Revista Espírita de 1864

 (1a Parte)

 De Allan Kardec, tradução de Júlio Abreu Filho, publicada pela EDICEL

 

            1. Abrindo a Revista de janeiro de 1864, Kardec reafirma que a causa do Espiritismo é a do progresso e do bem-estar material e moral da humanidade. (P. 1)

            2. Reportando-se ao ano findo, o Codificador diz que 1863 não foi um ano fecundo para o Espiritismo e, mais que todos os outros, foi marcado pela violência de certos ataques de seus adversários, agressões essas que, em vez de o deter, fizeram o Espiritismo progredir. (P. 2)

            3. A campanha dos opositores da doutrina espírita teve, além disso, o mérito de provar a impotência das armas dirigidas contra o Espiritismo. Mas esse fato não foi o único ponto positivo registrado em 1863, um ano marcado sobretudo pelo aumento do número de grupos e sociedades formadas numa porção de localidades onde não os havia, tanto na França quanto no estrangeiro. (PP. 2 e 3)

            4. Após informar ser crescente o número das sociedades que se têm colocado espontaneamente sob o patrocínio da Sociedade Espírita de Paris, Kardec assevera: “É notório que a doutrina do Livro dos Espíritos é hoje o ponto de convergência da imensa maioria dos adeptos; a máxima Fora da caridade não há salvação reuniu todos os que vêem o lado moral do Espiritismo, porque não há duas maneiras de a interpretar e ela satisfaz a todas as aspirações”. (P. 3)

            5. O traço mais característico do ano de 1863 foi, no entanto, o movimento produzido na opinião pública, concernente à doutrina espírita. “Fica-se surpreendido - diz Kardec - com a facilidade com que o princípio é aceito por pessoas que até há pouco o teriam repelido e levado à troça. As resistências - e falamos das que não são  sistemáticas e interessadas - diminuem sensivelmente.” (P. 4)

            6. O estado do Espiritismo em 1863 pode assim resumir-se: ataques violentos; multiplicação de escritos pró e contra; movimento nas idéias; notável extensão da doutrina, mas sem sinais exteriores, de modo a produzir uma sensação geral; as raízes se estendem, crescem os rebentos, mas não chegou ainda o momento da sua maturidade. (P. 5)

            7. Duas publicações, elogiadas por Kardec, surgiram no aludido ano: La Ruche, de Bordeaux, e La Verité, de Lyon, cidade que possuía o centro espírita mais numeroso da França e, talvez, do mundo. (P. 5)  

            8. A respeito da mediunidade de cura, a Revista transcreve carta de um oficial de caçadores, em que o confrade, espírita de longa data, relata alguns casos de curas obtidas pelo missivista através da imposição de mãos sobre os enfermos. (PP. 5 e 6)

            9. Lida a carta na Sociedade Espírita de Paris, na sessão de 18/12/1863, o Espírito de Mesmer explica qual é o mecanismo das curas obtidas pela imposição de mãos. (PP. 7 e 8)

            10. Informa Mesmer: I) A vontade, que existe no homem em diferentes graus de desenvolvimento, tanto desenvolve o fluido animal quanto o espiritual. II) Há vários gêneros de magnetismo, em cujo número estão o magnetismo animal e o magnetismo espiritual que, conforme o caso, pode pedir apoio ao primeiro. III) Um outro gênero de magnetismo, muito mais poderoso ainda, é a prece que uma alma pura e desinteressada dirige a Deus. IV) Os médiuns curadores começam por elevar sua alma a Deus e a reconhecer que, por si mesmos, nada podem, realizando dessa forma um ato de humildade, de abnegação. V) Deus lhes envia, então, poderosos socorros, porque sempre recompensa o humilde sincero, elevando-o, ao passo que rebaixa o orgulhoso. VI) Esse socorro enviado por Deus são os bons Espíritos que vêm penetrar o médium de seu fluido benéfico, que é transmitido ao doente. VII) É por isso que o magnetismo empregado pelos médiuns curadores é tão potente e produz essas curas qualificadas de  miraculosas e que são devidas simplesmente à natureza do fluido derramado sobre o médium. (P. 7)

            11. Complementando a lição, o Espírito de Paulo, apóstolo, diz que o médiuns curadores, quando imbuídos dos sentimentos citados por Mesmer, têm a fé que levanta montanhas, o desinteresse que purifica os atos da vida e a humildade que os santifica. E pede a todos eles que perseverem na obra de beneficência que empreenderam, lembrando-se de que “aquele que pratica as leis sagradas que o Espiritismo ensina, aproxima-se constantemente do Criador”. (P. 8)

            12. Reafirmando nesse processo o valor da prece, Paulo conclui nestes termos a mensagem: “A doçura constante do Cristo, sua submissão à vontade de seu Pai, sua perfeita abnegação, são os mais belos modelos da vontade que se possa propor para exemplo”. (P. 8)

            13. Comentando o assunto, o Codificador assevera: I) Na ação magnética propriamente dita, é o fluido pessoal do magnetizador que é transmitido. II) Esse fluido, que não é senão o perispírito, participa sempre, mais ou menos, das qualidades materiais do corpo, ao mesmo tempo que sofre a influência moral do Espírito. III) É, pois, impossível que o fluido de um encarnado seja de uma pureza absoluta, razão por que sua ação curativa é lenta, por vezes nula, e outras vezes nociva, porque transmite ao doente princípios mórbidos. IV) O médium curador emite pouco de seu fluido. Sente a corrente do fluido estranho que o penetra e ao qual serve de condutor. V) É com esse fluido que magnetiza e aí está o que caracteriza o magnetismo espiritual e o distingue do magnetismo animal. (PP. 8 e 9)

            14. Prosseguindo seus comentários, Kardec acrescenta: I) Para curar pela ação fluídica, os fluidos mais depurados são os mais saudáveis. II) Ora, desde que esses fluidos benéficos são dos Espíritos superiores, então é o concurso destes que é preciso obter. III) Por isto, a prece e a invocação são necessárias, mas, para orar com fervor, é preciso fé. IV) Para que a prece seja escutada, é preciso seja feita com humildade e dilatada por um real sentimento de benevolência e de caridade. Ora, não há verdadeira caridade sem devotamento, nem devotamento sem desinteresse. V) Sem estas condições, o magnetizador - privado da assistência dos bons Espíritos - fica reduzido às próprias forças. Daí, para os médiuns dedicados a essa tarefa, a necessidade de trabalhar o seu melhoramento moral. (P. 9)

            15. Os médiuns curadores tendem a multiplicar-se, com o objetivo de propagar o Espiritismo, pela impressão de que esta nova ordem de fenômenos não deixará de produzir nas massas, porque não há quem não ligue para sua saúde. (P. 10)

            16. Ao concluir seu relato a respeito do caso de possessão da srta. Júlia, Kardec afirma que, se há um gênero de mediunidade que exija uma superioridade moral, é, sem contradita, o trato da obsessão, pois é preciso ter o direito de impor sua autoridade ao Espírito. (P. 11)

            17. No caso de Júlia e em todos os casos análogos, o magnetismo simples, por mais enérgico que fosse, seria insuficiente. Era preciso agir sobre o Espírito obsessor, para o dominar, e sobre o moral da doente. (P. 12)

            18. Constitui também erro dos mais graves não ver na ação magnética mais que simples emissão fluídica, sem levar em conta a qualidade íntima dos fluidos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa inteiramente nestas qualidades. (P. 13)

            19. A magnetização pode, em certos casos, ser até mesmo funesta, como Hahnemann disse a Kardec no caso da srta. Júlia. Erasto confirmou o ensinamento, reafirmando que, naquela circunstância, era necessária uma ação material e moral e, ainda, uma ação puramente espiritual. (P. 16)

            20. Asseverou Erasto: “Isto vos demonstra o que deveis fazer d’agora em diante, nos casos de possessão manifesta. É indispensável chamar em vossa ajuda o concurso de um Espírito elevado, gozando ao mesmo tempo de força moral e fluídica, como o excelente cura d’Ars”. (P. 16)

            21. O ponto essencial, como observa Kardec, era levar o Espírito obsessor a emendar-se, o que necessariamente deveria facilitar a cura. E foi o que se fez, evocando-o e lhe dando conselhos. (PP. 16 e 17)

            22. Dois diálogos mantidos com o Espírito de Fredegunda mostram como a oração, quando feita pelo próprio Espírito, auxilia o tratamento espiritual. Em nota aposta no final do segundo diálogo, Kardec afirma que nos casos de fascinação a dificuldade do tratamento é muito maior do que na subjugação. (P. 20)

            23. Aludindo a mais um grupo espírita constituído em Lyon, a Revista informa que ele surgiu com um duplo objetivo: a instrução e a beneficência. Relativamente à instrução, o grupo se propõe consagrar uma parte menor às comunicações mediúnicas, dedicando mais tempo às instruções orais, com vistas a desenvolver e explicar os princípios espíritas. No tocante à beneficência, a sociedade se propõe auxiliar pessoas necessitadas, por meio de dádivas in natura e visitas domiciliares aos pobres doentes. (P. 24)

            24. A caridade e a fraternidade - lembra Kardec - se reconhecem pelas obras e não pelas palavras. Pedra de toque do Espiritismo, quando se fala de caridade, sabe-se que não se fala apenas daquela que dá, mas também da que esquece e perdoa, que é benevolente e indulgente e que repudia todo sentimento de ciúme e rancor. “Toda reunião espírita que não se fundar sobre o princípio da verdadeira caridade, será mais prejudicial que útil à causa, porque tenderá a dividir, em vez de unir”, acrescenta o Codificador. (P. 25)

            25. Falando sobre as primeiras encarnações dos Espíritos, Kardec diz que os próprios Espíritos ignoram as condições em que elas ocorrem. Sabe-se apenas que as almas são criadas simples e ignorantes, tendo todas o mesmo ponto de partida, e que o livre arbítrio se desenvolve pouco a pouco, após numerosas evoluções na vida corpórea. (P. 26)

            26. É um erro admitir que as primeiras encarnações humanas ocorram na Terra. “A Terra foi, mas não é mais, um mundo primitivo; os mais atrasados seres humanos encontrados na sua superfície já se despojaram dos primeiros cueiros da encarnação e os nossos selvagens estão em progresso”, afirma Kardec. (PP. 26 e 27)

            27. A Revista transcreve parte de uma carta dirigida ao sr. Flammarion, na qual se comprova que em 1713 o astrônomo Fontenelle assistiu ao fenômeno de tiptologia produzido pela senhorita Letard, uma médium espontânea do gênero das irmãs Fox. (PP. 27 a 29)

            28. Depois de publicar fragmentos do pensamento de Santo Atanásio, patriarca de Alexandria e um dos pais da Igreja Grega, o qual nutria idéias muito parecidas com as expostas pela doutrina espírita, Kardec diz que a religião deve ser progressiva como a humanidade, sob pena de ser superada. O que faz os incrédulos é precisamente porque a religião colocou-se fora do movimento científico e progressivo e, além disso, declara esse movimento obra do demônio. “Disso resultou - assevera Kardec - que a ciência, repelida pela religião, por sua vez repeliu a religião.” (P. 30)

            29. A Revista de fevereiro informa que o sr. Home foi intimado a deixar Roma em três dias. Comentando o assunto, Kardec diz que o sr. Home não é rico e dirigiu-se a Roma para aperfeiçoar-se na arte da escultura. (PP. 33 e 34)

            30. Aproveitando a oportunidade, Kardec lembra que Home poderia ser muito rico, se quisesse explorar sua notável faculdade mediúnica. Ele sabia, porém, que essa faculdade lhe foi dada com um fim providencial e seria um sacrilégio convertê-la em profissão. (P. 34)

            31. A mediunidade séria - reafirma Kardec - não pode ser e jamais será uma profissão. Explorá-la é dispor de uma coisa da qual não se é dono; é desviá-la de seu objetivo providencial. (P. 35)

            32. Falando sobre a infância, Kardec enumera certos erros comuns cometidos pelos pais na educação de seus filhos, como o estímulo à gulodice, à inveja, ao egoísmo e a outros hábitos que não concorrem para a educação moral dos pequeninos. (PP. 37 a 39)

            33. Kardec reconhece, no entanto, que os pais pecam mais por ignorância do que por má vontade. “Sendo os primeiros médicos da alma dos filhos, deveriam ser instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de o cumprir”, afirma o Codificador. (P. 39)

            34. Ele propõe então que, sendo o egoísmo e o orgulho a fonte da maioria das misérias humanas, é a eles que se deve atacar no estado de embrião, antes que fiquem vivazes. Pode o Espiritismo remediar esse mal? “Sem nenhuma dúvida”, responde Kardec. Mostrando qual é, em verdade, a missão e a responsabilidade dos pais; dando a conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; indicando a ação que se pode exercer

sobre encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável que sanciona os deveres; e, por fim, moralizando os próprios pais, o Espiritismo apresenta todas as condições para fazê-los cessar. (PP. 39 e 40)

            35. Fechando o assunto, Kardec assevera que um dia se compreenderá que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual; numa palavra, que é uma verdadeira ciência. (P. 40)

            36. Após relatar o triste fim do homem de 69 anos que se casara com uma jovem de 17 anos, na cidade de Florença, a Revista adverte que o Espiritismo não se ocupa apenas dos fenômenos, mas toca em todas as questões morais. Quem o estuda passa a ver na morte não o fim da vida, mas a porta da prisão que se abre ao prisioneiro, e aprende que as vicissitudes da vida corpórea são as conseqüências de suas próprias imperfeições. (PP. 40 e 41)

            37. Examinando o episódio de Florença, a Revista observa que o desfecho daquele casamento evidencia que ele fora realizado por interesse. Houve cálculo dos dois lados, mas esse cálculo foi frustrado. Deus não permitiu que nem um nem outro o aproveitassem, infligindo a um a desilusão e à outra, a vergonha, que os mataram a ambos. (P. 42)

            38. Outra carta procedente de uma penitenciária revela a influência moralizadora do Espiritismo, mesmo sobre os sentenciados. Na carta, o presidiário conta que, havendo desenvolvido a faculdade da psicografia, entretinha-se, de duas em duas noites, em sua própria cela, com os Espíritos amigos. Nem os ferrolhos - observa Kardec - detêm os Espíritos, que vão até o fundo das prisões levar suas consolações àqueles que delas precisam. (PP. 43 a 45)

            39. O sr. Dombre, presidente da Sociedade Espírita de Marmande, descreve em carta como, em cinco dias, com o auxílio dos bons Espíritos, ele e seus confrades conseguiram livrar de uma obsessão muito violenta e muito perigosa uma jovem de 13 anos. A Revista registrou o fato e felicitou os irmãos de Marmande pelo resultado obtido. (PP. 45 e 46)

            40. Em Poitiers ocorreram em janeiro de 1864 fenômenos singulares: todas as noites, durante cinco ou seis dias, a partir das 6 horas, ruídos singulares eram ouvidos numa casa. Os ruídos eram semelhantes a disparos de artilharia e, além disso, violentos golpes pareciam ser dados nas paredes e nos postigos. Posteriormente, a Revista informou que os fenômenos foram produzidos pelos Espíritos, do que os próprios espíritas da cidade duvidavam inicialmente. (PP. 46, 47, 77 a 80)

            41. Comunicação obtida na Sociedade Espírita de Sens fala sobre a necessidade da reencarnação como fator indispensável ao progresso espiritual, a que Kardec acrescenta que, trabalhando para si mesmo, o Espírito encarnado trabalha para o melhoramento do mundo em que habita. (PP. 48 e 49)

            42. Em Paris, o mesmo tema foi focalizado por outro Espírito, que disse que a reencarnação é necessária enquanto a matéria domina o Espírito. Do momento em que o Espírito chegou a dominar a matéria, a reencarnação não tem mais nenhuma utilidade nem razão de ser. (PP. 49 e 50)

            43. Eis outros ensinamentos constantes da referida comunicação: I) À medida que as sensações corporais do homem se tornam mais requintadas, suas sensações espirituais também despertam e crescem. II) Sendo os fluidos os agentes que põem em movimento o nosso corpo, são eles os elementos de nossas aspirações, pois existem fluidos corpóreos e fluidos espirituais. III) Esses fluidos compõem o corpo espiritual do Espírito que, encarnado, age por meio deles sobre a máquina humana, que ele deve aperfeiçoar. IV) O Espírito possui livre arbítrio e procura sempre o que lhe é agradável e satisfaz. Se for um Espírito inferior e material, busca suas satisfações na materialidade e dá, assim, um impulso aos fluidos materiais. V) Como necessita de depuração e esta só é alcançada pelo trabalho, as encarnações escolhidas lhe são mais penosas, porque - depois de haver dado supremacia à matéria e a seus fluidos - deve constrangê-la, lutar com ela e dominá-la. (PP. 50 a 52)

            44. Na seqüência, o Espírito fala sobre a afeição e o amor, afirmando ser preciso, para que a afeição persista eternamente, que ela seja espiritual e desinteressada e comporte abnegação e devotamento. (P. 52)

            45. Em face disso, toda afeição resultante apenas do instinto animal ou do egoísmo se destrói com a morte terrestre, enquanto a verdadeira afeição - a afeição espiritual - persiste para todo o sempre. (PP. 52 e 53)

            46. Quando assim é, é a alma que ama. Dois Espíritos unidos espiritualmente se buscam e tendem sempre a aproximar-se; seus fluidos são atrativos e, se estiverem no mesmo globo, serão impelidos um para o outro. (P. 53)

            47. Comentando a mensagem, Kardec diz que, considerada do ponto de vista do progresso, a vida do Espírito apresenta três períodos principais: 1o) O período material, no qual a influência da matéria domina a do Espírito; 2o) O período do equilíbrio, no qual ambas as influências se exercem simultaneamente;  3o) O período espiritual, no qual, tendo dominado completamente a matéria, o Espírito não mais necessita da encarnação e seu trabalho passa a ser inteiramente espiritual; é o estado dos Espíritos nos mundos superiores. (P. 55)

            48. Noticiando o surgimento da Revista Espírita de Anvers, fundada em 1o de janeiro de 1864, Kardec adverte que toda publicação espírita que ficasse para trás do movimento, necessariamente encontraria pouca simpatia. Outra condição de sucesso para publicações desse gênero é marchar com a opinião da maioria.  “Tornar-se eco de opiniões retardatárias ou seguir um caminho errado - diz Kardec - é condenar-se previamente ao isolamento e ao abandono.” (PP. 56 e 57)

            49. A Revista destaca trechos do livro “Reconhecemo-nos no céu”, do padre Blot, da Companhia de Jesus, no qual ele cita grande número de passagens de escritores sacros, aparições e manifestações diversas, que provam a reunião após a morte daqueles que se amaram e as relações existentes entre os mortos e os vivos. (PP. 57 a 59)

            50. Kardec analisa o romance “A Lenda do Homem Eterno”, do sr. Armand Durantin, para apontar alguns equívocos cometidos pelo autor. Corrigindo-o, Kardec esclarece: I) Não é preciso ser perfeito para comunicar-se com os Espíritos. II) A mediunidade é uma faculdade que depende do organismo. III) A superioridade moral do médium lhe assegura a simpatia dos bons Espíritos e o torna apto a receber instruções mais elevadas. IV) A doutrina espírita não é fruto de um sistema preconcebido, mas resultou da observação dos fatos. V) O Espiritismo nada admitiu a título de hipótese prévia: tudo na sua doutrina é o resultado da experiência. (PP. 60 a 62)

            51. Abrindo o número de março, Kardec explica por que Deus, ao invés de ter criado os Espíritos perfeitos, fê-los simples e ignorantes. Se Deus os tivesse criado perfeitos, tê-los-ia isentado de todo trabalho intelectual e lhes teria tirado toda a atividade que devem desenvolver e pela qual concorrem para o aperfeiçoamento material dos mundos. (PP. 65 e 66)

            52. Submetendo-os à lei do progresso facultativo, quis Deus que os Espíritos tivessem o mérito de suas obras, para

terem direito à recompensa e à satisfação de haverem conquistado suas próprias posições. (P. 67)

            53. Na seqüência do artigo, Kardec examina a questão da evolução dos animais e afirma que nenhuma das teorias dadas até então pelos Espíritos possui um caráter bastante autêntico para ser aceita como verdade definitiva. (P. 68)

            54. Só a concordância universal - explica Kardec - pode lhes dar a consagração, pois nisto se encontra o único e verdadeiro controle do ensino dos Espíritos. Um princípio, seja qual for, só adquire autenticidade pela universalidade do ensinamento, isto é, por instruções idênticas, dadas em todos os lugares, por médiuns estranhos uns aos outros, sem sofrer as mesmas influências, isentos de obsessões e assistidos por Espíritos esclarecidos. (P. 68)

            55. Assim é que foram controladas as diversas partes da doutrina formulada no Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns. Mas esse, declara Kardec, não era ainda o caso da questão dos animais. (P. 68)

            56. Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? “A razão, a lógica, o raciocínio, sem dúvida, são os primeiros meios de controle a serem usados”, assevera o Codificador. E em muitos casos isto basta. “Mas quando se trata de um princípio importante, da emissão de uma idéia nova, seria presunção crer-se infalível na apreciação das coisas.” (P. 69)

            57. Depois de examinar a questão do sofrimento dos animais e sua destruição mútua, fato que costuma chocar o analista em face da Providência, Kardec conclui nestes termos o seu artigo: “Ensina-nos o Espiritismo, e nos prova, que o sofrimento no homem é útil ao seu avanço moral. Quem nos diz que o dos animais não tem utilidades? que na sua esfera e conforme certa ordem de coisas, não seja causa de progresso?” (P. 70)

            58. Examinando a questão da evolução dos Espíritos, Erasto ensina que a lei imutável dos mundos é o progresso ou o movimento para a frente, ou seja, todo Espírito que é criado está inevitavelmente submetido a essa grande e sublime lei da vida. “Só existe um ser perfeito e não pode existir senão um: Deus!”, acrescenta o instrutor espiritual. (P. 71)

            59. A Revista refere um curioso exemplo de faculdade mediúnica aplicada ao desenho, verificada antes do advento do Espiritismo e mesmo antes das mesas girantes. A médium era uma religiosa cega, da aldeia de Saint-Laurent-sur-Sèvres. Explicando o fenômeno, Kardec diz que parece evidente, no caso, que a médium fosse dirigida pela segunda vista, isto é, ela via pelos olhos da alma, já que os olhos do corpo nada registravam. (PP. 72 a 75)

            60. Referindo-se a uma senhora dotada de notável faculdade tiptológica e inteiramente devotada à causa do Espiritismo, Kardec aproveita o ensejo para explicar por que a faculdade mediúnica não pode constituir uma profissão ou ser objeto de comércio. (PP. 75 e 76)

            61. Assevera, então, o Codificador: I) A mediunidade não é um talento, e não existe senão pelo concurso de um terceiro. Se este se recusa, não há mais mediunidade; a aptidão pode existir, mas seu exercício estará anulado. II) Um médium sem a assistência dos Espíritos é como um violinista sem violino. III) Não é apenas contra a cupidez que os médiuns devem pôr-se em guarda. IV) Há um perigo, de certo modo maior, pois a ele todos estão expostos: é o orgulho, que põe a perder um grande número. V) O desinteresse material não tem proveito se não for acompanhado pelo mais completo desinteresse moral. VI) Humildade, devotamento, desinteresse e abnegação são qualidades do médium amado pelos bons Espíritos. (PP. 76 e 77)

            62. Kardec comenta a cura de uma jovem obtida por confrades da Sociedade Espírita de Marmande (veja o item 39 desta síntese) e o sermão pouco evangélico proferido pelo pároco daquela cidade, o qual

valeu de observações preconceituosas para desmerecer o trabalho dos espíritas, chamando-os de charlatães e palhaços. (PP. 80 e 81)

            63. Lembrando que o pároco não acreditava na eficácia das preces em casos semelhantes, Kardec afirma: “Os espíritas crêem na eficácia das preces pelos doentes e nas obsessões; oravam e curavam e nada cobravam; ainda mais, se os pais estivessem necessitados, teriam dado”. (P. 81)

            64. Essas preces eram palhaçadas? Evidente que não, e se venceram é porque foram ouvidas. (P. 81)

            65. A Revista transcreve, sem comentá-la, uma pastoral concernente ao Espiritismo, escrita pelo bispo de Strassburg, em que seu autor vale-se da tese da ação demoníaca para explicar os fenômenos ditos espíritas. O demônio, segundo o bispo, oculta-se de todas as formas possíveis e as mesas girantes teriam sido artifícios criados por ele, para ludibriar as criaturas humanas. (PP. 82 a 84)

            66. Kardec observa que, embora seja censurável a inconveniência das palavras usadas pelos adversários do Espiritismo para combatê-lo, os espíritas não devem incorrer na mesma falta, porque é a moderação que fez a sua força. (P. 84)

            67. Os jornais de fevereiro de 1864 divulgaram que recentemente, num conselho privado, a rainha Vitória, reportando-se à questão dinamarquesa, declarou que nada faria sem consultar o príncipe Alberto, já falecido. Com efeito, retirando-se para o seu gabinete, logo retornou dizendo que o príncipe se pronunciara contra a guerra. O fato surpreendeu a todos e, acrescido de outros semelhantes, deu origem à idéia de que seria oportuno estabelecer uma regência. (P. 85)

            68. Seria médium a rainha Vitória? Tudo indica que sim, o que não causa nenhuma surpresa, porquanto - afirma Kardec - o Espiritismo tem adeptos até nos degraus dos tronos, ou melhor, até nos tronos. “Tratados como loucos, os espíritas devem consolar-se por estarem em tão boa companhia”, pondera o Codificador. (P. 85)

            69. Analisando a influência que os Espíritos exercem sobre os homens, Kardec adverte que, em princípio, eles não nos vêm conduzir às andadeiras. O objetivo de suas instruções é tornar-nos melhores, dar fé aos que não a têm, e não o de poupar-nos o trabalho de pensar por nós mesmos. (P. 86)

            70. Transcrevendo uma nota pertinente ao falecimento de uma pessoa do Havre, Kardec observa que, à exceção dos parentes próximos, poucas pessoas levam em conta o pedido que nos fazem de orar por alguém que acaba de morrer. Com os espíritas, as coisas se passam de forma diferente, porque eles sabem a importância da prece e a influência que ela exerce, no momento da morte, sobre o desprendimento da alma. (P. 88)

            71. A Revista revela que o médium Home teve de partir de Roma instantaneamente, sob acusação de feitiçaria. Ao divulgar o fato, os jornais trocistas fizeram questão de lamentar que em pleno século 19 ainda se acredite em feiticeiros; mas o mais surpreendente não é isto - afirma Kardec -: é tentarem reviver os feiticeiros nos espíritas, quando estes vêm provar, com as peças nas mãos, que não existem feiticeiros nem o maravilhoso, mas somente leis naturais. (P. 88)

            72. Na seção dedicada às instruções dos Espíritos, a Revista transcreve mensagem do Espírito de Jacquard, obtida psicograficamente pelo médium Leymarie, na qual é examinada a questão do progresso da ciência e do aprimoramento das máquinas e utensílios fabris, bem como o seu efeito nas relações de emprego e trabalho. (PP. 89 a 92)

            73. Na mesma reunião, enquanto Jacquard transmitia a sua mensagem, outro médium, o sr. d’Ambel, obteve sobre o mesmo assunto uma comunicação assinada pelo Espírito de Vaucanson. (PP. 92 e 93)

            74. Em síntese, ensina-nos Vaucanson: I) O homem não foi feito para ficar como instrumento ininteligente de produção. II) Por suas aptidões, por seu destino e seu lugar na criação, é ele chamado a outra função, que não a da máquina, a um outro papel, que não a do cavalo de tiro. III) O operário é chamado a tornar-se engenheiro, a ver seus braços laboriosos substituídos por máquinas ativas, infatigáveis e mais precisas. IV) O artífice é chamado a tornar-se artista e conduzir o trabalho mecânico por um esforço do pensamento e não mais por um esforço dos braços. V) Eis aí a prova irrecusável da lei do progresso, que rege todas as humanidades. (P. 93)

            75. Na seqüência, indaga Vaucanson: “Que importa que cem mil indivíduos sucumbam, quando uma máquina foi descoberta para fazer o trabalho desses cem mil?” “Para o filósofo, que se eleva sobre os preconceitos e interesses terrenos, o fato prova que o homem não estava mais em seu caminho, quando se consagrava a esse labor condenado pela Providência.” (P. 93)

            76. É no campo da inteligência - prossegue Vaucanson - “que, de agora em diante, o homem deve fazer passar a grade e a charrua que fecundam”. “Todas as nossas reflexões têm um só objetivo: demonstrar que ninguém deve gritar contra o progresso, que substitui  braços humanos por dispositivos e engrenagens mecânicas. Além disso, é bom acrescentar que a humanidade pagou largo contributo à miséria e que, penetrando mais e mais em todas as camadas sociais, a instrução tornará cada indivíduo cada vez mais apto para funções inteligentemente chamadas liberais.” (PP. 93 e 94)

            77. Concluindo sua mensagem, adverte o instrutor espiritual: “O homem é um agente espiritual que deve chegar, em período não distante, a submeter ao seu serviço e para todas as operações materiais a própria matéria, dando-lhe como único motor a inteligência, que se expande nos cérebros humanos”. (P. 94)

            78. A Revista registra o surgimento em Turim do periódico Annali dello Spiritismo in Italia e de um novo jornal espírita na França: O Salvador dos Povos, jornal do Espiritismo, de Bordeaux, de periodicidade semanal. Kardec observa, quanto a este último: “Se vier trazer uma pedra útil ao edifício, se vier, como diz, unir em vez de dividir, se a verdadeira caridade de palavras e de ação é seu guia para seus irmãos em crença, se a sua polêmica com os adversários de nossa doutrina não se afastar aos limites da moderação e de uma discussão leal, será bem-vindo e seremos felizes de o encorajar e o apoiar”. (PP. 94 a 96)

            79. A primeira edição de O Evangelho segundo o Espiritismo, que apareceu com um título diferente: “Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo”, é destacada no volume de abril de 1864, que transcreve parte da introdução da mencionada obra, em que Kardec explica por que o ensino moral contido nos Evangelhos foi por ele escolhido para objeto exclusivo do livro. Como sabemos, o Codificador elege o ensino moral do Cristo uma regra de conduta, o princípio de todas as relações sociais baseadas na justiça e, acima de tudo, a rota infalível da felicidade futura. (PP. 97 e 98)

            80. Na parte final da introdução transcrita pela Revista, Kardec é enfático: “Graças às comunicações de ora em diante estabelecidas de maneira permanente entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada em todas as nações pelos próprios Espíritos, não mais será letra morta, porque cada um a compreenderá e necessariamente será solicitado a pô-la em prática, a conselho de seus guias espirituais”. (P. 99)

            81. Reafirmando que o Espiritismo não tem nacionalidade, Kardec assevera que é a universalidade do ensino dos Espíritos que constitui a força da doutrina espírita e a causa de sua rápida propagação. Em face disso, adverte o Codificador que, para tudo quanto esteja fora do ensino exclusivamente moral,  as revelações que cada um pode obter têm um caráter individual sem autenticidade e devem ser consideradas como opinião pessoal desse ou daquele Espírito, sendo imprudente aceitá-las e promulgá-las levianamente como verdades absolutas. (PP. 100 e 101)

            82. O primeiro controle do ensino dos Espíritos é, sem dúvida, o da razão, à qual é preciso submeter tudo quanto venha dos Espíritos, sem qualquer exceção. “Toda teoria em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos que se possuem, por mais respeitável que seja a sua assinatura, deve ser rejeitada.” (P. 101)

            83. Como esse controle é, em muitos casos, incompleto, devido à insuficiência das luzes de certas pessoas e da tendência de muitos a tomar seu próprio julgamento por único árbitro da verdade, a concordância no ensino dos Espíritos deve ser verificada, mas é preciso que se dê em certas condições. (PP. 101 e 102)

            84. A única garantia séria está, então, na concordância que exista entre as revelações espontâneas, feitas por grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em diversas regiões. “Prova a experiência - diz Kardec - que quando um princípio novo deve ter a sua solução, é ensinado espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de maneira, senão na forma, ao menos no fundo.” (P. 102)

            85. Esse controle universal, segundo o Codificador, é uma garantia para a futura unidade do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. É aí que, no futuro, será procurado o critério da verdade e é o que fez o sucesso da doutrina formulada no Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns, visto que por toda a parte cada um pode receber dos Espíritos, diretamente, a confirmação do que eles encerram. (P. 102)

            86. Concluindo o artigo, Kardec afirma que não é à opinião de um homem que se aliarão os Espíritos, nem será um homem que fundará a ortodoxia espírita, nem um Espírito, mas sim a universalidade dos Espíritos, comunicando-se em toda a Terra, por ordem de Deus. “Aí está - diz o Codificador - o caráter essencial da doutrina espírita; aí está a sua força e a sua autoridade.” (P. 104)

            87. Em vinte e dois tópicos, a Revista publica uma instrução intitulada “Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas”, dirigida às pessoas que não possuem qualquer noção do Espiritismo. “Nos grupos ou reuniões espíritas onde se acham assistentes noviços, ela pode ser útil ao preâmbulo das sessões”, afirma Kardec. (P. 105)

            88. No preâmbulo do Resumo, o Codificador afirma que um sério estudo prévio é o único meio de levar alguém à convicção e muitas vezes isto mesmo basta para mudar inteiramente o curso das idéias. Contudo, em falta de uma instrução completa, que não pode ser dada em poucas palavras, um resumo sucinto da lei que rege os fenômenos bastará para fazer encarar a coisa sob sua verdadeira luz pelas pessoas não iniciadas. (P. 106)

            89. Eis, de forma sintética, os principais ensinamentos contidos nos vinte e dois itens da instrução referida: I) O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. II) Os Espíritos não são seres à parte na criação, mas as almas dos que viveram na Terra e em outros mundos. III) Eles não são, como se pensa, seres vagos e indefinidos, nem chamas, nem fantasmas. São seres semelhantes a nós, com um corpo como o nosso, mas invisível e fluídico em seu estado normal. IV) Unida ao corpo, a alma possui um duplo envoltório: um pesado, grosseiro, destrutível - o corpo; outro fluídico, leve, indestrutível - o perispírito. O perispírito é o elo que une a alma ao corpo e é por meio dele que a alma faz o corpo agir e percebe as sensações experimentadas pelo corpo. V) A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito. VI) O fluido que compõe o perispírito penetra todos os corpos; nenhuma matéria lhe faz obstáculo. É por isso que os Espíritos penetram em toda a parte, nos lugares mais fechados. VII) Os Espíritos têm todas as percepções que tinham na Terra, mas

 

mais alto grau, porque suas faculdades não são amortecidas pela matéria. Vêem e ouvem coisas que nossos sentidos limitados não nos permitem ver nem ouvir. Para eles não existe escuridão, salvo para aqueles cuja punição é ficarem temporariamente nas trevas. VIII) É com o auxílio do perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem ou desenharem. Ele serve-se assim do corpo do médium, cujos órgãos ocupa, fazendo-os agir como se fosse seu próprio corpo, e isto pelo eflúvio fluídico que sobre ele derrama. IX) Nas comunicações pela escrita, pode-se ver o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o pensamento por uma corrente fluídica. X) Quando golpes são ouvidos na mesa ou noutro lugar, o Espírito não bate com a mão, nem com um objeto qualquer: ele dirige um jato de fluido para o ponto de onde parte o ruído, produzindo o efeito de um choque elétrico, e modifica o ruído, como se pode produzir o som produzido pelo ar. XI) As descobertas científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O conhecimento da nova lei revelada pelo Espiritismo vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso provam, por isto mesmo, que falam do que não conhecem. XII) Toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve - como primeira condição - ser séria e recolhida. Tudo nela deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com dignidade, se se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. (PP. 106 a 112)

            90. A Revista registra a constituição de duas novas sociedades espíritas: o Círculo Espírita, Amor e Caridade, de Anvers, e a Sociedade Marselhesa dos Estudos Espíritas, de Marselha. Ambas fizeram constar de seu regulamento que se colocavam sob o patrocínio da Sociedade Espírita de Paris. “Essas adesões - diz Kardec -, dadas espontaneamente, testemunham os princípios que prevalecem entre os espíritas, e a Sociedade de Paris não pode deixar de sensibilizar-se com estes sinais de simpatia, que provam a séria intenção de marchar sob a mesma bandeira.” (PP. 112 a 114)

            91. Uma comunicação espontânea recebida em Paris acerca da progressão do globo terrestre refere que o progresso do mundo marcha a grande velocidade, no tocante aos aspectos físicos, materiais e inteligentes. O progresso moral, contudo, foi mais lento. (PP. 114 a 116)

            92. O Espiritismo - afirma o instrutor espiritual - vem acelerar o progresso, desvendando à humanidade os seus destinos, e sua força pode ser aquilatada pelo número de adeptos e a facilidade com que é compreendido. “Ele vai conduzir a uma transformação moral ativa e, pela multiplicidade das comunicações mediúnicas, o coração e o espírito de todos os encarnados serão trabalhados pelos Espíritos amigos e instrutores”, acentua a mensagem. (P. 116)

            93. Concluindo, o instrutor assevera que os Espíritos, porém, não se limitam à instrução científica: “seu dever é duplo e eles devem, sobretudo, cultivar a vossa moral”. “Ao lado dos estudos da ciência, eles vos farão, e já fazem desde agora, trabalhar o vosso próprio eu.” (P. 117)

            94. O Espírito de Guttemberg, o pai da imprensa, escreve sobre sua invenção, que ele chama de revolução mãe. “Vós o vedes; até o pobre Guttemberg, a arquitetura é a escrita universal”, assinala o comunicante, ressaltando o valor da imprensa que, como o Sol, há de fecundar o mundo com seus raios benéficos. (PP. 117 a 119)

            95. Afirmando que a imprensa emancipou a humanidade, Guttemberg prevê que a eletricidade a fará livre e destronará a própria imprensa que ele inventou, para pôr nas mãos dos homens um poder de outro modo temível. (P. 119)

            96. No mesmo sentido, e falando sobre a arquitetura e a imprensa, comunicou-se na Sociedade Espírita de Paris o Espírito de Robert de Luzarches, que foi na Terra construtor de castelos, torreões e catedrais. (PP. 120 e 121)

            97. A Revista transcreve, logo na seqüência, três comunicações que comentam as relações entre o Espiritismo e a franco-maçonaria. Na primeira delas, Guttemberg lembra que todo maçom iniciado é levado a crer na imortalidade da alma e no Divino Arquiteto e a ser benfeitor, devotado, sociável, digno e humilde. Ali se pratica a igualdade na mais larga escala, havendo, pois, nessas sociedades uma afinidade evidente com o Espiritismo. Asseverando que muitos maçons são espíritas e trabalham muito na propaganda desta crença, Guttemberg prevê que no futuro o estudo espírita entrará como complemento nos estudos abertos nas lojas. (PP. 121 e 122)

            98. Na segunda mensagem, Jacques de Molé afirma que as instituições maçônicas foram para a sociedade um encaminhamento à felicidade. Numa época em que toda idéia liberal era considerada crime, os homens precisavam de uma força que, submissa às leis, fosse emancipada por suas crenças, suas instituições e a unidade de seu ensino. “Nessa época - diz Molé - a religião ainda era, não mãe consoladora, mas força despótica que, pela voz de seus ministros, ordenava, feria, fazia tudo curvar-se à sua vontade; era um assunto de pavor para quem quisesse, como livre pensador, agir e dar aos homens sofredores alguma coragem e ao infeliz algum consolo moral.” (P. 123)

            99. Concluindo, Jacques de Molé profetiza: “O Espiritismo fez progressos, mas, no dia em que tiver dado a mão à franco-maçonaria, todas as dificuldades estarão vencidas, todo obstáculo retirado, a verdade estará esclarecida e o maior progresso moral será realizado e terá transposto os primeiros degraus do trono, onde em breve deverá reinar”. (P. 124)

            100. Na terceira mensagem, o Espírito de Vaucanson, que se designa ainda franco-maçom, observa que Guttemberg foi contemporâneo do monge que inventou a pólvora - invenção essa que transformou a velha arte das batalhas -, enquanto a imprensa trouxe uma nova alavanca à expressão das idéias, emancipando as massas e permitindo o desenvolvimento intelectual dos indivíduos. (P. 124)

            101. A franco-maçonaria, contra a qual tanto gritaram, contra a qual a Igreja romana não teve anátemas em quantidade suficiente, e que nem por isso deixou de sobreviver, abriu de par em par as portas de seus templos ao culto emancipador da idéia. “Em seu seio - afirma Vaucanson - todas as questões mais sérias foram levantadas e, antes que o Espiritismo tivesse aparecido, os veneráveis e os grão-mestres sabiam e professavam que a alma é imortal e que os mundos visível e invisível se intercomunicam.” (P. 125)

            102. Segundo Vaucanson, o Espiritismo encontrará no seio das lojas maçônicas numerosa falange compacta de crentes, sérios, resolutos e inabaláveis na fé, porque o Espiritismo realiza todas as aspirações generosas e caridosas da franco-maçonaria; sanciona as crenças que esta professa, dando provas  irrecusáveis da imortalidade da alma; e conduz a humanidade ao objetivo que se propõe: união, paz, fraternidade universal, pela fé em Deus e no futuro. (PP. 125 e 126)

            103. A Revista traz, fechando o número de abril, mensagem assinada por João, o Evangelista, dirigida aos operários, a quem o apóstolo diz: “Operários, sois os eleitos na via dolorosa da provação, onde marchais de pés sangrentos e coração desencorajado. Esperai, irmãos! Todo sofrimento leva consigo o seu salário; toda jornada laboriosa tem sua noite de repouso. Crede no futuro, que será vossa recompensa e não busqueis o esquecimento, que é ímpio”. (PP. 126 e 127)

            104. João lembra a eternidade da vida, asseverando: “Meus amigos, a vida é a jornada da eternidade; cumpri bravamente o seu labor; não sonheis com um repouso impossível; não adianteis o relógio do tempo; tudo vem a ponto: a recompensa da coragem e a bênção ao coração comovido, que se confia à eterna justiça”. “Sede espíritas: tornar-vos-eis fortes e pacientes, porque aprendereis que as provas são uma dádiva assegurada do progresso e que abrirão a entrada do repouso feliz, onde bendireis os sofrimentos que vos terão aberto o seu acesso.” (P. 127) 

            105. A teoria da presciência é o tema do artigo de abertura do número de maio, onde Kardec examina a questão do conhecimento do futuro, que é um dos mais intrincados assuntos tratados pelo Espiritismo. (PP. 129 a 134)

            106. Kardec inicia o artigo citando o exemplo do homem que, colocado no alto de uma montanha, pode dizer ao viajante que caminha pela planície tudo aquilo que este irá encontrar em sua viagem. Para o viajante, o outro estará anunciando o futuro; para o homem da montanha, trata-se apenas do presente. (PP. 129 e 130)

            107. Os Espíritos desmaterializados - diz Kardec - são como o homem da montanha. Para eles apagam-se espaço e tempo, mas a extensão e a penetração de sua vista são proporcionais à sua depuração e à sua elevação na hierarquia espiritual. É fácil compreender, portanto, que, conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abarcar um período de alguns anos, alguns séculos e até milhares de anos, porque que é um século ante a eternidade? (P. 130)

            108. Se uma tal faculdade, mesmo restrita, pode estar nos atributos da criatura, a que grau de poder deve ela elevar-se no Criador, que abarca o infinito? Para Deus o tempo não existe; o começo e o fim do mundo são o presente. (P. 130)

            109. No tocante ao homem, pode ser-lhe útil, em certos casos, pressentir os acontecimentos futuros. Eis por que Deus permite, às vezes, que se levante a ponta do véu, o que se dá somente com um fim útil e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. Essa missão pode ser, assim, concedida aos Espíritos e mesmo a certos homens. (PP. 130 e 131)

            110. Aquele a quem é confiado o trabalho de revelar uma coisa oculta pode recebê-la, mau grado seu, como inspiração suscitada pelos Espíritos que a conhecem. Sabe-se também que, durante o sono ou em momentos de êxtase, a alma se desprende e possui em grau mais ou menos grande as faculdades do Espírito livre. Se for um Espírito adiantado e tiver, como os profetas, recebido a missão especial para esse fim, goza nesses momentos da faculdade de abarcar, por si mesmo, um período mais ou menos extenso e ver, como se presentes, os acontecimentos desse período. (P. 131)

            111. Ele pode então revelá-los de imediato, ou conservar-lhes a memória ao despertar. Se os acontecimentos tiverem que permanecer em segredo, ele perderá a sua lembrança ou conservará apenas uma vaga intuição, suficiente para o guiar instintivamente. (P. 131)

            112. O dom da predição não é, portanto, fato sobrenatural, como não o são os outros fenômenos espíritas: repousa nas propriedades da alma e na lei das relações entre os mundos visível e invisível, que o Espiritismo vem dar a conhecer. (P. 131)

            113. Concluindo o artigo, Kardec afirma com toda a clareza que a faculdade de prever o futuro é inerente ao estado de espiritualização ou, se preferirmos, de desmaterialização da criatura humana. “Por outras palavras - diz Kardec -, a espiritualização produz um efeito que se pode comparar, embora muito imperfeitamente, ao da visão de conjunto do homem sobre a montanha.” Essa comparação, lembra ele, objetiva apenas mostrar que

acontecimentos que estão no futuro para uns estão no presente para outros e, desse modo, podem ser preditos, o que não implica que o efeito se produza da mesma maneira. Quer dizer:  para gozar dessa percepção o Espírito não precisa transportar-se para um ponto qualquer no espaço. (P. 132)

            114. Kardec faz ligeira alusão à obra A Vida de Jesus, escrita pelo sr. Renan, cuja dedicatória posta no topo do livro à sua irmã Henriette revela mais que um vago pensamento espiritualista. As palavras dedicadas a Henriette - observa o Codificador do Espiritismo - mostram que o sr. Renan imagina que sua irmã esteja a seu lado, que o pode ver e inspirar e se interessa por seu trabalho. Há entre ele e a falecida uma troca de pensamentos, uma comunicação espiritual e, sem o suspeitar, ele faz, como tantos outros, uma verdadeira evocação. (PP. 134 a 136)

            115. Por que então o sr. Renan inclui a doutrina espírita entre as crenças supersticiosas? A causa é conhecida: o sr. Renan não admite o sobrenatural nem o maravilhoso. Ora, se ele conhecesse o estado real da alma após a morte e as propriedades de seu envoltório perispiritual, compreenderia que o fenômeno das manifestações espíritas não foge às leis naturais e que para isto não é necessário recorrer ao maravilhoso. (P. 136)

            116. No final do artigo, Kardec explica por que razão o Espiritismo se serviu do vocábulo Espírito, em vez de alma. Três foram os motivos. Primeiro porque, desde as primeiras manifestações, o vocábulo era usado, antes da criação da filosofia espírita. Em segundo lugar, porque se o vocábulo Espírito era repulsivo para algumas pessoas, constituía um atrativo para as massas e deveria contribuir mais que o outro para popularizar a doutrina. O terceiro motivo é mais sério que os dois outros. As palavras alma e Espírito, embora sejam sinônimos e empregados indiferentemente, não exprimem exatamente a mesma idéia. (P. 138)

            117. A alma é, a bem dizer, o princípio inteligente, imperceptível e indefinido como o pensamento. Não podemos concebê-lo isolado da matéria de maneira absoluta. Embora formado de matéria sutil, o perispírito dela faz um ser definido, limitado e circunscrito à sua individualidade espiritual. Assim, podemos dizer: A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o HOMEM; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ESPÍRITO. Nas manifestações não é, pois, a alma que se apresenta só. Ela está sempre revestida de seu envoltório fluídico. Portanto, nas aparições não é a alma que se vê, mas o perispírito, do mesmo modo que, quando se vê um homem, vê-se o seu corpo, mas não o pensamento ou o princípio que o faz agir. (PP. 138 e 139)

            118. Em resumo, a alma é o ser simples, primitivo; o Espírito é o ser duplo; o homem é o ser triplo. (P. 139)

            119. A Revista publica o discurso que Kardec fez a 1o de abril de 1864 na Sociedade Espírita de Paris, que completava então seis anos de existência. (P. 140)

            120. Eis alguns dos tópicos mais relevantes extraídos do referido discurso: I) O sinal de prosperidade da Sociedade de Paris estava inteiramente na progressão de seus estudos, na consideração que conquistou, no ascendente moral que exerce lá fora e no número de adeptos que se ligam aos princípios por ela professados. II) Sendo a primeira sociedade espírita regularmente constituída, a Sociedade de Paris foi a primeira a alargar o círculo de seus estudos e abraçou todas as partes da ciência espírita. III) Quando o Espiritismo mal saía do período da curiosidade e das mesas girantes, ela entrou resolutamente no período filosófico, que, de certo modo, inaugurou. IV) A força do Espiritismo não reside na opinião de um homem ou de um Espírito, mas na universalidade do ensino dado por estes últimos. O controle universal, como o sufrágio universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas e fundará a unidade da doutrina muito melhor que um concílio de homens. V) A Sociedade de Paris é estimada e considerada, não só pela natureza de seus trabalhos, mas pelo bom conceito conquistado por suas sessões entre numerosos estrangeiros que a visitaram. VI) A Sociedade de Paris tem, contudo, sobre as demais apenas autoridade moral, devida à sua posição e aos seus estudos e porque lha conferem. Ela dá os conselhos que lhe pedem à sua experiência, mas não se impõe a nenhuma. A única palavra de ordem que dá como sinal de reconhecimento entre os verdadeiros espíritas é: Caridade para com todos, mesmo os inimigos. VII) A posição da Sociedade de Paris é, pois, exclusivamente moral e ela jamais ambicionou outra. Nossos antagonistas que dizem que todos os espíritas são seus tributários e que ela se enriquece à sua custa, ou dão provas de má-fé ou da mais absoluta ignorância daquilo de que falam. VIII) Um incrédulo que conheceu a doutrina espírita dizia que, com tais princípios, o espírita necessariamente deveria ser um homem de bem. Estas palavras são verdadeiras, mas, para serem completas, é preciso acrescentar que um verdadeiro espírita deve ser, necessariamente, bom e benevolente para com os seus semelhantes, isto é, praticar a caridade evangélica na sua mais larga acepção. (PP. 140 a 145)

            121. Kardec esclarece, no número de maio, por que a doutrina espírita não é a mesma na Europa e na América do Norte e diz onde se encontram as diferenças. (P. 146)

            122. Como se sabe, os fenômenos espíritas ocorreram em todos os tempos, tanto na Europa como na América, mas foi a extrema liberdade que existe nos Estados Unidos que favoreceu a eclosão das idéias novas, e essa a razão pela qual os Espíritos escolheram esse país para o primeiro teatro de seus ensinos. (P. 146)

            123. Muitas vezes uma idéia surge num país e se desenvolve em outro, como se vê nas ciências e na indústria. A esse respeito o gênio americano deu suas provas e nada tem a invejar à Europa. Contudo, se supera em tudo no que concerne ao comércio e às artes mecânicas, não se pode recusar à Europa a primazia no campo das ciências morais e filosóficas. Devido a essa diferença no caráter normal dos povos, o Espiritismo experimental estava em seu terreno na América, ao passo que a parte teórica e filosófica encontrava na Europa elementos mais propícios ao seu desenvolvimento. Assim, foi lá, na América, que ele nasceu, mas foi na Europa que cresceu e fez suas humanidades. (P. 146)

            124. O que particularmente distingue a escola espírita americana da escola européia é a predominância, na primeira, da parte fenomênica, e, na segunda, da parte filosófica. A filosofia espírita da Europa espalhou-se prontamente, porque ofereceu, desde o começo, um conjunto completo e alargou o horizonte das idéias. (P. 147)

            125. De todos os princípios da doutrina espírita o que encontrou mais oposição nos Estados Unidos é o da reencarnação. Aliás, essa é a única divergência capital, pois as outras dizem mais com a forma do que com o fundo. As razões disto é que os Espíritos procedem em toda a parte com sabedoria e prudência e, para se fazerem aceitar, evitam chocar muito bruscamente as idéias estabelecidas. Desse modo, não irão dizer inconsideradamente a um muçulmano que Maomé é um impostor. (P. 147)

            126. Nos Estados Unidos o dogma da reencarnação teria vindo chocar-se contra os preconceitos de cor, profundamente arraigados no país. O essencial era fazer aceitar o princípio fundamental da comunicação dos Espíritos. Ressalve-se, porém, que, se a idéia da reencarnação ainda não é aceita nos Estados Unidos de maneira geral, ela o é individualmente por alguns, se não como um princípio absoluto, ao menos com certas restrições, o que já é alguma coisa. (P. 147)

            127. Para comprovar sua assertiva, Kardec transcreve em seguida um artigo publicado no jornal Union, de São Francisco, que lhe foi enviado pela confreira Pauline Boulay. O artigo versa sobre a reencarnação e afirma que a alma necessita reencarnar-se para se aperfeiçoar, porque não pode numa única vida material aprender tudo quanto deve saber para compreender a obra de Deus. (PP. 148 a 150)

            128. A Revista publica nota sobre uma série de lições públicas que o padre Barricand, professor da Faculdade de Teologia de Lyon, ministrava contra o magnetismo e o Espiritismo no Petit-Collège, de Lyon. De acordo com reportagem publicada pelo jornal Vérité, o padre Barricand valia-se de suas aulas para denegrir a imagem do Espiritismo, além de acusá-lo de estagnação e mesmo redução do número de seus adeptos. (PP. 150 a 153)

            129. Bordeaux - diz a Revista - também tem seu curso público de Espiritismo, isto é, contra o Espiritismo, ministrado pelo padre Delaporte, professor da Faculdade de Teologia da cidade. Comentando o assunto, diz Kardec: “Que sairá daí? Um primeiro resultado inevitável: o exame mais aprofundado da questão em todo o mundo; os que não leram, quererão ler; os que não viram, quererão ver. Um segundo resultado será o de fazê-lo tomar a sério por aqueles que nele ainda não vêem senão mistificação, pois que os ilustres teólogos o julgam assunto de séria discussão pública”. Um terceiro resultado, segundo Kardec, seria calar o medo do ridículo que ainda segura tanta gente. “Quando uma coisa é discutida publicamente por homens de valor, pró e contra, não se tem mais receio de dela falar.” (PP. 153 e 154)

            130. Os rumores que tinham emocionado a cidade de Poitiers haviam cessado, mas parece que os Espíritos barulhentos transportaram o teatro de suas ações para as cercanias daquela cidade. Eis o que o jornal Pays registrou em fevereiro: “Há alguns dias nossa região está preocupada com a presença,  em Bois-de-Doeuil, de Espíritos batedores, que espalham o terror em nossos vilarejos. A casa do sr. Perroche é seu ponto de encontro: todas as noites, entre onze e meia noite, o Espírito se manifesta por nove, onze ou treze pancadas, marcadas por duas e uma e às seis da manhã, pelo mesmo barulho”. A notícia acrescenta que os golpes eram dados à cabeceira de uma cama onde se deitava uma senhora, semimorta de pavor, que pretendia receber as comunicações de um tio do marido, morto havia um mês. (PP. 154 e 155)

            131. Um leitor de São Petersburgo escreve relatando um caso relacionado com a vida de Tasso, referido pelo sr. Suard e inserto na tradução de Jerusalém Libertada, publicada em 1803. Tasso estava persuadido de que era objeto das perseguições de um Espírito que derramava tudo nele, roubava-lhe o dinheiro e retirava de sobre sua mesa tudo quanto lhe servia. O leitor transcreve um texto em que o próprio Tasso conta as peripécias de seu obsessor. (PP. 156 e 157)

            132. A Revista publica breve resumo das instruções que Ciro deu a seus filhos no momento de sua morte, conforme é relatado na Ciropedia, de Xenofonte. No documento, Ciro mostra-se convencido da imortalidade da alma e afirma que é durante o sono que a alma mais se aproxima da Divindade e pode, nesse estado, muitas vezes prever o futuro, porque, sem dúvida, encontra-se nesse momento inteiramente livre. (PP. 157 e 158)

            133. Na seção de livros novos, a Revista reporta-se a duas obras recentes: “Cartas aos Ignorantes”, de V. Tournier, que reproduz em versos os princípios fundamentais da doutrina espírita, e “A Guerra ao Diabo e ao Inferno”, de Jean de la Veuze, que examina o argumento clerical de que o Espiritismo é uma concepção do diabo. Traçando um rápido esboço do Espiritismo, desde as manifestações da América, o autor mostra que o diabo

errou os cálculos, pois salva as almas perdidas e deixa escaparem as que eram suas. O livro, como se vê, é uma crítica espirituosa e alegre do papel que fazem o diabo representar nos últimos tempos, mas contém também pensamentos sérios e profundos. (P. 159)

            134. Uma análise do livro do sr. Renan sobre a vida de Jesus abre a edição de junho. Sem refutar a obra, tarefa que só seria possível através de um outro livro, Kardec observa: “Admitamos (...) que o sr. Renan não se tenha em nada afastado da verdade histórica. Isto não implica a justeza de sua apresentação, porque ele fez esse trabalho em vista de uma opinião e com idéias preconcebidas”. (PP. 161 e 162)

            135. Percorrendo a Judéia com o Evangelho na mão, o sr. Renan concluiu que o Cristo tinha existido, mas não viu o Cristo de outra maneira pela qual o via antes. A obra do Cristo era toda espiritual, mas, como o sr. Renan não crê na espiritualização do ser, nem num mundo espiritual, naturalmente deveria julgar suas palavras do ponto de vista exclusivamente material e, por isso, enganou-se quanto às suas intenções e o seu caráter. (PP. 162 e 163)

            136. A mais evidente prova disto se encontra nesta estranha passagem de seu livro: “Jesus não é um espiritualista, desde que tudo para ele conduz a uma realização palpável; ele não tem a menor noção de uma alma separada do corpo. Mas é um idealista completo, pois para ele a matéria não passa de signo da idéia e o real a expressão viva do que não aparece”. (PP. 163 e 164)

            137. Vê-se assim que todas as suas apreciações decorrem da idéia de que o Cristo só tinha em vista as coisas terrestres. Várias mulheres – diz o sr. Renan – proviam as suas necessidades. E ele e os apóstolos eram vivedores, que não desdenhavam as boas mesas. “Joana, a mulher de Cusa, um dos intendentes de Antipas, Suzana e outras, que ficaram desconhecidas, o seguiam sem cessar e o serviam”, afirma o sr. Renan. “Algumas eram ricas e punham, por sua fortuna, o jovem profeta em posição de viver sem exercer o ofício que tinha exercido até então.” (PP. 164 e 165)

            138. O sr. Renan tem o cuidado de indicar, em notas de chamada, as passagens do Evangelho a que alude, para mostrar que se apóia nos textos. Mas – diz Kardec – não é a verdade das citações que se lhe contesta, mas a interpretação que ele lhes dá, apresentando Jesus como um ambicioso vulgar, dotado de paixões mesquinhas, que age por baixo e não tem coragem de se descobrir. (PP. 166 e 167)

139. O sr. Dombre, de Marmande, enviou a Kardec um relato circunstanciado da cura de uma jovem obsidiada, já referida anteriormente pela Revista. O Espírito de Louis David, guia espiritual do médium, havia explicado que a jovem era vítima de uma influência fatal perigosa e que o Espírito obsessor iria resistir por muito tempo. “Evitai, tanto quanto possível – recomendou o mentor -, que seja tratada por medicamentos, que lhe prejudicariam o organismo. A causa é toda moral; tentai evocar esse Espírito; moralizai-o com habilidade; nós vos auxiliaremos.” (P. 168)

            140. O relato contendo todos os procedimentos adotados pelo sr. Dombre mostra como a prece e o diálogo com o Espírito obsessor, acrescidos da ajuda dos mentores, foram importantes para a solução do problema. (PP. 168 a 177)

            141. No princípio, quando as exortações e as preces não surtiam efeito, os guias espirituais sugeriram: “Amigos, não desanimeis; ele se sente forte porque vos vê desgostosos com sua linguagem grosseira. Abstende-vos de lhe pregar moral pelo momento. Conversai com ele familiarmente e em tom amigável. Assim ganhareis a sua confiança e podereis mais tarde voltar a falar sério”. (P. 169)

            142. Num dos diálogos mantidos com o obsessor, este falou-lhes de sua vida vagabunda na última existência terrena. Fez então parte de um bando de arruaceiros que, depois da morte, foi reconstituir-se no mundo dos Espíritos. “Longe de evitar as ocasiões de fazer o mal, nós o buscávamos”, contou o infeliz, que, tocado mais tarde pelo tratamento ali recebido, pediu ao grupo espírita que orasse também por seus comparsas. (P. 174)

            143. Findo o processo obsessivo, o guia que se intitulava Pequena Cárita explicou por que, mesmo finda a obsessão, a vítima ainda necessita de certo tempo para refazer-se. É que, quando o obsessor a abandona, sua vontade não age mais sobre o corpo, mas a impressão que recebeu o perispírito pelo fluido estranho, de que foi carregado, não se apaga de repente e continua por algum tempo a influenciar o organismo. No caso da jovem: tristezas, lágrimas, langores, insônias, distúrbios vagos ainda se produziriam em conseqüência de sua libertação, mas sem nenhum perigo. “Agora - disse o guia - é preciso agir sobre o próprio Espírito da menina, por uma suave e salutar influência moralizadora.” (PP. 174 e 175)

            144. Kardec conclui a notícia, registrando seu tributo de elogio aos irmãos de Marmande pelo tato, pela prudência e pelo devotamento esclarecido de que deram prova naquela circunstância. E advertiu que o resultado não teria sido o mesmo se o orgulho tivesse manchado sua boa ação. “Deus retira seus dons a quem quer que não os use com humildade; sob o domínio do orgulho, as mais eminentes faculdades mediúnicas se pervertem, se alteram e se extinguem, porque os bons Espíritos retiram o seu concurso”, assevera o Codificador. (P. 177)

            145. A Revista publica duas matérias de origem católica contrárias ao Espiritismo. A primeira, do sr. bispo de Langres, que escreveu que jamais se viu uma conspiração mais odiosa, mais vasta, mais perigosa e mais satanicamente organizada contra a fé católica, nomeando em seguida os membros dessa conspiração: as

sociedades secretas, os protestantes, os filósofos racionalistas, os materialistas  e as sociedades espíritas. A segunda, parte de um trabalho redigido por um aluno do catecismo da diocese de Langres, no qual é dito textualmente que o Espiritismo é obra do diabo e entregar-se a ele é pôr-se em contato direto com o demônio. Eivado de preconceitos e de deturpação de textos de Kardec, o trabalho dá bem uma mostra do que os alunos daquela diocese recebiam dos seus instrutores. (PP. 178 a 183)

            146. Comentando a segunda matéria, Kardec adverte: “Um instrutor de catecismo deveria colher seus dados históricos em fonte outra que as barrigas dos jornais. As crianças a quem contam  seriamente essas coisas as aceitam com confiança; mas, quanto maior a confiança, mais forte a reação contrária quando, mais tarde, vierem a saber a verdade”. (P. 183)

            147. Para instruir a infância - afirma o Codificador - é necessário grande tato e muita experiência, porque ninguém imagina o alcance que poderá ter uma só palavra imprudente que, como um grão de erva daninha, germina nessas jovens imaginações. (P. 184)

            148. Mostrando com clareza que os ataques contra o Espiritismo não o preocupavam em nada, Kardec conclui seus comentários dizendo: “Os sermões atuam sobre a geração que se vai; as instruções predispõem a geração que chega. Erraríamos se as víssemos com desagrado”. (P. 184)

            149. Enviada de Viviers e datada de 10 de abril de 1741, uma carta firmada pelo abade de Saint-Ponc e transcrita pela Revista relata, em todas as suas minúcias, fenômenos que se passaram naquela época na cela de Irmã Maria e que foram testemunhados pelo padre Chambon, cura de Saint-Laurent. Além de ruídos estranhos, quadros batiam nas paredes, uma pia d’água benta movia-se e uma cadeira de madeira era derrubada, sem contato humano. Desconfiado de que Irmã Maria, embora paralítica e presa ao leito, fosse a causa dos fenômenos, padre Chambon ouviu dela própria, em confidência, que eles eram produzidos por uma alma sofredora cujo nome indicou, que vinha com a permissão de Deus para que aliviassem suas penas. (PP. 184 a 186)

            150. Querendo convencer-se da verdade contada por Irmã Maria, o abade ordenou ao Espírito sofredor que tomasse o crucifixo da parede e o pusesse sobre o peito da enferma; ele obedeceu imediatamente. Depois, a pedido do abade, ele recolocou o crucifixo na parece e fez mover-se a pia d’água. Chamado à cela, padre Chambon repetiu as ordens e os fenômenos ocorreram outra vez, na presença de outras pessoas, como o Cônego Digoine e o padre Robert. (P. 187)

            151. Na seção de variedades, o número de junho faz o seguinte registro: “A data de 1o de maio de 1864 será marcada nos anais do Espiritismo, como a de 9 de outubro de 1861. Ela lembrará a decisão da sagrada congregação do Índex, concernente a nossas obras sobre o Espiritismo. Se uma coisa causou admiração aos espíritas, é que tal decisão não tenha sido tomada mais cedo”. (N.R.: O dia 9 de outubro de 1861, e não 1862, como está na edição publicada pela Edicel, lembra-nos a execução do Auto-de-fé de Barcelona.) (P. 190)

            152. Diz a Revista que, logo que a Igreja divulgou sua decisão, a maioria das livrarias apressaram-se em pôr as obras espíritas em evidência. Alguns livreiros mais tímidos, por medo, as tiraram das prateleiras, mas não as vendiam menos dentro do balcão. A medida, do ponto de vista legal, era porém inócua, porque a lei orgânica vigente na França estabelece que nenhuma bula, decreto, mandato ou qualquer expediente da Corte de Roma pode ser recebido, impresso ou executado sem autorização do governo. (P. 190)

            153. Sob o título Perseguições militares, o número de junho lembra que, embora contando numerosos representantes no seio do Exército francês, existiam regimentos em que o Espiritismo encontra adversários declarados, que interditam formalmente os seus subordinados de dele se ocupar, fora as perseguições de praxe. O conselho de Kardec era que todos se submetessem sem murmúrio à disciplina hierárquica, esperando com paciência dias melhores. “Essas pequenas perseguições são provações para sua fé e servem ao Espiritismo, em vez de o prejudicar”, afirma o Codificador. “Devem julgar-se felizes por sofrer um pouco por uma causa que lhes é cara.” (PP. 190 e 191)

            154. Finalizando a edição de junho, a Revista refere que o dia 3 de abril de 1864 foi um momento de grande festa para a comuna de Cempuis, perto de Grandvilliers, Oise. Milhares de pessoas ali estiveram reunidas para uma tocante cerimônia em que o sr. Prévost, membro da Sociedade Espírita de Paris e fundador da casa de retiro de Cempuis e das sociedades de auxílio mútuo do departamento, foi o modesto herói. Imenso cortejo, precedido da banda de Grandvilliers, o conduziu à Prefeitura, onde recebeu medalha de honra por seu devotamento à causa dos que sofrem. (P. 191)

Astolfo Olegário de Oliveira Filho

Londrina, agosto de 2005

Revista Espírita de 1858 a 1869 (Allan Kardec


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