- Os métodos de datação em Arqueologia

Um dos maiores problemas que se coloca à compreensão do cidadão comum a respeito da Pré-História radica na incredulidade deste quando se referem factos ocorridos há dezenas ou centenas de milhar de anos, evocando uma escala temporal que para ele não faz sentido. Procurando evitar uma linguagem demasiado técnica e científica vamos tentar transmitir os aspectos mais importantes deste assunto relacionado com a escala do tempo, apresentando algumas técnicas a que os investigadores recorrem para determinar aquelas idades remotas, com tantos e impressionantes zeros à direita. Esperamos, deste modo, contribuir para o esclarecimento acerca da fundamentação das periodizações históricas, tantas vezes baralhadas pela imaginação popular e pelos asnos de Hollywood que, frequentemente, misturam Aztecas, Neandertais e dinossauros.

a importância da periodização em história

 

Uma grande parte do trabalho dos arqueólogos consiste em estabelecer uma cronologia, e para isso recorriam, antigamente, apenas a métodos de datação relativa. Estes baseavam-se no facto de que se os terrenos não tinham sido revolvidos, a camada mais próxima da superfície seria a mais recente. Desta forma era possível calcular a idade das últimas camadas e também dos fósseis nela encontrados. Mas estes métodos não eram exactos, há muitas zonas do planeta onde não existem sedimentos e há zonas onde os terrenos sofreram falhas e outras transformações. O avanço do conhecimento das origens do homem só é possível devido ao melhoramento dos métodos de datação. Antes de se chegar ao processo de datação absoluta a margem de erro era muito grande e por vezes levava os especialistas a enganarem-se.

Em Inglaterra, no princípio do século, um paleontologista amador anunciou que tinha descoberto um crânio de um antepassado do homem. Este facto agitou o mundo científico de então e os especialistas em particular. Só passados quarenta anos se aperceberam que se tratava simplesmente de um crânio de um homem moderno, ao qual um indivíduo pouco escrupuloso tinha adaptado o maxilar de um orangotango. Naquela época os cientistas não dispunham de meios muito seguros para procederem à investigação. Felizmente, hoje, podemos contar com métodos de datação absoluta, sendo mais comum o do Radiocarbono ou Carbono 14 (C14).

Na arqueologia a datação dos objectos, ossos ou instrumentos tem uma importância enorme, pois é com base nesses dados que é feita a maior parte da reconstituição da pré-história.

A Intuição de um dos pais da bomba atómica Willard Frank Libby, permitiu que a Ciência encontrasse um meio eficaz para estudar o passado, através do Carbono 14. Libby demonstrou que as substâncias radioactivas se formam devido ao constante bombardeamento pelos raios cósmicos e descobriu que quando esses raios atravessam a atmosfera atingem os átomos de azoto. Esses atómos de azoto perdem um protão e ganham um neutrão ao mesmo tempo que se transformam em Carbono 14 radioactivo. O C14 liga-se imediatamente ao oxigénio do ar e dá origem ao dióxido de carbono. É na forma de dióxido de Carbono radioactivo que o C14 se encontra na Natureza, as plantas são as primeiras a absorvê-lo, durante a fotossíntese, e incorporam-no nos seus tecidos, é assim que todos os seres vivos que consomem plantas absorvem o C14.

equipamento para técnicas de radiocarbono

 

Os átomos de C14 são instáveis e desintegram-se, isto é, convertem-se espontaneamente em azoto. No entanto, durante a vida de um organismo os átomos de C14 contidos nos tecidos são constantemente renovados através da respiração e da alimentação. Quando o organismo morre os átomos desintegram-se, o seu valor mínimo desce para metade em cada 5730 anos, assim, medindo a quantidade de C14 que se encontra num osso por exemplo, e comparando-o com a de um ser vivo similar, os especialistas conseguem calcular o tempo decorrido desde a morte do organismo.

A quantidade de C14 contida numa amostra pode ser calculada de duas maneiras: - combustão da amostra para a transformar em C12, o qual é seguidamente reduzido ao estado de gás monóxido de carbono, de novo por combustão, e a sua introdução, misturado com dióxido de carbono extremamente purificado, num contador de gás proporcional. O uso de um solvente, como o benzeno, permite utilizar um contador de cintilações. Desta forma tem sido possível obter medidas muito exactas para datar exemplos com cerca de 70 mil anos; - o segundo processo, chamado Espectometria de Massa por Aceleração, permite contar os átomos de C14 directamente, em vez de medir a proporção de elementos radioactivos. A maior vantagem desta técnica é que permite datar amostras que contêm pouco carbono, na verdade precisa de mil vezes menos carbono do que os medidores de radioactividade habituais.

Quando os arqueólogos necessitam determinar a idade de objectos que contêm pouco carbono, como por exemplo a cerâmica ou os utensílios de sílex pré-históricos, recorrem à Termoluminescência em vez de considerarem o desaparecimento de um elemento radioactivo como o C14. Para determinarem a idade de um objecto por este processo, calculam as radiações a que esteve sujeito ao longo dos anos (p. ex. um utensílio de sílex foi submetido a dois tipos de radiação, a emitida pelos próprios elementos radioactivos contidos no sílex e a radiação do solo onde esteve enterrado desde que foi utilizado pelo homem pré-histórico), estas radiações afastam os electrões dos átomos do mineral mineral de que é composto o sílex, os electrões são capturados pelas fendas estruturais do mineral e vão-se acumulando nestas “armadilhas” ao longo dos anos. Quando o utensílio é aquecido a uma temperatura de 500 graus Celsius, os electrões cativos libertam-se imediatamente e emitem uma enorme luminosidade chamada termoluminescência. É por este método que se determina a idade dos utensílios de sílex e, graças a ele, podem datar-se objectos de há cem ou trezentos mil anos, ultrapassando assim o limite da aplicação do método de datação pelo C14.

equipamento para Termoluminescência

 

O trabalho dos investigadores não se limita à datação de fragmentos de sílex, esse é apenas um dos passos de um trabalho mais complexo e vasto cujo objectivo é propor um modelo global sobre as condições de vida que existiram no passado. Para atingir esse objectivo estudam também as condições climáticas que se sucederam ao longo do tempo no nosso planeta. Todos estes conhecimentos permitem compreender melhor a razão pela qual algumas espécies animais e vegetais foram favorecidas em detrimento de outras.

os anéis de crescimento de uma árvore

 

Um dos métodos mais eficazes para conhecer o tipo de clima é a Dendrocronologia, uma ciência que estuda o crescimento das árvores. Um ano de crescimento corresponde a um determinado anel de Verão e um outro de Inverno. Facilmente observável num corte transversal do tronco, a espessura de cada anel permite identificar as condições climáticas mais ou menos favoráveis. Chegou-se a muitas conclusões através de estudos feitos numa variedade de pinheiro, o pinnus actisceta. Algumas espécies têm cerca de quatro mil anos, outros, já mortos, mas muito bem conservados permitem aos investigadores recuar oito mil anos.

análise dendrocronológica

 

Mas se quisermos informações sobre o clima de um período ainda mais remoto há outra disciplina científica indispensável: A Palinologia dedica-se ao estudo dos grãos de pólen que se acumulam em lagos, turfeiras ou estuários. Em condições favoráveis, os grãos de pólen das plantas com flor podem conservar-se quase indefinidamente. Estes grãos contém as células sexuais masculinas das plantas, levados pelo vento, pelos insectos e por outros meios, têm que encontrar as células sexuais femininas para que ocorra a fecundação. Os esporos desempenham a mesma função em relação aos cogumelos, aos musgos e aos fetos. Os pólenes e os esporos têm apenas alguns mícron, mas estão protegidos por um invólucro muito resistente aos agentes químicos e atmosféricos, permitindo aos grãos manterem-se em perfeito estado de conservação quando caem em lugares abrigados do contacto com o oxigénio. Os milhares de grãos e esporos que as plantas produzem anualmente são dispersos pelo vento nas áreas circundantes, quando caem integram-se nos sedimentos, ano após ano.

registo microscópico de grãos de pólen

 

Para conhecer a história da vegetação, o palinologista começa por recolher amostras do solo. Já no laboratório, extrai o pólen e através de um tratamento químico e das diferenças de densidade, retira partículas minerais e orgânicas das superfícies dos esporos e dos grãos de pólen, possibilitando assim a sua identificação ao microscópio. Uma análise estatística permite calcular as proporções relativas de cada espécie de plantas, e o tipo de vegetação obtido a partir da análise destes grãos permite recontituir o clima de determinado período ou região.

O conhecimento dos climas do passado baseia-se portanto no estudo dos grãos de pólen das comunidades vegetais e de factores climáticos como a temperatura e a precipitação. Assim, tendo como referência tudo quanto observam na actualidade, os palinologistas conseguem reconstituir peleoclimas e paleoambientes. O estudo palinológico de uma região proporciona-nos imensa informação, por exemplo a vegetação dominante nos períodos inter-glaciares era constituída por nenúfares e outras plantas aquáticas, depois apareceram as primeiras árvores, entre as quais o junípero e a bétula, o solo tornou-se cada vez mais rico em matéria orgânica e estas espécies pioneiras forma substituídas por comunidades arbóreas em que dominavam os carvalhos e as aveleiras, estas árvores prosperaram nas temperaturas médias que prevaleceram durante quatro ou cinco mil anos. Mais tarde, a descida da temperatura resultante de um novo período glaciar esteve na origem dos bosques de faias e abetos e, finalmente, com o aparecimento do homem as florestas foram, em grande parte, destruídas para dar lugar aos cereais.

Para além dos métodos referidos, Radiocarbono, Dendrocronologia e Palinologia existem ainda muitos outros que, tirando partido do avanço constante do conhecimento científico e das suas aplicações tecnológicas, vão substituindo rapidamente os métodos de datação relativa baseados sobretudo na Tipologia, Estratigrafia e Comparação Corológica, e permitindo uma decifração cada vez mais exacta do nosso passado remoto.

Alguns desses métodos de datação absoluta como o Paleomagnetismo (se conhecermos as variações do campo magnético – declinação, inclinação – de um dado lugar em todas as épocas, é fácil comparar com este quadro uma cerâmica de que se tenha determinado com precisão a orientação das moléculas), a análise dos Teores Químicos dos ossos, e os métodos do Urânio-Tório, Potássio-Árgon (o Potássio 40 desintegra-se durante um período de 1.400.000 anos, durante o qual liberta Árgon. A sua utilização permitiu datar de 1.750.000 anos os restos mortais do austrolopiteco das camadas mais profundas de Olduvai) e a Fissão Nuclear (a datação por fissão nuclear do urânio 238 permite ir até 4 ou 5 biliões de anos, ultrapassando de longe as possibilidades do C14 apenas aplicável a matérias orgânicas) permitem hoje, aos investigadores, datações superiores a 10 milhões de anos.

Outros métodos concorrem, também, para os estudos relacionados com a presença e o protagonismo da humanidade: Arqueomagnetismo, Hidratos de Obsidiana, Aminoácidos e Ultra-sons aos ossos (é um dado adquirido que a velocidade de propagação dos sons nos ossos decresce com a sua idade, segundo uma curva logarítmica. Por isso, podemos datar com auxílio dos ultra-sons ossos relativamente recentes, na prática, com menos de 1.000 anos, já que a velocidade do som diminui para metade depois de 500 anos e para três quartos somente após 5.000 anos).

pontas de setas em sílex

 

Em 1994 um grupo de espeleólogos descobriu na Serra de Montejunto vários esqueletos. Trata-se de uma necrópole do Neolítico, época charneira da Pré-História da humanidade, quando o homem passou de predador, de caçador-recolector a agricultor e a produtor. O conjunto dos testemunhos dessa comunidade de pastores e agricultores que há cerca de 5.000 anos habitaram a Serra de Montejunto e que no fim das suas vidas foram sepultados no Algar do Bom Santo é como a página de um livro que conta a história da ocupação humana da Península Ibérica, desde há meio milhão de anos. Para ler as páginas deste livro os investigadores recorrem, entre outras técnicas e processos, a alguns dos métodos de datação absoluta que acabámos de enunciar. Não obstante não se ter alcançado ainda uma precisão total nas datações, é inequívoco que estas técnicas e métodos permitem localizar no tempo, com apreciável margem de segurança, acontecimentos ocorridos há milhares de anos.

 

Fontes e obras consultadas:

“Usage de Methode de Datation par Thermoluminescence en Geologie du Quaternaire et Phehistoire” - D. Miallier/S.Sanzelle/J.Faïn

“Pré-História de Portugal” - Armando C. Ferreira da Silva/Luís Raposo/Carlos Tavares da Silva (Universidade Aberta)

“Terra Humana – O Algar do Bom Santo” – Paulo Costa - RTP 1995

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