Revista Espírita de 1865 

(2a Parte)

 De Allan Kardec, tradução de Júlio Abreu Filho, publicada pela EDICEL

 

1. Reportando-se à cura de Rosa N..., de Barcelona, a qual padecera de um processo obsessivo por 14 anos, Kardec observa: “Suponhamos que a mulher Rosa tivesse acreditado nas asserções do pregador e que tivesse repelido o Espiritismo. Que teria acontecido? Não se teria curado; teria caído na miséria, por não poder trabalhar; ela e o marido talvez tivessem amaldiçoado a Deus, ao passo que agora o bendizem, e o Espírito mau não se teria convertido ao bem.” O Codificador adverte então que, do ponto de vista teológico, três almas foram salvas pelo Espiritismo, mas elas se perderiam se atendida a vontade do pregador.  (Págs. 172 e 173.)

2. Prosseguindo a sua análise, Kardec indaga: Se o diabo é o verdadeiro ator em todos os casos de obsessão, de onde vem a impotência dos exorcismos? Ora, a volta do obsessor ao bem e a cura do doente provam que não é o demônio que provoca a obsessão, mas um mau Espírito suscetível de se melhorar. Enquanto o exorcismo irrita o obsessor, o doutrinador espírita lhe fala com doçura, procura fazer vibrar nele a corda do sentimento, mostra-lhe a misericórdia de Deus e, fazendo-o entrever de novo a esperança, consegue trazê-lo ao caminho do bem. Esse é o segredo da eficácia do método espírita. (Pág. 173.)

3. No caso de Rosa N... um fato particular se verificava: a suspensão das crises durante a gravidez. De onde vinha isto? Eis a explicação de Kardec: “O Espírito obsessor exercia uma vingança. Deus o permitia para servir de provação e de expiação à mãe e, além disso, porque, mais tarde, a cura desta devia melhorar o Espírito. Mas as crises durante a gestação poderiam prejudicar a criança.” Foi para evitar que sofresse o inocente que ao perseguidor foi tirada toda a liberdade de ação durante esse período. (Pág. 174.)

4. Em um jornal da Rússia, denominado Doukhownaia Beceda (Práticas Religiosas), dois jovens de Moscou publicaram um artigo contendo violentas críticas às sessões realizadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de que eles teriam participado em novembro último. Kardec os chama de espiões, pessoas que diziam agir de boa fé e, no entanto, relataram de forma mentirosa o que ali viram. (Págs. 174 a 181.)

5. Em sua resposta aos jovens russos, Kardec arrola as inverdades e bobagens constantes do artigo e, com veemência, refuta a informação divulgada pelos rapazes de que era preciso pagar para assistir às reuniões da Sociedade Espírita de Paris. (Págs. 175 a 181.)

6. A nova tática dos adversários do Espiritismo – observa a seguir o Codificador – estava evidente: não podendo combater lealmente as idéias espíritas, eles partiam decididamente para a mentira e a calúnia, tentando com isso denegrir a doutrina e os espiritistas. A luta estava, pois, longe de chegar ao fim, o que não se deveria lamentar, porquanto foi pela oposição que lhe fizeram que o Espiritismo cresceu. A exemplo do Cristianismo, que não foi abalado pelas perseguições e mesmo cresceu por seus mártires, o Espiritismo, que é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência e desprendido dos abusos, crescerá do mesmo modo, sob a perseguição, porque – como a doutrina cristã – ele também é uma verdade.  (Págs. 181 e 182.)

7. O Espiritismo – adverte Kardec – tem ainda que passar por duras provas e é aí que Deus reconhecerá seus verdadeiros seguidores pela coragem, firmeza e perseverança que demonstrarem. O meio de evitar as maquinações dos inimigos é seguir o mais exatamente possível a linha de conduta traçada pela doutrina: a sua moral, que é sua parte essencial e inatacável. Praticando-a, não se dá entrada a nenhuma crítica fundada e a agressão se torna mais odiosa e, por isso mesmo, sem credibilidade. (Págs. 183 a 185.)

8. Uma curiosa carta atribuída ao Espírito de Dante, publicada no jornal Charivari, de Florença, recebeu de Kardec um comentário seco. Segundo o Codificador, não se deveria ver na carta “mais que um simples produto da imaginação apropriado à circunstância”, a menos que Dante tenha vindo ditá-la sem que o autor o soubesse. De fato; a carta não possui qualquer conteúdo que justificasse sua publicação.  (Págs. 186 e 187.)

9. O número de julho começa examinando um fato relatado em 4 de junho pelo Grand Journal, de Paris, segundo o qual o pianista N. G. Bach, bisneto do grande João Sebastião Bach (1685-1750), sonhou com uma pessoa que, aparecendo-lhe durante o sono, lhe disse: “A espineta que possuis me pertenceu. Muitas vezes me serviu para distrair meu senhor, o rei Henrique III”. (N.R.: Espineta é um instrumento de cordas percutíveis e teclado, com mecânica e técnica iguais às do cravo.)  (Págs. 189 e 190.)

10. Segundo a aparição, o rei Henrique III, quando moço, havia composto uma ária em homenagem a uma mulher que encontrara numa caçada e pela qual se apaixonara. Era com referida espineta que o seu possuidor executava a ária referida. (Pág. 190.)

11. O fato mais extraordinário ocorreu, porém, na manhã seguinte quando, ao despertar, o sr. Bach encontrou sobre a cama uma página de música, coberta com uma escrita muito fina e notas microscópicas: era a peça musical que Bach ouvira durante o sono.  (Págs. 190 e 191.)

 

12. Albéric Second, o autor da reportagem, acrescentou ao relato a informação de que, segundo o jornal da Estoile, o rei Henrique III tivera, efetivamente, uma grande paixão por Marie de Clèves, marquesa de Isles, morta ainda jovem em 15 de outubro de 1574. Por essa ocasião, um músico italiano, chamado Baltazarini, mudou-se para a França e tornou-se um dos favoritos do rei. Teria a espineta pertencido a ele? (Pág. 191.)

13. Kardec comenta os fatos e esclarece que a página musical só veio às mãos do sr. Bach três semanas depois, quando o mesmo Espírito lhe apareceu segunda vez. Baltazarini fora efetivamente o possuidor da espineta e o responsável pelos fatos relatados pelo jornal parisiense, como esclareceu pessoalmente, por intermédio do médium sr. Morin, em reunião realizada a 9 de junho na Sociedade Espírita de Paris.  (Págs. 192 a 194.)

14. Em sua comunicação, Baltazarini informou que o papel de música ele o tirara de uma peça vizinha ao quarto do sr. Bach, mas a música fora grafada no papel pelo próprio Bach, em Espírito, o qual se serviu de seu corpo como meio de transmissão. A letra da canção fora realmente composta pelo rei Henrique III, que fora amigo íntimo do sr. Bach. (Págs. 194 a 197.)

15. Um Espírito pode prever quem vencerá uma corrida de cavalos? Essa questão foi focalizada numa reportagem publicada também no Grand Journal, de 4 de junho de 1865. Segundo o jornal, uma médium, tendo evocado o Espírito de um dos mais célebres desportistas da França, obteve pelas batidas o nome do vencedor: o cavalo Gontran. Kardec comenta o caso e diz que fatos dessa natureza não são os que melhor servem à causa do Espiritismo. Primeiro, porque são muito raros; segundo, porque falseariam o seu espírito, fazendo crer que a mediunidade é um meio de adivinhação.  (Págs. 197 e 198.)

16. O Espiritismo não tem esse propósito. Os Espíritos vêm para nos tornar melhores e não para nos revelar ou nos indicar os meios de ganhar dinheiro na certa e sem correr perigo. Todos os que, de desígnio premeditado, julgaram encontrar no Espiritismo um novo elemento de especulação, equivocaram-se: as mistificações ridículas e, por vezes, a ruína, em vez da fortuna, têm sido o fruto de seu engano.  (Pág. 199.)

17. Para propagar a crença no Espiritismo há meios mais eficazes e mais morais: as consolações que ele proporciona, o bem que faz, a coragem que dá nas aflições. Diremos, assim, aos que querem servir utilmente à causa e fazer uma propaganda verdadeiramente frutífera: Mostrai que o Espiritismo vos tornou melhores. Fazei que, em vos vendo transformados, cada um possa dizer: “Eis os milagres desta crença; é, pois, uma coisa boa”. A verdadeira propaganda de uma doutrina essencialmente moral se faz tocando o coração e não visando a bolsa. (Pág. 200.)

18. Reportando-se à previsão relativa à corrida de cavalos, observa Kardec que os fatos de previsão desse gênero são muito raros e podem ser considerados excepcionais. Aliás, as predições para dia certo, ou com um caráter de precisão muito grande, devem ser sempre tomadas com suspeitas. Diferentemente se dá com as previsões que os Espíritos fazem acerca dos grandes acontecimentos futuros, as quais têm sua utilidade, para nos manter alertas e nos induzir a marchar no bom caminho. (Págs. 200 e 201.)

19. Falando sobre os sonhos, Kardec diz que é verdadeiramente estranho que um fenômeno tão vulgar tenha sido objeto de tanta indiferença de parte da Ciência e que ainda hoje se esteja a perguntar a sua causa. O sonho, o sonambulismo, o êxtase, a dupla vista, o pressentimento, a intuição do futuro, a penetração do pensamento – afirma o Codificador – não passam de variantes e graus de um mesmo princípio: a emancipação da alma, mais ou menos desprendida da matéria. (Pág. 202.)

20. É evidente – reconhece Kardec – que o Espiritismo não dá conta precisa de todas as variedades que os sonhos apresentam, mas nos oferece o princípio deles, o que já é muito, porquanto os que podemos explicar nos põem na via dos outros. Segundo as explicações dadas por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, em estado de sonambulismo, os sonhos podem-se dividir em três categorias:

1a – os sonhos provocados pela ação da matéria e dos sentidos sobre o Espírito, ou seja, aqueles em que o organismo representa um papel preponderante pela mais íntima união entre o corpo e a alma: a pessoa se lembra claramente do que ocorreu e conserva disso uma impressão durável.

2a – os sonhos chamados mistos, isto é, que participam ao mesmo tempo da matéria e do Espírito: o desprendimento é aí mais completo e a pessoa se lembra dos fatos ao despertar, para os esquecer quase que instantaneamente, a menos que uma particularidade venha despertar a lembrança. 

3a – os sonhos etéreos ou puramente espirituais, isto é, produzidos apenas pelo Espírito, que está desprendido da matéria tanto quanto o pode estar no estado de encarnação: a pessoa não se recorda, ou tem somente uma vaga lembrança de que sonhou e nenhuma circunstância pode trazer à memória os incidentes do sono. (Págs. 202 a 204.)

21. São esses sonhos inconscientes que proporcionam essas sensações indefiníveis de contentamento e de felicidade de que não nos damos conta e que são um antegozo daquilo de que desfrutam os Espíritos felizes.  (Pág. 204.)

22. O esquecimento do sonho é um dos caracteres do sonambulismo. Ora, do primeiro grau de lucidez, por vezes o Espírito passa a um grau mais elevado, que é diferente do êxtase, e no qual adquire novas idéias e percepções mais sutis. Saindo desse segundo grau, para entrar no primeiro grau, não se lembra do que disse

nem do que viu. Em seguida, passando para o estado de vigília, há novo esquecimento. Existe, pois, grande analogia entre os dois estados sonambúlicos e as diversas categorias de sonhos. Para cada degrau que sobe, o Espírito eleva-se acima de uma camada de garoa e suas percepções tornam-se mais claras. A vontade do magnetizador pode por vezes dissipar essa garoa, esse véu fluídico, e propiciar a lembrança. (Págs. 204 e 205.)

23. Por que a educação moral dos desencarnados é mais fácil que a dos encarnados? Essa questão foi suscitada na Sociedade Espírita de Paris pelo seguinte fato: um jovem cego há 12 anos tinha sido recolhido por um espírita dedicado, que se propôs curá-lo pelo magnetismo, pois os Espíritos haviam dito que isso era possível. Ocorre que o jovem, em vez de se mostrar reconhecido pela bondade do amigo, só teve ingratidão e mau procedimento, dando provas do pior caráter. (Pág. 205.)

24. A enfermidade do rapaz não era incurável, explicou São Luís. Uma magnetização espiritual praticada com zelo, devotamento e perseverança certamente teria êxito, ajudada por um tratamento médico destinado a corrigir seu sangue viciado. Sua visão teria sensível melhora, se os maus fluidos de que estava cercado não opusessem um obstáculo à penetração dos bons fluidos. “No estado em que se encontra – ajuntou São Luís –, a ação magnética será impotente enquanto, por sua vontade e sua melhora, não se desembaraçar desses fluidos perniciosos. É, pois, uma cura moral que se deve obter, antes de buscar a cura física.” (Págs. 205 e 206.)

25. Um retorno sério sobre si mesmo era a única coisa que poderia tornar eficazes os cuidados de seu magnetizador; do contrário, perder-se-ia o pouco de luz que lhe restava e novas provações o acometeriam. Os maus Espíritos que o assediavam só agiam assim porque eram atraídos pela afinidade com os seus maus pendores. À medida que se melhorasse, eles se afastariam e a ação magnética produziria o efeito desejado. (Pág. 206.)

26. A instrução precedente revela um fato importante: o obstáculo oposto, em certos casos, pelo estado moral de um indivíduo à cura dos males físicos. E foi esse fato que motivou a pergunta inicial proposta aos Espíritos na Sociedade Espírita de Paris (veja o item 23). (Pág. 206.)

27. Seis respostas foram obtidas, todas concordantes entre si. A Revista transcreve duas delas, as que foram assinadas por Erasto e Lamennais, que assim se exprimiram: I – Como o desencarnado vê manifestamente o que se passa e os exemplos terríveis da vida, compreende mais rapidamente o que lhe dizem e recomendam. II – A adversidade amadurece o pensamento: é o que se dá com os Espíritos, que vêem de perto as conseqüências de seu passado, o que não ocorre com os encarnados, envolvidos que estão pelas ilusões e quimeras da existência corpórea. III – Entre os encarnados, uns e outros são arrastados pela vida mesma, ao passo que os desencarnados vêem, escutam e se arrependem com melhor vontade. IV – Os desencarnados aos quais a matéria não mais impõe suas leis e não mais fornece meios de satisfazer seus maus apetites e, por isso, não têm mais desejos inconfessáveis, são mais aptos a aceitar os conselhos que lhes são dados. (Págs. 206 a 208.)

28. Aludindo à morte de vários companheiros da Sociedade Espírita de Paris, assunto suscitado em reunião realizada em maio, São Luís grafou linda mensagem em que, pedindo que não os lamentassem, informa que novos companheiros viriam em substituição dos que partiam. No final, ele recomenda aos espíritas que estudem de maneira séria e digna a doutrina e, sobretudo, modifiquem o que ainda tragam de imperfeição, porquanto a morada que os aguarda é muito bela, mas é preciso tornar-se digno para habitá-la. (Págs. 208 e 209.)

29. Koenigsfeld, uma comuna de apenas 400 habitantes, situada perto de Villingen, na Floresta Negra, jamais registrou em cinqüenta anos de existência um caso qualquer de ofensa às leis, constituindo exemplo de comunidade em que a solidariedade e a caridade imperam. Lamennais diz, em mensagem na Sociedade Espírita de Paris, que a pequena cidade é, em miniatura, o que o mundo poderá ser um dia, quando a caridade for praticada por todos os homens. Kardec concorda e observa que é o egoísmo que causa a maior parte dos males da Terra, porque mata a benevolência, a condescendência, a indulgência e todas as qualidades que fazem o encanto e a segurança das relações sociais. (Págs. 209 e 210.)

30. Tudo – diz o Codificador – está submetido à lei do progresso. Os mundos também progridem física e moralmente e, de mundo de expiação e provas, a Terra tornar-se-á também um mundo feliz, um lugar de repouso para os bons Espíritos, um mundo não mais de punição, mas de recompensa. (Págs. 210 e 211.)

31. Após transcrever carta de um correspondente da Revista, o qual relata alguns casos de aparições espontâneas de Espíritos, Kardec diz que fatos dessa natureza são numerosos e só o Espiritismo dá a respeito deles uma explicação racional. É preciso, porém, cuidado para verificar a sua autenticidade, evitando-se atribuir cegamente aos Espíritos tudo o que ocorre ao nosso redor. (Págs. 211 a 213.)

32. Segundo o periódico “A Patrie” de 18/3/1865, o cardeal Wiseman, que acabara de falecer na Inglaterra, acreditava no Espiritismo. De acordo com o jornal Spiritualist Magazine, o cardeal havia permitido que dois sacerdotes continuassem seus estudos e servissem como médiuns, dizendo-lhes: “Eu mesmo creio firmemente no Espiritismo e não poderia ser um bom membro da Igreja se tivesse a menor dúvida a respeito”. Após desencarnar, valendo-se da sra. Delanne como médium, Wiseman confirmou a informação. Sim, ele fora espírita convicto porque o Espiritismo é a realização de todas as profecias, o desenvolvimento da religião, o esclarecimento dos mistérios, o caminho reto que conduz ao verdadeiro objetivo e à perfeição. (Págs. 213 e 214.)

33. Manifestando-se sobre o assunto, Lamennais adverte: “A religião espiritualista é a alma do Cristianismo: é preciso não esquecer. Em meio do materialismo, do culto protestante e do católico, o cardeal Wiseman ousou proclamar a alma antes do corpo, o espírito antes da letra”. “Essas espécies de coragem são raras nos dois cleros, e é um espetáculo incomum, com efeito, o ato de fé espírita do cardeal Wiseman.” (Pág. 216.)

34. Na seção de livros, a Revista anuncia a nova edição do livro O que é o Espiritismo, de Kardec, revista e consideravelmente aumentada. Ali se informa também que estava no prelo, para aparecer em agosto, como de fato ocorreu, o livro O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo. (Págs. 216 e 217.)

35. Que ensina de novo o Espiritismo? Este é o tema de abertura do número de agosto de 1865, que mereceu de Kardec alentadas considerações. (Págs. 219 e 220.)

36. Kardec admite, inicialmente, que o Espiritismo nada inventou, porque as verdades são eternas e, por esse motivo, devem ter germinado em todas as épocas. É o caso dos ensinamentos relativos à reencarnação, às penas eternas, à imortalidade, ao perispírito e a tantos outros. (Págs. 219 e 220.)

37. Não teria sido, porém, alguma coisa havê-los tirado do esquecimento? ter provado o que antes estava em estado de hipótese? ter demonstrado a existência de uma lei no que parecia fortuito?  (Pág. 220.)

38. O Espiritismo – observa Kardec – tem ainda muito o que ensinar e jamais pretendeu ter dito a última palavra. Seu a, b, c foram as mesas girantes, mas ele não parou aí e deu desde então, e em poucos anos, passos bem grandes. (Pág. 220.)

39. Os que reclamam novidades e novas revelações precisam antes esclarecer se já aproveitaram o que a doutrina espírita ensinou, porquanto só com o auxílio dessas instruções, se as aproveitarem, é que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior.  (Pág. 221.)

40. O Espiritismo tende para a regeneração da humanidade. Ora, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral, resulta daí que seu objetivo essencial, providencial, é o melhoramento de cada um. Os mistérios que ele nos pode revelar são a parte acessória, porque isso de nada adianta se não formos melhores. É, pois, no seu melhoramento individual que todo espírita sincero deve trabalhar, antes de tudo. Só aquele que dominou suas más inclinações aproveitou realmente o Espiritismo e receberá a sua recompensa. Eis por que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à sociedade. (Pág. 221.)

41. Os resultados do Espiritismo, contudo, não se limitam apenas aos ensinos morais, mas abrangem aspectos outros que adiante sintetizamos: I – Ele fornece, como todos sabem, a prova patente da existência e da imortalidade da alma. II – Pela firme crença que desenvolve, exerce uma ação poderosa sobre o moral do homem, levando-o ao bem, consolando-o nas aflições e dando-lhe força e coragem nas provações da vida. III – Retifica as idéias falsas a respeito do futuro da alma, o céu, o inferno, as penas e as recompensas, descerrando aos olhos do homem a vida futura. IV – Revela o que se passa no momento da morte e a desvela ao homem. V – Com a pluralidade das existências abre um novo campo à filosofia e explica a causa das misérias humanas e das desigualdades sociais. VI – Dá a conhecer o mecanismo das sensações e das percepções da alma e dos fenômenos espíritas. VII – Prova as relações existentes entre o mundo corporal e o mundo espiritual, mostrando neste último uma das forças ativas da natureza. VIII – Revela a causa das obsessões e dá os meios de as curar. IX – Faz-nos conhecer as verdadeiras condições da prece e seu modo de ação, revelando-nos a influência recíproca entre encarnados e desencarnados. X – Dá-nos a conhecer a magnetização espiritual, antes ignorada, abrindo ao magnetismo uma nova via e conferindo-lhe um novo e poderoso elemento de cura. (Págs. 222 e 223.)

42. Dizem que os espíritas só sabem o a, b, c do Espiritismo. Aprendamos, então, a soletrar esse alfabeto – aconselha Kardec. E isso não é problema para um dia, porque passará muito tempo antes de haver o Espiritismo esgotado todas as combinações e recolhido todos os frutos. Os espiritistas já lançaram a semente em toda a parte? não restam mais incrédulos a converter, obsidiados a curar, consolações a dar, lágrimas a enxugar? Aí estão nobres ocupações que valem bem a vã satisfação de as saber um pouco mais e um pouco mais cedo que os outros.  (Págs. 224 e 225.)

43. A Revista transcreve do livro intitulado: Mês de Maria, do padre Défossés, o relato feito pelo padre Dégenettes, antigo cura da igreja de Notre-Dame des Victoires, de Paris, o qual explica como nasceu a 3 de dezembro de 1836 a obra da arquiconfraria do Coração de Maria. O padre revela ali ter sido claramente intuído por uma voz que, vindo de seu íntimo, lhe dizia: “Não farás nada, teu ministério é nulo. Vê, há quatro anos estás aqui; que ganhaste? Tudo está perdido, este povo não tem mais fé. Por prudência deverias retirar-te!” Noutro momento, a voz acrescentou: “Consagra tua paróquia ao santíssimo e imaculado Coração de Maria”. Como a voz se fez ouvir outra vez, o padre, para se livrar dessas idéias, passou a compor os estatutos da associação, o que logrou fazer com extrema facilidade. Assim nasceu a arquiconfraria. (Págs. 225 a 228.)

44. Comentando o fato, Kardec diz que o fenômeno da mediunidade auditiva foi ali de máxima evidência. A reprodução do fenômeno é indício certo de que ele se realizou em virtude de uma lei e que, por isso, não sai da ordem natural. Aliás, fatos análogos ao do padre Dégenettes estão no número dos mais vulgares entre os mediúnicos; as comunicações por via auditiva são muito numerosas. (Pág. 228.)

45. O sr. Delanne, que transmitiu a Kardec o fato acima relatado, juntou ao seu relato uma comunicação do Espírito do padre Dégenettes, obtida pela sra. Delanne, na qual o sacerdote confirma ter possuído na última existência corpórea o dom da mediunidade, que ele então ignorava. Diz Kardec que o padre Dégenettes comunicou-se depois diversas vezes, ditando palavras dignas da elevação de seu Espírito. (Págs. 228 a 230.)

46. A respeito desse padre, Kardec refere um caso curioso que Dégenettes relatou certa vez durante um sermão proferido em sua igreja: Uma pobre operária sem trabalho, depois de orar na igreja, encontrou na saída um senhor que lhe disse: “Buscai trabalho; ide à rua tal, procurai a sra. Fulana de tal: ela vo-lo arranjará.” A pobre agradeceu e foi ao endereço indicado, onde realmente precisavam de uma empregada. O que intrigou a senhora foi o fato de ela ficar sabendo, visto que nada dissera a qualquer pessoa. A operária começou a trabalhar e logo deparou um retrato no salão. “Olhai, senhora”, disse ela, “o senhor que me mandou foi este” e apontou o retrato. “Impossível”, respondeu-lhe a dona da casa, “este retrato é de meu filho morto há três anos”. A operária replicou: “Não sei como é isto; mas o reconheço perfeitamente”. (Pág. 230.)

47. A Revista reproduz do jornal “Indépendant de Douai” de 6 e 8 de julho de 1865 reportagem a respeito de manifestações de efeitos físicos ocorridas em Fives, perto de Lille, segundo a qual uma chuva de projéteis que caíam a certos intervalos quebravam vidraças de casas e atingiam até mesmo pessoas, sem que se pudesse determinar sua causa. Depois de alguns dias, em vez de pedras e pedaços de tijolos, passaram a cair moedas belgas, enquanto os móveis de uma das casas se moviam. (Págs. 230 a 233.)

48. Comentando o fato, Kardec lembra a sua analogia com os fenômenos verificados em Poitiers, Marselha, Noyers e uma porção de outras localidades, observando que em presença de fatos tão contundentes e vistos por numerosas testemunhas a negação já não é mais possível. Os Espíritos disseram que manifestações de toda natureza iriam produzir-se em todos os pontos, e é o que fazem. Os incrédulos não pedem fatos? Ei-los! E têm a vantagem de não serem provocados. Se apesar disso não crêem, que é que se pode fazer? (Pág. 233.)

49. A Revista focaliza o caso de duas crianças nascidas numa família de operários de Paris e atingidas, após o nascimento, de idiotia. Alfredo, o mais velho, então com 17 anos, fora normal até os três anos de idade. Após uma ligeira doença, perdeu o dom da palavra e as faculdades mentais. Paulino, de 15 anos, conservou a razão até os seis anos, quando adoeceu e passou pelas mesmas fases do irmão mais velho.  (Págs. 234 e 235.)

50. Em julho de 1865, reportando-se ao caso, Moki (Espírito) disse que os dois irmãos cumpriam juntos aquela expiação porque juntos estavam quando dos fatos que a motivaram. “Não esqueçais também – disse Moki – que os pais têm sua parte no que aqui se passa.” Mas eles deveriam ser felicitados por não haverem falido, porque essa compensação que não encontram neste mundo eles a encontrarão mais tarde. Os cuidados e a afeição que prodigalizam aos dois filhos bem poderiam ser uma reparação feita a eles, reparação que o estado de constrangimento da família tornava ainda mais meritória. (Pág. 236.)

51. Após transcrever o epitáfio que Benjamin Franklin redigiu e pediu fosse colocado em seu túmulo, Kardec destaca o fato de que Franklin, um dos principais vultos dos EUA, era reencarnacionista e não só acreditava em seu renascimento na Terra, como cria voltar ao mundo melhorado por seu trabalho. Eis o teor do epitáfio: “Aqui jaz, entregue aos vermes, o corpo de Benjamin Franklin, tipógrafo, como a capa de um velho livro cujas folhas foram arrancadas e cujo título e dourado se apagaram. Mas nem por isso a obra ficará perdida, porque há de reaparecer, como ele acreditava, em nova e melhor edição, revista e corrigida pelo autor.” (P. 237.)

52. Na seção de livros, a Revista alude ao livro “O Manual de Xéfolius”, obra atribuída a Félix de Wimpfen, guilhotinado em 1793, a qual se presume publicada em 1788. Embora seja anterior à codificação do Espiritismo, a obra traz inúmeras passagens concordantes com a doutrina espírita, como as referências à lei de causa e efeito, à reencarnação e à importância do amor na felicidade humana. (Págs. 237 a 241.)

53. Evocado na Sociedade Espírita de Paris, o autor do Manual de Xéfolius diz ter sido, em sua existência terrena, um médium inconsciente, como muitos que existem no mundo e não o sabem. A obra, portanto, não lhe podia ser atribuída com exclusividade, porque, ao escrevê-la, ele o fez na condição de instrumento, em parte passivo, do Espírito que então o dirigia. (Págs. 241 a 243.)

54. Duas dissertações mediúnicas encerram o número de agosto de 1865. Na primeira, intitulada “A chave do céu” e assinada pelo Espírito de Lacordaire, o instrutor trata de forma admirável do tema caridade,  para ele “o sinal de nossa grandeza moral”,  “a chave do céu”. Consolar aflições, por boas palavras ou por sábios conselhos, vale infinitamente mais que consolar por socorros materiais; mas a fome, o frio, a doença não se curam apenas com palavras: requerem algo mais daquele que presta o socorro. (Págs. 244 e 245.)

55. Lembrando que Deus, ao colocar o homem no mundo, fornece-lhe também as provisões materiais, de que carece, Lacordaire exalta a importância da caridade e o dever que temos de praticá-la. Se algo nos detém, não há dúvida: é o egoísmo, e Deus o descobre facilmente sob os falaciosos pretextos com que procuramos desculpar-nos. Despojados de nossa opulência, reapareceremos então outra vez na Terra, curvados ao peso da indigência e sofrendo do rico o desdém e a indiferença que no passado mostramos pelo pobre. (Págs. 245 e 246.)

56. Na parte final da mensagem, Lacordaire assinala os deveres que – independentemente da ajuda prestada aos pobres – temos para com os nossos familiares, a quem devemos ensinar que ninguém pode viver

egoisticamente no mundo, mas, sim, sob a égide da solidariedade. “A justiça, diz Lamennais, é a vida; a caridade também é a vida, mais bela e mais doce.” A caridade é a vida dos santos, é a chave do céu. (Págs. 246 e 247.)

57. Dr. Demeure assina a segunda dissertação, intitulada “A fé”. Dizendo que a fé cega teve, durante muito tempo, sua utilidade e sua razão de ser, ele entende que hoje a fé se alia à razão, e ambas, juntas, impedirão que o homem se perca de novo nos caminhos da vida. “É a vossa época, meus amigos – diz o conhecido médico –; segui o caminho, Deus está no fim.” (Págs. 247 e 248.)

58. Um confrade de Lyon pediu a Kardec orientação a respeito da prática da mediunidade curadora pela imposição das mãos. Dizendo que o assunto fora esboçado no Livro dos Médiuns e em muitos artigos da Revista, e resumido no Evangelho segundo o Espiritismo, na parte que trata das preces pelos enfermos e dos médiuns curadores, Kardec lembra que o conhecimento da mediunidade curadora é uma das conquistas que devemos ao Espiritismo, mas que se liga ao magnetismo e abarca não apenas as doenças propriamente ditas, como também as numerosas variedades de obsessões. (Págs. 249 a 251.)

59. Eis de forma sintética os princípios fundamentais que, segundo Kardec, a experiência consagrou relativamente à mediunidade curadora: I – Os médiuns que recebem indicações de remédios da parte dos Espíritos não são médiuns curadores; são simples médiuns escreventes ou médiuns consultores. A mediunidade curadora é exercida pela ação direta do médium sobre o doente, com o auxílio de uma espécie de magnetização de fato ou pelo pensamento. II – O médium curador magnetiza com o fluido dos Espíritos, ao qual serve de condutor. O magnetismo produzido pelo fluido do homem é o magnetismo humano. O que provém do fluido dos Espíritos chama-se magnetismo espiritual. III – O fluido humano está sempre mais ou menos impregnado de impurezas físicas e morais do encarnado; o fluido dos bons Espíritos é necessariamente mais puro e por isso tem propriedades mais ativas, que acarretam uma cura mais pronta. Daí a necessidade absoluta que tem o médium curador de trabalhar a sua depuração moral, segundo o princípio vulgar: “limpai o vaso antes de vos servirdes dele”. IV – O fluido espiritual será tanto mais depurado e benfazejo quanto mais o Espírito que o fornece for puro e desprendido da  matéria. O fluido emanado de um corpo malsão pode inocular princípios mórbidos no magnetizado. As qualidades morais do magnetizador, isto é, a pureza de intenção e de sentimento, o desejo ardente e desinteressado de aliviar, aliados à saúde do corpo, dão ao fluido um poder reparador que pode, em certos indivíduos, aproximar-se das qualidades do fluido espiritual. V – Gastando o seu próprio fluido, o magnetizador se esgota e se fatiga, pois dá de seu próprio elemento vital. O fluido espiritual, mais poderoso, em razão de sua pureza, produz efeitos mais rápidos. Não sendo esse fluido do magnetizador, resulta que a fadiga é quase nula. VI – O Espírito pode agir diretamente sem intermediário sobre as pessoas. Caso aja por um intermediá-

rio, trata-se da mediunidade curadora. VII – O médium curador recebe o influxo fluídico do Espírito, ao passo que o magnetizador tudo tira de si mesmo. Os médiuns curadores, na estrita acepção da palavra, isto é, aqueles cuja personalidade se apaga completamente ante a ação espiritual, são extremamente raros, porque essa faculdade, elevada ao mais alto grau, requer um conjunto de qualidades morais raramente encontradas na Terra. Só esses podem obter, pela imposição das mãos, essas curas instantâneas que nos parecem prodigiosas. Essa faculdade é o privilégio exclusivo da modéstia, da humildade, do devotamento e do desinteresse. VIII – Sendo a mediunidade curadora uma exceção aqui na Terra, resulta daí que, nessas tarefas, existe quase sempre ação simultânea do fluido espiritual e do fluido humano. Todo magnetizador pode tornar-se médium curador, se souber fazer-se assistir por bons Espíritos. Neste caso os Espíritos lhe vêm em ajuda, derramando sobre ele seu próprio fluido, que pode decuplicar ou centuplicar a ação do fluido puramente humano. IX – Nenhuma vontade pode constranger os Espíritos a participar dessa tarefa. Eles se rendem à prece, se fervorosa, sincera, mas nunca por injunção. X – Reconhece-se o médium curador pelos resultados que obtém e não por sua pretensão de o ser. XI – A vontade, embora ineficaz quanto ao concurso dos Espíritos, é onipotente para imprimir ao fluido uma boa direção e uma energia maior. No homem mole e distraído, a corrente é mole, a emissão é fraca. No homem de vontade enérgica, a corrente produz o efeito de uma ducha. XII – A prece, quando fervorosa, ardente, feita com fé, produz o efeito de uma magnetização, que dirige ao doente uma salutar corrente fluídica. XIII – Embora a mediunidade curadora pura seja privilégio das almas de escol, a possibilidade de suavizar certos sofrimentos, e mesmo de os curar, é dada a todos, sem que haja necessidade de ser magnetizador. O conhecimento dos processos magnéticos é útil em casos complicados, mas não indispensável. Como a todos é dado apelar aos bons Espíritos, orar e querer o bem, basta muitas vezes impor as mãos sobre a dor para a acalmar. É o que pode fazer qualquer pessoa, se tiver fé, fervor,  vontade e confiança em Deus. Apenas a ignorância de alguns lhes faz crer na influência desta ou daquela fórmula. XIV – Não há médiuns curadores universais. Este terá restituído a saúde a um doente e nada fará ao outro. XV – A mediunidade curadora é uma aptidão, como todos os gêneros de mediunidade, inerente ao indivíduo. Ela se desenvolve pelo exercício, mas sobretudo pela prática do bem e da caridade. XVI – A mediunidade curadora racional está intimamente ligada ao Espiritismo, visto que repousa essencialmente no concurso dos Espíritos. Os que não crêem nos Espíritos, nem na alma e, ainda menos, na eficácia da prece, não se colocam nas condições requeridas para essa tarefa. (Págs. 251 a 255.)

60. A Revista relata outro caso de cura em que o agente foi o Espírito do dr. Demeure. O paciente foi a sra. Maurel, médium de Montauban, a qual, após cair, fraturou o antebraço, um pouco abaixo do cotovelo. Os pais dela iam procurar o primeiro médico que aparecesse quando ela, retendo-os, tomou de um lápis e escreveu mediunicamente, com a mão esquerda: “Não procureis um médico; eu me encarrego disto. Demeure.” A Revista descreve os procedimentos adotados pelo dr. Demeure. (Págs. 255 a 258.)

61. Ao comentar o episódio, Kardec fala sobre o objetivo dos trabalhos de cura espiritual. Os médicos desencarnados, diz ele, não vêm fazer concorrência aos médicos vivos, nem têm por fim suplantá-los, mas seu objetivo é provar que não morreram e oferecer seu concurso desinteressado aos que quiserem aceitá-lo. “Os Espíritos – acrescenta o Codificador – vêm ajudar o desenvolvimento da ciência humana, e não suprimi-la.”  (Págs. 258 a 260.)

62. A propósito de um estudo feito pelo dr. H. Bouley sobre a evolução da raiva nos cães, que experimentam, nas intermitências dos acessos, uma espécie de delírio, a Revista examina o fenômeno das visões de seres desencarnados que ocorre com as criancinhas e com certos animais, sobretudo o cão e o cavalo. No tocante às crianças – diz o artigo –, a vidência mediúnica parece ser freqüente e mesmo geral. (Págs. 260 a 264.)

63. Relativamente à vidência nos animais, Moki (Espírito) responde afirmativamente: “Sim: o cão e o cavalo vêem ou sentem os Espíritos”. “Os fatos de visões nos animais se encontram na antigüidade e na Idade Média, assim como em nossos dias.” (Págs. 265 e 266.)

64. A Revista transcreve carta publicada no Grand Journal de 18 de junho de 1865, em que o missivista, de nome Bertelius, tenta explicar, apoiando-se exclusivamente no fenômeno do sonambulismo, o sonho e os fatos ocorridos com o sr. Bach (veja itens 9 a 14 deste resumo). Repelindo a tese da intervenção dos Espíritos, Bertelius entende que a causa dos aludidos fatos se encontra na ação exclusiva da alma encarnada, agindo independentemente dos órgãos materiais, como se dá no sonambulismo. (Págs. 266 a 271.)

65. Em breve comentário da tese exposta por Bertelius, Kardec observa que se produzia naquele momento, entre os negadores do Espiritismo, uma espécie de reação, ou melhor, formava-se uma terceira opinião: a tese do sonambulismo, para explicar os fatos espíritas. O sr. Bertelius, como se vê, era partidário dessas idéias. (Págs. 266 e 267.)

66. Que ocorre ao egoísta na vida post-mortem? “A cada um segundo as suas obras”, disse Jesus. Citando essa frase, um Espírito protetor disse a um correspondente da Revista, em Lyon, que ninguém pode escapar às conseqüências dos defeitos que possua. “Uma qualidade não resgata um defeito; diminui o número destes e, por conseguinte, a soma das punições.” (Págs. 271 a 273.)

67. Na mesma mensagem, o instrutor desencarnado assevera que o defeito mais difícil de ser erradicado é o egoísmo, porque o egoísta encontra em si mesmo a sua satisfação, razão pela qual dele não se apercebe. “O egoísmo – acrescenta a mensagem – é sempre uma prova de secura de coração; estiola a sensibilidade para os sofrimentos alheios.” É por isso que do egoísta não se deve esperar senão a ingratidão, porquanto, se o reconhecimento verbal nada lhe custa, o reconhecimento em ação o fatigaria e perturbaria o seu repouso. (Pág. 273.)

68. Na seção de livros, a Revista comunica o lançamento do livro O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, de Kardec, do qual apresenta um resumo do prefácio. (N.R.: As edições brasileiras desse livro, publicadas pela FEB, a Lake e o IDE, não contêm o prefácio a que Kardec alude.)  (Págs. 274 a 277.)

69. No prefácio citado, Kardec diz que o Livro dos Espíritos contém as bases fundamentais do Espiritismo; é ele a pedra angular do edifício e todos os princípios da doutrina são aí apresentados. Era, porém, necessário dar-lhe os desenvolvimentos, deduzir-lhe as conseqüências e as aplicações. (Págs. 274 e 275.)

70. Referindo-se à segunda parte de O Céu e o Inferno, Kardec informa que ela encerra numerosos exemplos que serviram de estabelecimento da teoria ali exposta, exemplos que tiram sua autoridade na diversidade dos tempos e lugares onde foram obtidos, porque se emanassem de uma única fonte poderiam ser considerados produto de uma mesma influência. (Pág. 276.)

71. A Revista noticia, em seguida, a obra intitulada Palestras Familiares sobre o Espiritismo, obra de Émilie Collignon, de Bordeaux, que traz uma exposição completa, posto que sumária, dos verdadeiros princípios da doutrina, em linguagem familiar, ao alcance de todos e sob uma forma atraente. Kardec recomenda sua leitura. (N.R.: A sra. Collignon foi a médium que serviu mais tarde de instrumento para a elaboração da contestada obra Os Quatro Evangelhos, de J. B. Roustaing, publicada em 1866.) (Págs. 277 e 278.)

72. O número de outubro de 1865 se inicia com novo artigo de Kardec sobre o vidente da floresta de Zimmerwald, um camponês do cantão de Berne, que possuía a faculdade de ver num copo as coisas distantes. Um ano antes a Revista havia tratado do assunto, quando Kardec expôs a teoria dos objetos vulgarmente designados espelhos mágicos, a que ele preferiu chamar espelhos psíquicos(Pág. 279.)

73. O Codificador retificou, no entanto, seu pensamento de que tais objetos – copos, garrafas, vidros, placas metálicas etc. – eram absolutamente desnecessários à produção do fenômeno, isto é, que todo indivíduo, vendo com o concurso deles, poderia ver perfeitamente bem sem eles. O ensinamento recebido então de parte dos Espíritos mostra que essa idéia é errônea. Eis a explicação: Estando o olhar do vidente concentrado no fun-

do do copo, o reflexo brilhante deste age sobre os olhos, depois sobre o sistema nervoso, e provoca uma espécie de meio sonambulismo, um sonambulismo desperto, no qual a alma, desprendida da matéria, adquire a clarividência e a segunda vista. Além disso, existe uma certa relação entre a forma do fundo do copo e a forma exterior ou disposição de seus olhos. (Págs. 279 a 284.)

74. Para o vidente de Zimmerwald, o copo era, assim, um meio de desenvolver e fixar sua lucidez, e absolutamente necessário, porque nele, não sendo o estado de lucidez permanente, necessitava ser provocado. Um outro copo não poderia substituí-lo, porquanto um objeto que produz numa pessoa esse efeito pode nada produzir em outra. (Pág. 284.)

75. Complementando o estudo dos chamados espelhos psíquicos, Kardec conclui, então: I – Que o emprego de agentes artificiais é inútil ou desnecessário aos indivíduos cuja visão psíquica seja espontânea ou permanente. II – Que esses agentes são necessários quando a faculdade necessita ser superexcitada. III – Que, devendo esses agentes ser apropriados ao organismo da pessoa, o que provoca ação sobre uma nada provoca sobre outras. É por isso que a carta posta debaixo do copo, em vez de facilitar o fenômeno, o perturbava, visto que modificava a natureza do reflexo que lhe é próprio. IV – Que os corpos vulgarmente chamados espelhos mágicos não passam de agentes hipnóticos, indefinidamente variados em suas formas e efeitos, conforme a natureza e o grau das aptidões dos indivíduos. (Págs. 284 a 286.)

76. A Revista transcreve carta de um correspondente em que este narra o diálogo mantido com o Espírito de um sacerdote católico – o padre D... – recentemente desencarnado, o qual fora, em vida, um adversário declarado do Espiritismo. (Pág. 287.)

77. Evocado no grupo espírita, o padre D... se disse convencido da realidade das manifestações espíritas. “Sim – reconheceu ele –, os Espíritos se comunicam, e não são apenas os demônios, como nós ensinamos.” O padre mantinha, no entanto, curiosamente, sua opinião de que a expansão do Espiritismo não seria um bem, mas um mal para a sociedade. As divisões operadas no seio dos espíritas constituíam, a seu ver, um perigo e indicavam que o Espiritismo, como as doutrinas filosóficas que o precederam, não teria vida longa. (Págs. 287 a 291.)

78. Kardec analisa em profundidade os argumentos do sacerdote desencarnado e tece a respeito diversas considerações, adiante resumidas: I – Dizer que o Espiritismo é bom por sua essência e mau por seus resultados, como afirmou o padre D..., é ir contra a lógica, é esquecer a máxima do Cristo, tornada proverbial: “Uma árvore boa não pode dar maus frutos”. II – Não foi o Espiritismo quem inventou a manifestação dos Espíritos, nem é a causa de sua comunicação. Ele apenas constata um fato, que se produziu em todos os tempos, porque está na natureza. III – Para que o Espiritismo deixasse de existir, fora preciso que os Espíritos cessassem de se manifestar. IV – A influência dos maus Espíritos faz parte dos flagelos a que o homem está sujeito neste mundo, como as doenças e os acidentes de toda sorte. Mas, como ao lado do mal Deus sempre põe o remédio, o Espiritismo vem indicar o remédio para esse flagelo, ensinando que para neutralizar a influência dos maus Espíritos é preciso tornar-se melhor, dominar as más inclinações, praticar as virtudes ensinadas pelo Cristo: a humildade e a caridade. V – Aprovar a oposição da Igreja ao Espiritismo porque a aceitação deste  seria a ruína do clero é atitude inconcebível. O clero seria movido assim por sentimentos tão mesquinhos? Ignorariam os sacerdotes as palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo”? Prefeririam manter as aparências na Terra, para assegurar seus interesses terrenos, a aceitar a realidade espírita e suas conseqüências? VI – Se as divisões operadas entre os espíritas tivessem como conseqüência a ruína do Espiritismo, por que isso não se deu com o Cristianismo? Ignora o padre a multiplicidade de seitas que têm dividido e muitas vezes ensangüentado a doutrina cristã e cujo número não se eleva a menos de trezentos e sessenta? VII – O Espiritismo não é uma teoria especulativa, baseada em idéias preconcebidas. É uma questão de fato e, por conseqüência, de convicção pessoal. E ele é forte precisamente porque se apóia sobre um conjunto formidável de vozes cuja concordância universal vale bem a de um concílio ecumênico. VIII – O padre D... predisse o seu fim próximo, mas inúmeros vultos encarnados e desencarnados também fizeram o seu horóscopo, num outro sentido, e suas previsões se sucedem ininterruptamente e se repetem em todos os pontos do globo. (Págs. 291 a 299.)

79. Fechando sua resposta ao padre D..., Kardec reporta-se a uma das muitas mensagens pertinentes ao futuro do Espiritismo, de que destacamos as frases seguintes: A) O Espiritismo continuará sua marcha através dos embustes e dos escolhos, inabalável como tudo o que está na vontade de Deus, porque se apóia nas leis da natureza. B) Pela luz que lança sobre os pontos obscuros e controvertidos das Escrituras, ele conduzirá os homens à unidade de crença e fundará o reino da verdadeira caridade cristã, que é o reino de Deus sobre a Terra, predito por Jesus. C) Muitos ainda o repelem porque não o conhecem ou não o compreendem. Mas quando reconhecerem que ele realiza as mais caras esperanças do futuro da humanidade, aclamá-lo-ão e, da mesma maneira que o Cristianismo encontrou um suporte em Paulo de Tarso, ele também encontrará defensores entre os adversários da véspera. (Págs. 299 e 300.)

80. A passagem pela Europa dos irmãos Davenport, dois jovens de 24 e 25 anos, nascidos em Buffalo,  Estado de Nova York (EUA), é noticiada pela Revista. A faculdade dos médiuns americanos era limitada a efeitos físicos, dos quais o mais notável consistia em se fazerem amarrar com cordas de maneira inextricável e se

desatarem instantaneamente, por uma força invisível, a despeito de todas as precauções tomadas para verificar como o fato se dá. O transporte de objetos, o toque espontâneo de instrumentos musicais e a aparição de mãos luminosas constituíam também parte do seu repertório. Apesar disso, a apresentação deles a 12 de setembro de 1865, na sala Hertz, em Paris, foi deplorável e quase terminou em tragédia.  (Págs. 300 a 303.)

81. A polêmica suscitada a respeito do fato levou o Codificador a fazer, valendo-se da Revista, diversas considerações sobre a mediunidade em geral, adiante resumidas: I – A necessidade da obscuridade nas sessões de efeitos físicos presta-se, indubitavelmente, à suspeita e facilita as fraudes. É preciso, no entanto, compreender que em química há também combinações que não se podem operar à luz. Ora, sendo os fenômenos espíritas o resultado de combinações fluídicas, e sendo os fluidos matéria, não é de admirar que, em certos casos, o fluido luminoso seja contrário a essas combinações. II – A mediunidade é uma aptidão natural inerente ao médium, mas para que o médium produza efeitos mediúnicos são precisos os Espíritos, que vêm quando querem e quando podem. III – O médium sério é modesto, não se envaidece do que não é produto do seu talento, nem promete o que de si não depende. IV – As condições inerentes à mediunidade não podem, pois, prestar-se à regularidade e à pontualidade, que são fatores indispensáveis às sessões pagas, onde é preciso, a qualquer preço, satisfazer o público. V – De todos os fenômenos espíritas, os que melhor se prestam à imitação são os efeitos físicos. VI - Um exame escrupuloso permite distinguir a trapaça da mediunidade real; mas a melhor de todas as garantias é o respeito e a consideração de que desfrute o médium, sua moralidade, sua notória honorabilidade e seu desinteresse absoluto, material e moral.  (Págs. 303 a 305.)

82. Concluindo seu comentário sobre o caso Davenport, Kardec faz no final duas advertências que continuam oportunas e atuais: A) De duas uma: ou os Davenport são hábeis prestidigitadores ou verdadeiros médiuns. Se charlatães, devemos ser gratos a todos os que ajudarem a desmascará-los. B) Se são médiuns verdadeiros, as condições em que se apresentam não podem servir utilmente à causa. Num caso, como no outro, o Espiritismo não tem nenhum interesse em tomar partido em seu favor. (Págs. 305 a 309.)

83. Nas exéquias do sr. Nant, um dos companheiros da Sociedade Espírita de Paris, Kardec pronunciou breves palavras, transcritas, a pedido da família, pela Revista.  No momento em que fechou os olhos, seu neto de dez anos, tomado de violenta emoção, foi subitamente adormecido pelos Espíritos e, no seu êxtase, viu a alma de seu avô, acompanhada por uma porção de Espíritos, elevar-se no espaço, embora presa ainda ao corpo pelo cordão fluídico. A morte – disse Kardec – é apenas a entrada da alma na verdadeira vida, e não passa de uma separação corporal de alguns instantes, pois o vazio que deixa  no lar da família é apenas aparente. (Págs. 310 a 312.)

84. Um fato curioso ocorrido com o filho de oito anos do sr. Delanne – o menino Gabriel, que anos depois se tornaria um dos mais importantes autores espíritas – é relatado pela Revista. Trata-se de uma experiência de tiptologia que o menino Gabriel, auxiliado por três crianças de sete, cinco e quatro anos, realizou a pedido de uma senhora. Gabriel, após a evocação, pediu a ela que perguntasse quem respondia. A mulher interrogou e a mesa soletrou duas palavras: Teu pai. Na seqüência, a pedido dela, o Espírito deu três provas de que era seu pai quem ali se manifestava. (Págs. 312 a 314.)

85. Kardec diz que não era a primeira vez que a mediunidade se revelava em crianças e o que ocorreu fora já anunciado numa célebre profecia: Vossos filhos e vossas filhas profetizarão. (Atos, 2:17.)  (Pág. 314.)

86. O número de novembro de 1865 inicia-se com a transcrição de uma mensagem aprovada por unanimidade pela Sociedade Espírita de Paris e dirigida aos espíritas da França e do estrangeiro. Trata-se de uma moção de reconhecimento e apoio enviada pela Sociedade numa hora em que se redobravam na Europa os ataques contra os espiritistas.  (Págs. 315 e 316.)

87. A alocução feita por Kardec na reabertura das sessões da Sociedade de Paris, ocorrida em outubro próximo passado, foi também transcrita na Revista. O Codificador fez ali, como não podia ser diferente, alusão ao grande barulho que ocorrera durante o recesso anual da Sociedade, embora não entrasse em detalhes, que ele considerava no momento inteiramente supérfluos. E pediu a todos os confrades que se unissem numa santa comunhão de pensamentos, para enfrentarem a tempestade, pondo de lado as suscetibilidades e as questões menores, em favor de algo mais importante, que é a causa espírita. (Págs. 316 a 319.)

88. Ficou evidente que a presença dos irmãos Davenport na Europa foi bastante prejudicial ao movimento espírita europeu. “Como se sabe – advertiu Kardec –, o que falta aos que confundem o Espiritismo com a charlatanice é saber o que é o Espiritismo. Sem dúvida poderão sabê-lo pelos livros, quando se derem à pena. Mas, que é a teoria ao lado da prática?” “Não basta dizer que a doutrina é bela; é necessário que os que a professam mostrem a sua aplicação.” (Págs. 315 e 316.)

89. Num artigo logo a seguir, Kardec diz que começava a acalmar-se a situação causada pelos irmãos Davenport, após a bordoada lançada pela imprensa contra eles e o Espiritismo. Este, contudo, saíra incólume aos golpes recebidos, porque muitas vozes respeitáveis se levantaram para mostrar que o Espiritismo não pode ser confundido com seus adeptos. Exemplo dessas manifestações publicadas pela imprensa é a carta do sr. Breux, de Perpignan, divulgada a 8 de outubro pelo Journal des Pyrénées-Orientales. (Págs. 320 e 321.)

90. O Codificador, após transcrever a carta referida, acrescentou: “Todas as refutações que temos sob os olhos, e que foram dirigidas  aos jornais, protestam contra a confusão que fizeram entre o Espiritismo e as sessões dos srs. Davenport. Se, pois, a crítica persiste em torná-los solidários, é porque o quer”. (Pág. 322.)

91. Em um poema intitulado “Um fenômeno”, de sua autoria, o sr. Dombre, de Marmande, alude indiretamente ao tema tratado por Kardec, quando lembra, em sua estrofe final: “A verdade sempre tem sua contrafação:/ Cabe-nos distinguir, pela comparação,/ A verdade do embuste.” E conclui: “Para julgar direito os efeitos e as causas,/ Ao céptico faltam duas coisas:/ Um pouco de modéstia – e boa fé.” (Págs. 315 e 316.)

92. Sob o título “O Espiritismo no Brasil”, Kardec informa que no jornal Diário da Bahia fora publicada no dia 28 de setembro de 1865, a pedido de Luis Olympio Telles de Menezes, José Alvares do Amaral e Joaquim Carneiro de Campos, uma refutação a um artigo do dr. Déchambre, contrário ao Espiritismo, publicado no dia anterior pelo mesmo jornal. Elogiando a iniciativa dos confrades da Bahia, Kardec afirma que as citações textuais das obras espíritas, como eles haviam feito, são a melhor refutação das deformações que certos críticos tentam impor à doutrina, visto que esta se justifica por si mesma. (Págs. 323 a 325.)

93. Aludindo a uma carta do sr. Repos Filho, de Constantinopla, onde o cólera acabara de fazer pelo menos 70 mil vítimas, Kardec observa que seria absurdo crer que a fé espírita pudesse ser um brevê de garantia contra a referida doença. Já estava, porém, comprovado cientificamente que o medo, enfraquecendo o moral e o físico das pessoas, torna o homem mais impressionável e mais suscetível de ser atingido pelas moléstias contagiosas. Ora, toda causa tendente a fortificar o moral é um preservativo e só assim, nesse sentido, é que se pode dizer que a fé espírita pode ajudar na prevenção de certas enfermidades, o que não significa que os espíritas sejam imunes a elas. (Págs. 325 a 328.)

94. A razão é simples:  a fé espírita dá serenidade à alma e essa serenidade secunda a eficácia dos remédios, ao passo que a perspectiva do nada mergulha o moribundo na ansiedade do desespero que em nada contribui para a sua melhora. Além dessa influência moral, o Espiritismo produz outra mais material: a moderação nos hábitos e o abandono dos excessos e dos vícios, o que concorre para uma vida mais saudável. (Págs. 328 e 329.)

95. A propósito do cólera numerosas comunicações foram dadas na Sociedade Espírita de Paris, das quais a Revista transcreveu uma delas, assinada pelo doutor Demeure. (Págs. 329 a 331.)

96. Da mensagem do dr. Demeure destacamos as informações seguintes: I – O cólera não é uma afecção imediatamente contagiosa; por isso, os que vivem onde ela grasse não devem temer prestar socorros aos enfermos. II – Não existia então um remédio universal contra essa moléstia, visto como o mal varia de conformidade com o temperamento dos indivíduos, seu estado moral, seus hábitos e o clima. III – O melhor preservativo consistia, pois, nas precauções de higiene sabiamente recomendadas pelos especialistas encarnados. IV – O medo, em casos semelhantes, é, muitas vezes, pior que o mal em si mesmo. A confiança em si e em Deus é, portanto, em tais circunstâncias, o primeiro elemento da saúde. (Págs. 329 a 331.)

97. Com o título “Um novo Nabucodonosor”, a Revista  relata em todas as suas minúcias o caso do jovem Alexandre R..., que vivia na cidade de Kazan, na Rússia, onde cursava a Universidade, até que foi envolvido por uma obsessão terrível causada por seu irmão Voldemar, morto aos 16 anos. A partir daí, por mais de 20 anos, Alexandre viveu só, sem roupas, numa espécie de cabana que não possuía portas nem janelas, exposto assim ao vento e ao frio que, naquela região, chegava a 30 graus abaixo de zero. Evocado na Sociedade Espírita de Paris, o obsessor confirmou que era ele que dominava o irmão e assim o punia pelo não cumprimento de uma promessa. Um Espírito protetor, comunicando-se em seguida, confirmou a história e disse que o fato tinha origem no passado dos dois rapazes. (Págs. 331 a 337.)

98. A alusão ao rei Nabucodonosor, feita por um sonâmbulo inglês, tinha fundamento, porque Nabucodonosor – explicou o protetor espiritual – não passara de um obsidiado que agia, quando em crise, como uma fera. Alexandre R... também se comportava e dava urros como se fera fosse.  (Pág. 337.)

99. O Espírito de São Bento, reportando-se ao assunto, confirmou o que acima foi dito, isto é, que a punição de Nabucodonosor não é uma fábula. Sob o domínio de um perseguidor invisível, ele ficava privado por algum tempo do livre exercício de suas faculdades intelectuais e agia como um animal, o que transformou o poderoso déspota em objeto de piedade para todos, porquanto a Providência o tinha ferido no seu orgulho. (Págs. 337 e 338.)

100. Um assinante de Paris, referindo-se à mediunidade do vidente de Zimmerwald, lembra em carta dirigida à Revista a semelhança entre as faculdades do vidente e as de José, o chanceler do Egito. “O gênero de mediunidade que assinalais – conclui o leitor – existia, pois, entre os egípcios e os judeus.” Kardec concorda com a observação e reitera sua afirmação de que o Espiritismo não descobriu, nem inventou os médiuns, mas tão somente as leis da mediunidade. Eis por que é ele a verdadeira chave para a compreensão do Antigo e do Novo Testamento, onde abundam fatos desse gênero. (Págs. 339 a 341.)

101. O Espírito de Sonnez, falando sobre a vida dos Espíritos, diz que o repouso eterno que os homens esperam encontrar após a morte é uma quimera. O repouso eterno não existe; aliás, nada no mundo goza de repouso, nem as montanhas, que parecem estar numa imobilidade eterna. Como a perfeição é o objetivo da criação, para atingi-la, todos – átomos, moléculas, minerais, animais, planetas e Espíritos – se empenham num movimento incessante. A vida espiritual é, assim, uma atividade incessante. (Págs. 342 e 343.)

102. Na seção de livros, a Revista informa que estava no prelo, para sair em poucos dias, a 3a edição de O Evangelho segundo o Espiritismo, revista, corrigida e modificada. (Pág. 343.)

103. O número de dezembro de 1865 começa com um apelo de Cárita, a eloqüente e graciosa pedinte, em favor dos pobres de Lyon. Depois de transcrever a mensagem assinada por esse Espírito, Kardec acrescentou: “É com felicidade que nos fazemos intérpretes da boa Cárita e esperamos que ela não tenha dito em vão: abri-me! Se ela bate à porta com tanta insistência, é que o inverno aí bate por seu lado”. (Págs. 345 a 347.)

104. Em seguida, a Revista noticia a abertura de uma subscrição pública no escritório da Revista Espírita em benefício dos pobres de Lyon e das vítimas do cólera. O montante das somas recebidas e sua distribuição seriam submetidos ao controle da Sociedade Espírita de Paris. (Pág. 347.)

105. Em um artigo sobre romances espíritas, Kardec destaca dois deles: Espírita (traduzido no Brasil como O Ignorado Amor), escrito por Théophile Gautier, e A Dupla Vista, de Élie Berthet, no qual critica apenas o fato de haver apresentado a faculdade da dupla vista como uma doença. “Podem fazer-se romances sobre o Espiritismo, como sobre todas as coisas”, assevera Kardec. Quando o Espiritismo for conhecido e compreendido em sua essência, fornecerá às letras e às artes fontes inesgotáveis de deslumbrante poesia.  (Págs. 347 a 353.)

106. A Revista transcreve duas cartas dirigidas por um de seus assinantes, o sr. Blanc de Lalésie, aos jornais Le Temps e Univers Illustré. Em ambas o missivista protesta contra as críticas injustas que vinham sendo neles publicadas reiteradamente contra o Espiritismo. A propósito dessas cartas, Kardec tece algumas considerações inéditas que importa enfatizar: I – O Espiritismo é uma crença. II - Quem quer que creia na existência e na sobrevivência das almas e na possibilidade de relações entre os homens e o mundo espiritual, é espírita, e muitos o são intuitivamente, sem jamais terem ouvido falar de Espiritismo ou de médiuns. III – É-se espírita por convicção. Por isso, não é necessário fazer parte de uma sociedade para sê-lo, e a prova é que nem a milésima parte dos adeptos freqüenta reuniões. (Págs. 353 a 356.)

107. O relato de como a mediunidade da psicografia eclodiu numa jovem camponesa, quase iletrada, da pequena aldeia de E..., departamento de Aube, levou Kardec a revelar uma informação até então inédita. “Não conhecemos – disse o Codificador – um único gênero de mediunidade que não se tenha revelado espontaneamente, mesmo o da escrita.” (Págs. 357 a 359.)

108. Sob o título “Um camponês filósofo”, a Revista publica o relato que o sr. Delanne fez a respeito de duas brochuras escritas e publicadas por um vinhateiro do interior da França, as quais têm por objeto: Deus, os anjos, as almas dos homens, a alma animal, as forças físicas, os elementos, a organização e o movimento. O autor era um humilde artesão que vivia da venda de legumes e outros produtos agrícolas. Examinando trechos das duas obras, reproduzidos pela Revista, Delanne chama a atenção para as idéias de alto alcance filosófico nelas contidas, o que demonstra que seu autor era alguém possuidor de bagagem cultural formada em existências anteriores, visto que nesta ele mal cursara a escola de sua aldeia. (Págs. 359 a 365.)

109. Tendo esses fatos sido discutidos na Sociedade Espírita de Paris, um Espírito que se intitulou Luís de França confirmou o pensamento de Delanne e, reportando-se a uma conhecida frase de Jesus, revelou que, como ao tempo do Cristo, que quis honrar e erguer o trabalhador escolhendo nascer entre os artífices, os anjos do Senhor recrutavam agora seus auxiliares entre os corações simples e honestos e os homens de boa vontade que exercem as mais humildes profissões. (Págs. 365 e 366.)

110. Quando os mais incrédulos e obstinados desencarnam, são evidentemente forçados a reconhecer que ainda vivem, que a vida continua e que, como Espíritos que são, podem comunicar-se com os homens. Sua apreciação do mundo espiritual varia, porém, em razão de seu desenvolvimento moral, de seu saber, da elevação de sua alma. Após essas considerações, Kardec transcreve na Revista quatro comunicações de pessoas bastante esclarecidas, embora incrédulas quando encarnadas, e que, situadas agora no mundo espiritual, reconhecem o erro em que incidiram na existência recém-finda. (Págs. 366 a 372.)

111. Duas comunicações do Espírito de Baluze sobre o estado social da mulher e a influência que o Espiritismo exerce e exercerá sobre a família encerram a Revista de 1865. “As mães – diz Baluze – serão realmente mães; penetradas do espírito espírita, serão a salvaguarda das filhas amadas. Ensinando-lhes o papel magnífico que estão chamadas a desempenhar, dar-lhe-ão a consciência de seu valor.” (Págs. 373 a 377.)

Astolfo Olegário de Oliveira Filho

Londrina, agosto de 2005

Revista Espírita de 1858 a 1869 (Allan Kardec


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