A esquerda tem de fazer mais para que a alternativa dos portugueses a Sócrates não tenha que ser esta senhora.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

 69- Uma alternativa aos governos de alternância

Na reunião do último de fim-de-semana o Comité Central o PCP apelou à "convergência com todos os que estão empenhados num projecto claro de ruptura com a política de direita" mas segundo o Diário de Notícias, "Jerónimo de Sousa, recusou a ideia de que esta possa ser feita com o BE ou com parte do PS".

Conseguem entender? Digamos que o PCP tem uma maneira muito peculiar de ver as convergências à esquerda. São as convergências do PCP com ele próprio.

Sejamos claros! A unidade das esquerdas é uma necessidade importantíssima se realmente pretendemos mudar alguma coisa, se estivermos verdadeiramente e não apenas nas palavras, apostados numa sociedade com um maior justiça social e mais respeitadora da dignidade das pessoas:

Que aposte claramente nas qualificações, nas tecnologias, nas ciências do conhecimento. Em políticas de emprego, de saúde, de habitação e de educação, verdadeiramente ao serviço das pessoas. Que aposte na melhoria das condições sociais, na diminuição do desemprego, numa melhor qualidade de vida para todos, e muito em particular, para os mais pobres e os mais idosos.

Mas não adianta bater no ceguinho. Os caminhos da unidade das esquerdas fazem-se com as esquerdas interessadas. E faz-se respeitando o pluralismo das esquerdas. Mas não sejamos ingénuos. O caminho não é fácil. E o caminho faz-se caminhando. A experiência do comício-festa de Lisboa foi bonita. Como foi a da despenalização do aborto. É preciso dar-lhes continuidade.

Mas se as esquerdas quiserem ser mesmo uma alternativa de poder, é preciso muita esquerda. Somar esquerdas. Ganhar a confiança social. Credibilizar uma alternativa séria e exequível.

E desde já reafirmo o meu caminho: o desafio de apresentação de um programa mínimo de Governo.

Um programa reformista mas de ruptura profunda com os modelos de desenvolvimento neoliberal, um programa virado para fazer o pleno das esquerdas tanto quanto possível, sabendo-se que "uma política de unidade na diferença, exige humildade, responsabilidade, "desapego" ideológico, consensos, mestria, inteligência, face à complexidade de opiniões, de interesses, de responsabilidades, que a cada momento haverá que dar respostas…"

Ao Bloco de Esquerda caberia, por razões que têm a ver com o seu projecto (inicial) de construção de uma nova esquerda, moderna, exigente, de confiança, comprometida com a causa socialista e com as desigualdades sociais, a árdua tarefa de apresentar esta proposta às restantes forças e movimentos de esquerda.

Agora e já!

2008 Julho 1

68- Código de trabalho. Um acordo de aldrabice

A alteração ao código de trabalho se queria merecer o apoio de todas as partes, como o Governo dizia pretender, teria de acolher os interesses de todas as partes em negociação. Não foi isso que aconteceu. Creio mesmo que não houve um único especialista em legislação de trabalho que não dissesse que as propostas do novo código de trabalho visaram apenas favorecer as entidades patronais. Nesse sentido não é de estranhar que a CGTP não subscreva um acordo que ataca os direitos dos trabalhadores. Um bom acordo para ser assinado tem de ser bom para todas as partes.

O que fica deste acordo com o beneplácito da UGT e sobre proposta do Governo é mesmo o que as entidades patronais queriam: facilitar e agilizar os despedimentos, flexibilizar os horários de trabalho, reduzir os custos salariais, fragilizar a relação de trabalho face ao empregador.

Tudo o resto são pormenores para amenizar os prejuízos. O despedimento por inadaptação acabou por não passar de uma manobra de diversão, como alguns previam.

Quem conhece o mundo de trabalho em especial no privado sabe que regra geral impera a lei da selva. A mobilidade geográfica já existe. A flexibilidade de funções e de horários são uma constante. Os contratos colectivos não são respeitados. Os direitos do trabalho são mínimos. Os ritmos de trabalho são intensos. As relações de trabalho são baseadas na arrogância, na prepotência e no medo.

Este acordo é portanto uma falácia. Os argumentos são uma falácia. Se as empresas não são competitivas não é por falta de vontade ou empenho dos trabalhadores. Também nunca os trabalhadores recusaram acorrer a picos de trabalho. Os bancos de horas a par do alargamento do período de trabalho são apenas um pretexto para não pagar horas extraordinárias.

O que mais querem eles?

2008 Junho 28

67- Recados impróprios do Bloco de Esquerda

A Comissão Concelhia de Lisboa do Bloco de Esquerda, em comunicado, exige a fusão rápida das empresas municipais EPUL, SRU e Gebalis. Nada contra bem pelo contrário. A reorganização das empresas municipais faz parte do acordo de Lisboa, celebrado entre o Bloco e o PS.

A fusão das empresas parece mesmo ser a medida mais adequada, rentabilizando meios materiais, humanos e financeiros, em empresas que se confundem nos seus objectivos e que a prática veio demonstrar, apenas serviram para dar lugares de administração e de directores aos amigalhaços do PSD, (para tráficos de influência, corrupções -em fase de averiguações, benefícios próprios inaceitáveis) em claro prejuízo da cidade e dos munícipes.

Sendo a reestruturação das empresas municipais, um dos principais pontos do Acordo de Lisboa e estando o Bloco representado no executivo por Sá Fernandes, é estranho este comunicado. A reorganização das empresas municipais é sabido está atrasado relativamente ao projectado. Esta realidade já foi reconhecida por Sá Fernandes, considerando-o mesmo como um dos pontos mais frágeis do seu trabalho, de resto, aliás, em minha opinião, marcado por um excelente desempenho.

Digo que é estranho o comunicado, porque será suposto, que o Bloco e Sá Fernandes, tenham conhecimento das razões do atraso. E portanto o natural seria que o Bloco desse explicações sobre o atraso e não que venha dizer o que todos sabemos - que está atrasado e que é urgente que o processo avance.

O que queremos saber é porque não avança e não avançou? O Bloco e o Sá Fernandes sabem porquê. Têm que saber porquê. E sabem com certeza se o atraso é compreensível ou tem responsáveis. E nesse caso devem dizê-lo publicamente.

Mandar recados públicos “escondidos” a alguém é que não. Não devia ser próprio do Bloco.

2008 Junho 24

66- Sá Fernandes censurado em Assembleia Municipal. O Bloco manteve um silêncio miserável

Em 22 de Maio de 2007, no Foice dos Dedos, escrevi que se morasse em Lisboa, votava em Sá Fernandes, quer concorresse numa lista própria ou apoiada por qualquer partido político. Como tenho dito, o importante para mim são as pessoas e os projectos. Com Sá Fernandes tinha a convicção plena de que os interesses da cidade e das munícipes a par de um combate e denúncia da corrupção, da especulação imobiliária, dos compadrios, seriam a sua agenda e a sua única motivação.

Sá Fernandes sempre muito honesto e claro nas intenções, não teve pejo em propor uma união de esforços e vontades de toda a esquerda não comprometida com o situação de caos e da crise financeira, para recuperar “uma cidade que se desertifica, que vive ao sabor da especulação imobiliária e que não tem planeamento estratégico, onde a corrupção impera, o espaço público é desprezado, a exclusão social prolifera e o caos urbanístico está instalado”.

Nesta missão, Sá Fernandes contou sempre com o apoio do Bloco de Esquerda, partido pelo qual se recandidatou como independente, com a excepção do acordo com o PS … “por Lisboa” que teve a oposição de alguns militantes bloquistas, quanto a mim erradamente, não apenas porque Sá Fernandes não tinha como fugir à responsabilidade de assumir responsabilidades executivas, depois de na oposição ter assumido posições criticas da governação, mas porque, simultaneamente, o acordo contemplava muitas das medidas pelas quais sempre se bateu.

Neste lapso de tempo, Sá Fernandes tem feito um trabalho quase exemplar. Com a oposição de tanta gente que não lhe perdoa a ousadia de mexer nos interesses instituídos, numa campanha contínua, orquestrada, planeado ao detalhe, visando destruir a sua imagem, a sua credibilidade, a sua honradez.

Agora chegou a vez da vingança com o PSD a servir de testa de ferro: o PSD apresentou uma moção de censura inédita na Assembleia Municipal, de crítica à actividade de Sá Fernandes, propondo a retirada de pelouros por ter “privatizado" o espaço público ao “acordar a cedência da Praça das Flores, a uma empresa privada durante 15 dias, para promoção do novo modelo automóvel da Skoda", apesar da contrapartida de recuperação e requalificação total do Jardim (um exemplo de desleixo e negligência durante o reinado do PSD), para além, evidentemente, do pagamento das taxas respectivas de uso do espaço e ruído (de resto a aprovação nem sequer foi com Sá Fernandes mas com o Vereador do pelouro Marcos Perestrelo não obstante ter a concordância de Sá Fernandes). Na moção de censura consta também uma referência ao Jardim Estrela que o Continente no âmbito do Mecenato ecológico vai recuperar, a troco de colocação de uma placa.

Enfim nada disto me admira. Sá Fernandes incomoda muita gente! O que me admira e deixa intrigado é o silêncio do Bloco de Esquerda. Mas se calhar nem tanto, depois das críticas públicas de altos responsáveis do Bloco e depois de ter ouvido Francisco Louçã em entrevista à Antena 1 a tecer loas a Helena Roseta, escusando-se a manifestar sem ambiguidades o apoio a Sá Fernandes.

Também o Bloco de Esquerda, cavalga na onda do eleitoralismo puro. Perante os ataques, as calúnias, à figura de Sá Fernandes, o Bloco parece ter receio das consequências eleitorais de manter o apoio a Sá Fernandes.

Não esperava isto do Bloco. Uma completa desilusão! Esperemos pelos próximos episódios. O Bloco está a perder pontos na minha consideração. É que para mim não basta estar de acordo com as propostas políticas do Bloco. Exige-se-lhe lealdade, respeito, defesa dos seus eleitos contra os ataques vergonhosos. E igualdade de tratamento para com todos os eleitos autarcas. E não este silêncio ensurdecedor que dura há tantas horas sem uma palavra de um dirigente ou uma nota nos seus sites.

2008 Junho 17

65- Só a verdade é revolucionária

A Luta Socialista, (uma corrente interna do Bloco de Esquerda), enviou uma nota ao Diário de Notícias, para esclarecer que não foi a Esquerda Nova (outra corrente do Bloco de Esquerda), "a facção que criticou fortemente no BE a celebração de um acordo em Lisboa com o PS" mas sim a Luta Socialista, no que teve o apoio da Esquerda Nova. Que fique claro, então, "porque as clarificações são necessárias".

A Luta Socialista foram os primeiros. "Só a verdade é revolucionária!"

2008 Junho 9

64- Um sinal de esperança

... o comício, no dia 3 de Junho, de pessoas de esquerda, que não se revêem nas políticas neoliberais dos partidos do Bloco Central é um renovar da esperança, um revigorar de alma, um retomar de caminho, um novo estímulo ao combate político, para uma nova esquerda, irreverente, moderna, não sectária, em permanente (des) construção e renovação ideológica, mas agrupada nos valores distintivos da esquerda:a defesa do Estado social, dos direitos humanos, da paz, do emprego para todos, da justa retribuição da riqueza...

Com uma oposição incapaz de contraditar as políticas e a propaganda do Governo, com um povo resignado e complacente, com um programa de reformas mais leve a fechar e com uma conjuntura económica mais favorável, o Governo parecia galgar vitorioso até 2009, com grande exuberância, sobranceria e arrogância, sem que se vislumbrasse quem pudesse impedir esta marcha triunfante, não fosse a crise internacional e a descoberta de que a pobreza e as desigualdades sociais e económicas se instalaram em Portugal de uma forma arrepiante.

O Partido Socialista de Sócrates acabou com o resto de alma socialista, deitou fora as promessas eleitorais, o programa eleitoral, o programa do partido, borrifou-se para os militantes, simpatizantes e eleitores e governa por sobre a acostumada apatia e indulgência dos portugueses, apoiado, numa eficaz e capciosa máquina de comunicação, para atraiçoar as esperanças e os sonhos de muitos portugueses.

Hoje, ironicamente, o país está mais à direita, com um governo de “esquerda” do que com os governos de direita. Para a história ficará um Partido Socialista a realizar políticas de direita que nenhum governo de direita, alguma vez conseguiu e que não tem paralelo na Europa e que própria direita teria pudor de consumar. O PS está hoje, circunstancialmente ou não, confiscado por políticos com princípios neoliberais e internamente não se descortinam alternativas e vontades, competentes e credíveis, para ensaiar uma tentativa de inversão destas políticas, sendo que as dificuldades são imensas, por causa de uma conseguída propaganda que as faz chegar como inevitáveis e únicas.

Por outro lado a restante esquerda partidária, no debate político e ideológico, na apresentação de propostas concretas, na afirmação de políticas alternativas, não consegue perante o povo de esquerda, marcar as diferenças, aparecer como uma opção credível ou mesmo ser capaz de se entender em políticas comuns mínimas, suficientes para mexer as águas, agitar consciências, desenvolver inquietações, em particular dentro do Partido Socialista, de forma a alimentar descontentamentos e provocar fissuras ou roturas definitivas com as políticas seguídas.

Estando o PS tomado por políticos com princípios neoliberais e a realizar com sucesso as políticas da direita, seria espectável um suplemento de embaraço nos partidos à direita e uma oportunidade dos partidos à esquerda. Há direita os embaraços são evidentes com um PSD destrambelhado e um CDS sufocado. O escorregamento para a direita do PS lançou o pânico às hostes do PSD ao pressagiarem um longo afastamento da governação, depois de o PS ter ocupado o espaço político que era o deles. Os rapazes do CDS por sua vez andam de cabeça perdidos, sem ideias, sem propostas, sem saber que fazer para não fenecer. A direita está perturbada. As eleições para líder do PSD exibem os sórdidos e inconfessáveis interesses pessoais e/ou a soldo de gente poderosa que fazem com que o PSD se mexa, ao ponto de perderem a compostura com insinuações grosseiras, ataques raivosos, ofensas pessoais e acusações de toda espécie e feitio. De há muito que se fala na refundação da direita portuguesa. Parece ter chegado o momento. Se por acaso querem chegar ao Governo do país na próxima dúzia de anos.

Mais à esquerda o PCP não quer mudar nada na esquerda. O PCP é a esquerda e o resto é paisagem. O PCP não busca soluções, convergências, alternativas, para uma esquerda nova. Hoje o PCP resume-se a uma oposição conservadora e corporativista e a um protesto de rua pouco eficaz. Para o PCP basta a CGTP como instrumento no combate político para conseguir pouca coisa e o salvo-conduto da memória da luta antifascista, para fixar os militantes. O Bloco tem nos últimos tempos encetado um caminho mais de afirmação própria, determinado em crescer eleitoralmente, de que se constituir como um movimento amplo das esquerdas, na aposta de construir uma alternativa séria de poder. Enfim, nada de bom se nos afigura pela frente.

2008 Maio 29

63- Deixem falar Mário Soares

O artigo de Mário Soares publicado no Diário de Notícias pode deixar uma dúvida: Mário Soares está verdadeiramente preocupado com o acréscimo da pobreza e das desigualdades sociais e da vergonha de Portugal ser o país da Europa com mais desigualdade na distribuição da riqueza ou o que o preocupa é um hipotético crescimento do PCP e do Bloco nas próximas eleições legislativas que possam retirar a maioria ao PS?

Sinceramente acredito que Mário Soares está preocupado com a situação do país. Mas justamente por essa razão é absolutamente lamentável e despropositada a referência ao PCP e ao Bloco, que permite a interrogação sobre as razões dessa alusão.

Mário Soares tem idade, sabedoria e cultura democrática mais que suficiente, para deixar o papel de tutor da democracia, deixar de agitar papões e aceitar as regras do jogo sem temores, numa democracia consolidada. Deixar para os cidadãos, ao fim e ao cabo, a avaliação livre do exercício da governação, já de si condicionada, por um sistema que protege os mais fortes. E abandonar a ideia rapidamente de que o poder se reparte entre o PS e o PSD se quer julgado com seriedade democrática.

Dito isto não acho que Mário Soares se deva calar, como muitos acham. Mário Soares faz muito bem em falar. Mário Soares é uma figura incontornável da democracia e de militante da cidadania. Mário Soares é um combatente da democracia, dos direitos cívicos, das liberdades. Mário Soares disse e fez, e ainda diz e faz, muitos disparates, mas, acredito, pensando que era o melhor para o país e para os portugueses. E por isso tem o meu crédito, mas não a minha concordância, como é óbvio em muitas das suas opções … e especialmente como governante.

Neste artigo penso que mais do que outra coisa, Mário Soares pretende insinuar uma diferença com Sócrates: é que se Mário Soares, meteu o socialismo na gaveta (mas que poderia ser retirado a qualquer momento), Sócrates meteu o socialismo no caixote do lixo. E isso é uma grande diferença!

São bastante significativas estas passagens, a marcar a diferença entre os dois: “ … depois de duas décadas de neoliberalismo, puro e duro, (…) uma boa parte da esquerda, dita moderada e Europeia, parece não ter ainda compreendido que o neoliberalismo está esgotado (…) que a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho, são questões verdadeiramente prioritárias (…). Urge fortalecer o Estado para os tempos que aí vem e não entregar a riqueza aos privados. Não serão eles [os privados], seguramente, que irão lutar, seriamente, contra a pobreza e reduzir drasticamente as desigualdades”.

Que me desculpe quem não concorde. Não deixem calar Mário Soares!

2008 Maio 27

62- Tristeza e vergonha

O parlamento português aprovou, há dois dias, um voto de pesar e homenagem ao Cónego Melo -um momento triste que envergonhou os democratas e a República, por iniciativa de um puto do CDS, um betinho de seu nome Nuno Melo, no que só pode ser entendido como uma provocação, com os votos do CDS e do PSD, a abstenção do PS e os votos contra das restantes bancadas.

Já o momento a seguir foi um momento triste e constrangedor protagonizado pelo PCP ao associar-se de pé ao minuto de silêncio, optando por não seguir o exemplo dos deputados do Bloco de Esquerda, de uma grande parte de deputados do Partido Socialista e de mais dois ou três do PSD que dignamente abandonaram o hemiciclo ou mesmo dos Verdes que se mantiveram sentados.

A posição do PCP foi um acto de hipocrisia política. O PCP conservador não entende os gestos simbólicos e parece ter esquecido que subversão à “ordem instituída”, mesmo em democracia, é um valor de sempre, quando em causa estão superiores interesses como a dignidade democrática.

O Cónego Melo, conhecido mentor e confesso entusiasta do MDLP, movimento responsável por dezenas de assaltos e incêndios a sedes de partidos a sindicatos e a escolas, responsável por dezenas de atentados bombistas, pela perseguição a democratas, por acções de terrorismo psicológico e emocional, em todo lado e por toda a parte, no país inteiro, pela calada da noite ou às claras, que mataram e aterrorizaram, não podia merecer o respeito das instituições da República.

2008 Maio 3

61- Esquerda-Centro para uma alternativa de poder

A vitória de Berlusconi em Itália parece ser a derrota das meias- tintas. Os eleitores estão cansados dos falatórios dos partidos, dos jogos do entretém, querem acção, coragem, determinação. Não importa se estão a votar à esquerda se à direita. As propostas políticas não importam muito. O que é preciso é fazer. Mal ou bem, logo se há-de ver. As populações votam em quem acreditam que vai fazer. Já não acreditam em promessas. O discurso ideológico vale pouco. Quem aparentar ter capacidade de decisão, aparentar saber fazer, aparentar ter um projecto credível, tem o voto maioritário dos eleitores. Para isso precisa de ter muito dinheiro, uma boa máquina de propaganda, um plano de marketing político. E mais nada!

Em Portugal o poder divide-se entre o PS e o PSD. O resto não entra nestas contas. Mas pode entrar. Em especial o Bloco de Esquerda. O PCP, tal como o conhecemos, infelizmente não tem credibilidade política para alguma vez ser poder. O Bloco de Esquerda sim. Se defender um projecto (que o têm) e bater-se por ele com coragem e convicção. Um projecto de unidade das esquerdas ao centro. Não ao centro-esquerda. Mas à esquerda-centro. Rigorosamente ao centro da esquerda ... à esquerda do PS. Um projecto socialista. Sem extremismos à esquerda ou derivas ideológicas à direita. Não sei se me faço entender!

Não sendo assim, “heroicamente” vamos continuar a resistir …para muito pouco. Para adiar. Vamos continuar a ter nas ruas muita gente a protestar, clamando vitórias atrás de vitórias (nas ruas) até à derrota final (nas urnas). Para a seguir, a um mal Governo, outro se seguir ainda pior. Sempre foi assim.Triste fado este! Para a esquerda sobrarão alguns votos de pessoas com convicções. Mas outros se perderão para a abstenção, para o desânimo, para o descanso do guerreiro. E tudo continuará igual ou pior.

Contentar-se-à a esquerda com tão pouco? Basta-lhes os protestos na rua? Ter mais ou menos alguns deputados? Talvez se o único interesse for as clientelas internas e a sua própria carreira política. A esquerda que desejo deve lutar pelo poder e repensar os projectos de unidade.

2008 Abril 16

60- O nacionalismo proletário do PCP

Regressado de Angola depois de uma visita a convite do MPLA, Jerónimo de Sousa declarou que “não se sente a corrupção” naquele país e que o Governo de Angola está a fazer “um esforço claro no combate à corrupção”.

Estranho: 1) Angola é o país mais corrupto dos países africanos que falam a língua portuguesa e um dos mais corruptos de África. 2) O Presidente José Eduardo dos Santos (a quem a Suíça bloqueou 100 milhões de dólares) e a sua filha Isabel dos Santos, de trinta e poucos anos, possuem colossais fortunas e controlam toda a economia nacional. 3) Os negócios do petróleo enriquecem todos os dias os dirigentes, os mediadores, os funcionários do aparelho de Estado e há uns anos foram descobertas várias contas bancárias em paraísos fiscais de dirigentes do MPLA. 4) Entre 1997 e 2021, desapareceram misteriosamente das contas do Estado, 1,7 mil milhões de dólares, por ano. 5) Enquanto isso o Povo é violentado, faltam bens de primeira necessidade, uma grande parte vive na miséria, as crianças passam fome e estão desnutridas, em cada quatro uma ainda morre antes dos cinco anos.

Perante uma tão dramática situação, a declaração de Jerónimo de Sousa é no mínimo patética. Primeiro, porque a corrupção está à vista e é conhecida de todos, segundo porque ninguém acredita que quem fomenta e beneficia da corrupção é que irá combater a corrupção.

Os gostos de Jerónimo e do PCP relativamente a certos regimes déspotas incomodam-me sobremaneira, apesar de não ser militante do PCP. Porque respeito muitos todos os homens e mulheres comunistas que lutam todos os dias contra as injustiças, por direitos sociais, pelas liberdades. Mas, peço desculpa, não é possível combater em Portugal as desigualdades, a exploração, as injustiças e defender ao mesmo tempo regimes onde esses direitos são quotidianamente violentados.

Depois da visita aos dirigentes chineses e angolanos e dos elogios a esses regimes, por onde segue o roteiro de Jerónimo de Sousa? Será pela Coreia do Norte?

2008 Abril 14

59- A ruptura democrática de esquerda

Há uns dias na Madeira, Jerónimo de Sousa produziu uma declaração (proposta?) surpreendente, vinda de quem veio. Sou insuspeito. Há largos anos que defendo a “ruptura democrática de esquerda” de que fala Jerónimo de Sousa. Aliás, o meu retorno à política partidária com o Bloco, depois de muitos anos de afastamento, foi com o pensamento voltado para uma convergência das esquerdas.

Mas tenho sérias razões para duvidar da bondade desta proposta. O PCP tem uma cultura de controlo e de vanguarda nos movimentos sociais e sindicais que impedem qualquer unidade na diferença. Para não ir muito longe, lembremos-nos do congresso da CGTP de há um mês atrás que reforçou o controlo do PCP e afastou sindicalistas de outras correntes de esquerda, apesar das críticas de muitos dirigentes sindicais, defendendo um alargamento da representatividade. Não me parece ser uma declaração para levar a sério, com muita pena minha. O PCP está mais a jogar no terreno da táctica política, procurando retirar proveito partidário, da contestação e do descontentamento, às medidas do governo de Sócrates, do que verdadeiramente interessado em romper com a "situação".

Uma política de unidade na diferença exige humildade, responsabilidade, “desapego” ideológico, consensos, mestria, inteligência, face à complexidade de opiniões, de interesses, de responsabilidades, que a cada momento há que dar respostas, em nome dos grandes princípios da esquerda; um estado e uma justiça social.

A esquerda unida que defendo vai mais longe: a capacidade de colocar em causa ideias feitas, verdades inquestionáveis, capaz de arquitectar um modelo orgânico e de intervenção que case todas as esquerdas, em volta de princípios e de máximos denominadores comuns e de valores intransferíveis da esquerda.

Um programa e uma estrutura destas seriam, naturalmente, pela amplitude e pluralidade, de tipo reformista mas de uma ruptura profunda com os modelos de desenvolvimento capitalista e nesse pressuposto assumir-se definitivamente como uma alternativa séria, respeitável e credível.

Dir-me-ão, que um programa destes é impossível; que arrasta oportunismos, protagonismos, aproveitamentos carreiristas. É verdade. Mas todos os projectos políticos arrastariam essas dificuldades. Está na natureza das pessoas. E quanto mais aberto e plural for o projecto mais dificuldades suportará. Mas esse é o risco que todos teremos de correr se quisermos, de facto e não nas palavras, construir uma alternativa séria de esquerda, de poder, capaz de defender os direitos sociais, os serviços universais, lutar por uma sociedade melhor, mais justa, mais solidária, mais igual e mais digna.

Mas há sempre as outras alternativas: continuar acantonados nas nossas “certezas” ideológicas, nas nossas ortodoxias, mas de uma coisa podemos ter a certeza; é que de vitória em vitória ou de derrota em derrota, conforma os ângulos ideológicos, caminharemos para a derrota final. E quem sofre hoje que se lixe…

O caminho de unidade das esquerdas não é uma utopia. Há que fazer experiências. As pessoas verdadeiramente de esquerda exigem que se não fiquem pelas palavras, depois de apelos idênticos, vindos do Bloco, dos Renovadores, de muitos militantes socialistas, na órbita de Manuel Alegre.

2008 Março 18

58- A luta dos professores

Mais de cem mil professores na rua não podem significar outra coisa, em primeiro lugar, que não seja uma profunda insatisfação e raiva com a Ministra da Educação. A grande conclusão a retirar depois desta e das anteriores grandes manifestações de rua de trabalhadores e dos protestos das populações contra o fecho das urgências e dos serviços de atendimento permanente, é que os portugueses não estão a gostar de ser governados com tamanha arrogância e tanta insensibilidade social. Embora isto não chegue para acabar com as habituais “alternâncias governativas” entre o PS e o PSD, espera-se que pelo menos sirvam para acabar com as malfadadas maiorias absolutas O protesto dos professores tem razões de ser. Os professores não são os maus da fita do sistema de ensino como a ministra, em tempo e subliminarmente, tentou fazer passar e que mereceu de resto a justa indignação dos professores, a que nem as desdobradas justificações de última hora da ministra a uma diligente e generosa comunicação social, conseguiu dar a volta e apagar da memória de todos nós, as desastradas e chocantes afirmações feitas anteriormente sobre os professores. Querer responsabilizar os professores pelo estado actual de ensino é desonesto. Os professores não podem conviver com as culpas todas. Aos professores não podem assacar culpas que são de todos: da sociedade, do sistema, dos pais, dos alunos e principalmente dos responsáveis pela governação em Portugal. Se um aluno reprova, se um aluno não vai à escola, se a escola não dá saídas profissionais, se os responsáveis não investem a sério na educação, a culpa não é dos professores. A ministra teve esse condão: de fazer crer, instalando a dúvida nos próprios que a culpa é deles e só deles. Os professores têm razões para demonstrar na rua a sua insatisfação e raiva pela ministra. De resto mantenho o que disse. Todos os agentes educativos devem ser avaliados: as escolas, os professores, os alunos, os dirigentes. Defendo como princípio que o aluno não deva ser retido na sua progressão escolar. Isto não quer dizer que se deva instalar o laxismo ou a irresponsabilidade. Quer dizer que a escola, o professor, o sistema, devem fazer tudo, para que o aluno consiga atingir os objectivos mínimos. E o professor, o dirigente escolar, a escola, deverão justificar muito bem o fracasso de um insucesso escolar. É isto que devia estar em causa neste debate: como defender melhor a escola pública inclusiva, responsável e competente? E isso por si só fundamenta a avaliação da escola e dos professores: o que fazem todos para que o sucesso ou insucesso escolar aconteça. Por exemplo, perante um aluno problemático a escola terá de premunir-se de uma estrutura de compensação que repare as dificuldades e não renunciar, retardando ou abandonando os alunos à sua sorte. É isto que deve fazer a diferença na escola pública. A escola pública é a escola de todos. Também de alunos com mais problemas ou mais dificuldades. Está na altura de colocar os focos nos alunos. Infelizmente as coisas não têm sido assim por manifesta incompetência e arrogância da ministra e por isso, e só por isso, é que tenho defendido a sua demissão … para apaziguar os ânimos e centrar a discussão, sem ruído e sem interferências alheias e desproporcionadas, no plano do que interessa discutir; o conteúdo efectivo da reforma educativa. Por fim, não poderia de deixar de insistir, tenho sérias dúvidas do que move verdadeiramente a maioria dos professores: se é o direito à indignação, compreendo-os e acompanho-os. Se é a defesa de interesses pessoais e corporativistas, compreendo-os, mas não contem comigo. Se é a defesa da escola pública, estou de corpo e alma com eles. Mas, como disse tenho as minhas perplexidades. E confesso que me desgostou ouvir professores presumidos, referirem que nunca antes participaram numa manifestação de rua, como se em trinta anos de democracia, nunca tivesse havido um momento para um protesto ou uma celebração. Ou que “dirigentes” associativos tivessem mentido publicamente e com toda a desfaçatez. Ou ainda alguns não tivessem sido capazes de dizer porque estão numa manifestação ou o que realmente os inquieta nas reformas que estão a ser levadas a cabo. 2008 Março 10

57- A entrevista de Louçã e as patetices de alguns bloquistas

A entrevista de Francisco Louçã à TSF/Diário de Noticias, revela-nos um político invulgar. À pergunta armadilhada de “quanto ganha”, ou de qual é o seu “ordenado de professor universitário”, Louçã desarma os jornalistas afirmando que recebe apenas o vencimento de deputado e que trabalha gratuitamente para a Universidade, como professor e investigador em economia.

Francisco Louçã mantém-se fiel aos seus princípios: “o meu compromisso é com a luta socialista, a minha divida é com as desigualdades sociais”. Pelo caminho as criticas concretas: os cinco administradores do BCP que falsearam as contas durante sete anos e saíram com 80 milhões de euros indemnizações; as contas do CDS que aparecem com um milhão de euros depositado pelo BES; os 24 milhões de euros numa conta do BES na Inglaterra que estão a ser investigados aquando da compra dos submarinos; as avenças de deputados por prestação de serviços que deviam ser incompatíveis, como o de Guilherme Silva ao Governo regional da Madeira.

Depois os grandes princípios ideológicos: um caminho de unidade capaz de transportar para os movimentos sociais uma força de protesto, de resistência e de acção, não partidarizados, para contrariar as políticas liberais e construir uma alternativa de poder de esquerda; a liberdade de opinião e o pluralismo contra a disciplina unicitária; a defesa intransigente das liberdades de imprensa e de manifestação pública; o combate às visões doutrinárias de partido único, de movimentos tutelados por um partido, a não aceitação de limitações ao exercício das liberdades, ou de proibição do direito de greves, da liberdade de imprensa ou "aceitar" a exploração capitalista como o faz o PCP a pretexto de no poder estar um partido comunista. “A esquerda portuguesas tem de fazer explodir preconceitos, estamos derrotados se vivermos do passado”.

Pelo meio a criticas ao Governo sobre um “economicismo mesquinho” no Serviço Nacional de Saúde (que deve ser sempre gratuito e universal para todos), na Educação, (onde reconhece que a Ministra tomou uma ou outra boa decisão mas sem dar condições e atropelando os professores como se fosse “um camião TIR”) nas políticas económicas e de emprego. “É um destino trágico que um governo socialista seja o mais liberal de todos”.

Concomitantemente apresentou propostas concretas alternativas e não resistiu a uma provocação que resultou numa resposta extemporânea: a de que não fará coligações municipais autárquicas em 2009. E sobre esta questão já algumas vozes internas se atiraram a Sá Fernandes, por este, legitimamente, achar inoportuno, tomar uma posição a tão longa distância no que diz respeito a Lisboa.

E se a entrevista de Louçã me aproxima do Bloco, já as reacções “extremas” de alguns bloquistas às opiniões de Sá Fernandes, afastam-me completamente. É que já não tenho paciência para certas palermices.

2008 Março 3

56- O novo delegado regional da Ordem de Advogados

O Luís Louro é o novo delegado regional da Ordem de Advogados para os próximos três anos. Tem 46 anos e exerce a profissão de advogado no mesmo escritório de advogados, onde antes era funcionário administrativo, depois de concluir o curso em Coimbra, há uma dúzia de anos, como trabalhador-estudante. Está de parabéns. Nos últimos anos tem sido o principal rosto do Bloco de Esquerda em Viana do Castelo.

Como delegado regional e porta-voz dos advogados, deixa todos os cargos públicos, políticos e partidários. Absolutamente nada contra, bem pelo contrário, um profundo respeito, por quem não quer aproveitar-se ou que se aproveitem, não quer confundir ou que se confundam, os cargos e as novas responsabilidades.

Mas o que não posso mesmo, neste momento, é deixar de lamentar que um colega, com grandes qualidades, entenda subalternizar a actividade política e partidária, que insisto, respeito e compreendo imenso, aliás, na mesma linha do que vem acontecendo comigo, (e recordo que ambos fomos eleitos deputados municipais) sem que a direcção nacional do Bloco de Esquerda, tome a iniciativa de fazer alguma coisa, depois de preterir um elemento da região na Mesa Nacional, ao colocar um seu representante, em lugar de eleição incerta, tal como veio a acontecer.

Mas por mim, tudo bem ou tudo mal, como entenderem. Sou apenas um apoiante, um aderente do Bloco de Esquerda, mas não serei nunca um “bloquista”. O Bloco é apenas um instrumento da luta política com que mais me identifico para melhorar a sociedade, não é um fim. Mas também já não entro em certos “guerras”. Enquanto isso vou dizendo o que penso sem problemas nenhuns. Criticando ou apoiando, onde, o quê e quando entender.

2008 Fevereiro 20

55- Debate à esquerda

À esquerda, na Blogosfera, está a travar-se um intenso e interessante debate ideológico. Muito à distância, vou acompanhando com alguma curiosidade e alguma piada, mas mesmo assim, não a suficiente, para me entusiasmar, por aí além. 

Digamos que aquelas discussões são muita areia para a minha cabeça. Não apenas porque a discussão é muito teórica e especializada, tão ao gosto de jovens intelectuais e debutantes políticos, e portanto não ao alcance de pessoas comuns, como eu – com débeis conhecimentos de ciência política, de economia e dos pensadores políticos, clássicos ou contemporâneos – e cuja aprendizagem política foi a escola da vida, mas porque discussões e polémicas do género, são recorrentes e no que me toca já a tive a minha parte, há muitos e muitos anos, quando militei na OCMLP (organização comunista marxista leninista portuguesa) e a esquerda (à esquerda do PCP) se entretinha em discussões estéreis, indubitavelmente sectárias e intolerantes, mas com o mesmo denominador; estarem desligadas dos problemas reais das pessoas e das suas necessidades objectivas.

Com isto não pretendo depreciar o debate de ideias, sério, frontal, apaixonado, mais ainda sendo da minha área política, a esquerda. Apenas, pretendo deixar um alerta, como homem de esquerda; não se distraiam com coisas acessórias, com pontos finais e virgulas, com pequenas diferenças políticas cujo importância política, poderá interessar para o novo milénio. A esquerda já perdeu demasiado tempo. O que importa agora é o momento. A vida concreta das pessoas: como resolver o problema do desemprego, pagar a renda de casa, os livros dos filhos, os encargos bancários, acabar com a pobreza, dar de comer a quem precisa, uma casa a quem não tem onde dormir, protecção e segurança social aos idosos, integrar os excluídos, respeitar as diferenças, acabar com as guerras…

As pessoas de esquerda, sem deixar de cair os grandes sonhos, as suas saudáveis utopias, precisam de ser mais práticas, em nome dos que sofrem hoje. Deixando de lado, vanguardismos ou arrogâncias intelectuais e actuando com muito humildade democrática. Para ganhar a maioria social. Para ganhar o poder. Para dar combate a políticas injustas e capitalistas. Por uma esquerda nova, adulta, de confiança.

A série de debates está aqui.

Dezembro 6, 2007

54- Venezuela e Chavez. Uma Democracia um democrata. Até ver …melhor.

Chavez foi a votos, perdeu e aceitou os resultados. A Venezuela é um país democrático. A prova está feita. Ganhou a oposição. Num regime anti-democrático as oposições não ganham as eleições. Hugo Chavez, aparentemente, também é um democrata. Agora terá de experimentar um longo “período de nojo”, se quiser apresentar novamente esta sua proposta de “revisão constitucional” aos eleitores. É o mínimo que se exige a um democrata. Em democracia ninguém é excluído e todos devem poder defender as suas posições. É assim a democracia. Até ver não têm razão quem arremessava os maiores impropérios a Chavez, como as de um ditador. Até ver.

Até ver também não têm razão quem temia a vitória do Sim. Porque em democracia não há que temer as escolhas dos eleitores. Em democracia, claro. E sendo a Venezuela uma democracia, a democracia recusou alterar alguns princípios constitucionais que a maioria, considerava ter laivos anti-democráticos. Ou pelo menos tinha receios.

Pessoalmente não tenho uma posição definitiva sobre Hugo Chavez. Não sei se é um (potencial) tirano ou se é ou revolucionário dos novos tempos. Nunca me entusiasmaram muito as boas medidas no campo político e social ou as diatribes contra o imperialismo americano ou as multinacionais, mas também nunca dei crédito a quem o qualifica de ditador ou populista. Não aprecio especialmente o estilo nem a forma como pretende instaurar o “socialismo”. Mas é cedo para julgar o seu carácter e a “bondade” das suas intenções e as suas propostas ainda não são suficientemente claras.

Mas uma coisa deveria saber Chavez se é um revolucionário; é que nos regimes democráticos a revolução, não se faz por decreto, nem o socialismo se impõem à “bruta”: em democracia, a revolução e o socialismo progride, em primeiro lugar, através da criação de poderosos mecanismos de participação livre, democrática e cidadã e também de instrumentos de controlo popular e democrático, das decisões dos órgãos do poder. É isto que os revolucionários esperam de Chavez, agora …se Chavez for realmente um revolucionário.

Aprofundar e dar mais qualidade à democracia e depois deixar nas mãos do Povo a escolha dos seus destinos, sem medos. Caso contrário, as dúvidas sobre as reais intenções de Chavez, subsistirão. Um ditador ou um revolucionário? Ou alguém bem intencionado mas com falta de cultura democrática? Estou mais inclinado para esta última. Até ver.

Dezembro 3, 2007

53- Luísa Mesquita expulsa do PCP

Luísa Mesquita era uma boa deputada até ao dia… em que a direcção do partido decidiu substituí-la e ela recusou. Agora foi expulsa. Ontem, Luísa Mesquita era uma excelente deputada. Hoje, é uma mulher cheia de defeitos. Amanhã será mais uma “subjugada” aos interesses burgueses. Luísa Mesquita não mudou em meia dúzia de dias. E não mudou só porque a decidiram substituir. Luísa Mesquita é o que era antes, com todos os defeitos e todas qualidades. O problema está no partido. Mas esse é o partido que os militantes querem. Tudo pelo partido e sempre com os dirigentes. Foi sempre assim. É assim que os militantes querem e também os eleitores; a avaliar pelos resultados eleitorais. Assim seja, então. Cá por mim apenas tenho que lamentar que um partido de esquerda tenha estes procedimentos.

Novembro 27, 2007

52- O dedo na ferida!

Carvalho da Silva em entrevista ao jornal Esquerda do Bloco de Esquerda:

“Entretanto, coloca-se também outro desafio às forças sociais e políticas, o de ir construindo alternativas porque senão também corremos o risco de estar a trabalhar [a propósito das manifestações e protestos contra o governo] para meras alternâncias contra e isso também não queremos com certeza”. (sublinhado meu).

Muito bem! As pessoas de esquerda que meditem nestas palavras sábias.

Novembro 22, 2007

51- Bloco de Esquerda e Sá Fernandes divididos?

O Bloco e o PS fizeram um acordo pós eleitoral, sobre algumas matérias, que tiveram o meu apoio. Fizeram um acordo concreto, sobre meia dúzia de pontos, cuja marca é indubitavelmente de esquerda. Apenas isso. Não fizeram nenhuma coligação. Não alargaram o acordo a outras matérias. Por isso toda a acção executiva é da responsabilidade de António Costa e do PS, com excepção daqueles pontos concretos do acordo e os que decorrem dos pelouros atribuídos ao vereador Sá Fernandes. Querer atribuir outras responsabilidades ou culpas, pelos actos do executivo, a Sá Fernandes ou ao Bloco de Esquerda é pura difamação, mais a mais se alguns dos actos são também criticados por estes.

É hoje do conhecimento público (ver o blogue dos trabalhadores precários) que todos os partidos que governaram a Câmara, sozinhos ou em coligação, o CDS, PS, CDU e PSD, colocaram pessoas da sua confiança na Câmara e por lá continuam, alguns, há largos anos. São às centenas os amigos ou familiares que lá estão por clientelismo partidário.

Segundo uma lista publicada no Lisboa Alerta são muitos os avençados que estão a ganhar acima dos 2 500 euros/mês, com remunerações superiores aos funcionários do quadro a desempenhar funções idênticas, sendo que muitos deles, exercem a tempo parcial e não são necessários ao serviço. Quem está nesta situação (a tempo parcial e não é necessário) deve ser dispensado ou não deve ser renovado o contrato. Tão simples quanto isso. A Câmara não pode (e certa esquerda deveria perceber isso) perante uma falência técnica da Câmara e o regabofe de empregos criados artificialmente, dar-se ao luxo de manter esta situação, apenas para não ser acusada de “despedimentos”. Convém lembrar que os partidos que governaram Lisboa nunca levantaram esta questão, como se protegendo uns aos outros, por todos terem culpas no cartório.

Mas também há alguns outros, a recibo verde ou com contrato precário que fazem falta. Ou mesmo que não fazendo falta, tenham um mínimo suficiente de anos de trabalho efectivo e com um horário de trabalho completo. Neste caso devem integrar os quadros independentemente da forma e do modo como “entraram”, ajustando as suas remunerações aos do quadro e ao que estabelece o contrato de trabalho colectivo.

O que não entendo é a pressão de alguns militantes do Bloco de Esquerda, (ou do próprio Bloco de Esquerda, o que será mais grave) como a do deputado municipal Heitor de Sousa, sobre Sá Fernandes, ao ameaçar de ruptura do acordo, (como se fosse necessário) no caso de António Costa, não cumprir com a proposta apresentada por Sá Fernandes (recorde-se), de serem integrados no quadro todos os trabalhadores que “configurem um contrato de trabalho encapotado”.

Estas pressões sobre Sá Fernandes são inadmissíveis, vindas dos seus militantes ou do Bloco. São uma manifestação de desconfiança. Como sempre defendeu Sá Fernandes (e o próprio Bloco) todas as situações têm de ser analisadas caso a caso, para não haver injustiças. O deputado municipal não devia fazer estas declarações públicas sem consultar Sá Fernandes. Até prova em contrário, Sá Fernandes, deverá ser merecedor de todo o crédito. O Bloco não pode deixar de publicamente mostrar confiança no seu Vereador nem pode falar a várias vozes. Ou ficar-se pelas meias-tintas para agradar a todos. Assim não! Este acordo como é sabido não foi aceite por algumas correntes dentro do Bloco. É natural. As divergências são naturais nos partidos democráticos. O que não é natural é a constante guerrilha dessas correntes, sempre que discordam de uma medida de António Costa, mesmo que tenha merecido a oposição de Sá Fernandes, para denegrir e tentar romper o acordo, parecendo mais interessados em querer passar a sua posição que tentar que o acordo tenha êxito.

A posição de António Costa de deixar à arbitrariedade das chefias, os contratos que vão ou não vão ser renovados não assegura o cumprimento do que foi acordado. E isso naturalmente não pode ser aceite. A meu ver um contrato de trabalho encapotado é aquele que decorre da existência de pelo menos dois contratos de três anos de serviço cada, ou seja seis anos de exercício de funções na Câmara Municipal. No mínimo é isto que se pede a Sá Fernandes.

Acredito que Sá Fernandes, será o primeiro a denunciar, como tem sido o caso, de incumprimento de decisões colectivas ou se for caso disso a romper o acordo com o PS, no caso de verificar, que não estão a ser cumpridos os pressupostos do mesmo.

Estou com Sá Fernandes!

Novembro 21, 2007

50- Vulnerabilidades

Francisco Louçã considerou a eleição de Luís Meneses para Presidente do PSD, como um sinal da crise do sistema político e da sua “vulnerabilidade ao populismo”.

A mim também me preocupa o populismo enquanto “exploração das emoções e da ignorância com fins políticos”. Mas não é qualquer um que, o querendo, consegue ser “populista”.

Para ser “populista” também é preciso estar ligado ao povo, conhecer os seus problemas, dificuldades e dramas. E ter obra feita. É isso que explica, tal-qualmente, as vitórias dos Jardins, Isaltinos, Valentins, Fátimas. E também de Luís Meneses.

Mais do que a preocupação por “um sinal de crise do sistema político” a classe política bem pensante, devia aprender com o que de melhor tem esta gente; uma efectiva ligação ao povo, em vez dos discursos técnicos, estereotipados, inacessíveis à maioria das pessoas.

A vitória do Luís Meneses significou a derrota das elites, dos barões, dos intelectuais bem pensantes, dos “indígenas” do Compromisso Portugal. E para mim significou uma indicação de vontade de mudanças políticas à esquerda.

Sendo-me indiferente o estilo e a forma de fazer política de Meneses, uma espécie de santanismo travestido, pouco edificante politicamente, fico encantado com a derrota de uma parte da corja política que vem administrando o nosso “sistema político”. E estou-me nas tintas para o futuro do PSD. Ou melhor espero que se afunde …

Esperava que Louçã também se tivesse referido à derrota do “sistema político” dos poderosos derrotados.

Setembro 30, 2007

49- Pensar à esquerda (II)

(continuando)

Estando o PS tomado por políticos com princípios neoliberais e a realizar com sucesso as políticas da direita, seria espectável um suplemento de embaraço nos partidos à direita e uma oportunidade dos partidos à esquerda.

Há direita os embaraços são evidentes com um PSD destrambelhado e um CDS sufocado.

O escorregamento para a direita do PS lançou o pânico às hostes do PSD ao pressagiarem um longo afastamento da governação, depois do PS ter ocupado o espaço político que era o deles. Os rapazes do CDS por sua vez andam de cabeça perdida, sem ideias, sem propostas, sem saber que fazer para não fenecer. A direita está perturbada.

As eleições para líder do PSD vieram ainda exibir os sórdidos e inconfessáveis interesses pessoais e/ou a soldo de gente poderosa que fazem com que o PSD se mexa, patenteado nas múltiplas e nebulosas “movimentações”, dos últimos dias que envolveram destacados militantes, actuais e antigos dirigentes, ex-ministros, empresários, ao ponto de perderem a compostura com insinuações grosseiras, ataques raivosos, ofensas pessoais e acusações de toda espécie e feitio.

De há muito que se fala na refundação da direita portuguesa. Parece ter chegado o momento. Se por acaso querem chegar ao Governo do país na próxima dúzia de anos.

Há esquerda …

( a continuar com calma e tempo)

Setembro 27, 2007

48- Pensar à esquerda (I)

Penso não estar enganado se disser que nos espera um largo tempo de governos do Partido Socialista pela frente. Creio não exagerar se disser que o próximo mandato são já favas contadas. O Governo até agora conseguiu passar as medidas mais gravosas de sempre dos interesses populares, apesar dos constantes e grandiosos protestos de centenas de milhares de pessoas, nas ruas e nas empresas, por todo o país, como nunca foram vistos, mas com as sondagens surpreendentemente a marcar sempre uma hegemonia do governo, à custa de uma hábil e bem conseguida manipulação da opinião pública, entre outras razões.

Agora a meio do mandato, com uma oposição incapaz de contraditar as políticas e a propaganda do Governo, com um povo resignado e complacente, com um programa de reformas mais leve a fechar e com uma conjuntura económica mais favorável, o Governo passeia-se vitorioso até 2009, com grande exuberância, sobranceria e arrogância, e posteriormente a um novo mandato, sem que se vislumbre quem possa impedir esta marcha triunfante.

O Partido Socialista acabou com o resto de alma socialista, deitou fora as promessas eleitorais, o programa eleitoral, o programa do partido, borrifou-se para os militantes, simpatizantes e eleitores e “governou-se” por sobre a acostumada apatia e indulgência dos portugueses, apoiado, numa eficaz e capciosa máquina de comunicação, para atraiçoar as esperanças e os sonhos de muitos portugueses.

Hoje, ironicamente, o país está mais à direita, com um governo de “esquerda” do que com os governos de direita. Para a história ficará um Partido Socialista a realizar políticas de direita que nenhum governo de direita, alguma vez conseguiu e que não tem paralelo na Europa e que própria direita teria pudor de consumar.

O PS está hoje, circunstancialmente ou não, confiscado por políticos com princípios neoliberais e internamente não se descortinam alternativas e vontades, competentes e credíveis, para ensaiar uma tentativa de inversão destas políticas, sendo que as dificuldades são imensas, por causa de uma conseguida propaganda que as faz chegar como inevitáveis e únicas.

Por outro lado a restante esquerda partidária, no debate político e ideológico, na apresentação de propostas concretas, na afirmação de políticas alternativas, não consegue perante o povo de esquerda, marcar as diferenças, aparecer como uma opção credível ou mesmo ser capaz de se entender em políticas comuns mínimas, suficientes para mexer as águas, agitar consciências, desenvolver inquietações, em particular dentro do Partido Socialista, por forma a alimentar descontentamentos e provocar fissuras ou roturas definitivas com as políticas seguidas.

Setembro 19, 2007

47- Essas perguntas não que são incómodas.

Um partido político não é obrigado a ter opinião sobre todas as coisas. Do mesmo modo qualquer político não tem, igualmente, a obrigação de ser um especialista em todas as matérias. Existem situações que carecem de pesquisa, maior e melhor análise, verificação histórica, rigor científico, confronto argumentativo, contraprova, etc.

Seria pois legítimo que apanhados numa situação de desconhecimento, a maioria dos partidos e dos políticos, assumissem a ignorância com toda a honestidade e toda a clareza em vez de pregarem respostas levianas e descabidas.

Mas pior de tudo e que me aborrece solenemente são as respostas de tipo “não comento”, “ou não vou fazer comentários sobre essa situação”, para fugir às perguntas incómodas, como foi o caso do deputado do PCP, Jorge Machado, sobre questões relacionadas com a visita de Dalai Lama.

O que se espera de políticos sérios não são as fugas às questões. O que se espera dos partidos e dos dirigentes políticos responsáveis é que dêem a cara. Que assumam as suas opções e posições políticas tomadas a todo o tempo. Sem medos. Sem constrangimentos. Sob pena de serem tidos como pouco credíveis, inconsequentes, e considerados um logro político.

Julgava que este tipo de respostas fossem um exclusivo da direita. Enganei-me.

Setembro 13, 2007

46- Bloco de Esquerda e o acordo de Lisboa

A Mesa Nacional do Bloco de Esquerda ratificou, como se esperava, o acordo de Lisboa entre o PS e o Bloco de Esquerda. O acordo é positivo para Lisboa e permite a Sá Fernandes implementar algumas das suas propostas mais emblemáticas, sem estar prisioneiro de outros compromissos.

Embora possa compreender, não concordo que o Bloco tenha necessidade de reafirmar que não fará coligações com o PS para as legislativas de 2009. O Bloco não pode estar prisioneiro de fantasmas. O Bloco tem uma actuação própria e não pode ficar constrangido por afirmações mal intencionadas que visam condicionar a sua actividade independente e se constituir como uma alternativa política credível.

Também não posso concordar que a esta distância afirme que não fará coligações autárquicas, seja com o PS ou qualquer outra força política de esquerda. É um erro. O plano da intervenção autárquica assume características peculiares que uma reserva de cautela, sobre eventuais coligações de esquerda, deveria ser tido em conta.

A direcção do Bloco, emaranhada em tendências, vem-se mostrando incapaz de concretizar a política estratégica, aprovada na última convenção, para não provocar roturas internas irremediáveis, sendo que algumas parecem ser indispensáveis, a um processo de renovação e crescimento.

Em minha opinião, volto a afirmar, as tendências organizadas, tendem a criar pequenos grupos, cada vez mais fechados, mais fixados nas suas posições, cada vez mais inflexíveis, sendo tanto pior quando uma dessas tendências, a Ruptura/FER, se caracteriza por uma rigidez ideológica, contrária ao projecto político de construção de uma nova esquerda.

Setembro 8, 2007

45- Serei um Anarca-Comunista?

Num comentário, aqui há tempos, por simplificação, defini-me como um anarca-comunista. Achei logo ali uma contradição ideológica (e prática) nos termos, mas não encontrei melhor designação para qualificar quem defende os supremos ideais da solidariedade, justiça e igualdade e concomitantemente se assume um completo liberal, na praxe dos comportamentos e vivências sociais.

Mal sabia que existe em Portugal um partido que se reclama de ideais Anarca-Comunistas. Este partido assume-se como de fora do sistema político e por isso não participa em eleições “burguesas”.

Para surpresa minha, concordei, em linhas gerais, com muito do que li nos objectivos e os princípios e com o manifesto do PASR (UPCC), Partido Anarquista Socialista Revolucionário (União Portuguesa de Colectivos Comunistas Libertários), mas já não me revejo na forma como interpreta a realidade e a intervenção política e isso, por si, para que não subsistam dúvidas, seria razão suficiente e de princípio, para uma não aderência a esse partido.

Uma descoberta interessante, contudo, quando as ideologias, se nos vão sumindo.

Setembro 6, 2007

44- Ser de esquerda

Agora mesmo descobri um post da Isabel sobre o que é ser de esquerda, hoje. Na altura fiz um muito pequeno comentário. Relendo-o agora, dois anos depois, continuo a pensar o mesmo. Disse apenas isto:

“ser de esquerda é preocupação, angustia, inquietação, luta, irreverência, arrebatamento, inconformismo, sei lá, por um mundo onde TODOS vivam com dignidade e vivam bem. Um planeta em que a riqueza ou a pobreza é equilibrada por todos. Utopia? que seja. “

O que é que vocês acham sobre o que é ser de esquerda, hoje?

Agosto 9, 2007

43- A questão do poder e alguma esquerda …e também direita

O acordo entre o PS e o Bloco para a Câmara de Lisboa continua a ser uma fonte de notícias nos jornais diários. Isto por si não teria nada de mal, afinal trata-se de um acordo inédito entre duas forças, em muitos aspectos, com propostas, práticas e programas políticos, muito distintos e opostos.

Mas as notícias têm um denominador comum. Todas elas extrapolam para um acordo, em 2009 ou mais tarde, um dia qualquer, se o PS não conseguir a maioria absoluta. Este teria sido o primeiro passo, segundo eles.

O jornal Público oferece mesmo um quarto de página, a um quase desconhecido, movimento político de extrema-esquerda, “Política Operária”, para chamar de “O acordo da vergonha” o entendimento entre o PS e o Bloco.

Vejo conjugar-se na mesma apreciação sobre o acordo e sobre os seus efeitos, pessoas de direita e pessoas de uma esquerda de “contra-poder”. Ambas as opiniões bradam contra uma “deriva de direita” que visa guiar o Bloco para dentro da área governativa, oh céus!…

Eu na minha santa ignorância penso que a ambição dos partidos é conquistar o poder, para governar o país e cumprir opções de vida, modelos de sociedade, na lógica dos interesses que norteiam cada um deles.

Estar de fora, do chamado “arco do poder”, apenas na resistência, no contra-poder, a defender os nossos interesses, os interesses dos outros mais desfavorecidos, é uma luta necessária, importante, mas por si só é inglória, desgastante, desmotivante e desistente. E claro … também com fracos resultados para quem mais precisa.

A Esquerda a sério não deve temer assumir responsabilidades. Não deve temer confrontar políticas, propostas, ideias, práticas. É assim que conquistará a confiança das pessoas, dos mais pobres, é assim que ganhará credibilidade. Um partido que não almeje a conquista ou a partilha do poder não é um partido político. É um sindicato, uma associação é outra coisa qualquer.

Esta lógica de pessoas da direita que criticam o Bloco por “correr por fora”, mas que criticam também, por querer, justamente, “correr por dentro” não tem sentido, é uma artimanha, é o medo de contaminação das propostas políticas de esquerda, na sociedade portuguesa.

De igual modo, também aquela esquerda, que teme assumir o confronto em questões melindrosas, é uma esquerda que não tem confiança no projecto político, na força das ideias, não tem confiança nos dirigentes políticos, nos militantes, na organização, no povo, não tem confiança, enfim e em última análise, na possibilidade da conquista suprema de uma sociedade mais justa, mais solidária … uma sociedade socialista.

Agosto 7, 2007

42- Ainda o acordo de Lisboa

A Helena Roseta e a CDU declinaram o convite para assinar o acordo de convergência à esquerda na Câmara de Lisboa, documento subscrito pelo PS e Bloco de Esquerda.

À Helena Roseta poucos a percebem. Disse sempre que queria um acordo à esquerda mas recusou sempre todas as propostas de acordo à esquerda, mesmo depois de demonstradas disponibilidades. Agora, diz que não aceita porque quer estar liberta para cumprir o seu programa, mas antes disso, quis saber que pelouros lhe destinariam. Enfim … também num dia era a mais fervorosa militante partidária e no dia seguinte a combatente maior contra os partidos.

A posição da CDU é o costume. Acordos onde esteja o Bloco não pode ser. Não cabe a desculpa de que não faz acordos com o PS por este praticar políticas de direita. Por um lado o PS sempre praticou políticas de direita, embora agora de forma mais acentuada, e a CDU não deixou por isso, de reclamar por acordos com o PS, e por outro lado, a CDU nunca se conteve de aceitar pelouros em municípios governados pela direita, mesmo quando a direita esteve no Governo.

A Helena Roseta e a CDU não aceitarem este acordo à esquerda, mas vão ter de passar por situações complicadas. É que lhes caberá desempatar, entre os 7 votos do PS e do Bloco de Esquerda ou os 6 votos da direita, escolhendo assim, um alinhamento à esquerda, ou as convergências com a direita.

Não sendo de admitir que Sá Fernandes ceda a políticas contra os interesses de Lisboa e das pessoas, este acordo encosta o António Costa e o PS, na Câmara, a propostas de esquerda, o que não aconteceria se não houvesse este acordo. Agosto 3, 2007

41- Acordo PS/Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa

É verdade que assim à primeira vista, custa apoiar um acordo PS/Bloco de Esquerda. Mesmo sendo para uma Câmara Municipal. O PS é sempre o PS, este PS. Com políticas de direita. Com ataques tremendos ao Estado social. A primeira tentação é pois dizer não. Mas é preciso ler o acordo. Ver as condições do acordo. E aí alto e pára o baile.

É um acordo surpreendente. Não estava nada à espera. Desde já, não tanto por o acordo em si, mas por o PS ter aceite todas as seis condições impostas pelo Bloco de Esquerda, para viabilizar um acordo, logo anunciadas na noite das eleições por José Sá Fernandes.

Em suma, o PS aceita completamente um programa de esquerda para governar a cidade de Lisboa. Sem margens para dúvidas, sem equívocos nenhuns, de forma surpreendente.

Vejamos as condições, em linhas gerais:

  • O cancelamento da permuta entre os terrenos privados do Parque Mayer, com parte dos terrenos municipais da Feira Popular, entregue à Bragaparques 
  •  A reestruturação das empresas municipais.
  • A implementação do plano verde do Arquitecto Ribeiro Teles.
  • A proibição de novos empreendimentos na zona ribeirinha. 
  • A obrigação dos construtores arrendar ou vender 20% das casas a preços sociais
  • A não inclusão no acordo de forças ligadas à anterior governação.

Insisto em que o acordo é surpreendente. Porque um acordo é sempre a conciliação de vontade das partes. Implica cedências mútuas. O que vejo é uma cedência em toda a linha do PS. Não vislumbro cedências da parte do Bloco de Esquerda. Talvez as haja. Deve haver. Talvez para o orçamento camarário. Talvez para outras coisas menores.

Este acordo é também uma prova de fogo para o Bloco de Esquerda e para Sá Fernandes. Pela primeira vez o Bloco será confrontado com o exercício do poder em algumas áreas. Terá de demonstrar que é mais do que uma força do contra. Que tem ideias, tem propostas e tem coragem.

A direita não vê com bons olhos este acordo. É natural e já está a reagir. Um pequeno partido e um homem que afrontou os poderosos, da forma enérgica, vão tentar mostrar que não são bota-abaixistas, que não estão apenas no contra. A direita, os homens da construção, os poderosos, estão apavorados, com a presença de uma certa esquerda no poder. Compreendo-os.

Bom seria que a CDU (já disse que não, apesar de ter aceite pelouros noutros municípios conjuntamente com forças políticas, como o PSD, agora e no passado) e o movimento de Helena Roseta, integrassem o executivo, para uma governação com uma distintiva marca de esquerda.

Os meus parabéns ao Bloco de Esquerda. No momento em que pela primeira vez foi chamada a tomar uma posição difícil, soube agir com responsabilidade e sensatez, sem abdicar, nas grandes linhas fundamentais com o seu programa político e sem colocar em causa o seu papel de opositor implacável ao governo e às políticas de Sócrates.

Agosto 1, 2007

40- A quadratura do medo

Manuel Alegre, escreve hoje no Público sobre o medo. Não sei bem o que faz o Manuel Alegre para além de escrever. Parece que é deputado mas não se dá pela sua presença. Há muito tempo. Há muitos anos. É um vice-presidente da assembleia do parlamento, sem presença activa, não intervém nos debates, não apresenta propostas, não aparece em qualquer comissão parlamentar, não participa nas iniciativas parlamentares do seu partido. Manda umas bocas, de vez em quando. Acertadas é verdade, mas sempre extemporâneas. Sempre muito atrasadas. Quando já falaram tantos. Depois de toda a esquerda. Depois de alguma direita, imagine-se. Depois de alguns dos companheiros de partido, inclusive Mário Soares, mas principalmente, Medeiros Ferreira, Vera Jardim ou Ana Gomes e tantos militantes anónimos. Depois do deputado do PSD, Paulo Rangel, ter falado de um ambiente, de “claustrofobia democrática”. Manuel Alegre de vez em quando precisa de sair do quadrado. Foi assim no passado é-o agora no presente. No vislumbre estará ainda o lugar de Presidente da República. O Manuel Alegre chega atrasado, muito atrasado. Não gosto deste tacticismo político. Manuel Alegre, para ganhar a minha simpatia e a simpatia de muitos eleitores quando for de novo candidato, ou se criar um novo partido, precisa de juntar mais naturalidade à sua intervenção política. Assim não. Mas talvez isto baste para negociar o seu futuro político com Sócrates.

Julho 25, 2007

39- Um governo mentiroso e canalha

O governo Sócrates assumiu hoje, a presidência portuguesa da União Europeia para os próximos seis meses. Neste lapso de tempo, vai ressurgir a nova constituição Europeia metamorfoseada de tratado de Lisboa, nas suas linhas gerais já cozinhadas, como cozinhado está, pelos governos da UE, também, a traição (e a mentira) - à revelia e nas costas dos povos europeus, da não realização do referendo ao tratado.

Nestes dias de ausência a que voluntária me remeti, houve momentos que quase não consegui resistir a comentar, tanta a obscenidade porque perpassou(a) a política socrática.

O governo Sócrates prossegue a sua saga contra os trabalhadores deste país e atenta contra as liberdades civis. O livro branco para as relações laborais é ordinário, infame, atenta contra a dignidade humana. Comparado, o código de trabalho, é venturoso. Comparado, o governo de Durão/Santana/Paulo Portas/Bagão Félix, estava à esquerda.

Ao arrepio das expectativas e promessas eleitorais que lhe fizeram ganhar as eleições, o governo ultrapassou a direita …pela direita. Com este governo, tivemos mais impostos, mais desemprego, tivemos fecho de urgências, escolas e de maternidades. Tivemos congelamentos salariais, aumento da idade da reforma, valores mais baixos de pensões, retirada de benefícios aos pensionistas.

Agora iremos ter ainda, mais ataques aos direitos sociais e laborais, menos qualidade de vida. E pior do que isso, em minha opinião, um clima de perseguição e intimidação.

Hoje estará esquecido: A aposta no emprego, nas qualificações, nas tecnologias, nas ciências do conhecimento. Uma maior preocupação social com todos, a diminuição do desemprego, uma melhor qualidade de vida, para todos, especialmente, os mais pobres e mais idosos. De um partido que se designa de socialista, esperavam-se outras escolhas políticas.

O Governo não tem legitimidade política para aplicar estas medidas porque se baseiam numa mentira eleitoral.

Tivesse inscrito no programa eleitoral estas propostas e não estaria aqui a dizer que é um governo mentiroso e canalha.

Julho 1, 2007

38- A Delphi e as posições dos governos português e espanhol

Uns têm conhecimento do problema e mexem-se. Outros produzem declarações mentirosas. Uns reúnem com os trabalhadores, ouvem os seus problemas, tomam medidas. Outros ficam à espera do que isto vai dar. Uns revelam preocupações sociais. Outros insensibilidade. O primeiro-ministro espanhol, Zapatero reuniu com a comité dos trabalhadores. O primeiro-ministro Sócrates não falou sequer sobre o assunto.

Em Portugal e Espanha a Delphi vai despedir trabalhadores, 700 por cá e 1600 em Espanha. Em Portugal espera-os o desemprego e provavelmente, para muitos, o desemprego para sempre. Em Espanha, a Junta de Andaluzia, garantiu empregos alternativos para os 1600 despedidos em quatro empresas. Em Portugal está e vai ficar tudo na mesma. Não se conhecem nenhumas iniciativas para pressionar a multinacional, por parte do governo, nem são conhecidas medidas para apoiar os trabalhadores.

São estas pequenas diferenças que fazem a grande diferença entre os dois governos e os dois países vizinhos.

Maio 24, 2007

37- Venezuela

Democracia não é silenciar um órgão de comunicação social hostil. Muito menos é esquerda e socialismo. Assim não!

Maio 21, 2007

36- Sá Fernandes uma referência

José Sá Fernandes apelou a associações, movimentos de cidadãos, partidos políticos, para uma grande coligação pré-eleitoral entre todas as forças políticas, excluindo o PSD e o CDS, “que constituíram a maioria camarária nos últimos anos e que, independentemente de quaisquer juízos pessoais, têm de ser politicamente responsabilizados pelas suas acções e omissões, bem como, obviamente, os que, à partida, se excluem de um projecto democrático”, para uma união de vontades e esforços, tendo em conta “um cenário de extrema gravidade, com uma câmara falida e com os seus trabalhadores desmotivados, envolta em suspeições intoleráveis, sem rumo e sem esperança…”

Esta proposta política, recupera uma posição idêntica, tomada por mim, aqui, mas que excluía igualmente o PS, pelas suas, também, responsabilidades, no estado caótico de Lisboa.

Dizia eu, “com Helena Roseta e Carmona Rodrigues, a manifestarem intenções de apresentar candidaturas independentes …à esquerda do PS, fica aberto um espaço de diálogo e de convergências para uma candidatura única, forte, negociada, com base numa plataforma política e programática alargada. Da arquitecta Helena Roseta, uma pessoa de esquerda, espera-se, o não embarque em entusiasmos desmedidos ou aventuras isoladas, olvidando o trabalho notável e exemplar de José Sá Fernandes que vem desenvolvendo em prol da cidade de Lisboa. Do Bloco de Esquerda, espero que não incruste à figura do candidato, procurando tirar dividendos políticos, e mantenha a abertura política, evidenciada no passado, ao encontro das melhores soluções políticas. Do PCP, gostaria de vislumbrar a abertura suficiente para um acordo de unidade sem tentações hegemónicas e de disputa de lugares”.

E não é que parece que acertei!

Diz Sá Fernandes, “só esta união de vontades políticas e de esforços concretos, assente em princípios programáticos e propostas diferenciadoras, poderá assegurar que a Câmara Municipal de Lisboa, num prazo de dois anos, possa recuperar as suas condições financeiras, a sua estrutura administrativa e a sua dignidade politica, voltando de novo a servir a nossa cidade.”

Este tipo de propostas, caros amigas e amigos, apenas são tomadas, por quem tem grande independência, pessoal e política, não está agarrado a preconceitos, e está ao serviço de causas.

Sinto um enorme orgulho em ter José Sá Fernandes, como parceiro, neste combate.

Maio 16, 2007

35- As escolhas políticas

Não há dinheiro para tudo, é verdade.

Cansa de ouvir estas palavras, mas é verdade. Não há dinheiro para tudo. Não há por onde esconder. Fecham-se escolas, cantinas, urgências, maternidades, hospitais, aumentam-se impostos, taxas moderadoras, propinas, combustíveis, transportes, rendas de casa. Retiram-se direitos sociais, reduzem-se comparticipações em actos médicos, medicamentos, congelam-se vencimentos, aumenta-se o tempo de trabalho, diminuem-se os valores das reformas, dos subsídios de desemprego, eu sei lá … em nome de não há dinheiro para tudo.

Portugal teve governos, partidos, políticos, empresários, economistas, comentadores, líderes, mas não teve, não tem, liderança e rumo. Quando teve, liderança e rumo, as nossas elites, fizeram, fazem sempre escolhas erradas. Por causa disso, atrasamo-nos. Por causa disso, temos problemas de contas públicas, temos um país adiado, sempre à espera de melhores dias. Temos um país em que uns enriquecem muito depressa, tão depressa como outros empobrecem. Um país de mais ricos e um país de mais pobres.

Estamos sempre a bater na mesma tecla; mas não há como fugir.

Os caminhos são feitos de escolhas. As escolhas determinam caminhos. Que país queremos? Que sociedade pretendemos? O governo de Sócrates tem feito escolhas.

Em nome de um amanhã melhor, Sócrates como os seus antecessores pede-nos mais sacrifícios, para não se comprometer o futuro, afirmando não haver alternativas. Uns acreditam, outros fazem de contra, outros não acreditam. Eu estou nos que não acreditam nesta políticas.

Mas não vendo ilusões. Qualquer caminho exigirá custos. Menores do que os que nos estão a ser pedidos mas custos que valham a pena.

Victor Constâncio vem agora a terreiro defender a reforma de Sócrates para a segurança social e falar nos seus efeitos nas contas públicas do Estado.

Pudera!

Com o aumento da idade da reforma, a antecipação da alteração da fórmula de calculo, a criação do imposto de sustentabilidade, que se traduzem em mais tempo de trabalho, a um abaixamento do valor de reforma nos próximos anos, equivalentes a 60 por cento do último salário, não era de esperar um efeito pelo lado da despesa nas contas públicos? Qual a admiração? O Governo limitou-se a introduzir o princípio da redução da pensão futura ou do aumento da idade da reforma, sem ensaiar um plano mais arrojado e não atingindo o pilar do regime de solidariedade intergeracional.

O que Victor Constâncio e José Sócrates não dizem é que havia outras alternativas. É preciso por isso reafirmar que este modelo de sustentabilidade da Segurança Social é conservador e desadequado. Manter a contribuição das empresas para a SS em função do número de trabalhadores é imbecil. É desincentivar a criação de postos de trabalho. É apelar ao trabalho sem direitos, à fraude fiscal. Obrigar uma empresa com muitos trabalhadores, mas pouco lucrativa, a pagar mais que uma empresa com poucos trabalhadores, mas com grande Valor Acrescentado Bruto (lucros) é um disparate pegado.

Com mais ou menos açúcar, tem sido criada a ideia de que não há alternativas a estas políticas e essa é a grande falácia dos novos tempos. As forças à esquerda do chamado arco da governação, precisam de ser mais audazes, mais prepositivos, mas consistentes, para que o descontentamento pelas políticas neo-liberais, capitalistas, não fique pelo protesto, pela resistência, e ganhe credibilidade, coerência e maturidade, e para isso exige-se uma grande mobilização de todas as forças sociais, políticas, todos os pensamentos críticos, que ajudem a destruir as ideias feitas, a inevitabilidade das soluções liberais e neo-liberais que se nos apresentam.

Maio 13, 2007

34- Governar à esquerda é possível

No meu perturbante desassossego, um turbilhão de pensamentos agitam o meu dia a dia. Hoje não consigo abstrair-me deste pensamento:

Num sistema de multipartidarismo e de democracia representativa, como o nosso, não será possível aos governos ou às oposições manterem um discurso e uma prática consistente e coerente, quando estão no lado contrário?

Porque será que estando na oposição, o discurso político é um discurso identificado, como sendo de esquerda, um discurso que os faz ganhar as eleições e depois estando no governo, a prática é inversa ao discurso, isto é, as medidas que adoptam são, identificáveis, como sendo de direita?

Podemos dizer, sem medo de errar que são os discursos de esquerda, as políticas de esquerda, que fazem ganhar as eleições e as que correspondem aos anseios da maioria dos eleitores.

Logo seria legitimo pensar que os poderes, para darem expressão, à vontade da maioria que os elegeu, deveriam governar à esquerda, contudo, também sem medo de errar, invariavelmente, governam à direita.

O que é que isto significará?

Que os partidos e os políticos que nos tem governado, (pelo menos estes) são todos uma cambada de mentirosos? E porque mentem sempre? E porque mentindo sempre, continuam a ganhar as eleições? E porque governam sempre à direita? E porque não se governa à esquerda? Será que não é possível governar à esquerda em Portugal? Será que a esquerda está condenada a ser oposição? São questões para as quais cada um de nós terá as suas respostas.

Por agora, pretendo apenas dizer que é possível, falar verdade, falar em rigor, falar em responsabilidade, a governar à esquerda …mesmo. Mas para isso é preciso que a esquerda, seja uma esquerda credível e que apresente propostas convincentes, competentes, exequíveis, e claras nos propósitos.

Quando isso acontecer, teremos um governo e as políticas de esquerda que ao fim e ao cabo, à mais de três décadas o povo português reclama, uma sociedade melhor para viver, mais equilibrada, mais solidária, mais justa, uma sociedade digna, com uma rápida intervenção aos mais desfavorecidos e desprotegidos da sociedade que atravessam dias muito difíceis.

Abril 26, 2007

33- Sócrates só perde na rua

Fui mais um dos mais de cem mil trabalhadores presentes na manifestação da CGTP. Mas há coisas que não entendo. Devo ser muito estúpido. 

Não consigo perceber porque a esquerda à esquerda do PS, incluindo a esquerda do PS, continua a não perceber, porque essa esquerda, continua a ser uma esquerda residual no país.

Porque não capitaliza a esquerda, à esquerda, os votos deste descontentamento? Porque não capitaliza a esquerda estes protestos?

 Chega-nos o protesto enquanto o Estado social acaba? A esquerda à esquerda do PS, toda a esquerda, tem de fazer mais. É preciso fazer mais do que protestar. As pessoas de esquerda precisam de alternativa de poder.

 Todos os dias há mais uma razão para elevar os nossos protestos. Os trabalhadores e as populações ganham na rua. Centenas de milhares de trabalhadores, milhares de portugueses, protestam contra as retiradas de direitos, contra a carestia de vida, contra o fecho das urgências, das escolas, das maternidades, contra o desemprego, o aumento da idade da reforma, contra o sistema educativo, o sistema de saúde… E depois?

 Depois o Sócrates ganha as eleições novamente ou daqui a muitos anos voltará a ganhar o PSD. Não bate certo pois não? Não, não bate certo. E a culpa é da esquerda à esquerda que se contenta com a meia ou uma dúzia de deputados, que se sente bem com os seus 7, 8, 9 por cento de votos, que alivia a consciência na rua ou no parlamento. É preciso mais. Não basta resistir para ficar de bem connosco próprios. “Não é nada comigo, não é nada comigo”, lembram-se do FMI do José Mário Branco?

Eu quero mais do que resistir quero uma alternativa de governo à esquerda. Não basta o protesto e ficar tudo cada vez pior. Quero uma solução de governo. A esquerda à esquerda do PS tem de construir pontes, programas, plataformas, têm de se constituir como uma alternativa de governo. Se não não vale a pena.

Em minha opinião cabe ao Bloco de Esquerda saber dar um novo salto. Um salto na actividade política, na actividade organizativa, no programa político, para um novo projecto que catapulte toda a esquerda, para um movimento ou um partido de tipo novo. Precisamos de um novo partido da esquerda portuguesa. Nem que seja apenas para a actividade governativa. Um dia tenho de desenvolver melhor esta ideia que um dia já aflorei aqui.

Março 3, 2007

32- Debater à esquerda

Não há campeonatos à esquerda do PS. Não há um campeonato entre o PCP e o Bloco, como querem fazer crer. Um campeonato pela disputa do movimento social e popular. O campeonato de quem “tem” mais sindicatos, mais comissões de trabalhadores, delegados sindicais, movimentos associativos, mais capacidade de mobilização dos trabalhadores. Isso é uma estupidez. É indiscutível que o PC domina estes movimentos. E daí não vem mal nenhum.

A grande manifestação convocada pela CGTP com a presença de oitenta a cem mil trabalhadores foi uma manifestação de protesto e de descontentamento, não foi uma resposta do PCP à marcha pelo emprego do Bloco. Eram duas iniciativas distintas. A da CGTP era um protesto geral contra as políticas do governo, a do Bloco era uma iniciativa partidária para dar visibilidade a este problema e como antecipação à apresentação de projectos de lei específicos.

Não quero entrar por aí. Não alinho em políticas de “marcações” em cima, entre as acções do PCP e do Bloco, na liderança à esquerda do PS, de procura de protagonismos mediáticos. Não alinho numa competição a dois, pelo controle do movimento popular, dos sindicatos, das comissões de trabalhadores, pela disputa do eleitorado de esquerda. Isso é um perfeito disparate. É público que o PCP e grande parte dos seus militantes, embirram com o Bloco. Não consigo compreender. O Bloco trouxe crescimento eleitoral ao PCP. Despertou o PCP de um sono profundo. Trouxe-lhe energia. É óbvio isto.

A esquerda precisava de uma força como o Bloco. Com o aparecimento do Bloco toda a esquerda cresceu. A direita perdeu. O CDS quase desapareceu. Nisto o Bloco tem indiscutível mérito e o pior cego é o que não quer ver.

A partir daqui deve ser política, só política. Debate político, debate ideológico, debate sobre as melhores formas de fazer política, de fazer sindicalismo, de responder aos novos tempos. Sem visar competir para ganhar lugares. Não. Por aí não. Competir onde deva haver competição. Onde se entenda que as políticas e as práticas são más e desadequadas, fazendo pedagogia política. Cada um com os seus argumentos, com a sua visão dos problemas, com as suas propostas.

O PCP é um partido de esquerda, mas estou em frontal desacordo com grande parte das suas posições e práticas políticas. A muitos níveis. Mas não é meu competidor. Não disputo terrenos com o PCP por disputar. Onde o PCP está e está bem, deixá-lo estar. Sou capaz de até lhes dar o meu apoio. Apoio uma direcção sindical, uma comissão de trabalhadores, uma gestão autárquica se estiver a ser governada de acordo com os princípios que me pareçam correctos. Deveria ser assim:

Para ser mais preciso. Nas últimas autárquicas, numa freguesia da cidade, cheguei a defender o apoio sem condições a uma junta de freguesia da CDU. Não chegou a ser discutida. Ainda não estamos habituados a este nível de fazer política. O problema, sabemos é que esta política não tem correspondência no outro lado, no lado do PCP. Lembro que houve tentativas de acordo no concelho de Caminha para uma coligação a três, PS, CDU e Bloco. Logo na primeira reunião os dirigentes locais do PS e da CDU já estavam a negociar lugares. Ficou por ali a tentativa. Na negociação de lugares. Uma tristeza.

Disse no início que não há campeonatos à esquerda. Rectifico. Não sei se há. Não devia haver, pelo menos. A esquerda que desejo faz aproximações, faz convergências, une-se na prática. Até ao dia em tenha condições de criar uma grande força de esquerda a sério. Um Partido da Esquerda Portuguesa. Com debate sério e no confronto político e ideológico, leal. Juntando toda a esquerda a sério. Para uma esquerda de confiança.

Vejo com muito bons olhos a aproximação entre militantes renovadores comunistas (e a permanência definitiva de João Semedo até ao fim da legislatura) e o Bloco. Vi com bons olhos a manifestação da CGTP. Vi com bons olhos o prostesto dos professores. Apenas uma vontade estava presente. O protesto, o desacordo, a denúncia. Sem partidarites.

Lembro, como exemplo das boas parcerias a ligação entre o Bloco e alguns renovadores comunistas, a elaboração de uma carta da saúde que fixou tempos máximos para consultas, cirurgias ou internamentos, apresentada pelo Bloco (com o precioso contributo dos renovadores, parece-me) que permitiram a aprovação por unanimidade na Assembleia da República (como é que antes ninguém se tinha lembrado disto?) que só foi possível por ter sido subscrita por profissionais da saúde como o bastonário dos médicos, dos farmacêuticos, sindicatos do sector e algumas figuras académicas de relevo.

Isto sim é ter visão e estratégia política. Ganhou o País. Ganharam os mais pobres. Não é isso que desejamos?

Para uma esquerda assim estou disponível. Não me interessam por ora os grandes princípios ideológicos. Interessa-me uma esquerda que lute por transformações sociais a favor dos mais necessitados e que promova entendimentos alargados. Para forçar mais e melhores mudanças.

Outubro 14, 2006

31- Eu e o Bloco.

Presumo que a maioria dos visitantes deste espaço saiba que sou aderente do Bloco de Esquerda e fui cabeça de lista eleito, à Assembleia Municipal de Viana do Castelo, depois de mais de vinte anos afastado da actividade partidária e de um regresso esperançoso num novo projecto político.

A junção de forças de esquerda, afastando divergências antigas, sectarismos e preconceitos ideológicos, na base de um único denominador; uma esquerda nova, uma esquerda adulta, uma esquerda moderna, uma esquerda em (des) construção ideológica, eram o alento suficiente para o intrometimento no ensaio de recomposição de uma esquerda, baseada apenas nos mais altos valores universais do socialismo.

Este espaço de intervenção tinha de ser muito aberto, tolerante e de muita lealdade política. Sabia que não era fácil, mas apostei tudo neste projecto. A verdade é que decorridos estes anos o Bloco conseguiu o equilíbrio ideológico, a concertação de posições, uma discussão “desimpedida”, adquiriu credibilidade e ganhou uma posição de relevo na espectro político partidário.

O Bloco cresceu, instalou-se e tem hoje uma representatividade surpreendente nos órgãos autárquicos e no parlamento nacional. Um feito sem dúvidas notável em tão pouco tempo e contra as expectativas mais optimistas.

O Bloco beneficiou da conjuntura política no início e teve arte e o talento depois para consolidar uma posição, o respeito e a confiança política dos cidadãos, através de propostas sérias, inovadoras, um discurso fluente e apropriado às circunstâncias. O povo reconheceu o trabalho, a competência, o empenhamento e a rotura com políticas passadistas e acolheu bem, um discurso mais apelativo, Mais radical mas consistente de grande exigência cívica, de justiça social, do respeito e da dignidade humana, de uma melhor qualidade de vida dos cidadãos.

Este caminho não foi fácil. E agora é mesmo muito difícil. Com o crescimento do Bloco, inevitavelmente, irromperam protagonismos exacerbados, deslumbramentos pessoais, oportunismos inaceitáveis, conveniência pessoais, arrogância intelectual. É uma inevitabilidade o aparecimento desses episódios . O Bloco precisa de assentar os pés. Os militantes e simpatizantes, devem perceber a naturalidade destes fenómenos e estar atentos. Estes sinais estão já bem matizados para um observador sofrível. Os “encostos” aos líderes, para conseguir ou assegurar lugares na organização, as “correntes políticas” a jogar com a sua influência, os “profissionais” a perder sentido crítico.

Continuo a confiar nos líderes principais e visíveis do Bloco. Mas o Bloco precisa de sair do “centro” geográfico. Precisa descer, conversar com os aderentes e simpatizantes. Precisa ouvir mais. Precisa discutir mais e melhor com os aderentes, os simpatizantes e os eleitores. Precisa de uma liderança efectiva, praticar melhor a democracia interna participativa e auxiliar mais os eleitos autárquicos e definir melhor a sua intervenção sindical. O Bloco é hoje, em minha opinião uma força política com várias cabeças mas sem tronco e pouco escorada nas bases.

O Bloco precisa abrir-se mais. Abrir-se a outros pensamentos e pessoas da esquerda. Sem medos. O exemplo da participação de alguns renovadores, como o de João Semedo deve ser alargado a nível nacional. As pessoas de esquerda, sem partido, ou com algumas afinidades ao Bloco continuam a existir. É preciso chamar essas pessoas, renovar os quadros, ousar apostar noutras figuras.

No que me toca começo a sentir algum desconforto. Gostava de ver o Bloco regressar à pureza inicial.

Para terminar este texto quero informar que deixei de ser deputado municipal a meu pedido. A bem com o Bloco mas para facilitar a renovação. Entretanto, estou a ponderar. Ou o regresso em força para reorganizar o partido a nível local e bater-me por determinadas condições ou abandonar a minha qualidade de aderente, mantendo um distanciamento de apoio crítico. Os próximos tempos vão definir a minha posição definitiva… depois de alguns ameaços.

Outubro 4, 2006

30- Com licença

O PCP anda a irritar-me. Regressei à actividade política com o Bloco de Esquerda.

Há muitos anos, mais de vinte, tinha deixado a actividade partidária, depois de muitos anos de intensa e sincera militância. Um dia nos anos oitenta, fui-me embora, desgostoso e decepcionado com os caminhos trilhados pela minha extrema-esquerda. Estava na UDP.

Percebi que o caminho não era aquele. Dei-me conta de alguns abalos nas minhas convicções ideológicas. O “meu” comunismo não era aquele. Como não o era o defendido pelo PCP. A minha visão idílica de uma sociedade comunista abalou. Os países “comunistas” do Leste europeu, há muito que me tinham desiludido. Descobri, mais tarde que os “meus” países comunistas, também não eram “comunistas”. Não eram aquilo que aprendi sobre o comunismo.

Na altura, não colocava em causa o comunismo. Agora ponho muitas coisas em causa.

Agradava-me a utopia de uma sociedade sem classes, o idealismo de “a cada um segundo as suas necessidades de cada um conforme as suas possibilidades”. Agradava-me a simplicidade de uma sociedade em que a riqueza fosse partilhada.

Agradava-me e agrada-me.

Contudo, algumas teorias evidenciaram-se mesmo desadequadas. E as práticas ainda piores. O modelo de organização do Estado e do partido comunista mostrou-se mesmo desastrado e contraproducente, tendo conduzido os países a novas ditaduras e a um novo capitalismo.

Mas o que tudo isto não abalou foram as grandes bandeiras de uma vida. A luta por uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais solidária, digna. Os grandes alicerces ideológicos estão cá e esses são indestrutíveis. São valores morais, são valores de justiça social, são os valores da dignidade humana. E são a compreensão dos fenómenos como o capitalismo, o socialismo, as classes sociais.

Dizia que o PCP andava a irritar-me e digo porquê. O PCP não aprendeu nada com a história. O PCP não percebeu as mudanças e os novos tempos. O PCP não aprendeu com as experiências. O PCP continua agarrado a dogmas. O PCP continua julga-se a única esquerda. O dono da esquerda. O PCP continua com equívocos ideológicos. Apoia ditaduras, apoio movimentos terroristas. O PCP tem uma estrutura organizacional, antidemocrática. Controla os movimentos sociais, os sindicatos, as associações, como armas de arremesso político/partidário. Defende interesses corporativistas. Tem uma máquina sindical de “profissionais” burocratas e interesseiros.

Isso não é propriamente uma novidade para mim. Por isso nunca estive no PCP.

Voltei à política partidária para dar força a um movimento novo, a um movimento em “desconstrução” e reflexão ideológica. Para dar um novo impulso à esquerda, para reunir forças, para encontrar novos caminhos. Para criar “unidades”, convergências.

Mas não dá com o PCP. Com o PCP não é possível construir pontes de entendimento. O PCP quer dominar e controlar tudo. O PCP faz o seu caminho sozinho.

Estes últimos ataques absurdos ao Bloco com afirmações tontas e mentirosas, fazem-me perder a esperança. Não dá mais. Porque a minha esquerda faz-se com o PCP, faz-se com os militantes e simpatizantes do PCP. Faz-se com toda a esquerda, esteja onde estiver. Mas com esta partidarite aguda, este sectarismo, esta ortodoxia, não posso mais. Que me desculpem os militantes, os simpatizantes do PCP. Espero que uma vaga de fundo consiga correr com estes dirigentes mais impedernidos. Depois sim, depois contem comigo, assim não dá. O Jerónimo simpático, afectuoso, esconde um político fraco, um político preconceituoso, querendo afirmar-se pelos ataques à sua esquerda. Por uma marcação cerrada á esquerda. Os militantes parece gostarem. No entanto Jerónimo tem um lado servil, muito “educado”, que se mostra nos contactos pessoais, para além dos discursos. O Jerónimo é mais este do que aquele. Aquele é para militante ver. Para o PCP, instituições como a igreja, a justiça, os militares, as polícias, não são nunca alvo das suas investidas.

Este PCP está a ajudar a que deixe o Bloco de Esquerda. Começo a descrer na capacidade da esquerda se emendar. Diz o José Mário Branco, numa das suas fabulosas canções, “depois de tantas guerras já não sei fazer as pazes”. Talvez seja isto. Não estou disposta a dar muito mais para estes peditórios. Vou sair. Com licença.

Setembro 19, 2006

29- A (in)segurança social

Já ninguém tem dúvidas hoje de que há um problema grave na sustentabilidade da Segurança Social. Mudou muita coisa nas últimas décadas. A relação entre beneficiários e contribuintes é hoje muito nivelada. Descontam dois para receber um. Daqui a nove anos, se nada for feito, será o contrário, segundo um estudo do Governo e consensualmente aceite. A pressão demográfica o aumento da esperança de vida, a entrada tardia no mercado de trabalho, o desemprego, tornam a situação insustentável. Já deveria ter sido feito algo. Os governos não ligaram nada a este problema e para cúmulo, deixaram de transferir verbas para o fundo de capitalização, previstas na lei. E desviaram verbas para outros fins em tempos de grandes excedentes. Agora parece terem despertado, mas com propostas levianas. E com medidas violentas, sempre em prejuízo dos que suportam mais dificuldades. Este centrão de interesses não quer saber do que é importante entretido que anda nos jogos eleitorais e em servir as clientelas.

Eles falar falam, mas é para inglês ver.

A Segurança Social dispensada pelo Estado é imprescindível num regime democrático. Só o Estado pode assegurar o retorno em forma de pensão a quem desconta e também aos que necessitam da protecção social do Estado. Não será nunca qualquer entidade privada, cujo desígnio, apenas visa o lucro, a cuidar disso. Em nenhuma circunstância os privados, de forma directa ou indirecta, parcial ou totalmente, nortearão a sua actividade para um fim social.

Dito isto, interessa saber que propostas estão na mesa:

O PS quer mais do mesmo: aumento da idade reforma, menores valores de aposentação, mais descontos ou o prolongamento da reforma para além dos 65 anos.

O PSD propõe um sistema misto: uma nova redistribuição com uma cota para a segurança social e outra para um sistema privado de pensões.

O PCP propõe uma alteração. A alteração das fontes de financiamento das empresas, nomeadamente, as empresas passarem a descontar, sobre o VAB (valor absoluto bruto –o lucro das empresas.) e não em função do número de trabalhadores.

O Bloco de Esquerda mexe mais. Propõe uma reformulação total no modelo de financiamento. Altera a contribuição das empresas introduzindo uma taxa de 3,5% incidindo sobre o valor acrescentado e diminui a taxa social única em 3%. Defende uma comparticipação suplementar, entre 1 e 5 por cento, para vencimentos acima dos 1500 Euros. Propõe-se ainda inscrever uma taxa sobre as grandes fortunas para subsidiar a Segurança Social.

Basicamente é isto. Importa agora, reflectir sobre as mesmas:

A proposta do PS vai pelo lado fácil das soluções, mas mais difícil de engolir para os trabalhadores: Mais descontos, mais tempo de serviço activo, diminuição muito significativo das pensões (à revelia das promessas eleitorais). É muito pouco e bastante agressiva. Não tem conta a diversificação e novas formas de financiamento. É excessiva no dramatismo porque despreza o combate à economia paralela, à integração e regularização dos imigrantes no sistema, à criação de emprego.

A proposta do PSD é o fim prematuro do sistema universal. A quebra de receitas com o desvio para fundos privados mata o sistema. O que importa é diversificar e aumentar os financiamentos e não desviar ou encolher as contribuições. Não tem pés para andar a proposta nem pode ser aceite. É uma privatização disfarçada. Só o estado pode garantir um serviço social.

A proposta do PCP é defensiva. Não é aceitável que sejam só as empresas a suportar esta sobrecarga enorme. O problema da sustentabilidade da Segurança Social é real não é imaginário. Não se resolve atirando para canto o problema. Quem pode contribuir mais, deve contribuir mais, mas deve contribuir quem pode contribuir.

A proposta do BE é a mais razoável. Parte do princípio da universalidade que implica não deixar de fora ninguém e de todo o rendimento contribuir para o financiamento do sistema. Cada um deve pagar segundo os seus rendimentos. Neste momento estão de fora da contribuição para o sistema, mais de metade da riqueza nacional.

Em resumo:

As propostas do PS e PSD fazem um caminho paralelo (reduz a protecção social, as pensões de reforma, cria mais injustiça social, aumenta a idade das reformas, sendo que o do PS, caminha para novas reduções do mesmo tipo, a médio prazo, que cria novas injustiças sociais aos mais desfavorecidos e a do PSD, simplesmente acaba, desde logo, com a esperança de uma Segurança Social, solidária, de responsabilidade social, de redistribuição e protecção dos mais pobres.

A proposta do PCP é corporativa e inexequível para sustentar a Segurança Social o que na prática vai dar ao mesmo que a proposta do PSD, o seu fim.

A proposta do Bloco é em minha opinião a que melhor responde a este problema. Mas é do Bloco e isso é uma “desvantagem” por falta de vontade política. É apesar disso, um bocado recuada ao instituir a idade da aposentação nos quarenta anos de desconto. Dificilmente alguém terá condições de aposentação com menos de 65 anos o que é muito. Apenas os da “geração” da ditadura que foram “obrigados” a começar a trabalhar mais cedo, são “poupados”, com a desindexação da idade da reforma à idade natal.

Onde não se vislumbram intenções de mudar e era indispensável que acontecesse é no modelo de financiamento. Apenas o PCP e o Bloco e bem, defendem a contribuição em função do valor acrescentado e não no número de trabalhadores que uma empresa emprega. Não faz sentido que as empresas que mais investem em emprego sejam as mais penalizadas. Essa lógica tem de ser invertida. Não cria emprego, facilita o desemprego, contribui menos e injustamente.

Setembro 13, 2006

28- Cuba não divide a esquerda

Muitas pessoas de esquerda, sobre Cuba e sobre Fidel, fazem avaliações distintas, até opostas e contudo, tais apreciações, em nada beliscam, a sua condição de pessoas de esquerda. A esquerda das liberdades, da igualdade, da justiça social.

Não justifico Cuba. Não justifico Fidel. São quase 50 anos de poder absoluto, após o derrube da ditadura de Fulgêncio Baptista em 1959, por um exército de guerrilheiros, sob o comando de Fidel e Che Guevara. Não justifico, Cuba, não justifico Fidel, mas compreendo porque tanta gente de esquerda defende o regime cubano e o seu líder.

A defesa de Cuba é uma autodefesa, contra o império americano, contra as direitas reaccionárias, contra a prepotência e arrogância dos poderosos. A maioria dos defensores de Cuba, alavanca as suas posições nos grandes avanços na saúde, educação, na habitação, apesar do cerco económico, das manobras da CIA para derrubar o regime. Alguma tolerância da população perante os evidentes constrangimentos às liberdades, à escassez de meios, ancora na bondade de um povo, cortês, despretensioso, simples, que a seus olhos, partilham as dificuldades. Esse é um grande orgulho nacionalista.

Por isso compreendo e concedo o benefício dessa postura, embora não concorde com ela, aos defensores do regime e de Fidel de Castro.

Por isso digo que Cuba não divide a esquerda.

A Coreia do Norte ou China, sim, divide.

E aí não consigo perceber mesmo, nem transijo, na relação de “irmãos”, entre os partidos comunistas no poder, nesses países de ditadura feroz, muito dissemelhante ao de Cuba, na sua raiz, propósitos e essência e o de uma esquerda conservadora.

Por aí e nestas questões, assentam, também, muitas das minhas divergências com o Partido Comunista Português.

Agosto 15, 2006

27- Desabafos à esquerda

Quem me acode? Estou profundamente agastado. Cansado e farto. Voltei à política partidária, com o Bloco de Esquerda. Já lá vão uns anitos. Mas num intervalo que surja vou deixar a militância partidária.

Como militante partidário tenho um grau de exigência elevado. Comigo e com os outros. Gosto de ser e não pertencer. Gosto de fazer acontecer. Não gosto de estar. Já não tenho muita paciência, para esperas. Para estar, por estar. E para ver sempre as mesmas caras. É difícil trabalhar comigo, reconheço. Tenho quase sempre opinião e ideias. O que é uma grande “chatisse”…

Não pretendo que as minhas posições vençam sempre, não tenho esse pretensiosismo, mas o acomodamento, a insuficiência de posição critica, faz-me impressão, dentro da estrutura. Falta uma cultura de critica. Não culpo a direcção ou talvez culpe, por falta de estímulos, por ser demasiado distante, por dar “autonomia” a mais, por “controlar” a menos, por não estar. Presos por ter cão e por não ter, dirão eles e talvez com razão. Pois é caros amigos, é difícil encontrar a dose certa.

Sei que vejo a intervenção política de um modo muito peculiar. O que estou a dizer não é novidade para os meus camaradas e muito menos para os meus amigos. E muitos anos decorridos, confesso faltarem-me já as forças e o ânimo, para tentar atravancar certos comportamentos errados e por isso prefiro manter-me à distância mínima.

Considero mais de meia dúzia de anos passados que está a faltar capacidade ao Bloco para atrair “novos públicos”, para a actividade partidária, fazer interessar mais as pessoas, investir mais, nos mais jovens. Trazer mais jovens à liderança. Não culpo o partido, tão-pouco as políticas do partido. Muito menos as pessoas ou os jovens. São sinais dos tempos. Mas é possível fazer mais, penso eu.

A “desconstrução” ideológica foi e é a alma do Bloco. É esta a sua marca distintiva, genética, a sua “impressão digital”. É este modelo que permite questionar o que era dado como adquirido, repensar as práticas políticas, reflectir sobre as ideologias, adaptar o pensamento e a acção aos novos problemas de uma sociedade moderna, com respostas novas e adequadas.

A “descontrução” ideológica, não é pois, um abandono da ideologia. É antes um assumir de que a ideologia não se esgotou nos pensadores clássicos marxistas ou nos pensadores mais contemporâneos, anti-capitalistas. Sem complexos e sem preconceitos, tendo como pano de fundo, os valores capitais de uma sociedade socialista, num cenário de um novo mundo globalizado. Estou de acordo com este caminho. Parece-me aliás o único.

O Bloco afirma-se da esquerda e socialista. Faz bem. A esquerda e o socialismo são o traço comum, a muitas mulheres e homens que procuram a justiça social, a dignidade, a fraternidade, o bem-estar a todos os níveis. E o Bloco tem a obrigação de contribuir, com o seu melhor esforço, para que a sociedade melhore e mude. Acho que tem feito muito por isso, sinceramente.

Isto não quer dizer que cauciono todas as políticas e todos os dirigentes do Bloco. Não o conheço o suficiente, todos os dirigentes. Mas estou convicto da bondade das suas motivações políticas. Acredito, mesmo que estão na política, para servir a causa pública. Não serão todos, certamente. Existirão e onde existir sempre oportunistas que antevêem o entre metimento na coisa política, como trampolim para outros interesses particulares.

Queria acreditar que não, mas apesar de crédulo não sou tão ingénuo a esse ponto.

Há comportamentos que não aprecio, mas avalio como adversidades naturais, num partido, novo e ainda a estruturar-se. Mas estou atento. Interessa-me, antes, acentuar o que melhor descortino na actividade do Bloco. A presença de um vasto grupo de pessoas, verdadeiramente empenhadas. Desinteressadamente empenhadas. Pessoas que dão o seu tempo, a sua disponibilidade mental e física, a um ideal, a uma ideia. A de construir uma ponte de esperança, de resgatar a política, de se entregarem à causa de uma sociedade mais igualitária e justa. Uma sociedade socialista na sua profunda essência.

O problema é outro. O problema sou eu e outros como eu. E piores que eu. Estou cansado. Saturado. Sem paciência. E quero mais e exijo mais e desgosta-me que tudo ande ao ralenti. É preciso mais. Não podemos estar à espera que “os amanhãs cantem”. Que a “história nos dê razão”. Que tenhamos mais deputados, mais autarcas, mais influência, mais simpatia. É bom, mas é pouco.

Os pobres, os desempregados, os sem casa, os famintos, os angustiados com os novos tempos, os desempregados, os com o emprego precário, todos os que estão preocupados, com o presente e um futuro incerto e inseguro, com a assistência social, com a saúde, com a segurança, não podem esperar. Querem ter tempo de ter uma vida para viver com dignidade. E aqui há muita a fazer e daí, também alguma da minha insatisfação. Não estou no partido por estar. Estou porque quero que alguma coisa mude.

Já o disse. Não sou uma pessoa sectária. Não sou um radical. Mas sou alguém com princípios e causas. E estando em causa certos princípios, certas atitudes inadmissíveis, como a indignidade, a injustiça social, sabem que contam comigo, a sério. Aí transfiguro-me. Aí cuidado comigo. Por isso é que valorizo a unidade, os pequenos avanços, as pequenas e grandes conquistas, não importa se conseguido, à custa de um apagamento partidário, da ajuda do padre da freguesia, da instituição social, do movimento associativo, da actividade de outro partido.

É por isso que defendo uma esquerda, ainda mais ampla. Uma esquerda orgânica com base em linhas programáticas concretas e comuns à esquerda. Para fazer pequenas conquistas que para os beneficiários são grandes conquistas. Para dar uns empurrões para a frente. Uma esquerda de denominadores comuns. Uma esquerda orgânica, sem, perda da intervenção e identidade própria, de cada organização, partido, ou associação cívica. Uma frente de esquerda. À semelhança e imagem do Bloco. Para criar, num futuro, um partido da esquerda portuguesa. Um novo partido socialista.

É difícil, claro que é. Mas insisto, não chega ter mais deputados, mais simpatizantes, mais influência política e social. Isso é bom, muito bom. Mas em nome dos que sofrem todos os dias os que são vitimas do desemprego, do emprego precário. Dos que têm fome, não têm casa, não têm saúde. É preciso mais. É preciso arriscar mais. Ser mais combativos e conquistar todas as forças que nisso estejam verdadeiramente interessadas.

Há que apostar nestes caminhos. E não olhar para os nossos umbigos apenas. Por muito bem intencionados que sejamos. O tempo corre.

Agosto 5, 2006

26- Partido da Esquerda Portuguesa

Este post não é um texto elaborado. Muito pensado. Está a sair. São interrogações. Dúvidas. Inquietações. Decorre de polémicas que aqui e no Troll se têm travado, a propósito de alguns temas que foram trazidos à discussão.

Os protagonistas são, ou foram quase todos, simpatizantes ou militantes do PC ou do Bloco ou de sem partido de esquerda.

Podiam ter sido bons debates. Não o foram. Não têm sido. Descambaram.

Os sectarismos ainda estão latentes, meus amigos.

Os ódiozinhos de estimação estão aí bem presentes. Nuns mais, mas estão em todos.

Não vem mal ao mundo por isso. Significa que ainda há muito caminho a percorrer. Que velhos “traumas” ainda não estão ultrapassados.

E é por isso que me surgem estas interpelações:

Será que é possível à esquerda, às várias esquerdas, esquerdas-esquerdas, encontrarem plataformas mínimas de entendimentos, cada vez mais alargadas?

Serão possíveis, entendimentos que conduzam a um partido único, a um Partido da Esquerda Portuguesa, como é o meu desejo?

Que esquerda nova queremos, afinal?

Estamos dispostos a sacrificar os nossos “grupos”?

É possível construir um movimento ainda mais largo e mais aberto?

É possível chamar os renovadores comunistas, os independentes, os votantes de esquerda, doutros partidos a esta nova organização?

Em que domínios e quais os pontos comuns, susceptíveis de unir a esquerda, na prática e concertadamente?

Serão movimentos tipo “Movimento Intervenção Cívica”, Fórum Social, ATTAC, espaços privilegiados e adequados, de discussão, de procura dos caminhos, de reflexão sobre as escolhas fundamentais e prioritárias, da congregação dos esforços para dar forma a actuações mais eficazes?

Esta esquerda quer ser poder? Ou deve apenas preparar-se para ser unicamente oposição, resistir e denunciar?

O que será melhor para as esquerdas? Fazerem os seus caminhos, separados, mas com entendimentos pontuais? Ou encontrar formas de intervenção, de discussão e de organização concertadas?

A esquerda é muito plural. A esquerda não está verdadeiramente definida. O que é ser de esquerda, hoje?

Mas com seriedade, lealdade, bem intencionadas, as pessoas que desejam o progresso e a melhoria das condições sociais, são capazes se quiserem, de conversar, de criar agendas comuns, na base de acordos, de consensos e avançar para criar uma esquerda maior e melhor do que os somatórios destas esquerdas. Acredito nisso.

O melhor das esquerdas do PS, do PC, do Bloco, dos independentes sem partido.

Não foi, por acaso, a criação do Bloco de Esquerda, com divergências tão acentuadas entre eles, um bom exemplo de como é possível, levantar uma unidade orgânica e funcional? Não está agora, paulatinamente, o Bloco a consolidar-se ideologicamente?

Tenho pressa, amigas e amigos!

O povo pobre tem pressa. O povo desempregado tem muita pressa. Os que não têm casa e onde comer, ainda têm mais pressa.

O país precisa de mudar e muito. Precisa de outros rumos. Precisa de novas energias, novas competências, novas lideranças.

Não quero já amanhã o socialismo, depois da amanhã, o comunismo e já neste fim-de-semana o anarquismo.

Mas quero já hoje que nos deixemos de tretas, de discussões estéreis.

Vamos começar a construir o futuro. Força nas canetas!

Nós só queremos que sejam todos felizes! Alguém achará que é pedir muito?

Sou por um grande Partido da Esquerda Portuguesa.

É preciso começar a pensar nisso a sério.

Para esse objectivo contem comigo!

Julho 25, 2006

25- à esquerda, pela esquerda!

Sou um idealista e um utópico, reconheço, algo ingénuo, também. Muito crédulo nas pessoas. Confio em demasia. Os meus amigos sabem bem que é assim. Estou onde estou por acreditar. Não por desejos escondidos. Quando estou, estou no sítio “certo”, porque estou de boa-fé e as pessoas merecem a minha confiança.

Agora estou no Bloco de Esquerda. Sou membro da Assembleia Municipal. Não tenho outros cargos políticos. Não quis pertencer à coordenadora e ao secretariado. Pedi um tempo aos meus companheiros. Não quis assumir postos de direccção. As eleições acabaram por não se realizar ainda, por decisão dos companheiros. Em Setembro terei de tomar opções, pessoais e políticas. Poderá passar, por um envolvimento maior, na estrutura interna e um “apagamento” mais público. Ou, simplesmente, remeter-me à condição de simples aderente que vai colaborando, caso a caso.

Há muitos anos que venho defendendo uma “esquerda unida”. Uma esquerda, sem tabus, descomprometida, séria, organizada em plataformas de denominadores comuns. Se a direita é capaz, a esquerda tem de ser capaz, também.

Defendo essa esquerda à escala europeia. Não temos de estar de acordo em tudo ou até em parte substancial. Apenas nos valores que são transversais a toda a esquerda. Esses têm de prevalecer. Uma esquerda social, humanista, solidária.

Uma esquerda exigente com os problemas do emprego, das desigualdades, das injustiças, da dignidade humana. Uma esquerda que recusa a guerra, a globalização neoliberal. Uma esquerda do mundo pobre.

Uma esquerda responsável, moderna, sem preconceitos.

Não recuso a globalização, as novas tecnologias, o avanço científico. Não me assusta.

Podemos ganhar em conhecimento, em qualidade de vida, em melhores condições para todos. Assim, saibamos travar os ímpetos de algum capitalismo selvagem. Dos senhores da guerra e das grandes potências.

Temos de confiar nas nossas capacidades. Num povo mais culto. Haverá sempre resistência a quaisquer tentativas de dominação, humilhação e esmagamento dos anseios de um povo que apenas quer ser feliz e ter as condições exigíveis para uma vida digna.

Estes meus sonhos sofrem muitos reveses. Quando leio ou ouço, alguns perfeitos disparates ou vejo certas práticas políticas. Que não se alteram. Que se mantêm fiéis a princípios sectários e dogmáticos que deveriam estar completamente arredados. Por este blogue nos últimos dias, cerca de uma centena de comentários, surgiram em réplica a dois artigos, um sobre o Aborto e a posição do PC e um outro sobre a reunião dos partidos que formam, ou estão presentes, como observadores, o Partido da Esquerda Europeia.

O primeiro era muito crítico para com o PC, por causa da guerra aberta com o Bloco sobre o seu posicionamento sobre o aborto. Achei que era falacioso e muito negativo e prejudicial à causa. É estar a inventar adversários. Foram muito más as posições públicas do PC e de alguns dos seus mais altos dirigentes.

Por aqui, alguns militantes, em particular, uma “denominada” Margarida, reage à bruta e com má criação, o que já é um costume, por todos os sítios onde tem passado e o seu partido é criticado, legitimamente, como são outros.

É nestas alturas que o meu idealismo tem um quebranto.

Tantos anos volvidos e os sectarismos perduram. Confesso que conheço bem as práticas do PC, em especial nos sindicatos. Como conheço as posições políticas. Sou um profundo discordante. Nas questões políticas, o PC parou no tempo. Hoje é um partido conservador e nacionalista.

Na maioria dos sindicatos, uniões sindicais, federações e confederações ou comissões, sindicais, de trabalhadores, por aí, as práticas de trabalho, a democracia sindical, os insultos, as calúnias, aos opositores, são uma constante e absolutamente não recomendáveis. Falta-lhes visão estratégica.

O PC tem um passado antifascista que honra todos os verdadeiros democratas. O PC não se cansa de repetir e a história, também não mente. Pelo PC passaram grandes figuras da resistência. Uns ainda lá estão, outros, muitos outros, saíram ou estão em processos de saída. Mas a luta de resistência ao fascismo não é património do PC (hoje nem sequer o seu secretário-geral é uma referência claro do antifascismo).

Muitos outros, resistentes antifascistas, saídos do PC, muito antes do 25 de Abril, também se organizaram em partidos e se opuseram ao fascismo. Outros fizeram-no fora dos partidos. Também foram presos e torturados.

A luta antifascista é património de um povo. Pela luta antifascista e pelas liberdades, foram torturados e morreu muita gente.

Alguém presumir-se como proprietário dessa luta ou erguer essa bandeira para atacar outros é injusto e não é verdadeiro. O património do PC e das suas lutas, para o bem e para o mal, é de todos os comunistas ou democratas que por lá passaram.

O PC, não é o meu partido, nunca o foi, mas podia ter sido, andei lá perto. Acabei por ir para a uma organização (M-L) de nome OCMLP que viria juntamente com outras organizações (M-L) a dar origem à UDP.

Estive lá ainda uns anos largos. Um dia, nos anos oitenta saí. Percebi que aquele caminho era estreito, muito fechado, com os mesmos defeitos, sectários e dogmáticos do PC. Perfilhando ideias e práticas parecidas.

Era um PC pequeno a disputar o terreno ao PC mãe, com as mesmas armas, o mesmo tipo de organização, com a mesma visão de Estado. Apenas mais pequeno e com uma linguagem mais radical. Deixou de ser o meu partido, um dia, depois de discussões impossíveis.

Abandonei-o depois numa conferência regional, em Viana, onde o então deputado, Acácio Barreiros, pretendia que eu retirasse uma moção, critica da actuação do partido.

Nunca deixei, contudo, de acompanhar o percurso e as discussões que se iam fazendo nessa área politica. A discussão interna na UDP, muitos anos depois, teve resultados, com a ascensão de Luís Fazenda a secretário-geral. Com Luís Fazenda, Pedro Soares e outros que desconheço a UDP, percebeu que a estratégia estava errada. Como errados eram certos conceitos de organização e da ideologia. Estes companheiros mudaram o rumo interno. Como outros que já tinham deixada a militância partidária. Como aconteceu com outras organizações políticas que viriam a formar o Bloco de Esquerda.

O Bloco foi e é ainda, o fenómeno político mais relevante dos últimos anos. Os partidos, assumidamente, puseram-se em causa. E encetaram um novo processo de reconstrução da esquerda. Sem dogmas, sem constrangimentos, sem complexos, sem preconceitos, aberto, em que tudo pudesse ser questionado e discutido. Sem uma ideologia definida. Apenas a vontade de construir uma plataformas das esquerdas. E repensar que esquerda se queria. É uma discussão ainda e sempre em aberto.

Com lealdade, sem estigmas do passado, discutir os caminhos que se colocavam a uma esquerda nova, para recuperar a esquerda social, a esquerda política, a confiança e a credibilidade dos cidadãos nos políticos e na política.

Foi isso que me trouxe ao Bloco. Com reservas iniciais, com dúvidas ainda agora, mas com a faculdade de discutir tudo e não estar agarrado a uma posição oficial.

O Bloco fez crescer a esquerda. O PC nestes oito, nove anos do Bloco, aguentou-se e nos últimos até recuperou algum eleitorado. A esquerda dos 8 por cento do PC passou a ter mais 6 por cento do Bloco. Os dez ou doze deputados do PC passaram a estar acompanhados de mais oito do Bloco.

O PC não perdeu. O Bloco ganhou. Os deputados que o Bloco recuperou foram os que o PC tinha vindo a perder desde as primeiras eleições. Não consigo perceber os medos do PC. Os ódios ao Bloco. O PC continua agarrado ao passado. Ao centralismo-democrático que tanto mal causou aos povos. Ao conservadorismo. A um nacionalismo bacoco. O PC deixou à muito de ser uma esperança de renovação. O PC mais do que um partido corre o risco de vir a ser um sindicato.

Espero que o Bloco continue por o caminho que encetou, sem se desviar um milímetro. Não é fácil.

Gostava que o PC estivesse junto neste projecto, ambicioso, de construção de um Partido da Esquerda Europeia.

Gostava de ter um partido de Esquerda no poder, enfim.

Julho 20, 2006

24- O aborto e o oportunismo do PCP

O PCP numa campanha vergonhosa, não olha a meios para atacar o Bloco de Esquerda. Quando os adversários, nesta luta, contra a despenalização do aborto, estão identificados, o PCP inventa mais alguns. Um PCP, estranhamente, inquieto, ou talvez não estranhamente, mente. Não é a primeira vez que o faz. O PCP tenta colar o BE ao atraso na resolução deste problema. Só por má fé, desonestidade política, oportunismo. Não ganha nada com isto. Não ganha votos, não ganha simpatias.

Não se trata aqui de fazer a defesa do Bloco por defender.

Trata-se de denunciar a mentira, a sem-vergonha, o oportunismo. Todos sabem do empenhamento do Bloco na alteração da actual lei. Desde o primeiro dia.

Não me esqueço de ver os militantes na rua, em sessões de divulgação e de esclarecimento, da colocação de bancas públicas, de painéis, no empenho pela petição popular por um novo referendo, na apresentação de diplomas na AR, nas votações a favor de outros no mesmo sentido.

O que é preciso mais? Que o Bloco tenha a posição do PCP?!

Mas isso não é possível. Tratam-se de duas concepções de democracia. É uma grande diferença. Houve referendo, o Bloco foi contra, mas a partir do momento que houve, empenhou-se, fez campanha e perdeu. Eu, também não gostaria, se tivesse ganho, nas mesmas circunstâncias de ver alterado pela Assembleia, uma decisão popular, mesmo que através de uma maioria pouco participada e por pequena margem.

O PCP opõem-se à realização de um novo referendo, votou contra, juntamente com os partidos da direita. Acha que o parlamento tem uma maioria suficiente favorável à alteração da lei. Claro que tem. Mas o PS não vota a favor, sem submissão a um novo referendo. O Bloco de Esquerda, também defende um novo referendo. Defendeu-o logo a partir do momento em que o primeiro se realizou. Concedendo um tempo. Considerou e bem que não devem ser maiorias circunstanciais na Assembleia a desrespeitar uma vontade expressa nas urnas. Amanhã a maioria é outra e essa maioria, faz o mesmo e volta tudo ao início. Não pode ser.

Já passaram uns anos largos sobre o primeiro referendo. Está na altura de devolver a palavra aos portugueses. Muita coisa mudou, entretanto. Acredito que um novo referendo vai alterar a lei. O PS não pode adiar mais. O referendo já podia e devia ter sido realizado. Se mais obstáculos forem criados, aí sim. a assembleia deve intervir. De mal o menos. O PS anuncia querer o referendo no início de 2007, depois de não ter feito muito para se realizar, ainda este ano. Entretanto, segundo sei, o Bloco já esgotou o prazo que a si próprio teria dado e afirma votar a favor de uma decisão na AR se alguém o propor. Contudo, é sabido que está condenado à nascença. O PS não votará a favor. Tal como PCP votou contra este segundo referendo. Se dependesse só destes dois partidos, a ter em conta as suas votações, nem tínhamos votação na AR, nem tínhamos referendo.

Convém fazer estas distinções e estes esclarecimentos. E o PCP que escolha os alvos certos e não queira fazer aproveitamento político de uma situação dramática das mulheres e famílias.

Julho 6, 2006

23- O protocolo de Estado e a Igreja católica

Não sou religioso. Mas estou inscrito nos cadernos da igreja católica. Sou portanto um dos milhões de católicos de todo o mundo. Apesar disso não tenho direito a voto ou de opinião. Não estou em nenhuma estrutura da organização, desconheço os seus estatutos, nunca fui convidado para participar em qualquer reunião ou nas escolhas das ideias ou dos órgãos directivos. Não gosto por isso da Igreja. Não gosto de nada que não tenha nas suas causas a democracia e a participação. Dizem-me que posso aparecer aos comícios dos domingos. Mas também não gosto de comícios.

Os meus filhos não estão baptizados. Já podiam estar se quisessem. Já têm idade para pensar e decidir o que é melhor para eles. Não interfiro, apenas dou opiniões se as pedirem, algumas vezes também dou, mesmo não as pedindo, mas poucas vezes mesmo. Os meus filhos são uns “safados”. Não me ligam muito. Só um bocadinho, um poucochinho mesmo. Lembram-se no dia de anos, no dia do pai, quando precisam de dinheiro (mentira). Apesar disso sei que algumas coisas importantes estão lá. Apesar de poder não parecer. Amigos, solidários, bons rapazes, enfim.

Ainda são uns jovens. Um tem 26 anos o outro 23 anos. Não estão baptizados, mas ainda vão a tempo, se quiserem e em que religião quiserem. Por mim tudo bem. Não lhes impus nada, muito menos agora. O Raio dos rapazes. nem sequer estão recenseados… que vergonha!…

Tive uma educação católica, pouca mas tive. A minha mão é católica, mas deixou de ir à missa à muitos anos. Apenas reza por nós. O meu pai, um dia, passou a ser Testemunha de Jeová, mas o meu pai, tinha “pancada”. Aos meus filhos, disse-lhe que iam ser… nada, até eles terem idade para decidir. Parece que se dão bem assim. O mais novo ainda teve uns pequenos problemas nas escola com uma professora de português que punha os rapazes a rezar, o Pai Nosso, antes de dar inicio às aulas. Ele bem dizia, – “mas Pai, eu não conheço a letra, só conheço a música? Deixa lá filho, mexe com os lábios. Quem não foi nessas tretas foi a mãe de uma rapariga que era muçulmana. Foi lá e acabou com a brincadeira.

Bem, mas tudo isto para dizer que não posso aceitar que os Bispos venham agora a apelar ao Presidente Cavaco que vete a lei que reordena o protocolo do Estado. A igreja católica não quer perder a cadeira à esquerda destacada do senhor Cardeal. E não quer perder um lugar de destaque na hierarquia do protocolo.

Deixem-se de merdas. A Igreja católica já tem demasiados privilégios. Não pagam impostos. Tem prerrogativas especiais com base na concordata. Tem as televisões a dar missa aos domingos, tem aulas de religião (católica) e moral, tem a reverência patética dos órgãos executivos do governo, dos partidos da direita, de muitos políticos e um inexplicável silêncio do PCP que nestas coisas não gosta de dizer o que pensa.

A igreja católica não tem que ter direitos especiais. Não tem que ter vantagens sobre outras religiões. Não tem que ter mais vantagens que o grupo associativo e cultural da aldeia, do grupo de teatro da terra, dos grupos desportivos amadores que formam os jovens. A Igreja, a religião, qualquer que seja, deve ser tratada por igual, ou seja, sem nenhuma vantagem adicional, separado do Estado.

As Igrejas ou religiões deviam estar fora destas cerimónias protocolares.

Maio 21, 2006

22- Não há dinheiro para tudo e as escolhas politicas

Não há dinheiro para tudo. Já estou cansado de ouvir estas palavras, mas é verdade. Não há dinheiro para tudo. Todos sabemos isso. Não há por onde esconder. Fecham-se escolas, cantinas, hospitais, maternidades, aumentam-se impostos, taxas moderadoras, propinas, combustíveis, transportes, rendas de casa. Retiram-se direitos adquiridos, comparticipações em actos médicos, medicamentos, congelam-se vencimentos, aumenta-se o tempo de trabalho, diminuem-se os valores das reformas, dos subsídios de desemprego, eu sei lá… e tudo continua na mesma!

Portugal sempre teve um problema de liderança e de falta de rumo. As nossas lideranças, as elites deste país ou são incompetentes ou são interesseiras. Ou são ambas. Inclino-me para esta última.

Por causa disso, atrasamos-nos. Por causa disso, temos problemas de contas públicas, temos um país adiado, sempre à espera de melhores dias. Temos um país em que uns enriquecem muito depressa, tão depressa como outros empobrecem. Um país de mais ricos e um país de mais pobres. Estamos sempre a bater na mesma tecla. Mas não pode ser de outro modo.

Quando não há dinheiro para tudo há que fazer escolhas políticas. Há que pedir maiores esforços a quem pode dar mais. A classe média-baixa, aos mais pobres, já não se lhes pode pedir mais. Há que pedir a quem ainda pode, exigir a quem quer fugir, ou retirar a quem não quer contribuir.

O problema do emprego e o da segurança social são dos mais graves problemas que Portugal atravessa: mais de quinhentas mil pessoas sem trabalho e o risco de uma segurança social, insegura, incerta. Sem emprego não há economia. Sem economia não há país. Sem segurança social, não há futuro, nem há presente. A todos são pedidos esforços a sério.

Francisco Louçã, em conferência de imprensa deu a conhecer as propostas do Bloco de Esquerda, há dois dias. Ontem li-as no Público, na página 40, bem lá para o fim, com um título bombástico, “ BE quer que salários acima dos 1500 euros paguem mais para a Segurança Social.”

Concordo com esta medida. O problema da Segurança Social é sério. Eu já o tenho alertado aqui por muitas vezes, embora não concordando com as soluções do Governo. É preciso garantir as reformas de hoje, a solidariedade com os excluídos de hoje, o apoio aos pobres de sempre, sempre e acautelar as reformas no futuro.

Mas esta não é uma proposta isolada. Esta é o esforço que é pedido aos sectores da classe média e média alta. É um imposto ainda possível. Francisco Louçã, chamou-lhe contribuição de solidariedade. É uma contribuição progressiva de 1 a 5 por cento, para salários acima dos 1500 euros. A taxa social única mantém-se nos 11 por cento, excepto para quem ganha por mês, acima dos 5000 euros que passará para 16 por cento.

As Empresa deixariam de pagar pelo número de trabalhadores que têm ao serviço (actualmente um perfeito disparate) mas pelo, VAB (Valor Acrescentado Bruto) ou seja em função dos seus lucros, numa taxa variável até três por cento desse valor. Em simultâneo, a contribuição das empresas para a Segurança Social, tinha uma redução de 3,5 por cento para 19,5 por cento.

Com estas medidas o sistema de Segurança Social está seguro até 2025, o “espaço de uma geração”. Segundo o Bloco fazer cenários até 2050 são pouco credíveis, assim como não faz sentido que num sistema que tem dificuldades haja uma taxa plana e por isso propõem o princípio da progressividade nas contribuições, a partir dos 1 500 euros.

As propostas do Governo de aumento da idade da reforma, da antecipação da alteração da fórmula de calculo e a criação do imposto de sustentabilidade, “são conservadoras, ineficientes e desadequadas”, representa uma punição demasiada elevada para os futuros reformados que se “irá traduzir em reformas equivalentes a 60 por cento do último salário” e isso é inaceitável.

Se a par destas medidas se avançar no combate à economia paralela e à legalização dos imigrantes para que passem a ser uns contribuintes líquidos, os cenários tendem ainda a melhorar.

Claro que estas medidas sensatas e moralizadoras do sistema vão ser reprovadas, se for a votação e desta vez, tenho cá uma fezada, até o PCP, vai votar contra. Não me admiraria, num partido, com resquícios, conservadores e corporativistas, de esquerda.

Proposta completa aqui em PDF.

Maio 17, 2006

21- A actividade sindical, hoje

A actividade sindical quase não existe, em Portugal. Uns poucos, muito poucos, trabalhadores, de vez em quando, participam em algumas reuniões, nas cada vez menos reuniões, que os sindicatos promovem. Ainda assim, os que participam, na sua maioria, só lá vão, quando se sentem ameaçados nos seus direitos mais fundamentais. Eu percebo-os. Assoma sobre eles o medo. O medo das represálias, o medo da pressão, o medo de conotação, o medo de não renovarem o contrato, o medo de perder o emprego. Predomina, igualmente, a ideia de que estas reuniões não adiantam nada, os discursos são palavreado repetido e de circunstância, reiteradamente ouvidos, sem consequências práticas, cantando vitórias inexistentes ou esboçando perigos iminentes, para por fim, fazerem uma declaração de guerra e serem convocados para jogos políticos de encomenda. É assim, tem sido assim. Os sindicatos não vão aos locais de trabalho, não conversam com os trabalhadores, não os percebem, não os ouvem, não entendem os seus problemas e receios. Aparecem para distribuir uns comunicados, muito radicais na linguagem, mas nada eficazes, na explicação dos problemas, na dinamização activa. É preciso o esclarecimento personalizado, pequenas reuniões, conversa a sós ou em grupo, no local de trabalho, nas pausas, nos gabinetes, nas oficinas, nos grandes espaços físicos, é preciso ir para a rua, fazer comunicados à população, colocar tarjas, recorrer à imprensa, sensibilizar as pessoas para as suas causas. É preciso acabar com as greves, nas vésperas de feriados, nas pontes, no dia dos exames. Hoje ao contrário doutros tempos é preciso estar atento às pessoas, conquistá-las, e não prejudicando-as deliberada e quase ostensivamente, porque até dá um certo jeito pessoal. Não! Isso é ganhar inimigos, é dar argumentos aos populistas. É dar-lhes a oportunidade de denegrir uma luta. A decisão da luta tem de ser discutida, consensualizada, abrangente. Fazer greve, encontrar novas formas de protesto, mobilizar os jovens e as populações, fazendo convergir descontentamentos, são caminhos a serem encetados. A maioria dos sindicalistas ou estão nos gabinetes sindicais ou nas sedes “ a tempo inteiro”, em viagens ao estrangeiro ou de vez em quando a organizarem uma acção de acordo com a agenda política do partido ou da central sindical a que estão afectos. Por isso certas acções de luta ou algumas comemorações como o primeiro de Maio, não passam de rituais. A maioria dos sindicalistas, dirigentes sindicais, dirigentes das estruturas intermédias, as uniões sindicais, ou dirigentes nacionais, estão desacreditados, institucionalizados, rendidos, acomodados, alguns estarão mesmos “vendidos”. Hoje na sua maioria são uns burocratas para ocasiões festivas, para cumprir papéis partidários. Uma vez ou outra fazem uma ou outra acção conjuntural para mostrarem que existem. E lá estão sempre os mesmos: Os dirigentes de sempre, os delegados sindicais de sempre, os funcionários do partido de sempre, e os trabalhadores, carne para canhão de sempre. E os ingénuos de sempre. É esta a mobilização que conseguem. Os mesmos de sempre. E há outros que não querem ficar de fora e conscientemente alinham em algumas destas iniciativas, para não desbaratarem um capital de unidade e luta. Alguma coisa tem de ser feita. Assim é uma tristeza. Um dia destes, nem os trabalhadores de sempre, nem os que alinham para não criar divisões. Ficam só os burocratas sindicais ou os burocratas do partido. A verdade é que nós, também, pouco fazemos para mudar. Sabemos que não é fácil, a máquina está “fechada” para nela ninguém entrar. Mas vai faltando participação, exigência, esforço para mudar, falta determinação para o combate. Um amigo meu, dirigente sindical diz-me que está farto. Quer sair, quer voltar ao local de trabalho, mas também não vê ninguém, ninguém se aproxima. Mas se não for da cor politica também não tem hipóteses. Ele diz que os dirigentes sindicais, de um Sindicato, todos juntos e espremidos, não dão mais que alguns bons sindicalistas. Mas, apesar de tudo, quem quer ser sindicalista hoje? Quem é activista sindical? Quem quer ser dirigente sindical? E quem está interessado, como conseguir “derrubar” o muro que está vedado a outras vozes e pensamentos? O cerco da máquina partidária ou sindical abafa tudo. É uma tristeza e lamentável. A grande verdade é que hoje a carreira profissional está primeiro. O egoísmo está primeiro, O individualismo está primeiro. Tudo poderia ser diferente se o processo de renovação se desse pacifica e livremente, sem interferência politica e partidárias, sem querer controlar a máquina, escolhendo os mais preparados, os mais disponíveis em cada momento e por períodos curtos. Os trabalhadores só tinham a ganhar! 2006 Maio 10

20- A favor da Globalização

Sou a favor da Globalização. Sem qualquer dúvidas. Não sou um teorizador. Nem vou teorizar, sobre as vantagens ou desvantagens da Globalização. Falo da minha sensibilidade. Também, não sou um grande conhecedor da nossa história e da história mundial. Conheço muitos dos nossos feitos e dos nossos defeitos. O nosso papel no mundo, na civilização, em tempos idos. Reconheço, também, o papel positivo e também negativo de outras, mais antigas ou mais recentes que a nossa.

Mas disso, não vou falar, não me sinto capaz de ter uma discussão aprofundada e fundamentada.

Começo por dizer que não sou nada nacionalista ou patriota. O mundo para mim, não se divide, em países, nações, civilizações, religiões, raças, etnias e por aí afora. Sou profundamente um homem do mundo.

Se tivesse de dizer que tenho uma “nacionalidade”, diria Viana do Castelo. Apenas por isto: é aqui que tenho as raízes, família, amigos, conhecidos, onde vivo e espero viver toda a vida. Onde cresci, brinquei, estudei, andei à porrada, fugi à polícia. É aqui onde estão os amigos de infância, os que andaram comigo na primária, os que tinham, como eu as caças rotas no cu e nos joelhos, a cara e as mãos sempre sujas da brincadeira ou do trabalho, a ranheta no nariz, os brinquedos de plástico, a bola de meias. Aqui, onde assaltávamos os quintais para roubar fruta ou para partir os ovos nos galinheiros, fazer traquinices para chatear os mais velhos, os professores, a policia, desesperar a família. Aqui onde pedia dinheiro aos espanhóis, lhes levava as compras à estação, para receber umas pesetas. Aqui onde ia pedir pão aos restaurantes, comer a sopa dos pobres, onde fui parar, por uns tempos, a uma casa de “caridadezinha”, para jantar e dormir. Eu como quase todos os meus amigos de infância. Aqui onde comecei a trabalhar cedo, percorri vários empregos, aprendi uma profissão, cresci como homem, ganhei consciência social e politica, formei a minha personalidade. Aqui onde cresci e vivi, no meio da ferrugem, do papel e dos trapos velhos e em chão de terra. Aqui onde sempre trabalhei, estudei, intervi politica e sindicalmente, onde fui condenado por motivos políticos. Aqui onde hoje, tenho a vida, agora, mais ou menos estabilizada (ainda tenho dois filhos, maiores, mas filhos… e solteiros) … até ver.

É esta a minha pátria, se assim quiserem ou se tiver que dizer que tenho de ter uma pátria.

Não me incomoda, nada a Globalização, absolutamente nada. A Globalização abriu-nos portas ao conhecimento, à novidade, ao romper de fronteiras, à destruição de mitos e de certezas. Hoje sabemos mais, conhecemos mais, temos acesso a mais informação, vivemos melhor, temos mais liberdade, apesar de tudo. Hoje sei mais, estou mais informado ou posso estar mais informado, dos meus direitos, dos meus deveres, das minhas responsabilidades cívicas e socias. Hoje conheço melhor o mundo, as diferenças culturais e sociais, o que se passa no planeta, estou mais habilitado a conhecer e compreender os outros, a perceber onde está a injustiça, a razão das guerras, quem são os culpados e os inocentes. Compreendo melhor as motivações pessoais, do ser humano, dos políticos, das políticas, das religiões e das nações. Dos motivos das guerras, das razões da divisão dos povos. Dos efeitos das religiões. Hoje conheço melhor o papel do capitalismo, do império e dos trabalhadores.

Hoje não tenho dúvidas: os povos são todos iguais e que o que divide o mundo é o dinheiro e o poder, em qualquer ponto do mundo. Por isso a luta é universal. A luta é onde houver injustiça, discriminação, indignidade. Para acabar com a fome, a doença, a miséria extrema, as desigualdades sociais, a guerra.

“Etnias e raças, a cada dia que passa, perdem, mais e mais, suas peculiaridades, sem nunca ter existido, na espécie humana, uma raça pura. Raça é um conceito biológico e etnia um conceito cultural. Embora ocasionalmente várias etnias possam pertencer a uma mesma raça, como é o caso das populações indígenas brasileiras, que têm, hoje, cerca de 220 povos, todos originários de migrações asiáticas que penetraram no continente americano. A humanidade caminha para a cultura global e a homogeneização antropofísica, que poderá, dependendo do desenvolvimento histórico, levar a espécie humana a se constituir em uma só grande raça.”

Os homens preocupados com as injustiças, não têm pátria; os humanistas, as pessoas de bem, as verdadeiras pessoas de esquerda não têm nacionalidade. O pobre é sempre o pobre em qualquer parte do mundo. O explorado é sempre um explorado em qualquer parte do planeta. Os homens de bem, não defendem o pobre português contra o pobre ucraniano, o branco contra o preto. O trabalhador explorado português, contra o explorado chinês. O Mourinho contra o Camacho, o Belmiro contra o Bill Gates.

O homem do mundo, preocupado com a solidariedade social, com as injustiças, com a fome, não escolhe uns contra outros na mesma situação.

A nossa escolha é estar do lado dos que mais sofrem, dos que têm menos. Eu escolho estar do lado dos oprimidos e humilhados, seja português, russo, chinês, cubano, americano, independentemente da raça, da etnia, da religião.

Eu sou a favor de uma Globalização que caminhe neste sentido! Uma miscelinazação de hábitos, culturas, pessoas.

Maio 1, 2006

19- A minha resposta é sim

É possível ser deputado municipal e não ser um político? É possível ser militante de um partido e não ter partido? É possível ser um activista sindical e não ser sindicalista? É possível ser de esquerda e gostar do conforto e bem-estar? É possível ser considerado um radical por uns e um moderado por outros? É possível ser considerado um conflituoso por uns e um conciliador por outros? É possível ser um machista e considerar as mulheres mais fortes que os homens? É possível estar na política sem procurar interesses pessoais? É possível desejar uma sociedade de tipo comunitário, sem ser anarquista ou comunista, tal como são olhadas? É possível ter uma actividade pública, vestir simples e usar um brinquinho? É possível ser extremamente liberal nos usos e costumes, defender o casamento e a adopção de crianças por casais homossexuais, o divórcio unipessoal, a convivência pacífica e multicultural dos povos, raças, etnias, religiões, sem achar isso estranho? É possível defender o aborto e a eutanásia livre por desejo dos próprios, a qualquer momente, sem que se considere um criminoso? É possível ser fiel à companheira e admitir a (minha) sexualidade fora do casamento? É possível que eu não regule muito bem?

Abril 11, 2006

18- Os críticos de merda

Alguns blogues, algumas pessoas, alguns comentadores irritam-me solenemente. Leio-os ou ouço-os e fico mal disposto. Fico angustiado e desiludido. Nem sei porque volto lá. Às vezes, chego a pensar que gosto de sofrer e não é verdade.

Um dia destes, fecho-me no meu cantinho. Só leio o que gosto, só ouço quem me interessa, não entro em polémica, não emito opinião. Estou farto desta “gentinha”. Eu gosto do contraditório, do debate, da polémica, da discussão, de ouvir e ler opiniões contrárias às minhas. Sou um crédulo, acredito, nas pessoas. Em regra, vejo as posições diferentes das minhas, apenas e só como outra forma de ver as coisas. Não costumo fazer juízos precipitados, ou radicais sobre quem pensa, divergentemente de mim. Digamos que tenho uma grande abertura às diferentes opiniões. Muitos me dizem, “não vale a pena, deixa, estás a chatear-te para quê.” Tenho que lhes dar razão! Eu é que sou um lunático. Um ingénuo. Tenho a mania de que é tudo gente boa e que estão apenas enganados. Nunca mais aprendo. Há pessoas mesmo más, mesquinhas, nojentas. Pessoas que não merecem o mínimo respeito e consideração. São oportunistas, chico-espertos, traidores, pessoas “pequenas”. São uns bardamerdas, enfim.

Hoje não estou muito bem. Li coisas incompreensíveis. Porque fazem ataques descabelados, excessivos, estultos, a posições que concordo. Tipo cão raivoso. Nada disto era grave se não fosse dito de um modo muito agressivo, colérico, desrespeitoso, misturando tudo e dizendo muito mal. Atacam pessoas e partidos. Esquecem-se de que, nos casos a que me refiro, estão a falar de pessoas sérias, de pessoas empenhadas, de pessoas combativas, mas que são políticos. Não compreendo, não aceito, esta tendência para a crítica bruta de quem não sabe fazer outra coisa na vida, de que dizer mal, dos “outros”. Há tempos escrevi uma crónica sobre isto e não me vou repetir.

E ainda ontem estava tão bem, merda, depois de um encontro, de trabalhadores da PT, simpatizantes do Bloco, com Francisco Louçã que quis conhecer, humildemente, a nossa opinião sobre a Opa e partilhar connosco a sua posição e um estudo que fez sobre a matéria. Alguns de nós andamos cerca de mil quilómetros para estarmos presentes. Pagamos a viagem, a refeição, uns gastaram um dia de férias. Não é uma queixa, ninguém nos obriga a nada. Mas algum respeito por quem, se interessa, por quem luta contra a injustiça, pela defesa dos seus e dos outros, direitos, por quem quer mudar alguma coisa no país por uma sociedade mais justa e distributiva, não ficaria mal.

Não há pachorra. Começo a ficar farto desta gentinha. Não há sítio neste Portugal dos pequeninos onde o desporto favorito não seja dizer mal.

“Os “outros” é que são responsáveis, eles não. Eles estão de fora. A criticar tudo e todos. Têm sempre opinião sobre tudo e a opinião deles é sempre a melhor. Quem os ouve ou lê, se os levassem a sério, seriam os melhores. Os melhores políticos, os melhores atletas, os melhores treinadores, as melhores pessoas”, como referi no outro post sobre o mesmo assunto.

Estar de fora sempre a criticar e a dizer mal é fácil e é cómodo. Aborrece-me este tipo de pessoas que não participa, que não se envolve em nada, que vai ver passar, para dizer mal de “tudo”.

O bota-abaixismo é que está a dar. É o desporto nacional preferido. Ninguém escapa. Quando se mistura tudo e não se encontram diferenças, a não ser eles próprios e os que os rodeiam no momento, quando tudo é merda, o que fazer? Hoje quase toda a gente diz mal de tudo e de todos. Em particular os políticos não escapam aos mais baixos impropérios e mentirosos, ladrões, incompetentes ou corruptos, são palavras que estão nas bocas de quase todos.

Não são todos assim, porra! E não falo de mim que não sou político, no sentido tradicional do termo, embora esteja a exercer funções políticas como deputado municipal. Falo de quem se dedica, seriamente, a lutar por melhores condições de vida, melhores condições de trabalho, a luta pela dignidade e contra as injustiças sociais, de quem combate e procura soluções para o trabalho precário, por direitos de cidadania.

Dizer mal é cómodo e alivia as consciências. Não há como ter bodes expiatórios para lançar as culpas sobre tudo o que corre mal. As culpas são sempre dos outros. Afinal como podem ter culpa essas pessoas, se estão de fora? se não participam! Se não andam à chuva como podem molhar-se?

Em tudo isto há quem se ponha a jeito, nomeadamente alguns políticos que contribuem para esta má reputação e descrédito. Mas não confundam tudo, por favor. Essas misturas são convenientes para alguns. Como disse o Zé Mário Branco, no FMI, ” se a culpa é de todos a culpa não é de ninguém” e isso convém a alguns.

Esses maldizentes metem todos no mesmo saco e conseguem esconder o seu “norte”. São pessoas de direita “supostamente” dotados de superior inteligência. Alguns até se afirmam de esquerda. São uns tristes. Eles nunca estiveram ligados a qualquer coisa. Nomeadamente a movimentos cívicos. Eles andaram sempre atrás. E contudo só uma cultura de exigência cívica e com uma grande participação cidadã é possível mudar as coisas. Mas onde estão esses criticos de merda? Não participar no debate e nas decisões que nos dizem respeito, ficando sempre de fora é confortável mas é um refúgio oportunista.

Termino da mesma maneira que da outra vez. Sem partidos e sem políticos não há democracia. Sem participação temos uma democracia debilitada. Sem participação e atacando tudo e todos temos uma democracia em agonia.

De que estão à espera os críticos da nossa praça de se envolverem e fazerem melhor que todos?

Os políticos ou os decisores políticos que tantos acusamos, são eleitos pela maioria de nós. Não tomaram conta do poder à força. A maioria dos eleitores parece preferir essa gente. Prefere quem não dá garantias de honestidade. Não é por mim que estão lá. Mas não me demito de lutar.

Será que não há alternativas? Há que ter cuidado nas acusações.

O problema somos nós!

Abril 4, 2006

17- O divórcio e a proposta do Bloco

Em regra, duas pessoas juntam-se porque se amam. E o amor não tem grande explicação. Amam-se e pronto. Com o amor, surgem relações de cumplicidades, de compreensão, compartilham interesses e gostos e optam por uma vida juntos. Na maior parte dos casos, acabam por casarem, adequando, essa relação de amor e afecto, a determinados mecanismos da lei.

Há quem opte por outras formas de união, como as uniões de facto.

Quando as pessoas se casam, estão convencidas que será para toda a vida. Só faz sentido que seja assim. O casamento aconteceu porque houve uma vontade de duas pessoas. Que se amam, se gostam, se compreendem e que querem fazer perdurar, provavelmente ter filhos e construir uma relação familiar estável e amigável.

Mas nem sempre o desejo mais profundo dos dois se consegue concretizar. Por várias razões. O principal, porque o amor cessou. E acabado o amor, com o tempo vai acabando o resto. Não há nada a fazer. O amor acaba, porque um deles ou os dois já não cultivam a paixão, o prazer, os gostos, as cumplicidades. Terminou.

A minha experiência pessoal diz-me que não é uma decisão fácil, encarar esta nova realidade, em particular quando existem filhos. Não é fácil comunicar ao parceiro(a) esta nova situação. E o que acontece é que as relações vão-se degradando em vez de se aproximar. A decisão de ir para o divórcio, tomada por uma ou ambas as partes, é sempre muita ponderada. Ninguém decide de um dia para o outro. É uma decisão muito dolorosa e muito pensada.

Contudo a lei ainda permite, antes de ser decretado o divórcio, um tempo, para o casal repensar e esgotar todas as possibilidades de reunião. Parece-me bem, apesar de não conhecer nenhum caso em que a situação se revertesse.

O divórcio acontece assim, em primeiro lugar, porque cessou o amor nessa relação a dois. E se o casamento se deu por vontade de dois, não faz sentido, não havendo a vontade dos dois em manter o casamento, que se obrigue o outro a suportar uma união, não desejada.

Não havendo acordo no divórcio, “qualquer dos cônjuges pode requerer o divórcio se o outro violar culposamente os deveres conjugais”. Ora esta situação empurra quem deseja o divórcio a “trair” o seu par e a expor e devassar a sua vida privada. Ou a usar outros subterfúgios inaceitáveis e condenáveis.

Este artigo vem a propósito da apresentação de um diploma, por parte do Bloco de Esquerda, em que prevê o direito ao divórcio a pedido apenas de um dos cônjuges. A proposta do Bloco é correcta em minha opinião e de acordo com as mudanças que a sociedade tem reflectido. A propostas obriga a que o processo de regulação do poder paternal, esteja iniciado antes de ser concedido o divórcio, bem como o patrimonial.

Março 23, 2006

16- As maiorias esmagam. Intervenção na Assembleia Municipal

A democracia não existe se não houver participação.

Não há discurso político hoje, que não fale sobre a necessidade dos cidadãos se interessarem mais pela política e participarem mais activamente na actividade cívica. Todos apelam à participação democrática, apelam a uma cidadania exigente, incentivam a criação de movimentos cívicos, exigem que se dê voz às populações. Não podíamos estar mais de acordo!

Não há partido político ou políticos que não façam “profissões de fé” nas virtualidades da participação e envolvimento dos cidadãos, como modo de democratização da vida política e de envolvimento responsável das populações, na resolução dos seus problemas. Contudo, salvo raras excepções, o que se observa é que não passam de meras palavras de circunstância e de conveniência, para eleitor, incauto, ver.

Mas, naquilo que verdadeiramente conta, a prática…, não se enxerga nada. Não se enxerga, porque não existe, não se quer que exista e por isso não se estimula, não se apoia, não se fomenta, a criação de mecanismos de participação de discussão e de decisão popular ou de fiscalização democrática da gestão autárquica. As que, supostamente, existem e que são interpeladas a participar estão demasiado “institucionalizadas” e são-lhe oferecidas, pouca ou nenhuma importância. Servem para fazer de conta. Para fazer número. Para dar uma aparência de democracia participada.

Um embuste!

O Bloco de Esquerda, em todos os sítios, não deixará nunca de insistir nestes pontos e de apresentar propostas que visem facilitar a participação cidadã, como forma de colocar em primeiro lugar o interesse dos seus munícipes e o interesse público, na definição das políticas autárquicas e de combater a rede de interesses, das influências e da corrupção.

Já o dissemos aqui, apresentamos propostas nesse sentido, e voltamos a repetir: Uma gestão autárquica que privilegie a transparência e a participação dos cidadãos é uma garantia de que os actos municipais são determinados pelas vantagens para a comunidade e não para os amigos… ou “outros”. O discurso da participação cidadã é bonito, mas tem de ter consequências práticas.

A relação com os eleitores não pode ser um mero pró-forma. A relação tem de ser aberta e não num quadro de poder personalizado e fechado que converte os cidadãos em reféns dos poderes instituídos, muitos personalizados e fulanizados, dependentes do bom ou mal humor dos responsáveis.

Somos adeptos da participação popular e democrática. Inscrevemos isso no nosso manifesto eleitoral. A democracia só se enriquece com a cidadania activa e exigente.

O regimento que hoje é aqui colocado à votação, tem alguns aspectos gravosos, em nosso opinião, do que deve ser uma democracia representativa, participativa, moderna e avançada:

A proposta de regimento, ao remeter o tempo dedicado à intervenção do público, para o fim da ordem de trabalhos, não tem outro significado, por muitas voltas que se dê, que não seja um convite à não participação do público. Se entendemos que a participação cívica é indispensável a uma democracia participada e exigente, devemos criar estímulos e mecanismo de participação e não obstruir com estratagemas de todo inaceitáveis.

Do mesmo modo não concordamos com a distribuição dos tempos de intervenção para os deputados municipais. A representatividade de cada um dos grupos políticos traduz-se em mandatos de eleitos, conforme a lei eleitoral. Não se traduz em mais ou menos tempo para discutir os assuntos, para os partidos ou grupos representados. Cada partido está representado como os deputados em função do número de votos obtidos. Todos os deputados municipais são iguais. Não há deputados de primeira, segunda ou terceira. Todos representam, um conjunto de eleitores, com o mesmo valor.

Não aceitamos por isso que alguns possam ter mais tempo para discutir os assuntos de interesse geral que outros. O tempo disponível deve ser repartido pelos inscritos em cada ponto e eventualmente acrescentado o tempo de discussão se o assunto ou o número de inscrições o justificar. É preciso melhorar e dar qualidade à democracia. Cada deputado tem um voto e tem isoladamente igual valor.

Não podemos como deputados municipais, eleitos como todos, renunciar, por vontade de outros, à nossa condição de igual, entre tantos. Por estas razões em particular, o regimento proposto não pode merecer a nossa aprovação. Estão em causa valores da democracia representativa que não podem ser diminuídos e deturpados, bem como a defesa dos valores como a participação popular e cívica, não aceitando, por isso, a construção de obstáculos à sua plena efectivação.

(Intervenção na Assembleia Municipal de ontem)

Fevereiro 25, 2006

15- Um balanço das presidenciais

Cavaco Silva ganhou as eleições presidenciais e com ele toda a direita. A esquerda, toda a esquerda, perdeu. Alegre, apesar dos bons resultados pessoais, também perdeu. Manuel Alegre na noite das eleições, disse que estava solidário. Devia ter dito que perdeu. Como disseram todos os outros. Ninguém pode ficar de fora na esquerda. A esquerda perdeu porque o único adversário da esquerda era Cavaco Silva e ele ganhou. Tenho lido e ouvido por aí muitas análises e reflexões sobre o resultado das eleições. Análise há “treinador de bancada”. Todos temos a nossa explicação para o resultado.

O desfecho, não fugiu, às minhas previsões, mais coisa menos coisa. Na primeira volta ou na segunda, mais voto, menos voto neste ou naquele candidato, mas Cavaco Silva iria ganhar as eleições, era a minha profunda convicção. A primeira conclusão que retiro destas eleições é que a esquerda não é maioritária no País. A esquerda como eu a vejo. Uma esquerda plural, mas a esquerda. A soma de todas estas esquerdas é minoritária. Não há maioria política e social de esquerda A esquerda vota à esquerda. A esquerda votou e não ganhou. O povo de esquerda tinha candidatos, para todos os gostos. Não pode ser desculpa dizer que nenhum agradava. O leque era assaz largo para escolher um candidato que condissesse com os nossos propósitos. E a esquerda compareceu e perdeu. Quem vota Cavaco Silva, seguramente, não é de esquerda. A prova está feita.

Cavaco Silva vence por mérito estas eleições, através de uma estratégia pensada ao pormenor. A retirada da cena política nos últimos dez anos, gerindo as palavras e os silêncios, foi estudada e cuidada. Uma meticulosa encenação messiânica, foi aplicada e desenvolvida pelos seus correligionários, colocados em pontos estratégicos, sendo a comunicação social estratégica nesta arquitectura de um candidato. Os que conceberam a candidatura, criaram a figura do homem providencial, o homem que vai guiar o País na senda da prosperidade, da tranquilidade e que vai resolver os problemas e as dificuldades do País.

Mas, Cavaco Silva vence, também, por inépcia do Partido Socialista. A direcção do PS geriu de forma confusa e ambígua todo o processo de escolha do seu candidato, desde o início. Nunca se percebeu qual a estratégia de Sócrates. Podemos especular sobre o assunto. Houve quem visse, em todo este processo, tramas, conspirações, traições, astuciosamente engendrados, para levar à eleição de Cavaco. Nunca se saberá.

Cavaco, em consequência destas duas razões, aproveita, habilmente, o descontentamento das políticas anti-sociais e a perda de confiança, amplamente depositada no Governo Sócrates nas eleições legislativas de Fevereiro. Basta ver que o PS nas legislativas de Fevereiro de 2005 obteve 45 por cento e agora com os candidatos da área socialista Alegre e Soares, obtém 35 por cento. Estes resultados comparados, permitem verificar que parte destes 10 por cento se deslocou para Cavaco. Foi esta grande massa de votantes, que ora dão a vitória ao PS ora ao PSD, que nestas eleições resolveram dar a vitória a Cavaco Silva.

O Governo é outro dos grandes culpados. O seu principal contributo é a insensibilidade social que desde o início, deu testemunho. Não bastando ter aprovado das medidas mais gravosas de que há memória, como o aumento da idade da reforma, a retirada de direitos sociais, o Governo em plena campanha “esquece” que tem um candidato e “entrega o ouro ao bandido”, ao tomar mais medidas impopulares como o aumento dos combustíveis, dos transportes públicos, ao fechar centros de saúde ou ao apresentar propostas de aumentos salariais que baixam o salário real, tudo isto como se lhe fosse indiferente o resultado das eleições ou desse como adquirido ou até desejável (na linha da teoria da maquinação maquiavélica), a vitória de Cavaco Silva.

Inimaginável!

Manuel Alegre é apenas um vencedor virtual. O seu mérito reside apenas em ter percebido, a tempo, a conjuntura política: A de um governo desgastado e desacreditado, na sua base social de apoio e na população em geral; a escolha errada do candidato do Partido Socialista, sentenciado desde a primeira hora a uma derrota anunciada; a percepção do descrédito dos políticos e partidos, em que os maltratados ou os favorecidos, são sempre os mesmos; a divisão na esquerda; um estatuto de homem contumaz e de pose justicialista.

E assim, de repente o homem de sempre dos aparelhos partidários, o indefectível apoiante das políticas de todos os governos socialistas, o político que apoia o orçamento/negócio do “queijo limiano” de Campelo, que aprova as medidas anti-sociais de Sócrates, que pede encarecidamente o apoio partidário à sua candidatura, aparece como o paladino dos direitos de cidadania, com dissertações fogosas, contra tudo aquilo que sempre foi, durante trinta anos, de um ressentido, ferido por não ser a escolha do seu partido.

O resto foi o que se viu. Um jogo político baixo, tacticista, de jogador “pequeno”, como a campanha eleitoral evidenciou. Frases batidas até à exaustão, um discurso nacionalista aplaudido pela direita e um silêncio cúmplice nos ataques indecentes de que Soares foi alvo. Uma campanha eleitoral de vaidade, de homenagens narcísicas ao seu passado, de pouco esclarecimento, poucas ideias, debates frágeis, ataques caluniosos a outros candidatos da esquerda e uma complacência com a candidatura de Cavaco Silva.

Tudo junto, deu uma enorme “salada russa” e uma prestação demagógica e falsa que seduziu a direita, conquistou parte do eleitorado socialista e de outros eleitores de esquerda que face ao quadro de candidatos, acharam ser o melhor colocado para derrotar Cavaco e dar uma canelada a Soares.

A outra grande mentira trata-se de dizer que este é um movimento da cidadania. Não é verdade. A cidadania pratica-se e manifesta-se quotidianamente. Nas comissões de bairro, nas comissões de moradores, nas associações culturais, cientificas, ambientais, sindicais, nos movimentos sociais, na prática assertiva, exigente, no combate pelo direito e a justiça. Os mais de um milhão de eleitores que votaram Alegre votaram nele por razões conjunturais. Os movimentos de cidadania não são isto, são muito mais. São combate de todos os dias, são presente e são futuro, são luta e não acomodamento, são integração e não contemplação, são concretos e definidos. Alegre pela sua natureza, nunca será o mentor ou líder de um movimento com este espírito.

O resultado de Alegre teve o condão de aclarar posições. Em primeiro lugar mostrou que há um eleitorado socialista, sociologicamente, mais à esquerda, cansado do aparelho, dos notáveis, das elites e a dar grandes sinais de exigência de políticas de rigor e transparência, mas com sensibilidade para as questões sociais.

Este eleitorado tende a acantonar-se a propostas políticas mais à esquerda do Partido Socialista o que é um bom sinal e deve levar a esquerda a reflectir sobre o seu futuro. Por outro lado, ficou claro que este movimento de pessoas que apoiaram Alegre é muito heterogéneo. Provem de distintas sensibilidades, tem diferentes motivações pessoais e políticas, nasce de uma conjuntura específica, não tem um líder qualificado e por isso qualquer tentativa de construção de uma nova associação, de qualquer natureza, em seu redor, está condenada ao fracasso e pode comprometer um projecto a prazo de reorganização das esquerdas.

Poderá ser um voto inglório se for usado para outras guerras. Cabe aos partidos e a cada um de nós, interpretar correctamente o significado da votação em Alegre.

Mário Soares como candidato foi a aposta perdida à nascença. Toda a gente viu isso quando a sua candidatura foi anunciada. Soares tinha muitos anticorpos à esquerda e à direita. A candidatura de Soares, fez ressuscitar velhos demónios e toda a gente caiu em cima do homem e do político.

Também, por culpa própria.

Soares não se deu conta de que este já não era o seu tempo. Avaliou mal a situação e avaliou-se mal. Avançou com generosidade, procurando prestar um serviço ao partido, depois das renúncias de Guterres, Vitorino, Jaime Gama e das hesitações de Alegre. Não foi claro o aparecimento da sua candidatura. “Cheirou” a golpe nas costas de Alegre. Cuidou só de olhar para dentro e afastou-se da realidade.

Soares, teve uma prestação eleitoral nobre e galharda, mas cheia de equívocos. Nunca percebeu o que se estava a passar. Não entendeu o “estranho” fenómeno que a certa altura tomou conta da sua candidatura e inopinadamente “inundou” o País: da esquerda à direita, largos sectores da população viram em Soares, o símbolo das velhas políticas, das oligarquias, dos favorecidos, do “tacho”, do compadrio e das clientelas. Sem apoios fortes, dando o corpo ao manifesto na defesa das políticas anti-sociais do governo, praticamente só, subestimado pelos próprios socialistas, não podia evitar uma derrota pesada e estrondosa para si e para o Partido Socialista.

Jerónimo de Sousa fez bem o seu trabalho. O objectivo era consolidar e reforçar a confiança dos seus eleitores nesta nova direcção. Fê-lo com mestria. Jerónimo com uma imagem simpática, afável, mostrando convicção e simplicidade ao mesmo tempo, com um discurso mais terra-a-terra, do agrado popular, tem sido eficaz, na sua mensagem. O recuperar do fôlego ficou patente no comício nacional em Lisboa que animou as hostes. O aparecimento do Bloco tem feito bem ao Partido Comunista. Não deixa, contudo, de transparecer que está a falar para o interior do partido.

Francisco Louçã fez uma campanha extraordinária. O objectivo era muito categórico. Em primeiro lugar derrotar Cavaco Silva, depois espalhar no País a semente de novas ideias, uma nova forma de fazer política, transmitir esperança, força, convicção, esperança, auto estima e por fim mobilizar as energias cívicas para uma cultura de exigência, rigor e responsabilidade. Não mais do que isto.

Falhou no primeiro objectivo, agarrou bem os restantes, não obstante o resultado de 5,3 por cento, abaixo do melhor resultado de sempre, 6.3 por cento, das últimas legislativas o que manifestamente não dá justiça, a um desempenho de alto nível.

Louçã enfrentou esta tarefa com bravura, talento, inteligência e competência, como não deixaram de reconhecer a generalidade dos comentadores. Louçã baixa de votação, com a deslocação de imensos votos para Alegre, mas acolhe, também, muitos outros, que minimizam as deslocações para Alegre.

Uma parte significativa do eleitorado do Bloco é muito jovem e urbano e algo volátil, não tendo ainda, naturalmente (O Bloco tem apenas seis/sete anos) um eleitorado consolidado. Muitos votos destes eleitores, foram, em grande parte para Alegre, por um lado, porque lhes parecia o candidato com mais possibilidades de congregar mais apoios para uma segunda volta, contra Cavaco e por outro para castigar Soares. Não havia da parte da grande maioria deles, discordância com a candidatura de Francisco Louçã, apenas fizeram uma avaliação das forças em presença e fizeram a opção que lhes pareceu mais correcta. Nada a dizer.

Penso que Louçã com esta candidatura ganhou uma posição de maior destaque na cena política e é uma reserva para novos combates no futuro e emprestou mais prestigio ao Bloco. Este campo da esquerda exigente está mais alargado e pode ser reforçado. Assim saibam as forças desta área, encontrar as formas de organização e de democracia participativa, alargada, com fóruns de discussão e reflexão, sem reservas mentais, sem sectarismos e integradora.

A posição de Teixeira Lopes relativamente ao anúncio do regresso de Joana Amaral Dias, não é um bom prenúncio. Aguardemos.

Os próximos tempos com Cavaco Silva na presidência e Sócrates no governo, apoiados no lobby de interesses, do poder económico, não pronunciam boas notícias para os que mais têm sido castigados, nos últimos tempos.O futuro tranquilo, segue dentro de momentos.

Janeiro 25, 2006

14- Uma segunda volta sem história e com um triste fim

Um terço dos eleitores do Bloco, segundo uma sondagem, diz ir votar no Manuel Alegre. Aparentemente, esse terço perdido, irá ser recuperado, basicamente, em eleitores socialistas de Sócrates e em perdas e recuperações cruzadas na esquerda, pelo que tanto Louçã como Jerónimo, não devem ter grandes oscilações, com votações próximas dos resultados das últimas legislativas.

Já é um fado, triste por sinal, como são quase todos os fados.

Andamos nisto há anos. O País não consegue sair da cepa torta por medos. Medos de fantasmas interiores que nos consomem. Medos de mudanças a sério e uma grande dose de falta de coragem. É sempre o mesmo. A cada desencanto, aparecem novos “encantamentos” que rapidamente se desvanecem para dar lugar a novos desencantos, até novos encantos que hão-de vir. E assim se faz Portugal.

Somos um povo que gosta de sofrer. Anos após ano andamos a fazer escolhas menores. Úteis, dizemos nós. Sempre em nome de um mal menor. E acabamos por ficar com o mal menor rapidamente transformado em igual ou pior. Ainda há pouco tempo saímos de umas eleições em que trocamos um mal por outro mal menor (governo Sócrates) e muitos já se arrependeram. Até à próxima eleição. Altura em que voltaremos a votar no mal que antes recusamos.

É a vida como diria o outro.

Agora como se não bastasse um mal maior (Cavaco), muito dos apoiantes da Alegre, logo na primeira volta, descobrem que é preciso combater, não um, mas dois males maiores a combater (Soares e Cavaco -que para eles são iguais) e escolhem um mal menor. O Alegre, contra Cavaco.

Manuel Alegre, por si, já ficará muito satisfeito se ficar à frente do Soares. O resto vem por acréscimo e que tão bom que é, para ele, claro. Se Cavaco Silva ganhar, Manuel Alegre, não deixará de dormir descansado, mas se Soares ficar à sua frente vai, seguramente, ter umas noites de insónias.

Nada a fazer! Quando a vaidade e o oportunismo se sobrepõem e os tontos do costume (com todo o respeito por quem está sinceramente crédulo na bondade da sua candidatura), são embalados nestas tretas de ocasião.

Em minha opinião Cavaco Silva vai ganhar. À segunda volta. Antes disso vai ter que sujeitar-se a novos debates (era bom que fosse com Louçã). Na minha análise, os candidatos da esquerda vão ter, juntos, mais que 50 por cento dos votos e Cavaco irá novamente a votos. Mas na segunda volta, nenhum candidato da esquerda, qualquer que seja, irá fazer o pleno dos eleitores que votaram nos outros quatro candidatos.

Alegre na segunda volta não vai buscar eleitores a Cavaco (ninguém irá) e não terá o pleno da esquerda. As razões, dos apoiantes de Alegre que se recusam a votar Soares, serão as razões, de muito dos Soaristas para recusar-se a votar Alegre. A maior parte dos eleitores do Partido Socialista que está com Soares, não irá nunca votar Alegre, numa segunda volta. Não conseguiu à primeira não vai conseguir à segunda. Alegre não foi o escolhido pelo PS e muitos militantes não aceitam que Alegre concorra contra o próprio partido.

Alegre, à esquerda desiludiu muita gente e perdeu a consideração e o respeito que antes tinha, com a sua arrogância, as suas incoerências e ataques desbocados e mesmo caluniosos, a que acresce a impreparação e falta de ideias, (apenas favorecido devido às fragilidade do PS de um mal Governo Sócrates e de um discurso reaccionário, perigoso e aproveitador dos sentimentos antipolíticos e antipartidos – surpreendentemente, aceite em alguma áreas de eleitores do Bloco), e por isso não lhe auguro bons resultados na segunda volta.

Soares não tem nenhuma possibilidade na segunda volta, quando deixou de ter apoios numa certa esquerda que, surpreendentemente, recuperou assuntos do baú, julgados arquivados, depois de ter ganho duas eleições presidenciais. Também não irá buscar, a maioria dos votos dos socialistas Alegres. A colagem excessiva às políticas do Governo prejudica-o muito agora, e numa segunda volta será fatal.

O Jerónimo e o Louçã, infelizmente, não conseguem ultrapassar alguns estigmas que lhes estão associados e descolar da percepção generalizada de que não têm qualquer hipótese, apesar de terem feito os dois, à sua maneira, as melhores campanhas e no caso de Louça ser reconhecido como o candidato mais capaz e competente.

Esta poderá, pois, vir a ser, uma segunda volta sem história e com um triste fim. Só um candidato estaria preparado para dar luta a Cavaco no terreno da luta política e das questões económicas, como já aconteceu nos debates da pré-campanha e esse é Francisco Louçã.

É a minha aposta de coração mas também da razão. E fico com uma certeza a de que nunca me arrependerei.

Alegre ou Soares um deles irá à segunda volta, entre os dois prefiro, indubitavelmente, Soares.

Janeiro 19, 2006

13- Alegre no trilho do insulto

O Alegre passou-se. A sua reacção à crítica de Louçã no comício de Braga, em que estive presente, é absolutamente incrível, quase inacreditável. Foi um ataque desconcertante, desproporcionado, inesperado, contundente, feroz.

Manuel Alegre passou os limites e foi malcriado. Não pretendia falar mais sobre o homem e sobre o político. A minha opinião sobre o político amiudada vezes foi exprimida neste sítio. Não gosto do político, também não apreciava o homem. Acasos da minha memória. Parece que tinha razão. Para além do fraco político parece que também estamos perante um homem fraco.

Manuel Alegre já tinha oferecido umas amostras de deselegância com os outros candidatos da esquerda, nesta campanha.

Manuel Alegre não faz campanha, exibe-se. Passeia o seu enorme ego. A sua grande vaidade pessoal. Manuel Alegre, não quer fazer política a sério. Quer mandar umas “bocas”. Manuel Alegre não quer o contacto com as pessoas, ouvir os seus problemas, apresentar propostas ou ideias, contrapor argumentos. Quer aparecer “acima”, atribuir-se méritos, raptar memórias, acontecimentos, protagonistas. A campanha de Manuel Alegre tem sido um revisitar da história para retirar dividendos indevidos. Não falha um monumento, um cemitério, uma estátua, invoca os capitães de Abril, a resistência antifascista, os feitos, a pátria, tudo como se fosse obra sua, ou o seu herdeiro e que ninguém ouse contestar, questionar, criticar. A ele ninguém o cala. Vai tudo à frente. Foi Jerónimo, Soares, Matilde Sousa Franco, foi agora Francisco Louçã.

Manuel Alegre não distingue critica política, de calúnia. Francisco Louçã ao fim de largar e largas semanas de campanha atreveu-se a dizer que Manuel Alegre faz uma campanha desajustada. Que é preciso os candidatos falarem com as pessoas, ouvir os seus problemas, conversar sobre a vida, as dificuldades, o desemprego, as reformas.

Ninguém deve esperar pelos votos. O voto deve ser merecido. O voto tem de ser merecido. O voto tem de ser conquistado.

O que desagradou a Manuel Alegre foi isto. A verdade. O resto é conversas.

O que este episódio releva é que os candidatos não são só o que se vê nas eleições. Os candidatos têm um passado e têm um presente e isso não pode ser esquecido. Louçã lembrou o famoso “orçamento do queijo limiano”, aprovado à custa do vergonhoso negócio da compra do voto do deputado Campelo. No momento do voto, onde estava Alegre? Bastava o seu voto. Isto não pode ser esquecido. Manuel Alegre mostra-se agora contra algumas medidas do governo Sócrates, mas ele apoiou-as. Votou a favor do programa do governo, a favor do aumento do IVA, votava a favor do aumento da idade da reforma, das privatizações se fosse necessário, não se coibiu de dizer Manuel Alegre. Agora não gosta de ser lembrado.

Os candidatos devem merecer o voto que pedem. Manuel Alegre decididamente não o merece. Não fez nada por isso. Nem antes, nem na pré, nem durante a campanha.

Manuel Alegre anda a passear a sua vaidade à procura da honraria, das benesses e da cadeira do poder como prémio de carreira. Não o merece.

As declarações de Manuel Alegre, sobre Francisco Louçã mostraram um carácter baixo que surpreendeu todos. O Homem que não gosta de “perder nem a feijões” perdeu a cabeça e verteu insultos. Espalhou calúnias. Disse o impensável. Desrespeitou não só Louçã mas os aderentes, simpatizantes e eleitores do seu partido. Ofendeu a inteligência dos seus apoiantes.

Para memória futura ficam aqui algumas das declarações:

“Louçã é um Cavaco do avesso. Estou farto das lições de moral. Não aceito a direcção espiritual de Louçã que parece ter errado a vocação. Ele deixou de combater Cavaco Silva e persiste em combater as forças de esquerda. Ele anda aqui atrás de uns dinheiros e de uns votozinhos. Eu sou de outro campeonato. Eu tenho um passado político de luta e de resistência, Louçã não sei se tem”.

Registo também a reacção de Francisco Louçã:

“Manuel Alegre escolheu o caminho fácil e desagradável do insulto. Não quero comentar um deslize para sublinhar a pequenez das rixas. Respeito quem, nesta campanha, faz homenagens, beija estátuas e faz essas escolhas da memória de si próprio, mas na campanha devem discutir-se os problemas do País. Louça acrescentou que desrespeita o País quem acha que uns votos são inhos e outros são importantes”.

Janeiro 15, 2006

12- Que fazer?

Às vezes, paro para pensar, nos precisos termos que isso possa significar; parar mesmo, faço-me entender? Pensar é um acto mais ou menos irreflectido. Estamos sempre a pensar. Nesta nossa massa cinzenta, ao mesmo tempo, fervilham, turbilhões de pensamentos. Acontece com todos, presumo. É por isso que digo que paro, às vezes, para pensar. Parar para pensar só num assunto. Comummente chama-se a isto, reflectir, pensar muito, ir aos pormenores para compreender melhor.

Há pessoas que pensam melhor que outras. Gozam de mais instrução, são mais brilhantes, possuem mais informação, desenvolveram melhor certos neurónios. Admito isso sem custo. Mas, por si só, tais capacidades não as habilitam mais. Ou são, as suficientes para ter uma melhor opinião, mesmo quando se apresentam todas juntas. Há muitas mais variáveis que constroem um pensamento. A nossa vivência, o nosso trabalho, o meio em que nascemos e convivemos, as circunstâncias da vida, forjam personalidades distintas e sabedorias diferentes. Por isso somos diferentes. É no encaixe de algumas destes peças, do puzzle da vida, que se alinham causas idênticas e se juntam as pessoas em volta de certos propósitos.

Todos sabemos isto. Negar é negar a evidência. É a esta luz que encontro a explicação para diferentes posicionamentos em questões capitais da organização da sociedade. Que vejo os alinhamentos à esquerda e direita, plurais, que interpreto a luta de classes sociais. Esta lição deu-me a vida. É claro que a leitura de Marx ou Engels ou de outros pensadores marxistas, ajudou a consolidar um pensamento, a perceber a relação dos acontecimentos. Mas foi sem dúvida a “escola da vida”, as dificuldades, a pobreza extrema, a injustiça social, a guerra colonial que nos deram consciência social e mais tarde, a consciência politica que criaram as pessoas que hoje somos.

Nunca poderei vir a ser uma pessoa de direita. É seguro! Nunca poderia trair a minha memória e a memória de tantos que lutaram e lutam por um ideal de sociedade mais justa e que não se conformarão com as desigualdades. Posso, com o passar dos anos moderar ou radicalizar as minhas posições, posso ter momentos de desânimo e desilusão, posso “ameaçar” desistir, posso mudar a minha forma de intervenção, mas nunca, nunca deixarei de ser uma pessoa da esquerda exigente, da esquerda combativa, da esquerda que não abdica dos seus valores mais profundos. Essa esquerda está em muitos partidos e até fora deles. Ela saberá encontrar, os denominadores comuns para encontrar as energias para estas batalhas de transformação. Tenho essa convicção.

É claro que os grandes momentos de desilusão acontecem quando se travam grandes disputas, se emprega todo o nosso esforço e tudo fica na mesma ou volta atrás. Espero pelo dia em que os grandes vitimados atirem a pedra ao charco e dêem a confiança a quem pretende mudar, a sério, as coisas.

Vasco Pulido Valente, enfastiado faz um diagnóstico destas eleições presidenciais, quase perfeito. Para ele:

Cavaco Silva, “arrasa” a concorrência porque o eleitorado o associa a “prosperidade”. Alegre tem uma razoável votação por que “faz figura” o que lhe basta quando metade do eleitorado PS detesta o governo. Soares, perde porque esta simpática sociedade não gosta de velhos. Jerónimo e Louçã ficam de fora porque ninguém os consegue imaginar em Belém e Louçã, fica atrás de Jerónimo, por falta de uma “máquina” e porque no fundo, o papel de revolucionário oficial do regime (de que nunca mais conseguirá sair), diverte a populaça, mas não leva longe.”

Terá razão? Que fazer?

Janeiro 9, 2006

11- Democratizar a democracia

Nuno Melo líder do grupo parlamentar do CDS/PP teceu critica pública à direcção e ao presidente, defendendo o regresso de Paulo Portas à liderança do partido.

A posição de Nuno Melo e as reacções dos pataratas dos dirigentes do CDS/PP poderiam suscitar um debate interessante sobre a qualidade da nossa democracia. Vou deixar a minha opinião e confesso que gostaria de conhecer outras.

Em minha opinião, a liberdade de um militante exercer, em público ou em privado, a critica deve ser um dos valores absolutamente inquestionáveis no funcionamento de um partido democrático. Considero mesmo que um partido que não aceite este princípio é um partido-coutada de alguns senhores. É um partido fechado à sociedade e ao activismo partidário. No meu entendimento, um partido de “alma” intrinsecamente democrata, deve ser apelativo à participação cidadã, exigente e responsável e não se deve nunca perturbar, com a exposição pública de divergências.

Quantos partidos existem com esta “alma”? Que partido aceita com respeito, naturalidade e tranquilidade a diferença de opiniões no grupo? Nenhum. Nos estatutos alguns, mas na prática, apenas vão tolerando desde que não provoque “danos”.

Nos grandes partidos, até se permitem fazer esse tipo de criticas, mas são apenas “aparências” democráticas porque o que subjaz são “assaltos” à liderança, apanhar lugares e os crónicos alinhamentos oportunistas aos potenciais chefes.

Tentando ser claro. Uma coisa é a lealdade e a responsabilidade política dos intervenientes que deve ser preservada. Outra bem diferente é tentar silenciar as posições críticas de quem entende ser adequado tornar publica uma diferença de opinião.

Numa situação destas não há nada a fazer que não seja aceitar a regra do jogo democrático. Sem sobressaltos. Não consigo vislumbrar uma situação onde a intervenção do colectivo partidário poderá se sobrepor à livre expressão de um pensamento ou de uma critica.

Uma crítica bem arrumada no plano político e ético pode incomodar, ser injusta, mesmo desagradável, mas renegar este valor fundamental da democracia é impróprio de um partido democrático.

Por isso e independentemente das razões de Nuno Melo (também ele um patarata) só por patetice e pouca cultura democrática, se pode exigir uma demissão, mesmo tratando-se do líder parlamentar, por ter manifestado a sua opinião sobre o curso do seu partido e da sua liderança.

No dia em que os partidos (os militantes) souberem conviver pacificamente com estes aspectos, teremos sem dúvidas uma democracia melhor.

Dezembro 24, 2006

10- Quem diria

Para muitos o meu blogue era um blogue bloquista. Para alguns, os que me conhecem bem, não era, não foi, nunca seria. Na parte que me toca disse sempre que apesar de ser um aderente do Bloco, de ter actividade partidária, de ter sido eleito para um lugar público em listas do Bloco, nunca fui um “bloquista” e nem este espaço seria uma tribuna de qualquer partido. Talvez alguns se lembrem de algumas perguntas que fiz na “A hora que há-de vir!..” e da minha resposta a todas as questões. Vou recuperar todas embora algumas sejam laterais a esta conversa:

É possível ser deputado municipal e não ser um político?
É possível ser militante de um partido e não ter partido?
É possível ser um activista sindical e não ser sindicalista?
É possível ser de esquerda e gostar do conforto e bem-estar?
É possível ser considerado um radical por uns e um moderado por outros?
É possível ser considerado um conflituoso por uns e um conciliador por outros?
É possível ser um machista e considerar as mulheres mais fortes que os homens?
É possível estar na política sem procurar interesses pessoais?
É possível desejar uma sociedade de tipo comunitário, sem ser anarquista ou comunista, tal como são olhadas?
É possível ter uma actividade pública, vestir simples e usar um brinquinho?
É possível ser extremamente liberal nos usos e costumes, defender o casamento e a adopção de crianças por casais homossexuais, o divórcio unipessoal, a convivência pacífica e multicultural dos povos, raças, etnias, religiões, sem achar isso estranho?
É possível defender o aborto e a eutanásia livre por desejo dos próprios, a qualquer momento, sem que se considere um criminoso?
É possível ser fiel à companheira e admitir a (minha) sexualidade fora do casamento?
É possível que eu não regule muito bem?

O Título do post era elucidativo: A minha resposta é sim!

Porque repego isto agora? Apenas por duas razões. A primeira é que, depois disso, quem passou a estar mais atento teve oportunidade de verificar que quem preserva princípios de independência de liberdade de ética, nunca em nenhuma condição, se sentirá limitado na sua acção prática. Penso que isso foi amplamente demonstrado no percurso do blogue. A segunda razão é para dar conta de que, por onde menos esperava (quando alguns começaram a sentir a minha total e inabalável independência e sentido critico, sem esconder criticas públicas a quem tinha e tenho afinidades ideológicas) alguns se afastaram daqui.

Refiro-me a alguns dos aderentes, simpatizantes e dirigentes do Bloco que eram presenças habituais por aqui a comentar ou postando. Não terá sido pela descaída de qualidade dos textos, nesse aspecto nada mudou. Bons, medianos ou fracos nesse aspecto tudo está igual. Não posso afirmar que o lado pessoal também saiu afectado. Estou a ver ainda…

Agora que lamento, lamento … e fico muito triste. Parece-me que alguns Bloquistas só o são de fachada. Estou convencido eu que não sou agora aderente do Bloco, continuo a identificar-me mais com a filosofia “anunciada” e subjacente ao projecto de que muitos que ainda estão no Bloco. Provavelmente eu é que deveria estar dentro e muitos outros de fora.

Não tivesse eu 51 anos de idade e muita pouca pachorra para discussões de lana caprina e as coisas seriam diferentes. Ah, os meus 20, 30, 40 e muitos anos…

Dezembro 6, 2006

9- Fazer a Diferença II

Há um debate que tem de ser feito no Bloco de Esquerda. Um debate que se prende com formas de organização do trabalho político os processos de comunicação, do debate, da intervenção e decisão.

Aqui fica mais uma achega. Lá no fundo fica outra, anterior a esta, para quem quiser ou tiver paciência para isso. Aí vai.

Não é na proliferação de núcleos, de grupos de trabalho, na presença organizada nas empresas, nas associações culturais, nas associações de trabalhadores ou noutras de expressão cívica que o Bloco deve fazer sentir a sua presença. Os activistas do Bloco, não devem estar organizados para influenciar, para conquistar posições, determinar políticas, como se uma qualquer competição estivesse a ser disputada.

As mulheres e homens de esquerda, os bloquistas em particular, devem estar presentes, é uma exigência cívica, para participar na discussão, contribuir para as soluções, para promover a alteração de políticas desacertadas, umas vezes brigando, outras vezes concertando, outras vezes, se necessário, rompendo, saindo ou constituindo alternativas válidas e consequentes.

O molde da participação individual, deve ser sólido no argumentário, o que presume a existência de políticas sectoriais consistentes (a requerer debates continuados e alargados) e concomitantemente, claro nos propósitos, para não haver temores de controlos externos às organizações. Quero dizer que o Bloco não deve controlar, nem sequer ter tentações de controlar os movimentos, cabendo-lhe apenas propiciar aos seus activistas, espaços e modelos de discussão, para a aquisição de uma nova cultura política, concordante com um projecto mais amplo de construção de uma alternativa de esquerda consequente. É assim que vejo a participação democrática.

Assim, mais do que grupos de trabalho, defendo a criações de fóruns de discussão temáticos, continuados e abrangentes. Só especificidades concretas poderão determinar, uma organização temporária, para dar concurso a essa questão pontual. O Bloco não deve ter correntes, tendências, “organização”, no seio desses movimentos.

O foco deverá ser pois, na definição das grandes linhas de rumo, seja na grande política seja nas questões sectoriais, para “formar” opiniões e criar ambientes favoráveis às boas decisões a tomar pelos envolvidos.

A instituição de uma carta de ética política e de compromissos partidários dos activistas do Bloco seria um sinal para todos, de uma nova forma de fazer e estar na política.

Logo não é de “estrutura” mas da política que falo quando pretendemos discutir modelos de trabalho e de organização.

Penso não estar enganado se disser que esta filosofia está estabelecida, nas linhas ou entrelinhas da estratégia política e nos documentos oficiais, mas sem correspondência prática nos activistas porque o modelo, não sendo acompanhado das “ferramentas” adicionais, confronta com a operacionalidade do trabalho político, nos termos em que se estava habituado a trabalhar, nomeadamente a nível do trabalho sindical e associativo.

Convém dizê-lo, não obstante inculcar-se a ideia contrária, que a actual forma de trabalhar tem dado jeito (a alguns ou a todos os “grupos” e funcionários do Bloco), para se afirmarem para dentro, num jogo de preponderância política, que dá ascensão no partido por “mérito”, mas que em consequência vai causando “danos” na confiança e credibilidade da força do projecto.

O que disse não são acusações a ninguém, não tenho pretensões a julgar ninguém, as boas ou as más práticas… são apenas registos individuais, ditos de forma reflectida, imparcial e respeitosa, para com todos os que continuam, dentro ou fora a alimentar o sonho de construção de um projecto socialista no partido e na sociedade.

Como sabem, passado estes anos de actividade no Bloco, pedi a minha renúncia da condição de aderente e por consequência do cargo público para o qual fui eleito nas listas do Bloco. À segunda foi de vez, depois de há precisamente um ano, ter pedido para sair, tendo sido dissuadido, face ao trabalho autárquico em curso e iminente e a proximidade das presidenciais, na qual estive de corpo e alma com Francisco Louçã.

Mas a condição de desvinculado do partido não é impeditiva de contribuir e a apoiar o Bloco, enquanto continuar a acreditar que, embora o processo não seja fácil, tem condições, com vontade e lealdade política, para andar e vencer.

Dezembro 2, 2006

  8- Fazer a Diferença

O Bloco tem uma especificidade muito própria e foi essa que concorreu para fazer regressar alguns e captar outros. Reconheço não ser fácil lidar com a diversidade de pensamentos e a necessidade de não criar roturas irremediáveis. Revejo-me nos conceitos de organização assente nas regiões e não em núcleos nas empresas. Não vejo necessidade e até seria um pouco contraproducente o bloco ter uma organização de tipo leninista, com o Bloco organizado ao nível da empresa, do bairro, ou a ter uma linha própria sindical, associativa, cultural, organizada, bem definida ou concebida para intervir, tal como o PCP o faz.

O Bloco deve ser visto com uma organização nacional e quanto mais nacional for a estrutura do Bloco, mais a ”unidade” do partido se fará sentir. Penso que o Bloco não tem como fugir à definição da sua linha estratégica, nesta fase, senão por cima. O Bloco é tão heterogéneo na concepção da actividade política, quanto é unido, na necessidade de construir uma esquerda nova, distinta das prática e de algumas teorias já gastas e inadequadas às novas realidades dos tempos actuais. Por isso é melhor que a organização ou o pensamento político seja centralista. Não um centralismo “democrático”, não um centralismo oligárquico, mas sim um centralismo que respeite os diferentes pensamentos, que promova o debate interno intenso, sem teias, sem preconceitos, sabendo ouvir, sabendo perceber a pluralidade de pensamentos, em nome da preservação, por parte de TODOS, de uma lealdade democrática em volta dos superiores interesses de um projecto em construção. E aí é que tudo está a falhar. Não há debate, não há aproveitamento dos contributos democráticos, há uma ”balda” camuflada de independência, de democracia interna, de autonomia das bases. E depois há os “chefes”, as personalidades em cada local. São as figuras do Bloco. As figuras para a fotografia ou para a comunicação social, tal e qual como a nível nacional. Nada de perturbador se forem umas lideranças “consentidas”, nos sítios em que tal sucede, admitindo que os há, ou quando resulte de eleições internas. Apenas caberá estar atento aos “deslumbramentos” aos focos das câmaras ou dos microfones ou há projecção social. O Bloco é extremamente apetecível a alguns protagonismos e aproveitamentos mediáticos.

Posto isto e para não me alongar, acho escusada a intervenção do Bloco em batalhas inúteis … de despique pela liderança ou presença nos movimentos sociais, nos sindicatos, a conquista de lugares nas CT’s, etc, só para dizer que estamos ou para tentarmos influenciar o que quer que seja. Estaremos ou devemos estar em todas as frentes para defender ou lutar melhor pelos direitos, não como partido, mas sim como pessoas que querem e acham que têm condições para mudar para melhor, em benefício dos interesses superiores dos mais desfavorecidos e com base em consensos alargados e não partidários.

A agenda do Bloco não é nem deve ser a competição para ver quem tem mais ou para se “afirmar” para dentro do partido, os ganhos de posição. Esse não pode ser o combate. O que é preciso é “estar” para discutir os problemas e propor medidas acertadas. Continuar a batermos-nos como partido, por ter “números” nos movimentos sociais é uma estupidez e um absurdo. O que importa verdadeiramente é que contribuamos para encontrar as melhores soluções, dentro ou fora das lideranças, mas sem espírito “clubista”. Neste ponto estou de acordo com aquilo que me parece a estratégia do Bloco na teoria. Digo na teoria porque depois na prática, cantamos vitória porque participamos nestas ou naquelas eleições (mesmo não tendo condições por falta de “quadros” qualificados ou tendo essas condições nos vamos bater contra quem tem um bom desempenha do lugar de direcção) ou conquistamos um lugar numa CT, numa delegação sindical, ou num qualquer movimento cívico, só para contagem de números.

Por isso defendo que a organização da actividade se faça em torno de projectos concretos. Projectos que devem ser linhas gerais de actuação dos aderentes ou simpatizantes do Bloco. Nos sindicatos, nas associações, nas autarquias. Uma espécie de linha de modelos de intervenção, de uma definição clara e pública das motivações políticas do Bloco. Uma carta de ética política e de compromissos partidários, assumidos pelos aderentes. Será utópico? Não me parece. Para isso o Bloco precisa dizer o que quer fazer nesses órgãos. Precisa de discussão e clarificação das propostas políticas. Precisa que os dirigentes nacionais não descurem o trabalho de base e não centrem apenas a sua actividade no parlamento ou cujo impacto está ao nível do poder legislativo. Precisa olhar para os problemas mais pequenos, para os detalhes, para credibilizar uma alternativa autêntica.

Termino por agora, penso, com um aspecto crucial. O Bloco elegeu milhares de autarcas em todo o país. Exceptuando as linhas gerais e alguns conceitos globais de política autárquica como se desenvolve o apoio aos eleitos? Como e de que forma se discute a intervenção? Qual o apoio técnico, jurídico, político aos autarcas? Quantas reuniões se fizeram, envolvendo os eleitos, para clarificar questões e concretizar aspectos como a democracia participativa, o provedor do munícipe, os orçamentos participativos, a melhoria da participação dos munícipes nas sessões, a desigualdade dos tempos de intervenção dos membros eleitos, a estratégia autárquica? 

Sem dúvida o Bloco precisa de ouvir os aderentes e simpatizantes e definir os processos de discussão e participação nas decisões e não ficar por pretensos processos democráticos de autonomia que não são mais que um escudo para a “desresponsabilização geral”.

O Bloco, está amarrado a compromissos dos “grupos” o que por si só poderá não ser um mal, só o sendo, se os mesmos persistirem na lógica de querer “mandar” ou querer “influenciar” decisões colectivas, nas grandes ou pequenas discussões, com ideias formatadas ou em concertação prévia que possam inviabilizar debates sérios e responsáveis. Serão estas lógicas de “grupo” (que auguram desconfiança no projecto) e dos equilíbrios necessários que estão a minar o Bloco e a confiança de ex-militantes, regressados à actividade partidária e que estão a fechar o Bloco a um partido centralista “oligárquico”. 

O Bloco aguenta-se porque tem feito na Assembleia um excelente trabalho e tem na figura de Francisco Louçã, em especial, o consenso global, para o liderar à custa de uma grande competência técnica, política e de um grande combatente. O Bloco não sobrevivia com uma eventual saída de Louçã. E um partido não pode estar dependente de um homem. Alguma coisa tem de ser feita mais para aguentar os “velhotes” e atrair outra gente. Para isso é preciso repensar bem o Bloco. A concepção original do Bloco tem um tempo. Espero que não deixem esgotar esse tempo.

Dezembro 2, 2006

7- Um Partido Comunista retrógrado

O Partido Comunista Português exerceu sobre mim, um grande fascínio na minha precoce adolescência. Os comunistas eram o rosto da resistência ao fascismo. Os homens que abandonaram tudo pela defesa das liberdades. Preteriram a família, uma carreira profissional, um bem-estar pessoal, para organizar a resistência antifascista.

Quando se invoca o combate ao fascismo, lembramo-nos dos comunistas. Sobrevém à memória, os homens sem vida própria, as prisões, as torturas, a morte de muitos deles. Rememoramos a ausência de uma vida social. Os sacrifícios pessoais, o abandono de carreiras académicas, de uma profissão, o abandono do emprego, a passagem à clandestinidade, a luta contra a guerra colonial, a deserção, a imigração. As companheiras, os filhos, os amigos, todos passaram a um segundo plano, em nome dos mais nobres ideais, das liberdades colectivas, da justiça social, de uma sociedade mais justa.

Eram todos comunistas para o regime fascista, não deixando de ser um pouco verdade, durante largos tempos da ditadura. Pelo Partido Comunista passaram quase todos os resistentes antifascistas. De Mário Soares a Emídio Guerreiro, de Álvaro Cunhal a Francisco Martins Rodrigues. Com o passar dos anos, os regimes de referência comunista foram postos em causa e as divisões e novos alinhamentos ideológicos, iam acontecendo no seio do movimento comunista internacional. Uns continuaram ainda comunistas mas romperam com o PCP e deram origem aos grupos da extrema-esquerda, outros ainda, deixaram pura e simplesmente de ser comunistas.

Eu era um jovem. O meu contacto político deu-se através de uma organização comunista dissidente do PC. Mas o fascínio pelas figuras de mais relevo do PCP, mantinha-se, não obstante as discordâncias políticas e ideológicas que iam tomando relevância a cada dia.

Mais tarde o meu comunismo, as minhas referências, deixaram de fazer sentido. Acabei por deixar a actividade partidária e o sonho autêntico de “reconstrução” do partido comunista. O tempo veio a demonstrar o quanto o poder, mesmo o mais pequeno poder, muda as pessoas. Deixava de fazer sentido a actividade partidária. Restou a generosidade da entrega, a genuinidade das convicções, um novo homem. E não foi pouco.

Hoje o Partido Comunista perdeu tudo. Deixou de ser um partido de causas, passou a ser um sindicato corporativista. Deixou a pureza das convicções. Passou a ser mais um tomado por carreiristas políticos. Agarrou-se para sobreviver à causa dos trabalhadores, sem nexo, sem pedagogia, usando-os conforme as conveniências tácticas, as estratégias políticas, transformou grandes pessoas em funcionários do partido, em empregados, em novos burocratas, deu-lhe poder, são novos chefes, novos patrões dos trabalhadores, com uma missão; assegurar o controle dos movimentos sociais, sindicais, cívicos, para se manter à superfície do pântano carreirista da política.

O PCP é simultaneamente um sindicato contra as empresas e um patrão reaccionário contra os seus trabalhadores. De repente ao fim de anos e anos de ligação umbilical ao partido, os empregados são despedidos, são mandados procurar emprego, depois de anos e anos de dedicado serviço, são afastados como peça de ferramenta gasta.

Tem razão Luísa Mesquita quando afirma que não é agora com a idade que tem, assim do pé para a mão que é despedida, que lhe é dito para arranjar um novo emprego.

“Será agora que vou voltar à universidade ao ensino, será com esta idade que vou iniciar uma nova carreira?”. O PCP comporta-se como os grandes capitalistas, as grandes empresas monopolistas. Descarta os empregados, depois de lhes comer a carne.

O PCP ou muda a sua filosofia de trabalho, a sua forma de ver a politica, ou está condenado a desaparecer ou ficar reduzido a um partido residual. O que é pena. Porque faz falta. Por isso logo vou estar na manifestação da CGTP. Não pelo PCP não pela CGTP mas pelo protesto contra as políticas do Governo. O PCP até pode vangloriar-se do êxito desta grande jornada de luta, os seus dirigentes e funcionários até podem comemorar com champanhe, mas isso não acrescenta nada ao partido em termos externos.

Penso que hoje se vai compreendendo melhor, o papel do PC no xadrez político.

Novembro 25, 2006

6- O cábula vaidoso a esperança

Foi um debate pouco emotivo. Estivemos perante dois candidatos muito diferentes:

Francisco Louçã, com um discurso seguro, um pensamento estruturado, ideias consistentes, propostas ponderadas e politicamente sustentadas, ideias para o País, um projecto político de mudança, uma combatividade forte.

Manuel Alegre, aparece com um discurso frágil, defensivo, desajeitado, sem ideias sólidas, incoerente, contraditório, sem ideias novas.

Francisco Louçã foi macio e complacente com Manuel Alegre, mas inciso onde tinha que ser, confrontando-o com as suas próprias contradições, como o aumento do IVA, a aprovação do orçamento rectificativo, o vota, não vota do orçamento de estado, as alterações às regras económicas da UE.

Manuel Alegre, foi trapalhão na explicação das suas posições, sobre a sua própria candidatura, sobre o apoio ao aumento do IVA, ao orçamento rectificativo que permitiu o aumento da idade da reforma e o ataque aos direitos sociais e sobre as privatizações foi incoerente com a ausência na votação do orçamento de estado, não cumprindo o papel para o qual foi eleito.

Fez afirmações confrangedoras, que quase fizeram saltar Louça da cadeira, como a de um Presidente de um governo regional não dever poder recandidatar-se, se fosse demitido por uma avaliação política do Chefe de Estado (que depois corrigiu, dizendo que não disse, o que todos ouvimos). Foi obrigado a responder, sobre se demita o Procurador-geral da República, depois de um engolir em seco (com um pois!) e uma pausa de uns segundos que pareceram horas, quando queria fugir a uma resposta que o próximo presidente terá de dar. É incipiente nas críticas a algumas medidas (que diz inábeis e não erradas) e tem um fervor pela palavra Pátria (Louça prefere falar em Portugal) que o remete para um nacionalismo de “esquerda” ao contrário de Louça que se afirma convictamente um homem do mundo e um europeísta de esquerda, lembrando que a sua pátria é a pátria das centenas de milhares de pessoas que vieram para a rua lutar contra a guerra no Iraque.

Louçã esteve bem, mas foi suave o que se compreende. Alegre não é o seu adversário principal. O tom e o discurso foram essencialmente virados para os eleitores do partido socialista e para o esclarecimento e a clarificação de posições. Alegre tem um discurso de declamação teatral com uma retórica pretensamente “moralizadora” para conseguir votos em descontentes, mas veste mal no fato de quem tem sido e é complacente com políticas que conduziram a esta situação. Também quando é preciso ser mais concreto como nas nomeações politicas, encolhe-se para não comprometer os amigos do partido.

Manuel Alegre não é um voto de protesto nem é um voto de mudança ou renovação. É um voto de continuismo num protagonista de há muito a querer o seu momento de glória.

2005 Dezembro, 13

5- A propósito do acordo na Autoeuropa

Aqui há uns trinta ou mais anos, era comum, encontrar-se imensos jovens, a partir dos catorze anos no mercado do trabalho oficial. Mesmo antes dessa idade, já muitos miúdos, estavam a trabalhar sem o enquadramento legal dos 14 anos. Foi o meu caso e de todos os meus irmãos e irmãs. Obviamente, isto acontecia nas famílias muito pobres e normalmente numerosas.

Esta introdução serve apenas para explicar que desde esse tempo eu aderi a um sindicato e uns tempos depois, passei a ser um activista sindical, interessado e comprometido com a defesa dos direitos sociais dos trabalhadores. Cheguei a ser delegado sindical e dirigente sindical regional e nessa qualidade participei em algumas negociações com a hierarquia da empresa. Nunca, contudo, fui dirigente nacional. Posso dizer que estive sempre do lado do contra-poder. Fosse o poder a direcção sindical ou a empresa. Eu percebia as razões para a direcção sindical do sindicato, não me convidar, não obstante, consecutivamente, ser o representante eleito dos trabalhadores no local de trabalho.

Ambos percebíamos, afinal, as razões: Eles não me convidavam porque sabiam que não era moldável a certos comportamentos e seria sempre um crítico feroz de uma prática sindical desajustada, interesseira, oportunista e eu também não me importava porque aquele não era o meu meio. E foi assim durante muitos anos, até ao dia em que depois de um “castigo” da direcção sindical, (em que os instrutores e decisores são os mesmos, -os dirigentes sindicais) a direcção regional de que fazia parte se demite, em solidariedade e a partir daí, não mais quis concorri ao lugar. Apenas e só concorri em listas à direcção nacional em oposição às lista da direcção.

A direcção sindical foi sempre dominada e controlada pelo PCP, durante mais de trinta anos, acabando no dia em que devida às dissidências dos renovadores, a direcção se divide, com troca de acusações gravíssimas, de desvios de documentos, despesas não sustentadas, desvios de dinheiros, viagens pessoais, envolvimento de mulheres, enfim, tudo o que possam imaginar. Nas eleições que se seguiram fui convidado pela lista desafecta ao PCP, para um lugar na Mesa nacional. Obviamente recusei.

É claro que não conheço tudo o que se passa no reino dos sindicatos, mas conheço o suficiente para dizer que há uma “máfia” de interesses largos, que fazem com que queiram manter-se no lugar. E por isso, é que vemos os dirigentes sindicais de sempre, apesar de pouco recomendáveis, vitalícios nos seus lugares, e com o apoio dos responsáveis do seu partido, sem qualquer escrúpulo.

Mas felizmente, nem todos são assim e os membros da comissão de trabalhadores da Autoeuropa, parecem ser um bom exemplo, de como devem ser uns dignos representantes dos trabalhadores.

Firmes, rigorosos, responsáveis, democratas e com um grande sentido de defesa do interesse comum.

Firmes, porque não cedem à primeira ameaça ou chantagem de fecho da fábrica. Rigorosos, porque apresentaram propostas sensatas, razoáveis beneficiando os mais baixos salários, em vez de uma percentagem igual para todos que dá mais a quem mais ganha e faz aumentar o leque salarial. Responsáveis, porque mantiveram abertas as portas e souberam construir pontes de diálogo e negociação, porque sabiam como era importante um acordo de trabalho e de compromissos. Democratas, porque apesar de terem um acordo de princípio, irão submetê-lo, por voto secreto, à decisão dos trabalhadores.

Os trabalhadores da Autoeuropa, com este acordo, mais um, negociado em condições difíceis, olharam para eles próprios, mas também tiveram em conta toda a envolvente da região, as dezenas de empresas, centenas de famílias e milhares de pessoas que dependem desta economia local. Mas também a economia nacional, em particular no âmbito das exportações, ganha muito, porque assegura a manutenção de uma Empresa, fundamental para o país.

Enfim, foi um bom acordo para todos e a demonstração de que com inteligência, responsabilidade, firmeza e flexibilidade nas doses certas e sem obediência a manobrismos tácticos, sindical-partidários, é possível assegurar conquistas e direitos adquiridos.

Fossem assim todos os nossos sindicalistas! E já agora também os nossos empresários!

2005 Dezembro 14

4- Alegre, pátria e bandeira

Nunca gostei da utilização da palavra “pátria” no discurso político. Também não gosto da utilização pungida do hino nacional e do frenesim pela bandeira nacional. Aceito e contemporizo em certas circunstâncias muito particulares, não como a apologia de uma superioridade, antes como uma benquerença por algo que sentem como seu.

Pátria e nacionalismo, querem dizer exactamente o mesmo, objectivamente, por mais que digam que não. Pátria e nacionalismo são palavras ouvidas e mais que ouvidas por diferentes nacionalismos, ainda hoje presentes, em alguns sectores da sociedade, sejam de feição fascista, republicana, socialista, comunista ou maçónica.

O nacionalismo de qualquer natureza é um erro e um indicador de uma ideia de superioridade. Sempre foi assim. Esse é o seu traço fundamental. É o orgulho pateta de quem julga a sua cultura, a sua história, a sua vocação, a sua etnia, os seus valores, melhores e mais preparados que os outros.

O nazismo, o fascismo, as políticas imperialistas, o colonialismo, são expressões desta superioridade doutrinal, pretensamente, investidos por um qualquer poder divino que lhes atribuiu uma qualidade superior e universalista. Foram estas “aptidões” que durante muitos anos, justificaram a nossa presença colonialista em muitas partes do mundo, como os “grandes civilizadores” e que foi a imagem da marca das políticas imperiais de Salazar, em particular em África.

Pátria ou nacionalismo transportam uma ideia de superioridade que é bem patente agora no discurso de Alegre ao invocar a “vocação universalista portuguesa” para lembrar e associar o "novo" Portugal, à época dos descobrimentos e a uma posição cimeira de Portugal no mundo.

São palavras sem sentido e perigosas. Nós podemos e devemos ter orgulho em muitos acontecimentos do nosso passado. Podemos e devemos gostar do nosso país, da terra onde nascemos, onde ganhamos raízes. Mas, somos parte de um mundo, onde vivem, convivem e se cruzam, diferentes etnias, religiões, culturas, todos iguais, todos diferentes, onde mais tarde ou mais cedo, seremos a síntese de tudo isso.

O nacionalismo ou o patriotismo não são uma identidade nacional. A unidade em volta do conceito de pátria, torna invisíveis as desigualdades sociais ou os conflitos de classe. Não há nacionalismos melhores e piores. Eu não posso estar com um Belmiro porque é da minha pátria, contra um trabalhador explorado na China, porque não é da minha pátria. Eu não posso estar do lado do Belmiro alegre e patrioticamente concertado, contra qualquer trabalhador explorado de qualquer parte do mundo, só porque não é da minha pátria.

O patriotismo recuperado do Alegre ou um hino nacional cantado numa sessão do PCP, são reminiscências de um passado de “glória”, muito nacionais e fechadas ao mundo e por isso perigosos num mundo globalizado e transfronteiriço.

Convém lembrar, não há muito tempo, o sucedido na França com as “passagens” de votantes habituais do partido comunista e nos socialistas republicanos, directamente para Le Pen, por causa dessa defesa desses “nacionalismos”, habilmente aproveitado pelo outro “nacionalismo”.

Portanto Alegre, ao contrário do que dizem alguns, não trouxe nenhum contributo inovador à esquerda, pelo contrário, as suas posições, como a de outros, que se fecham aos novos tempo (em que tudo o que vem de fora é mal – mesmo sendo trabalhadores), desconsidera a luta dos trabalhadores imigrantes e tem uma posição retrógrada sobre o mundo nada adequado a um homem de esquerda que se opôs ao fascismo.

2005 Dezembro 30

3- Um profundo nojo

O trabalhador por contra de outrem que não exerce funções de direcção é, em regra, um tarefeiro. Faz o que lhe mandam, acata ordens, executa com competência, exerce com brio, pugna pelos objectivos, trabalha mais horas, empenha-se por aprender, é aplicado, inventivo, polivalente, respeitoso e desenrascado.

Quem trabalha numa empresa sabe que esta é a regra. Há excepções, naturalmente.

Mas dependendo de outros, o trabalhador tem uma margem de manobra limitada. Quem define as regras, os métodos, os meios humanos e técnicos, a formação especializada, as opções estratégicas, as metas, são os dirigentes e os empregadores.

Por outro lado, também não são os trabalhadores, quem traça os eixos em que assenta o progresso! Quem faz as escolhas do modelo económico e social! Quem interfere nas grandes opções dos planos de crescimento e desenvolvimento estratégico! Quem aprova as leis! Quem governa! Quem manda! Quem decide!

Os cidadãos e os trabalhadores em geral, são convidados a votar de quatro em quatro anos. Até lá não se vislumbram, chamamentos à participação cívica. Ou se criam estruturas amplas de observação, discussão ou de decisão participada. O que se vê é os partidos enxameados de oportunistas, de carreiristas, de interesseiros.

É por isso que há falta de competência, de visão estratégica, do conhecimento, de lucidez, mas também de excesso de ambição, de mentira, de oportunismo, mas também da ladroagem, das “máfias” de interesses cruzados, empurram para os trabalhadores e em geral para os suspeitos do costume a responsabilidade pelo estado do país.

É por isso que quando ouço o discurso de Natal do Sr. Primeiro-Ministro, “aos portugueses de boa vontade” e agora a apresentação de aumentos de 1,5 por cento de aumento aos funcionários públicos, sinto um profundo nojo.

2005 Dezembro 28

2- O Bloco nisto é igual aos outros

Aproximam-se as eleições autárquicas e os partidos vão anunciando os seus cabeças de lista um pouco por todo o País.

Pelo que se tem visto da esquerda à direita, os partidos estão a escolher figuras que há pouco tempo foram eleitos(as) para a Assembleia da República, para um mandato de uma legislatura, e a que só razões muito ponderosas os deveriam levar a renunciar ao cargo.

Não é isto que acontece. A maioria dos deputados saem para qualquer outro sitio ou acumulam lugares, prejudicando o seu desempenho, para ganhar mais dinheiro ou mais estatuto ou por simples desinteresse.

Os partidos usam a imagem desses deputados como primeiras rostos às Câmaras, para, ardilosamente, conquistar votos. Não sei se isso resulta pois estão a fazer-nos passar por parvos.

Ao concorrer ao lugar é suposto pensar que vão exercer o lugar se forem eleitos. Não é isso que tem sucedido e exceptuando o Presidente, os restantes, retomam o seu lugar na Assembleia.

Ora, isto é desonestidade política. A não ser que o anunciem antes. O que não vi acontecer.

Aqui, neste ponto em concreto, o Bloco de Esquerda, tem sido igual aos outros. Mas, continuo a manter a confiança política numa força que veio arejar a cena política.

27 Junho 2005

1- Como explicar

Jerónimo de Sousa foi à China a convite do Partido Comunista Chinês. A China, do PCC, governa o País explorando uma imensa mão-de-obra e de baixos custos, com vencimentos miseráveis e abusando do recurso ao trabalho infantil, sem respeito pela dignidade humana e sem direitos sociais. É a exploração capitalista (de Estado) selvagem no seu melhor! 

À custa destas crueldades a China, expande-se e nos têxteis é já o maior exportador do mundo. A indústria nacional dos têxteis está em enormes dificuldades e não consegue competir (e também tem responsabilidades, pois não soube modernizar-se e adquirir novas competências), e as empresas fecham atirando para o desemprego milhares de trabalhadores, sempre os mais sacrificados. 

 O Partido Comunista Português deve explicar-se porque mantém estas relações de amizade de "partidos irmãos" e aceita estes convites. Qual a diferença, neste comportamento com "O Grande Capital e Certas Multinacionais?"

 15 Junho 2005