Revista Espírita de 1863

 De Allan Kardec, tradução de Júlio Abreu Filho, publicada pela EDICEL

 

            1. Kardec abre esta edição com um novo artigo a respeito dos possessos de Morzine; o primeiro saiu em dezembro de 1862. No estudo, informa Kardec: I) O perispírito é o princípio de todos os fenômenos espíritas e de uma porção de efeitos morais, fisiológicos e patológicos. II) Ele é também a fonte de múltiplas afecções e, por sua expansão, a causa das atrações e repulsões instintivas, bem como da ação magnética. III) Pela natureza fluídica e expansiva do perispírito, o Espírito atinge a pessoa sobre a qual deseja agir: rodeia-a, envolve-a, penetra-a e a magnetiza. (P. 1)

            2. Todos nós - diz Kardec - vivemos num oceano fluídico, incessantemente a braços com correntes contrárias que atraímos ou repelimos, mas em cujo meio o homem conserva sempre o seu livre arbítrio. (P. 2)

            3. A ação dos maus Espíritos sobre as pessoas de quem se apoderam apresenta nuanças de intensidade e duração extremamente variadas, conforme o grau de perversidade do Espírito e o estado moral da pessoa que lhe dá acesso. (P. 3)

            4. Citando o caso de uma senhora que perdera a razão e fora internada, um amigo da família e membro da Sociedade Espírita de Paris obteve dos Espíritos a seguinte orientação: I) A idéia fixa que a mulher nutria atraía em sua volta uma porção de Espíritos maus, que a envolviam com seus fluidos e alimentavam suas idéias, impedindo lhe chegassem as boas influências. II) Para curá-la, seria necessário opor uma força moral capaz de vencer essa resistência, mas tal força não é dada a um só. III) Cinco ou seis espíritas sinceros deveriam reunir-se todos os dias, durante alguns instantes, pedindo com fervor a Deus e aos bons Espíritos sua assistência para ela. IV) Não era necessário estar junto à enferma, ao contrário. Pelo pensamento poderia ser levada a ela uma salutar corrente fluídica, cuja força estaria na razão de sua intenção, aumentada pelo número. (P. 5)

            5. Seis pessoas dedicaram-se a essa obra de caridade e, durante um mês, não faltaram à missão aceita. Depois de alguns dias a doente estava mais calma; quinze dias depois, a melhora era manifesta; e agora ela já havia retornado para sua casa, em estado perfeitamente normal, sem saber de onde lhe viera a cura. (PP. 5 e 6)

            6. A prece não tem, pois, apenas o efeito de levar ao doente um socorro, mas o de exercer uma ação magnética. Que não poderia o magnetismo ajudado pela prece! Mas, infelizmente, muitos magnetizadores fazem abstração do elemento espiritual e só vêem a ação mecânica, privando-se desse modo de um poderoso auxiliar. (P. 6)

            7. Reportando-se aos escolhos da prática mediúnica, Kardec esclarece: I) Antes de experimentar, é preciso estudar: o menor inconveniente da prática mediúnica sem experiência é a mistificação por parte dos Espíritos enganadores e levianos. II) Não é o exercício da mediunidade que atrai os maus Espíritos, mas a predisposição física ou moral que torne o médium acessível à influência deles. III) A presunção de julgar-se invulnerável aos maus Espíritos tem sido punida, muitas vezes, de modo crudelíssimo, visto que é o orgulho que lhes dá mais fácil acesso. IV) O estudo prévio e a prece são fatores essenciais para evitar o assalto dos maus Espíritos. V) Se nos compenetrássemos do objetivo essencial e sério do Espiritismo e nos preparássemos sempre para o exercício da mediunidade por um fervoroso apelo ao anjo da guarda e aos Espíritos protetores e se, além disso, nos estudássemos, esforçando-nos por nos purificarmos de nossas imperfeições, os casos de obsessão mediúnica seriam ainda mais raros. (PP. 6 a 8)

            8. Evocando um caso descrito em dezembro de 1862 sob o título “A Choça e o Salão”, a Revista transcreve comunicação de um Espírito que foi na Terra um criado dedicado de certa pessoa conhecida de Kardec. Na comunicação, o ex-servo confirma que, no geral, os exemplos de dedicação dos domésticos aos seus amos têm por causa as vidas passadas. “Por vezes - disse ele - tais criados são membros da família ou, como eu, obrigados que pagam uma dívida de reconhecimento e seu reconhecimento lhes ajuda o progresso.” (PP. 9 e 10)

            9. Falando sobre a situação da alma após a morte corpórea, Kardec diz que, ao morrer, o homem deixa na Terra apenas seu invólucro pesado e grosseiro, conservando o envoltório fluídico indestrutível, com o qual, livre do entrave que o prendia ao solo, pode elevar-se e transpor o espaço. Esse envoltório fluídico, por mais invisível e etéreo que seja, não deixa de ser uma espécie de matéria que, durante a encarnação, serve de intermediário entre a alma e o corpo. (P. 13)

            10. A Revista transcreve duas matérias publicadas por um semanário de Bordeaux e pelo “Écho de Sétif”, da Argélia. Trata-se de depoimentos pró-Espiritismo de dois leitores daqueles periódicos. Neste último, o articulista diz que parte dos que não negam os fatos espíritas atribui as comunicações ao demônio. Ele então argumenta: “É o que não posso admitir em face de comunicações como esta:  ‘Crede em Deus, criador e organizador das esferas; amai a Deus, criador e protetor das almas’ (assinado: Galileu)”. (PP. 14 a 17)

            11. Kardec responde a um leitor de Bordeaux explicando porque o Espiritismo não se dirige àqueles que têm uma fé religiosa qualquer, com o fito os desviar, mas sim à numerosa categoria dos incertos e dos incrédulos. (PP. 17 a 20)

            12. Estando em viagem, o sr. Delanne (pai do notável escritor Gabriel Delanne, então uma criança) conta que evocou em Lille sua esposa, que ficara em Paris. O diálogo mantido por Delanne e a alma da mulher é descrito na Revista, acrescido da informação de que os fatos narrados na conversa foram depois devidamente confirmados. (PP. 20 a 23)

            13. A Revista reporta-se a uma terrível tragédia ocorrida em Dalton (EUA) em que um jovem negro foi sumariamente julgado e levado à forca. Dizem os jornais que enquanto o corpo do rapaz se debatia nas convulsões da morte era vítima dos insultos e violências dos espectadores, que lhe deram vários tiros de pistola, aumentando assim a tortura da morte. Ébria de cólera, a multidão arrastou o corpo pelas ruas de Dalton e, depois de percorrida a vila em todos os sentidos, dirigiu-se para a frente de uma igreja de negros, onde o cadáver foi mutilado e queimado numa enorme fogueira. Uma mensagem recebida na Sociedade Espírita de Paris comentou o fato e as conseqüências de tanta ferocidade. (PP. 23 a 25)

            14. Sanson (Espírito), lembrando a proximidade do inverno, concita os espíritas a que, aproveitando seus instantes livres, visitem e ajudem os que passam por privações e necessidades de ordem física ou moral. (PP. 25 e 26)

            15. A lei do progresso é tratada por um Espírito protetor, que diz que em certas épocas -- isto é, em momentos previstos, designados -- surge um homem que abre uma via nova à Humanidade. “Por vezes - diz o comunicante - tal homem é o último entre os humildes, entre os pequenos; contudo penetra nas altas esferas do desconhecido.” (PP. 26 e 27)

            16. Na seção de Bibliografia a Revista noticia o lançamento do livro “A Pluralidade dos Mundos Habitados”, onde Camille Flammarion, do Observatório Imperial de Paris e membro da Sociedade Espírita de Paris, apresenta seus estudos sobre a habitabilidade das terras celestes discutidos do ponto de vista da Astronomia e da Filosofia. (PP. 28 a 31)

            17. A Revista informa ter aberto uma lista em favor dos operários de Rouen, a cujos sofrimentos - diz a nota - ninguém pode ficar indiferente. Convidando o leitor a contribuir com seu auxílio, a nota informa que vários grupos e sociedades espíritas já haviam enviado, até aquele momento, o produto de sua arrecadação. (P. 32)

            18. Novo artigo - o terceiro - sobre os possessos de Morzine abre a edição de fevereiro e nele Kardec refere vários casos de obsessão e os meios utilizados no tratamento realizado, ressaltando sempre o inconveniente de nos entregarmos às evocações sem conhecimento de causa e sem objetivo sério. (PP. 33 a 35)

            19. A Revista transcreve um dos casos, verificado com a mulher de um marinheiro radicado em Boulogne-sur-Mer, a qual se encontrava nos últimos quinze anos sob o domínio de uma triste subjugação. Quase todas as noites, despertada por volta de meia-noite, a mulher era atirada fora do leito, por vezes seminua, e obrigada a sair de casa e correr pelo campo. Após marchar por duas ou três horas, somente ao parar ela tomava consciência de seu ato, e nem mesmo orar ela conseguia, porquanto, ao tentar fazê-lo, suas idéias se misturavam a coisas bizarras e até sujas. (P. 35)

            20. Kardec reconhece que em certos casos de perturbação a causa pode ser puramente material, mas há outros em que a intervenção de uma inteligência oculta é evidente, pois que, combatendo essa inteligência, pára-se o mal, ao passo que atacando apenas a suposta causa material nada se consegue. (P. 36)

            21. Uns  - lembra o Codificador - atribuem essa ação aos demônios; o Espiritismo a atribui a Espíritos, às vezes tão malvados quanto os supostos demônios, mas a quem o futuro não está fechado e que se melhorarão à medida que neles se desenvolver o senso moral, na sucessão das existências corpóreas. (P. 37)

            22. Morzine - esclarece Kardec - é uma comuna do Chablais, na Alta Sabóia, a 8 léguas de Thonon, junto aos Alpes suíços. Sua população, de cerca de 2.500 pessoas, além da aldeia principal, compreende várias outras espalhadas na região. Enviado em 1861 pelo governo francês, a fim de estudar a doença, o dr. Constant ali ficou três meses, concluindo que a causa das perturbações era puramente física, e se radicava na constituição dos seus habitantes. (PP. 38 a 40)

            23. Uma carta vinda de Lyon, datada de 7/12/1862, refere os ataques proferidos contra o Espiritismo por um certo senhor, bispo no Texas (EUA), em sermão proferido na igreja de Saint-Nizier, perante um auditório de cerca de duas mil pessoas, entre as quais havia grande número de espíritas. Comentando esse e outros sermões noticiados pela Revista, Kardec diz que foi graças a ataques desse jaez que o número de espíritas crescera na França, porque as mentiras e a deturpação das idéias, veiculadas nos sermões, acabam sendo depois desmentidas com a leitura das obras espíritas. (PP. 40 a 46)

            24. Kardec acrescenta que é preciso estar muito carente de razões para recorrer a calúnias como a apresentada por certo sacerdote que disse ser o Espiritismo favorável à desunião da família, ao adultério, ao aborto e ao comunismo. “Temos necessidade de refutar estas asserções? Não:  basta remeter ao estudo da doutrina, à leitura do que ela ensina, que é o que se faz em toda a parte”, conclui o Codificador lionês. (PP. 47 a 49)

            25. O “Presse”, de 8 de janeiro de 1863, transcreve artigo assinado pelo sr. A. Sanson em que este comenta trabalho apresentado na Sociedade de Ciências Médicas pelo sr. Philibert Burlet, interno dos hospitais de Lyon, sobre seis casos de loucura que o autor relaciona às práticas espíritas. Kardec analisa a matéria, mostra a superficialidade do estudo e informa que o Espiritismo conta em suas fileiras com grande número de médicos ilustres, muitos deles presidentes de grupos e sociedades espíritas, que chegaram, a respeito do assunto, a conclusões contrárias à do sr. Burlet. (PP. 50 a 53)

            26. O Codificador afirma que o Espiritismo, longe de dar ensejo ao aumento da loucura, é causa atenuante, porque a maneira pela qual o verdadeiro espírita encara as coisas deste mundo ajuda-o a dominar em si as mais violentas paixões e até mesmo a cólera e a vingança, bem como a aceitar resignadamente as decepções e os reveses da vida. (PP. 55 a 57)

            27. A Revista publica discurso pronunciado em 12/11/1862 pelo sr. Chavet, doutor em Medicina e presidente do Círculo Espírita de Tours, no qual o orador reafirma que o fim essencial do Espiritismo é a destruição do materialismo pela prova experimental da sobrevivência da alma humana. (PP. 57 a 60)

            28. Como o discurso se deu na solenidade de instalação da referida sociedade, dr. Chavet concluiu seu pronunciamento lembrando ser necessário afastar das reuniões da entidade, com o maior cuidado, toda questão ligada direta ou indiretamente à política e aos interesses materiais. “Estudo do homem em relação ao seu destino futuro, tal o nosso programa, do qual jamais nos devemos separar”, asseverou o presidente do Círculo Espírita de Tours. (P. 60)

            29. Após o discurso, o Espírito de Fénelon ditou uma mensagem espontânea, em que adverte que o verdadeiro espírita não deve ter outro sentimento senão o do bem e da caridade, sem o que não pode ser assistido por Espíritos elevados. “Se alguém se apresenta dizendo-se espírita ou médium, não o recebais sem saber com quem estais lidando”, propõe Fénelon. (P. 61)

            30. A Revista diz haver recebido várias cartas comprovando a boa aplicação do remédio indicado na Revista Espírita de novembro de 1862, cuja receita foi dada por um Espírito. Falando sobre a origem espiritual do remédio, Kardec refere um fato parecido ao que deu origem ao mencionado medicamento, explicando que, da mesma forma que os Espíritos podem magnetizar a água, podem também, conforme as circunstâncias, dar

propriedades curativas a certas substâncias. (N.R.: Trata-se de uma pomada cuja receita foi ditada mediunicamente à srta. Ermance Dufaux. O caso é bem parecido ao da pomada Vovô Pedro, que alguns confrades de Curitiba combatem sem um motivo relevante.) (PP. 62 e 63)

            31. F.D., antigo magistrado, lembra em mensagem transcrita pela Revista a importância de encararmos bravamente e com resignação a miséria e os pesares da existência terrestre, que constituem, na verdade, prova pedida por nós mesmos, em função de  faltas cometidas em existências anteriores. Comentando a frase de Jesus,  que promete a paz aos homens de boa vontade, o Espírito afirma que a boa vontade, tanto para os pobres quanto para os ricos, chama-se caridade, seja a caridade moral, seja a caridade material. Finalizando a comunicação, o Espírito assevera: “Crede e amai! amai:  muito será perdoado a quem muito amou. Crede: a fé transporta montanhas”. (PP. 63 a 65)

            32. Dedicado ao sr. redator do “Renard”, de Bordeaux, o Espírito batedor de Carcassone, valendo-se da tiptologia, escreveu o poema “O doente e o médico”, no qual satiriza o ceticismo do sr. Rochefort a respeito do Espiritismo. (P. 65)

            33. Kardec abre o número de março de 1863 dizendo que naquele momento se verificava verdadeira cruzada contra o Espiritismo, constituída de escritos, discursos e até atos de violência e de intolerância. “Todos os espíritas devem alegrar-se - comenta Kardec -, porque é prova evidente de que o Espiritismo não é uma quimera. Fariam tanto barulho por causa de uma mosca que voa?” (P. 67)

            34. Afirmando que o povo podia ser dividido em três classes: os crentes, os incrédulos e os indiferentes, Kardec lembra que o número de crentes havia centuplicado em alguns anos, mas que os Espíritos acharam que as coisas não iam bastante depressa. Eis, segundo Kardec, o motivo real de tanto barulho... (P. 68)

            35. Finalizando o artigo, o Codificador convida a que todos os espíritas prossigam o seu trabalho, trabalhando, não por uma propaganda furibunda e irrefletida, mas com paciência e a perseverança de quem sabe o tempo que lhe resta para, semeada a idéia, saber esperar a colheita. (PP. 69 a 71)

            36. É melhor “um inimigo declarado que um amigo inepto”. Esse pensamento expresso por Kardec refere-se aos confrades que não refletem maduramente antes de agir. Entre os problemas citados pelo Codificador colocam-se em primeira linha as publicações intempestivas ou excêntricas, por serem fatos de maior repercussão. A inconveniência dessas publicações é destacada por Kardec, que recomenda que, em tais casos, é preciso fazer uma escolha muito rigorosa do que será publicado em nome do Espiritismo. (PP. 71 a 73)

            37. Na seqüência, o Codificador trata de um assunto ainda mais grave: os falsos irmãos. Os Judas existem também no movimento espírita, afirma Kardec. Eis o que, segundo ele, os caracteriza: I) a tendência para fazer o Espiritismo sair dos caminhos da prudência e da moderação; II) o estímulo às publicações excêntricas; III) o costume de provocar nas reuniões assuntos comprometedores sobre política e religião; IV) o hábito de soprar a discórdia enquanto pregam a união entre os espíritas; V) o lançamento ao tapete, com habilidade, de questões irritantes ou ferinas, capazes de provocar dissidências; VI) a implantação da inveja e do desejo de supremacia entre os vários grupos, encantando-se quando, por meras diferenças de opinião, os grupos passam a apedrejar-se, erguendo bandeira contra bandeira. (P. 74)

38. Alguns organizam ou fazem organizar reuniões onde se ocupam exatamente daquilo que o Espiritismo desaconselha, envolvendo a reunião espírita em práticas ridículas de magia negra, cartomancia, quiromancia, leitura da buena-dicha e quejandos, cujo resultado é o descrédito que se lança à doutrina espírita. (PP. 75 a 77)

            39. O Espiritismo se distingue de todas as outras filosofias porque não é fruto da concepção filosófica de um homem só, mas de um ensino que cada um pode receber em todos os cantos da Terra. O que fez o rápido sucesso da doutrina espírita são as consolações e as esperanças que dá. As cóleras que ele excita são indícios do papel que tem de representar e da dificuldade que seus detratores encontram em lhe opor algo de mais sério. Feito esse registro, Kardec conclui: “Espíritas, elevai-vos pelo pensamento, olhai vinte anos para a frente e o presente não vos inquietará”. (PP. 77 e 78)

            40. A Revista noticia o falecimento em Lyon do sr. Guillaume Renaud, um dos mais fervorosos espíritas daquela cidade. Uma semana depois do óbito, o vigário da paróquia de Haute-Saône referiu-se com desdém ao falecido, dizendo que ele recusara os sacramentos que lhe foram oferecidos pela Igreja. A verdade, segundo Kardec, é que, durante a doença do sr. Renaud, inúteis esforços foram tentados para que ele abjurasse as crenças espíritas, a que ele se recusou terminantemente. Em represália, o clero de Lyon não permitiu fosse o seu corpo recebido na igreja local. (PP. 78 a 80)

            41. Evocado em Lyon, trinta e seis horas depois do óbito, Guillaume Renaud referiu-se ao processo de sua desencarnação, afirmando ter adormecido por algum tempo, após o que, ao despertar, viu a seu lado, a rodeá-lo, Espíritos que o festejavam com efusões de alegria. (P. 81)

            42. Em sessão realizada a 13/2/1863, a Sociedade Espírita de Paris decidiu, por unanimidade, não tomar conhecimento de um pedido oriundo de Tonnay-Charente, no qual o missivista dirige oito questões diretamente ao Espírito de Jesus, filho de Deus. As perguntas versavam sobre vários dogmas da Igreja. A publicação

decisão na Revista objetiva mostrar a todos a inutilidade de dirigir no futuro perguntas sobre semelhantes assuntos. (PP. 81 e 82)

            43. A respeito do caso, a Sociedade Espírita de Paris lembra ao autor da carta que o fim essencial do Espiritismo é a destruição das idéias materialistas e o melhoramento moral do homem e que, por isso, ele não se ocupa absolutamente de discutir os dogmas particulares de cada culto, deixando sua apreciação à consciência de cada um. Esclarece, ainda, a Sociedade: I) O dever dos verdadeiros espíritas é, antes de tudo, aplicar-se ao combate à incredulidade e ao egoísmo, que são as verdadeiras chagas da humanidade, e a fazer prevalecer, tanto pelo exemplo quanto pela teoria, o sentimento de caridade, que deve ser a base de toda religião racional. II) As questões de fundo devem passar à frente da questões de forma. III) As questões de fundo são as que têm por objeto tornar os homens melhores, visto que todo progresso social não pode ser senão conseqüência do melhoramento das massas. IV) Querer agir de outra forma é começar o edifício pelo telhado, esquecido dos alicerces;  é semear antes de preparar o terreno. (PP. 82 a 84)

            44. François-Simon Louvet, que se suicidou em 22/7/1857 no Havre, descreve em comunicação espontânea, recebida em 12/2/1863, seus padecimentos em conseqüência de seu gesto impensado. Como revela a mensagem, uma das aflições enfrentadas pelo suicida era ver-se sempre caindo da torre - da qual se jogara - e indo quebrar-se nas pedras, tal como ocorrera efetivamente seis anos antes, conforme noticiado pelo Journal du Havre de 23 de julho de 1857. (PP. 84 a 86)

            45. A Revista transcreve a comunicação que foi dada em Paris pelo Espírito de Clara Rivier, desencarnada aos dez anos de idade, quatro meses antes. Enferma desde a idade de quatro anos, Clara foi um exemplo notável de resignação diante da dor. “Não temo a morte  - dizia ela -  porque depois me está reservada uma vida feliz.”  Na comunicação, Clara explicou que fora seu

anjo da guarda quem a confortou durante toda a enfermidade e, como os seus pais enfrentavam na ocasião um ligeiro processo obsessivo, ela acrescentou: I) A obsessão terminará  quando chegar o momento necessário. II) A prece e a fé dão grande força para dominar a obsessão. III) A obsessão e a subjugação são, na verdade, provas para quem as sofre, mas também um caminho aberto a novas convicções. IV) É preciso aproximar as distâncias pela caridade, introduzindo o pobre em casa, encorajando-o e levantando-o, sem o humilhar. “Tende - concluiu Clara, dirigindo-se aos pais - resignação, caridade, amor aos semelhantes e um dia sereis felizes.” (PP. 86 a 89)

            46. Da mensagem de Clara Rivier, Kardec destacou dois pontos: I) a informação de que, de uma existência a outra, o Espírito pode passar de uma posição social brilhante a outra humilde e miserável, expiando dessa forma o abuso dos dons que Deus lhe concedera; e, II) a revelação de que Deus castiga os povos como castiga os indivíduos. Assim, se todos praticassem a lei da caridade, não haveria mais guerras, nem grandes misérias, nem calamidades no mundo. (P. 90)

            47. O Courrier du Bas-Rhin de 3/1/1863 revelou que em Boston, Estados Unidos, o sr. William Mumbler havia descoberto, sem querer, a fotografia de pessoas falecidas. A primeira foto obtida pelo sr. Mumbler foi do Espírito de uma prima. Kardec aconselha, porém, acolher tal notícia com prudente reserva, porque os americanos são mestres também na arte de inventar patranhas. Além disso, o Codificador cita o fato ocorrido com um jovem lorde inglês, apaixonado pela arte fotográfica, que pensou haver obtido a fotografia de uma irmã falecida, e no entanto tal idéia não passou de um equívoco. (N.R.: O tema fotografia de Espíritos é tratado com minúcias por Gabriel Delanne em seu livro “O Fenômeno Espírita”, pp. 149 a 163. A cautela de Kardec é procedente e o processo movido contra o fotógrafo Buguet, em 1875, comprova que todo cuidado é pouco quando lidamos com  fatos supostamente atribuídos a Espíritos.)  (PP. 90 a 92)

            48. O sr. bispo de Argel publicou, para a quaresma de 1863, uma instrução pastoral dedicada ao Espiritismo, em que acusa o demônio de ditar a filósofos ilustres essas doutrinas malsãs que pregam a existência de dois princípios iguais, o bem e o mal, o materialismo, o ceticismo, o fatalismo, a metempsicose, a magia e a evocação dos Espíritos. O documento da Igreja foi publicado no jornal Akbar, de Argel, em 10/2/1863. Ao dar a notícia, o jornal argelino lembrou ao leitor que os que gostam, em todo litígio, de ouvir as duas partes, podiam tirar suas dúvidas lendo “O Livro dos Espíritos” e  “O Livro dos Médiuns”, do sr. Allan Kardec, os quais se encontravam à venda em todas as livrarias de Argel. (PP. 92 e 93)

            49. Na seção de poesias, a Revista traz dois poemas de origem mediúnica: “Por que lamentar-se?” e “Mãe e filho”. No primeiro, o poeta desencarnado diz que Deus fez do homem o artífice de seu próprio destino e afirma que o caminho que conduz ao bem requer esforço seguido e trabalho constante, completa vigilância e atenta pesquisa, o instinto frenado e a razão operante. “Trabalha, luta, ora e o céu estará em ti”, eis como se encerra o poema. (PP. 94 e 95)

            50. O segundo poema fala de uma mãe que perdeu o filho em tenra idade e explica por que o fato se deu. É que, num passado distante, ela fizera morrer o filho que ia dar à luz e agora, arrependida, fora castigada em circunstâncias parecidas com a que deu origem à sua falta. (PP. 96 e 97)

            51. A edição de abril é aberta com mais um artigo de Kardec - o quarto - sobre os possessos de Morzine. Como já vimos, o sr. Constant atribuía os fatos à constituição raquítica dos habitantes e à insalubridade da região, bem como à má qualidade e à insuficiência da alimentação. O sr. Arthaud, médico em Lyon, foi a Morzine e declarou exatamente o contrário: a constituição dos habitantes era boa e havia ali apenas um caso de epilepsia e um de imbecilidade. Kardec reproduz outro relatório que também discorda do diagnóstico feito pelo sr. Constant e, entre diversos reparos à conclusão deste último, diz que, se o sr. Constant estivesse certo, o efeito observado seria endêmico e não epidêmico. Os primeiros sintomas da epidemia de Morzine - lembra Kardec - se verificaram em março de 1857 em apenas duas meninas adolescentes. Em novembro seguinte o número de doentes era de 27, e em 1861 atingiu o máximo de cento e vinte, assemelhando-se muito ao episódio que acometeu a Judéia, ao tempo do Cristo. (N.R.: Epidemia: doença que surge rápida e acomete simultaneamente grande número de pessoas. Endemia: doença que existe constantemente em determinado lugar.) (PP. 99 a 105)

            52. As crises observadas nos doentes de Morzine, conforme descrição feita pelo sr. Constant, mostram pessoas assumindo um estado de furor, bastante agitadas, a declarar-se diabos do inferno e a bater nos móveis com força e vivacidade. O caso Victoire V..., vinte anos, uma das primeiras a adoecer quando estava com dezesseis anos, é expressivo. Seu pai conta que ela jamais sentira qualquer coisa, até que um dia foi tomada na igreja. Certa vez, ao levar-lhe o jantar na cúria, onde ele trabalhava, a jovem pôs-se a saltar e atirou-se no chão, gritando e gesticulando. Por acaso o cura de Montriond ali se achava, mas ela o injuriou. O cura de Morzine aproximou-se dela, quando a jovem se acalmou, mas a crise recomeçou logo que ele fez o sinal da cruz em sua fronte. Após ter sido exorcizada várias vezes, sem sucesso, ele a levou a Genéve, onde o sr. Lafontaine, o magnetizador, tratou-a durante um mês. Victoire retornou curada, permanecendo tranqüila cerca de três anos. Depois disso, a doença voltou, mas ela já não tinha crises: apenas se trancava em casa e não queria ver ninguém, só comendo vez por outra, o que a enfraqueceu sobremodo, a ponto de não conseguir ficar de pé. Levada outra vez ao sr. Lafontaine, depois de duas sessões ficou melhor e até este momento não mais enfermara. (PP. 105 a 110)

            53. A Revista transcreve duas cartas, uma de Albi, outra de Lyon, em que seus autores atestam o efeito positivo que o conhecimento do Espiritismo produziu em suas vidas. “De agora em diante - diz Michel, de Lyon - poderei orar sem temer que minhas preces se percam no espaço e suportarei com alegria as tribulações desta curta existência, sabendo que  a minha miséria atual não passa de justa conseqüência de um passado culposo...” (PP. 111 a 117)

            54. Em data de 7/3/1863 um leitor escreveu de Chauny dando conta de que na paróquia local o Padre X..., estranho à mesma, proferiu um sermão em que falou sobre Deus e sobre os Espíritos e suas relações com os homens, sem qualquer ataque ao Espiritismo. Ao reproduzir a missiva, Kardec diz que, graças a Deus, esse sermão não é único no gênero, o que demonstra que parte do clero não pactua com os que atribuem os fatos espíritas aos demônios. (PP. 117 e 118)

            55. Um casal de Tours, ele com oitenta anos, a esposa com sessenta e dois, decidiu pôr fim às suas angústias recorrendo a lamentável suicídio, que os adversários do Espiritismo atribuíram ao fato de ambos estarem, nos últimos tempos, envolvidos com as práticas espíritas. O motivo, como acabou revelado numa carta deixada pela sra. F..., era puramente econômico: o casal temia a perspectiva da miséria que rondava o seu lar, após ter amealhado uma pequena fortuna no comércio de tecidos. (PP. 118 a 121)

            56. Quando a verdadeira causa foi divulgada na cidade, o ruído feito inicialmente contra o Espiritismo mudou seu rumo a favor da doutrina, o que se expressou no incremento extraordinário da venda de livros espíritas. Segundo o correspondente da Revista, as livrarias de Tours nunca venderam tantas obras espíritas como a partir desse episódio. (P. 122)

            57. O fanatismo religioso acrescentou mais um lamentável caso ao seu acervo, no início de 1862, em França. O casal C... tinha dois filhos: um menino de quinze meses e uma menina de cinco anos, que jamais eram vistos pelos vizinhos. Correndo o boato de que as crianças sofriam um tratamento odioso, a polícia foi até à casa e contemplou um espetáculo horroroso: a menina, sem camisa e sem meias, apenas com um vestidinho indiano totalmente sujo e com a carne dos pés colada ao couro dos sapatos, estava sentada num urinol, apoiada numa caixa e amarrada com cordas que passavam pelas alças da mesma. O inquérito apurou que a criança permanecera naquela posição havia muitos meses e, mais, que os pais se levantavam à noite para atormentá-la, despertando-a com pancadas. Inquirido pela autoridade policial, o pai explicou: “Senhor, eu sou muito religioso; minha filha fazia mal as preces; por isso quis corrigi-la”. (PP. 122 e 123)

            58. Camille Flammarion publicou na Revue Française de fevereiro de 1863 um artigo, solicitado pela direção do periódico, em que escreve sobre a história e os princípios do Espiritismo. A Revista transcreve parte do artigo, em que Flammarion se reporta às primeiras manifestações verificadas na América, a sua introdução na Europa e sua conversão em doutrina filosófica. (PP. 123 a 125)

            59. O Espírito de Jobard apresenta, em mensagem dada na Sociedade Espírita de Paris, um novo e zeloso partidário do Espiritismo, que na Terra não foi espírita mas jamais se pronunciou abertamente contra as crenças espiritistas. Trata-se do Espírito de François-Nicolas Madeleine, que escreveu uma página sobre a indulgência na qual recomenda, no final, que devemos ser tão severos para conosco quanto indulgentes para com as fraquezas dos nossos irmãos. (PP. 125 a 128)

            60. São Luís, comunicando-se na véspera do Natal na cidade de Tours, alude à festa da Natividade do Menino Jesus para dizer que os espíritas deveriam também alegrar-se e festejar o nascimento da doutrina espírita. (PP. 128 e 129)

            61. A Revista de maio é aberta com novo artigo -- o quinto e último - a respeito dos possessos de Morzine, no qual Kardec afirma que referidos fatos têm a sua fonte na reação incessante que existe entre o mundo visível e o invisível que nos cerca e em cujo meio vivemos. Diz o Codificador: I) Em Morzine abateu-se uma nuvem de Espíritos malfazejos e não será com duchas nem alimentos suculentos que eles serão expulsos. II) Uns os chamam diabos ou demônios; o Espiritismo os chama simplesmente maus Espíritos e Espíritos inferiores, o que não implica uma melhor qualidade, mas indica que se trata de seres perfectíveis. III) Os exorcismos realizados revelaram-se inúteis, porque sua eficácia depende não das palavras e sinais com que são feitos, mas do ascendente moral exercido sobre os causadores dos distúrbios. (PP. 131 a 138)

            62. Kardec refere ainda, baseado em relato do dr. Chiara, que certa vez houve na igreja, onde os doentes tinham sido reunidos, um tumulto horrível. As mulheres caíram em crise ao mesmo tempo, derrubando e quebrando os bancos da igreja e rolando pelo chão, de mistura com homens e crianças, que tentavam contê-las. A seguir, elas proferiram juras horríveis e incríveis, interpelando os sacerdotes em termos bastante injuriosos. Foi aí que cessaram as cerimônias públicas de exorcismo, que passou a ser feito a domicílio, sem quaisquer resultados, até que a prática foi encerrada de vez. (P. 138)

            63. Resultado diverso se obteve em Moscou, onde na mesma ocasião os habitantes de uma aldeia foram também atingidos por um mal em tudo semelhante ao de Morzine -- as mesmas crises, as mesmas convulsões, as mesmas blasfêmias, as mesmas injúrias contra os padres e a mesma impotência de exorcistas e médicos. Conta o sr. A... que um de seus tios, o sr. R..., de Moscou, poderoso magnetizador e homem de bem por excelência, de coração muito piedoso, tendo visitado aqueles infelizes, parava as convulsões mais violentas pela simples imposição das mãos, acompanhada de fervorosa prece. Repetindo o ato, ele acabou curando quase todos radicalmente. (P. 138)

            64. É preciso que o agente da cura tenha o coração piedoso, contribuindo para que os que sofrem o mal se elevem moralmente, pois este é o mais seguro meio de neutralizar a influência dos maus Espíritos e de prevenir a volta do que se passou, porquanto os maus Espíritos só se dirigem àqueles a quem sabem poder dominar e não àqueles a quem a superioridade moral -- não dizemos intelectual -- encouraça contra os ataques. (P. 139)

            65. Kardec conclui o artigo advertindo que ninguém creia na virtude de talismãs, amuletos, signos ou palavras para afastar os maus Espíritos. A pureza de coração e de intenção, o amor de Deus e do próximo, eis o melhor talismã. (P. 139)

            66. Segundo São Luís, guia da Sociedade Espírita de Paris, os possessos de Morzine estavam realmente sob a influência de Espíritos atraídos para aquela região por causas que um dia serão conhecidas. “Se todos os homens fossem bons - diz São Luís - os maus Espíritos deles se afastariam porque não poderiam os induzir ao mal. A presença dos homens de bem os faz fugir; a dos homens viciosos os atrai, ao passo que se dá o contrário com os bons Espíritos.” (P. 140)

            67. Com o título “Algumas refutações”, Kardec refere-se às prédicas que estavam se intensificando, à época, com o objetivo de denegrir a doutrina espírita e desmoralizar seus partidários. O conteúdo dos ataques - afirma o Codificador - é geralmente o mesmo. Parte do clero considerava o Espiritismo uma mistura de horrores que só a loucura poderia justificar. Kardec alinha, em seu artigo, algumas das objeções feitas e lhes dá a resposta cabível. (PP. 140 a 145)

            68. Eis alguns dos pontos que merecem destaque nos comentários de Kardec: I) O Espiritismo também reconhece como profanação chamar os mortos levianamente, por motivos fúteis e, sobretudo, para fazer disto profissão lucrativa. II) Se a crença nas penas eternas alimentadas pela Igreja constituem um freio poderoso, por que a humanidade chegou ao ponto em que se encontra, onde as prevaricações, os vícios, a corrupção e as guerras parecem jamais ter fim? III) Se a Igreja julga sua segurança comprometida com o ataque a essa crença, é o caso de lamentá-la por repousar sobre uma base tão frágil, porquanto, se tem ela um verme roedor, esse verme é o dogma das penas eternas. IV) Os grupos e sociedades espíritas na França não abrem as portas ao público para pregar sua doutrina aos transeuntes. O Espiritismo se prega por si mesmo e pela força das coisas. V) O Espiritismo agrada às pessoas porque não se impõe e por causa de sua doçura, das consolações que proporciona, da fé inabalável que propicia. VI) A doutrina espírita se apóia em fatos irrecusáveis que desafiam toda negação: eis o segredo de sua tão rápida propagação. (PP. 140 a 145)

            69. Falando sobre sua desencarnação, o Espírito de Philibert Viennois relata: I) A viagem da morte  é um sono para o justo; a ruptura é natural; mas, ao primeiro despertar, que admiração! Como tudo é novo, esplêndido, maravilhoso! II) Os Espíritos que ele amava e amigos de precedentes encarnações acolheram-no e abriram-lhe as portas da existência verdadeira. Na seqüência, Viennois disse que a prece que Kardec fez em sua intenção comovera muitos Espíritos levianos e incrédulos que estavam presentes à reunião, e serviria para o seu adiantamento. A prece proferida por Kardec foi transcrita em seguida à comunicação. (PP. 145 a 148)

            70. Num sermão pregado contra o Espiritismo, o orador, pensando com isso dar um golpe mortal nas idéias espíritas, relatou que, três semanas atrás, uma senhora que perdera o marido foi procurada por um médium. Este ofereceu-se para obter uma mensagem do falecido, que, valendo-se da escrita, contou à esposa que não tinha sido digno de entrar no repouso dos bem-aventurados e por isso se viu obrigado a reencarnar imediatamente para expiar seus pecados. Adivinhem onde? A um quilômetro dali, na propriedade de um moleiro, na pessoa de um jumentinho. A mulher foi e comprou o animal, instalando-o devidamente num cômodo especial de sua casa. (PP. 148 e 149)

            71. Kardec, após relatar a anedota, diz que o orador demonstrou que critica o que não conhece, visto que o Espiritismo ensina, sem equívoco, que o Espírito não pode animar o corpo de um animal e vice-versa. (P. 149)

            72. Da cidade de Midi, um dos correspondentes da Revista refere como a cruzada contra o Espiritismo estava sendo dirigida. Num grupo da cidade, onde se discutia pró e contra as idéias espíritas, um dos assistentes disse que o Codificador não contava em sua Revista todas as tribulações e mistificações que experimentava. E afirmou que em setembro do ano passado, numa reunião de cerca de trinta pessoas, em casa do sr. Kardec, todos os assistentes foram mimoseados a cacetadas pelos Espíritos. (P. 150)

            73. Respondendo à carta, Kardec desmentiu de modo formal o suposto episódio e acrescentou que no mês de setembro de 1862 ele estava em viagem pelo interior da França, tendo-se ausentado de Paris desde o final de agosto até o dia 20 de outubro. (N.R.: Essa viagem deu origem, por sinal, ao livro “Viagem Espírita em 1862”.) (PP. 150 e 151)

            74. A propósito do assunto, Kardec adverte que ninguém deve pensar que a guerra movida contra o Espiritismo tenha chegado ao apogeu. Quer dizer: viria ainda coisa mais pesada e grosseira. Em face disso, anotou o Codificador: I) Os verdadeiros espíritas, diante dos ataques recebidos, devem distinguir-se pela moderação, deixando aos antagonistas o triste privilégio das injúrias. II) É dever de todo bom espírita esclarecer os que o procuram de boa fé, mas é inútil discutir com antagonistas de má fé ou idéia preconcebida. III) As questões pessoais apagam-se ante a grandeza do objetivo e o conjunto do movimento irresistível que se opera nas idéias. Pouco importa, assim, que este ou aquele seja contra o Espiritismo, quando se sabe que ninguém tem o poder de impedir a realização dos fatos. IV) É preciso continuar a semear a idéia, espalhando-a pela doçura e pela persuasão e deixando aos nossos antagonistas o monopólio da violência e da acrimônia a que só se recorre quando a pessoa não é bastante forte pelo raciocínio. (PP. 152 e 153)

            75. Focalizando o grande número de comunicações mediúnicas que lhe eram enviadas de todas as partes, Kardec valeu-se dos números para mostrar que nem toda mensagem de origem espiritual merece ser veiculada pela imprensa. Diz ele que em 3.600 mensagens recebidas existiam mais de 3.000 de moralidade irreprochável e excelentes como fundo, mas somente 300 (dez por cento delas) serviriam à publicidade, das quais apenas 100 apresentariam um mérito inconteste. A análise do Codificador leva a uma conclusão óbvia: não se deve publicar inconsideradamente tudo quanto venha dos Espíritos, se quisermos atingir o objetivo a que nos propomos. (PP. 153 a 155)

            76. O mesmo raciocínio se aplica aos trabalhos dos encarnados: de 30 artigos que ele examinou, não mais de seis (vinte por cento) mereceriam ser publicados. “No mundo invisível como na Terra, não faltam escritores - assevera Kardec -, mas os bons são raros.” Sua conclusão é que todas as precauções são poucas para evitar as publicações lamentáveis. Em tais casos - acrescenta o Codificador - mais vale pecar por excesso de prudência, no interesse da causa. (PP. 155 e 156)

            77. Viennois (Espírito) explica, respondendo a Kardec, por que há Espíritos incrédulos no mundo espiritual. É que a morte não modifica de repente as opiniões dos que partem: sua incredulidade geralmente os acompanha. (PP. 156 e 157)

            78. O caso de Espíritos materialistas no mundo espiritual é explicado por Erasto, que lembra que todos os corpos, sólidos ou fluídicos, pertencem à substância material. Os que em vida só admitem um princípio na natureza - a matéria, muitas vezes não percebem, após a morte, esse princípio único, absoluto, como cegos ante as coisas espirituais. (P. 158)

            79. O número de junho é aberto com um artigo de Kardec intitulado “Do princípio da não-retrogradação do Espírito”, em que é desenvolvida com clareza a tese espírita de que os Espíritos não retrogradam, no sentido de que nada perdem do progresso realizado. Eles podem ficar momentaneamente estacionários, mas, se bons, não podem tornar-se maus, verificando-se o mesmo no tocante à sabedoria. O que pode ser modificado é a situação material, a condição social ou econômica da existência. (PP. 163)

            80. Kardec analisa também, no mesmo artigo, a tese de que os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem. A encarnação não seria senão o resultado de sua falta. O Espiritismo afirma o contrário, ou seja, que a encarnação é uma necessidade para o progresso do Espírito e do próprio planeta em que ele vive. Outro ponto interessante comentado por Kardec é a situação do Espírito em sua origem. Sendo ele criado simples e ignorante, ao buscar o caminho do mal não haveria uma retrogradação? Kardec diz que não, porquanto só existe queda na passagem de um estado relativamente bom a um pior, o que não ocorre no caso, visto que, criado simples e ignorante, o Espírito se encontra num estado de nulidade moral e intelectual como a criança que acaba de nascer. (PP. 164 a 166)

            81. A Revista traz um artigo contendo a refutação de Kardec aos ataques ao Espiritismo contidos numa brochura assinada pela Rev. Pe. Nampon, da Companhia de Jesus. Elaborada com base em dois sermões que o padre proferiu na igreja de São João Batista, em presença do cardeal-arcebispo de Lyon, a brochura não traz novidades, mas se apresenta eivada de erros cometi-

dos deliberadamente por seu autor na menção de certos trechos das obras de Kardec. (PP. 167 a 173)

            82. O “Orçamento do Espiritismo ou Exploração da Credulidade Humana” é o título de uma brochura publicada em Argel, em que o autor apresenta números mirabolantes para dizer que Allan Kardec embolsava uma renda anual de 38 milhões de francos. Eis alguns exemplos do absurdo: a Sociedade Espírita de Paris, que jamais teve 100 sócios, teria 3.000 associados, e a Revista Espírita contaria com 30.000 assinantes. O efeito junto aos espiritistas foi provocar uma enorme gargalhada e, nos demais, despertar o desejo de conhecer o Nababo que ficou rico com o Espiritismo. (PP. 173 a 180)

            83. O sr. Sabô, de Bordeaux, conta que duas fábulas de origem mediúnica foram agraciadas no concurso anual promovido pela Academia dos Jogos Florais de Toulouse, em que se inscreveram 68 concorrentes. Uma - intitulada “O Leão e o Corvo” - obteve o primeiro prêmio; a outra recebeu menção honrosa. O autor desencarnado foi o Espírito familiar do sr. T. Jaubert, vice-presidente do tribunal civil de Carcassone, que, evidentemente, não cientificou o júri sobre a origem mediúnica de seus dois trabalhos. As fábulas foram escritas através da linguagem alfabética das pancadas. (PP. 180 a 183)

            84. Noutra carta, o sr. Sabô relata uma experiência mediúnica por ele realizada, sendo médium o sr. Jaubert. O sr. Sabô fez, a pedido do médium, a evocação mental de um Espírito e eis que apareceu sua falecida esposa, morta aos 22 anos de idade, de nome Félicia, que Jaubert não conhecera. Comentando o fato, Kardec fez um único reparo: ao título de batedor dado ao Espírito que trabalha com o sr. Jaubert. O vocábulo batedor é mais apropriado quando se refere a uma das classes constantes da escala espírita, na categoria de “Espíritos imperfeitos”. Como o objetivo do Espírito familiar do sr. Jaubert é sério, Kardec prefere chamá-lo de Espírito tiptor, termo que se refere à linguagem tiptológica. (PP. 185 a 188)

            85. Na seção de dissertações espíritas, a Revista transcreve três mensagens de origem mediúnica. Na primeira, La Fontaine diz que o que impede, por vezes, que nos corrijamos de um defeito é, certamente, não percebermos que o temos. Ele propõe então a auto-análise, o conhecimento de nós mesmos, para termos sucesso nesse campo. A segunda, sem identificação de autoria e recebida em Viena, destaca o valor da amizade e diz que a prece eleva o Espírito do homem para Deus, transportando-o para um estado de paz que o mundo não pode oferecer. A terceira, assinada apenas por um Filósofo do outro mundo, diz que o Espiritismo é obra de Deus e, por isso, tem assegurado um brilhante futuro, quando, graças à sua benéfica influência, haverá na Terra a concórdia e a fraternidade que ele apregoa. (PP. 191 a 194)

            86. Interessante artigo sobre o sonambulismo abre o número de julho e nele o Codificador reproduz carta de um distinto médico de Tarn, que afirma que certos fenômenos ligados ao sonambulismo provam com clareza a existência da alma e sua ação à distância, independente do corpo físico. Kardec também comenta o assunto. (PP. 197 a 200)

            87. A Revista transcreve dois pedidos de admissão formulados ao presidente da Sociedade Espírita de Paris, para mostrar o nível de consciência e o caráter dos que aderem às idéias espíritas através da leitura e do estudo. Nas duas cartas, ambos os missivistas dizem do efeito que a simples leitura d’O Livro dos Espíritos produziu em suas vidas. Comentando o assunto, Kardec afirma que a Sociedade Espírita de Paris só acolhe gente séria e que ali nenhum dos médiuns recebe retribuição. Quanto aos membros correspondentes e honorários, nenhum encargo financeiro lhes é imposto, visto que apenas os membros titulares e associados concorrem para o custeio das despesas da Sociedade. (PP. 200 a 204)

            88. A última inventada para tentar ridicularizar o Espiritismo surgiu  na Sala Robin, no Boulevard du Temple, onde aparecem espectros e fantasmas impalpáveis, imitando as aparições espíritas. O jornal Independence belge, falando desse novo truque cênico, exclamou: “Eis a religião do sr. Allan Kardec metida a pique. Como vai o Espiritismo sair-se desta?” Kardec diz que deve haver o dedo dos Espíritos nesse movimento, porque esses recursos, aliados à virulência dos sermões, acabam produzindo efeito contrário ao que os detratores do Espiritismo desejam. (PP. 204 a 206)

            89. Um correspondente de Bordeaux, mencionando o fato que ocorreu com sua irmã na cidadezinha de B..., onde era difícil encontrar alguém para conversar sobre Espiritismo, mostra o efeito que quatro sermões proferidos pelos irmãos carmelitas tiveram na população da cidade. O resultado dos ataques - ao chamar os médiuns de possessos do demônio que só agem por interesse - foi que em toda a cidade só se falava, nos dias seguintes, do Espiritismo e todo mundo queria saber mais, fato que fez com que surgissem novos adeptos onde não havia praticamente nenhum. (PP. 207 e 208)

            90. Em Constantinopla, conforme carta enviada à Revista pelo advogado Repos Filho, presidente da Sociedade Espírita local, os livros espíritas, mal chegam aos livreiros, são imediatamente vendidos. (P. 209)

            91. Segundo o sr. Repos Filho, um quadro desenhado mediunicamente por seu amigo e confrade Paul Lombardo foi admitido na Exposição nacional otomana com esta inscrição: “Desenho mediúnico. Executado pelo sr. Paul Lombardo, de Constantinopla, que desconhece as artes do desenho e da pintura”. Comentando ambas as notícias, Kardec diz que o Espiritismo tem um caráter que o distingue de todas as doutrinas filosóficas: -- o de não ter um foco único, de não depender  da vida de nenhum homem. Se o prejudicam aqui, ele surge ali. Eis aí a sua força. (PP. 209 a 211)

            92. A Revista noticia o aparecimento de um novo jornal espírita, desta vez em Palermo, Sicília, publicado em italiano, com o título de “O Espiritismo, ou Jornal de Psicologia Experimental”. Com o jornal surgiu também a Società Spiritista di Palermo. (PP. 211 a 213)

            93. Falando sobre mediunidade, ensina Kardec: “Ninguém poderá tornar-se bom médium se não conseguir despojar-se dos vícios que degradam a humanidade. Todos esses vícios se originam no egoísmo; e como a negação do egoísmo é o amor, toda virtude se resume nesta palavra: Caridade”. Dito isto, ele lembra que todo homem pode tornar-se médium, mas a questão não é ser médium; é ser bom médium, o que depende das qualidades morais. Muitos médiuns acabam abandonados por seus Espíritos por não quererem compreender que a caridade é o único meio de progredir. (PP. 213 e 214)

            94. Relatando o caso de um jovem de vinte e três anos recém-convertido ao Espiritismo, Kardec informa que o rapaz, graças aos conhecimentos obtidos na doutrina espírita, conseguiu domar a sua inclinação para a cólera, assunto que o Codificador analisa em todas as suas nuanças, mostrando como o poder da vontade, secundada pelo conhecimento espírita, pode ajudar as pessoas a dominar as paixões e as inclinações inferiores. (PP. 214 a 216)

            95. A Revista publica a primeira de uma série de cartas abertas dirigidas por Kardec ao padre Marouzeau, que escreveu dois anos antes uma brochura contendo ataques contra o Espiritismo. Eis alguns pontos realçados pelo Codificador em sua carta: I) O Espiritismo está hoje mais vivaz do que dois anos atrás, porque em toda parte onde pregaram contra ele cresceu o número de adeptos. II) O fato indica que os argumentos dos seus adversários tiveram efeito contrário ao pretendido. III) Reconduzir ao bem é, para o espírita, a verdadeira conversão. Um homem arrancado às suas más inclinações e reconduzido a Deus e à caridade pelo Espiritismo é a mais útil vitória. IV) O Espiritismo não faz milagres, salvo as conversões miraculosas que aproximam os incrédulos de Deus e convertem ao bem pessoas que antes só se preocupavam com o mal, dando-lhes a força necessária para vencer as más paixões. (PP. 217 a 219)

            96. O caso Max, o mendigo, reproduzido em 1865 no livro “O Céu e o Inferno”(Segunda Parte, cap. VIII), é focalizado em todas as suas minúcias na Revista. (PP. 219 a 221)

            97. A Revista traz também a página assinada pelo Espírito de Vianney, cura d’ Ars, “Bem-aventurados os que têm os olhos fechados”, que integra o cap. VIII, item 20, de “O Evangelho segundo o Espiritismo”. (PP. 222 e 223)

            98. João, discípulo, escreve sobre o arrependimento e diz que esse sentimento, semelhante às tempestades que varam o ar, purificando-o, é um sofrimento fecundo, uma força reativa e atuante e, por isso, sobe até Deus. “É chegada a hora - diz João - em que o Espiritismo deve rejuvenescer e vivificar a essência mesma do cristianismo. Assim, por toda parte e para sempre, apagai a cruel sentença que despoja a alma culpada de toda esperança.” (PP. 223 e 224)

            99. Erasto, comentando a notícia lida na Sociedade Espírita de Paris, a respeito das novas sociedades espíritas que se formam na França e no estrangeiro, assevera que cego é quem não vê a marcha triunfante das idéias espíritas. Lembrando uma frase de Lamennais, que disse oportunamente que o futuro estava no Espiritismo, Erasto afirma que esse fato já se realizou e que o tempo é chegado! (PP. 224 e 225)

            100. Lamennais, analisando os períodos de transição na história da humanidade, esclarece, referindo-se à Igreja romana, que desta vez a queda será imensa. A apatia religiosa dos padres, unida aos heresiarcas fanáticos, faz com que a Igreja do Cristo se torne humana, mas não mais humanitária. Pedindo que os espíritas orem, Lamennais adverte: “Vossa época atormentada e blasfema é uma rude época, que os Espíritos vêm instruir e encorajar”. (PP. 225 e 226)

            101. Tratando da mediunidade, Santo Agostinho diz que feliz é aquele que é guiado pelo amor fraterno, e que o mal só existe pela ignorância do homem e pelo mau uso que ele faz das paixões, das tendências e dos instintos adquiridos em contacto com a matéria. “Observai  - recomenda Santo Agostinho - e estudai com cuidado as comunicações que recebeis; aceitai o que a razão não recusar; repeli o que a choca; pedi esclarecimentos sobre as que vos deixam na dúvida.”  E aditou: “Tendes aqui a marcha a seguir para transmitir às gerações futuras, sem medo de as ver desnaturadas, as verdades que separáveis sem esforço de seu cortejo inevitável de erros”. (PP. 226 e 227)

            102. Kardec informa, em nota posta logo abaixo dessa mensagem, que o médium que a recebeu é um jovem iletrado, que ignora, segundo o sr. Dumas, o sentido da maioria das palavras ali contidas. Os médiuns iletrados que recebem comunicações acima de seu alcance intelectual - diz o Codificador - são muito numerosos. (P. 227)

            103. O número de agosto faz o elogio do ilustre filósofo Jean Reynaud, nascido em Lyon em 1808 e morto em Paris em junho de 1863, após uma curta moléstia. Autor do livro “Terre et Ciel”, obra que o popularizou mas que, tida como perigosa para o ortodoxia da fé católica, foi posta no Índex pela cúria romana, Reynaud é considerado por Kardec um dos precursores do Espiritismo. Como Charles Fourier, ele admitia o progresso indefinido da alma e a pluralidade das existências, sem nada ter visto e baseando-se tão-somente na sua profunda intuição. (PP. 229 a 232)

            104. Citando a importância para o Espiritismo da adesão de vários escritores de renome, como Victor Hugo, que semeavam, aqui e ali, as idéias espíritas, Kardec destaca o valor do magnetismo e da homeopatia na disseminação do conhecimento da ação perispiritual, fonte de todos os fenômenos espíritas. No caso da homeopatia, o Codificador cita a facilidade com que os médicos homeopatas aceitam o Espiritismo e não se surpreende pelo fato de a maioria dos médicos espíritas pertencerem à escola fundada por Hahnemann. (PP. 233 e 234)

            105. A Revista transcreve trechos extraídos da obra do escritor Lamartine, os quais apresentam alguns pontos concordantes com as idéias espíritas, como, por exemplo, sua referência às vidas sucessivas e à vinda do Consolador prometido por Jesus, que Lamartine entende que poderia vir como homem ou como uma doutrina. (PP. 235 e 236)

            106. A Presse de julho noticiou a publicação do livro “Destino do homem nos dois mundos”, do sr. Hippolyte Renaud, o qual  - segundo Kardec -  se liga de maneira muito direta à doutrina espírita.  A Revista publicou  a notícia  e  o artigo que o sr. E. de Pompéry escreveu sobre referida obra. (PP. 236 a 240)

            107. Em carta dirigida ao redator da Presse, o sr. Henri Martin, citado nominalmente no artigo do sr. Pompéry, apoiou a crítica que este fez à crença de alguns em uma metempsicose indefinida e sem recordação do passado, que ele também considerava absurda e inaceitável.  O Espiritismo, como sabemos, não aceita também a metempsicose. (P. 241)

            108.  Dois fatos relatados na Revista mostram como a ação do Espírito comunicante pode estender-se ao organismo do médium: I) No primeiro, ocorrido em Parma, Itália, o dedo indicador do médium ficou singularmente frio. É que se manifestava por ele um irmão morto há mais de vinte anos, cujo indicador havia ficado anquilosado. II) No segundo caso, o Espírito fazia com que determinado membro ou parte do corpo do médium ficasse paralisado. (PP. 242 a 244)

            109. Kardec escreve de novo a respeito dos espectros artificiais, um truque cênico de uma simplicidade tão grande, que todos os teatros apresentavam os seus. Além de lamentar a superficialidade com que a imprensa tratava do assunto, Kardec aproveitou o ensejo para informar como se realizam as sessões nos grupos espíritas sérios, cujo recolhimento é incompatível com a leviandade de caráter e a balbúrdia dos curiosos. Quanto à crítica aos que fazem profissão da faculdade mediúnica, Kardec disse que nada há a objetar, pois os espíritas sérios também repudiam toda exploração dessa natureza, como indigna do caráter exclusivamente moral do Espiritismo e uma falta de respeito aos mortos. (PP. 245 a 248)

            110. Por que Deus permite que médiuns bem intencionados sejam enganados pelos Espíritos? As mistificações - responde Kardec - têm o objetivo de pôr à prova a perseverança, a firmeza na fé e exercitar o julgamento. Se os bons Espíritos as permitem em certas ocasiões, não é por impotência de sua parte, mas para nos deixar o mérito da luta. Os bons Espíritos velam por nós e nos assistem, mas com a condição de que também nos ajudemos a nós mesmos. (P. 249)

            111. Suscitada por um leitor de São Petersburgo, a objeção colocada à frase: Tudo quanto é desconhecido é infinito, constante de “O Livro dos Espíritos”,  é examinada por Kardec, que, citando a Academia Francesa, entende que o vocábulo infinito não poderia nesse caso ser substituído, como proposto, pelo vocábulo indefinido. Embora sinônimos no sentido geral, há momentos em que um vocábulo não substitui o outro. Diz-se, por exemplo: duração infinita ou duração indefinida, mas não se pode dizer: a misericórdia de Deus é indefinida, em vez de dizer: é infinita. (PP. 250 e 251)

            112. A Revista relata o curioso fato que se deu com o sr. Cardon, médico, falecido em setembro de 1862, que Kardec iria inserir mais tarde no livro “O Céu e o Inferno” (Segunda Parte, cap. III). (PP. 251 a 255)

            113. Três mensagens dadas pelo Espírito de Jean Reynaud, recentemente falecido em Paris, são reproduzidas na Revista, antes de comporem o livro  “O Céu e o Inferno” (Segunda Parte, cap. II), publicado em 1865. (PP. 255 a 258)

            114. O Espírito de Samuel Hahnemann escreve sobre a medicina homeopática, motivado pela presença à sessão de um médico homeopata estrangeiro que lhe pediu opinasse sobre o estado atual da ciência. Na mensagem, Hahnemann lamenta a negligência dos colegas terrenos que, desconhecendo as leis primordiais do Organon, exageram as doses e não dão à trituração dos medicamentos os cuidados que ele indicara. “Nenhum remédio é indiferente, nenhum medicamento é inofensivo - diz Hahnemann -; quando o diagnóstico mal observado o faz dar fora de propósito, ele devolve os germes da moléstia que era chamado a combater.” (PP. 258 e 259)

            115. O sr. T. Jaubert, vice-presidente do tribunal civil de Carcassone, diz numa carta dirigida à Sociedade Espírita de Paris -- em que agradece sua admissão entre os membros honorários da Sociedade -- que acredita na imortalidade da alma e na comunicação dos mortos com os vivos, tanto quanto crê no sol. “Amo o Espiritismo como a mais legítima afirmação da lei de Deus: a lei do progresso”, acrescentou Jaubert. (PP. 259 e 260)

            116. Um artigo escrito por F. Herrenschneider, sobre a união da Filosofia e do Espiritismo, abre o número de setembro. Trata-se da introdução a um trabalho que o autor se propôs a fazer sobre a necessidade da aliança entre uma e outro, do qual extraímos estes pontos: I) Há dez ou doze anos que o Espiritismo se revelou na França; comunicações incessantes dos Espíritos provocaram em todas as camadas da sociedade um movimento religioso benéfico, que importa encorajar e desenvolver. II) O espírito religioso estava perdido, sobretudo entre as classes letradas e inteligentes, porque o sarcasmo voltairiano tinha tirado o prestígio do Cristianismo e o progresso das ciências lhes havia feito reconhecer as contradições existentes entre os dogmas e as leis naturais. III) O desenvolvimento das riquezas e as invenções maravilhosas, associadas à incredulidade e à indiferença, protestavam contra a renúncia ao mundo, dando ensejo à paixão pelo bem-estar, pelo prazer, pelo luxo e pela ambição. IV) Foi então que, de repente, os mortos vieram lembrar que nossa vida presente tem um dia seguinte, que nossos atos têm suas conseqüências, senão nesta, infalivelmente na vida futura. (PP. 261 e 262)

            117. Na seqüência, o sr. Herrenschneider afirma que a renovação dessas relações com os mortos é e continuará sendo um acontecimento prodigioso, que terá como conseqüência a regeneração tão necessária da sociedade moderna. É que, quando a sociedade humana não tem outro objetivo senão a prosperidade material e o prazer dos sentidos, mergulha no materialismo egoísta, renuncia a todos os esforços que não conduzem a uma vantagem palpável, só estima os que têm posses e apenas respeita o poder que se impõe. Contra semelhante disposição moral, a Filosofia é impotente. (P. 262)

            118. O autor desenvolve então toda uma tese, para  concluir que a união do Espiritismo com a Filosofia lhe parece de alta necessidade para a felicidade humana e para o progresso moral, intelectual e religioso da sociedade moderna, porque não mais estamos no tempo onde se podia afastar a ciência humana e preferir, a ela, a fé cega. (PP. 263 a 268)

            119. Kardec esclarece dúvida apresentada por confrades de Moulins a respeito da diferença entre expiação e prova. A expiação - diz o Codificador - implica necessariamente a idéia de um castigo mais ou menos penoso, resultado de uma falta cometida. A prova não tem relação com falta anterior, mas implica sempre um estado de inferioridade real ou presumível do Espírito, porque quem chegou ao ponto culminante a que aspira não necessita mais de provas. (PP. 268 a 271)

            120. Kardec diz ainda que em certos casos a prova se confunde com a expiação, ou seja, a expiação pode servir de prova e a prova servir de expiação. E cita o exemplo do aluno que se apresenta para receber  a graduação, submetendo-se a

uma prova. Se falhar, terá de recomeçar o trabalho, por vezes penoso, cuja carga é uma espécie de punição da negligência no primeiro. A segunda prova é, portanto, além de prova, uma expiação. Kardec esclarece, por fim, que é um erro pensar que o caráter essencial da expiação seja o de ser imposta, pois o próprio Espírito pode solicitá-la. (PP. 271 a 274)

            121. A Revista apresenta a segunda carta aberta dirigida por Kardec ao padre Marouzeau, na qual o Codificador  diz que as previsões feitas pelo reverendo não se cumpriram, apesar dos ataques, dos sermões, das excomunhões e das brochuras que o clero lançou e continuava a lançar contra a doutrina espírita, eivados todos eles das mais grosseiras injúrias, calúnias e ultrajes pessoais. Reafirmando que a doutrina espírita não é criação sua, mas obra dos Espíritos, Kardec encerra a carta dizendo: “Senhor padre, eu vos dou o prazo de dez anos para ver o que então pensais da doutrina”. (PP. 274 a 278)

            122. O jornal “Écho de Sétif” de 23/7/1863 transcreveu artigo do sr. C*** em que este responde à brochura publicada pelo sr. Leblanc de Prébois contra o Espiritismo. A Revista divulga parte do mencionado artigo. (PP. 279 e 280)

            123. Na seção de livros, Kardec comenta a obra Revelações sobre minha vida sobrenatural, escrita por Daniel Dunglas Home, em que este faz um relato puro e simples, sem quaisquer explicações, dos fenômenos mediúnicos por ele produzidos. Lembrando que tais fenômenos são interessantes para quem conhece o Espiritismo, mas pouco convincentes para os incrédulos, o Codificador censura no livro: I) a ausência de qualquer conclusão, qualquer dedução filosófica ou moral acerca dos fenômenos; II) as incorreções de estilo, sobretudo na versão francesa; III) a qualificação de sobrenatural dada pelo sr. Home à sua vida. Aliás, a respeito da passagem do notável médium pela França, Kardec insiste na tese de que ele (Home) apressou em terras francesas a eclosão do Espiritismo pelo brilho de seus fenômenos, mesmo entre os incrédulos, provando que não são cercados de mistérios e que se pode ser médium sem o ar de feiticeiro. (PP. 280 a 284)

            124. Outra obra citada pela Revista, recomendada por Kardec com toda a confiança e sem restrições, é Sermões sobre o Espiritismo, em que um espírita de Metz refuta os sermões pregados na Catedral de Metz em maio de 1863 pelo rev. Pe. Letierce, da Companhia de Jesus. (P. 284)

            125. A Revista transcreve duas mensagens espontâneas obtidas na Sociedade Espírita de Paris. A primeira, sem assinatura, é de uma jovem morta prematuramente, após longa enfermidade. “Não conheci -- disse a jovem -- a perturbação e entrei serena e recolhida no dia radioso que envolve os que, depois de muito sofrimento, esperaram um pouco.” A segunda, de autoria do Espírito de Lamennais, fala sobre o purgatório. (PP. 285 e 286)

            126. O número de setembro da Revista é fechado com três mensagens obtidas fora de Paris: I) A castidade é o tema da primeira, em que o autor afirma que de todas as virtudes exemplificadas pelo Cristo nenhuma foi mais indignamente esquecida quanto a castidade. No final da comunicação, o autor enfatiza a importância da educação da criança, cujos órgãos da inteligência são, na infância, como cera mole, apta a receber a moldagem do mais fraco objeto que a toque, deixando uma impressão que, depois de endurecida a cera, se tornará inapagável. II) O dedo de Deus é o assunto da segunda mensagem, na qual um Espírito familiar diz que o dedo de Deus pode ser a punição sobre a cabeça do culpado, o remorso que rói os corações, mas também a paz reservada ao justo ou a justiça grave e austera, temperada pela misericórdia. III) Na terceira comunicação, um Espírito explica por que a verdade tem sido ensinada no mundo de forma gradual. É que -- afirma o comunicante --  a humanidade devia progredir com sábia lentidão,  para que a marcha fosse segura. (PP. 286 a 291)

            127. Abrindo o número de outubro de 1863, Kardec diz que a sociedade vinha sendo trabalhada, um século antes, pelas idéias materialistas, reproduzidas sob todas as formas, traduzindo-se na maioria das obras literárias e artísticas. O espiritualismo, no entanto, reagiu e foi nessas circunstâncias, eminentemente favoráveis, que chegou o Espiritismo. Se tivesse chegado antes -- afirma o Codificador -- ter-se-ia chocado com o materialismo todo-poderoso;  se chegasse em tempo mais recuado, teria sido abatido pelo fanatismo cego. (PP. 293 a 295)

            128. Na seqüência, Kardec assevera que um dos mais importantes princípios espíritas é o da pluralidade das existências, que os céticos confundem, geralmente, com o dogma da metempsicose. Charles Fourier, Jean Reynaud e muitos outros escritores e pensadores contemporâneos foram reencarnacionistas, como a escritora George Sand. (PP. 295 e 296)

            129. A Revista noticia o falecimento do sr. Costeau, membro da Sociedade Espírita de Paris, que foi sepultado no cemitério de Montmartre em vala comum, fato que mostra que a Sociedade de Paris não era um grupo exclusivamente aristocrático, visto que contava em seu seio mais de um proletário. (PP. 297 e 298)

            130. Momentos antes do sepultamento, o sr. Vézy -- médium da Sociedade -- desceu à cova e transmitiu uma mensagem dada ali mesmo pelo sr. Costeau, que, referindo-se à simplicidade do seu enterro, informou que ali se encontrava uma multidão imensa de amigos do plano espiritual que vieram recebê-lo no retorno à verdadeira vida. (PP. 299 e 300)

            131. Terminadas as formalidades do sepultamento, o grupo espírita dirigiu-se ao túmulo onde fora sepultado o corpo de Georges. De novo, o sr. Vézy transmitiu linda mensagem de Georges, que fora em vida cunhado do sr. d’Ambel, vice-presidente da Sociedade Espírita de Paris, presente  também à cerimônia. (PP. 300 a 302)

            132. Comentando os dois episódios, Kardec recorda que o sr. Sanson também se comunicara na câmara mortuária, antes de seu sepultamento, mas que o ato de descer à cova, no caso Costeau, não era condição indispensável ao êxito do contato com o Espírito do falecido. (P. 302)

            133. A Revista reporta-se à conclusão das obras de um retiro instalado em Cempuis pelo sr. Prévost, membro da Sociedade de Paris, que dava nova prova de seu desprendimento e de sua dedicação aos mais carentes, concorrendo com parte de sua fortuna para o atendimento aos irmãos necessitados. (PP. 302 a 306)

            134. Dois fatos expressivos relatados pela “Patrie” de abril de 1863 e pela “Opinion du Midi” de julho são transcritos pela Revista: I) Um cavalheiro passava por uma rua no momento em que uma família sofria ação de despejo por não pagamento dos aluguéis. Vendo o desespero do marido e o choro da mulher e dos seus dois filhos, o homem aproximou-se e, ciente da quantia devida, deu-lhes o numerário suficiente para quitar a dívida, desaparecendo em seguida. II) Um violento incêndio consumiu quase inteiramente a loja e as oficinas do sr.

Marteau, marceneiro em Nîmes. Um doador anônimo, condoído pelo sofrimento do marceneiro, enviou-lhe -- sem se identificar --  três carretas carregadas de madeira de várias qualidades e instrumentos de trabalho. “Fatos como os acima relatados -- assevera Kardec -- provam que a virtude não está inteiramente banida da Terra, como julgam certos pessimistas.” (PP. 306 a 308)

            135. Ao publicar uma comunicação dada espontaneamente pelo Espírito de François Franckowski, Kardec diz ser um erro pensar que os Espíritos só vêm se forem evocados, pois muitos se apresentam espontaneamente. (PP. 308 a 310)

            136. Alguns membros da Igreja -- diz Kardec -- apóiam-se na proibição de Moisés para proscrever as comunicações com os Espíritos. Essa proibição e seus desdobramentos são analisados pelo Codificador, que adverte, logo de início, que há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada no Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e ao caráter do povo. Jesus modificou de forma profunda a lei civil ditada por Moisés, mas em nenhuma parte do Evangelho fez ele qualquer menção à proibição de evocar os mortos. (PP. 310 a 313)

            137. Na seqüência, a Revista transcreve uma mensagem recebida em Bordeaux pela sra. Collignon, na qual Semeão (Espírito) explica por que Moisés proibiu as evocações e enumera alguns exemplos de modificações introduzidas por Jesus nas prescrições mosaicas. (PP. 313 a 315)

            138. Falando sobre os falsos devotos, Delphine de Girardin (Espírito) afirma que os falsos devotos são para a religião o que é, para a sociedade, a mulher falsamente honesta. (P.315)

            139. A longevidade dos patriarcas -- ensina Lamennais --  é uma figura moral e não uma realidade. Os querubins da Bíblia também tinham seis asas e o Deus dos judeus banhava-se em sangue! Isso mostra que é preciso extrair das Escrituras o ensino puro, não tomando ao pé da letra o que não passa de alegoria. (PP. 316 e 317)

            140. Numa mensagem dada  em Thionville, um Espírito Familiar diz  que a lei  do progresso domina  tudo no  universo e que é em virtude dessa lei que o homem deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição. Assim, depende de cada pessoa abreviar a prova que deve sofrer, havendo um meio certo de abrandar uma punição merecida: um sincero arrependimento aliado ao recurso à prece feita com fervor. (PP. 318 e 319)

            141. Examinando o tema panteísmo, Lázaro diz que ele constitui o primeiro passo do paganismo para a lei do amor, revelada e pregada por Jesus. O panteísmo tem duas faces, sob as quais convém estudá-lo -- e é isso que Lázaro faz. (N.R.: Kardec trata do assunto em “O Livro dos Espíritos” e diz que os Espíritos repelem essa doutrina.) (PP. 319 e 320)

            142. A Revista traz breve comentário de Kardec sobre o livro “O Espiritualismo Racional”, do sr. G. H. Love, engenheiro, que se propôs tirar da própria ciência e da observação dos fatos a demonstração das idéias espiritualistas. Num dos trechos do livro, seu autor afirma “que é impossível ser um bom espírita sem ser um homem de bem e um bom cidadão”. E acrescenta: “Não conheço muitas religiões das quais se possa dizer o mesmo”. (PP.  321 e 322)

            143. Kardec volta a comentar a brochura Sermões sobre o Espiritismo, a que a Revista se reportou no mês de setembro (veja a pág. 284 da Revista e o item 124 deste resumo). Trata-se da refutação feita por um confrade de Metz a três sermões pregados em maio de 1863 na Catedral de Metz pelo  Pe. Letierce, da Companhia de Jesus. (PP. 322 a 324)

            144. O segundo artigo escrito pelo sr. F. Herrenschneider sobre a união da Filosofia e do Espiritismo abre o número de novembro de 1863. Eis os pontos principais contidos no alentado estudo: I) A alma humana é constituída de maneira a existir separadamente do corpo, tão bem quanto em seu envoltório. II) Os espíritas são homens bem dispostos para a busca da verdade porque renunciaram por si mesmos às vaidades mundanas e à superstição oficial dos cultos reconhecidos. III) A alma compõe-se de dois elementos bem distintos entre si e, apesar disso, indissoluvelmente unidos, porque jamais e em parte alguma esses elementos se encontraram separadamente. IV) O ecletismo espiritualista nos reconhece três faculdades principais: a vontade, a sensação e a razão, faculdades essas que se distinguem do corpo físico. V) Deus nos proporcionou fatos, circunstâncias e acontecimentos providenciais bastante chocantes para nos reconduzir ao bom caminho. As doutrinas e os fatos sobre os quais se funda o Espiritismo estão neste número. (PP. 325 a 335)

            145. Kardec transcreve passagens de uma Carta Pastoral dirigida pelo Bispo de Argel em 18 de agosto de 1863 aos curas de sua diocese, na qual o clérigo adverte sobre a “superstição dita Espiritismo”. Em seguida aos trechos da Pastoral o Codificador alinhou seus comentários, iniciando-os com a informação de que a circular foi um excelente meio de tornar o Espiritismo conhecido em lugares onde antes ele não o era. Aliás, a virulência e o exagero contidos nos sermões sempre concorreram para o aumento do número de adeptos, como se deu em Lyon. A Carta termina ordenando a interdição na diocese de Argel da prática do Espiritismo e da invocação dos mortos. Segundo Kardec, essa ordenação foi a primeira lançada com o fito de interditar oficialmente o Espiritismo numa localidade e, por esse motivo, a data 18-8-1863 deve ficar marcada nos anais do Espiritismo, como a de 9-10-1861, quando se realizou o auto-de-fé de Barcelona. (PP. 335 a 345)

            146. A Revista transcreve duas cartas de leitores, que demonstram o efeito da ação moralizadora do Espiritismo. Na primeira, o sr. Adolphe Roussel conta que a simples leitura do livrinho “Que é o Espiritismo?” o havia retirado das hostes do ateísmo e do materialismo. Na segunda, um cidadão recluso numa penitenciária revela o bem que o conhecimento do Espiritismo lhe fez, devolvendo-lhe, embora preso, a crença em Deus e em sua justiça. (PP. 345 a 351)

            147. Novo sucesso obtido pelo Espírito tiptologista de Carcassone é noticiado pela Revista: trata-se da medalha de bronze obtida no concurso de Nîmes, após ter alcançado o primeiro prêmio na Academia dos Jogos Florais de Toulouse, atuando como médium o sr. Jaubert, vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassone. (PP. 351 e 352)

            148. É transcrita pela Revista interessante passagem extraída de uma obra publicada pelo dr. Gelpke, em 1817, em Leipzig, na qual o autor alude à existência de habitantes em outros planetas. (PP. 352 e 353)

            149. Fechando o número de novembro, a Revista publica duas comunicações assinadas por São Luís e Santo Agostinho. Na primeira, denominada “A nova torre de Babel”, São Luís assevera que o Espiritismo é o Cristianismo da Idade Moderna e deve restituir às tradições o seu sentido espiritualista. Santo Agostinho diz, na segunda mensagem, que os antigos profetas eram todos inspirados por Espíritos elevados, que lhes davam ensinamentos de natureza a serem compreendidos apenas por inteligências de escol e cujo sentido não estivesse em oposição muito patente com os conhecimentos da época. Era, desse modo, possível interpretá-los de maneira adequada à inteligência das massas, para que estas não os rejeitassem, o que certamente se daria se as revelações estivessem em oposição muito formal com as idéias gerais. (P. 354)

            150. Hoje -- assevera Santo Agostinho -- o cuidado dos Espíritos é o de esclarecer completamente os homens, fazendo-os compreender as aproximações existentes entre as revelações atuais e as dos antigos. E outra é a sua tarefa: combater a mentira, a hipocrisia e o erro, missão muito difícil e muito árdua, mas cujo fim será alcançado, porque essa é a vontade de Deus. (P. 355)

            151. Abrindo o número de dezembro, Kardec responde a um distinto publicista que, embora não fosse contrário aos processos espíritas, julgava-os inúteis no seu caso. O Codificador mostra, porém, a utilidade do ensino trazido pelos Espíritos, apontando os inúmeros motivos que dão embasamento à sua tese. Nesse sentido, os fatos e as vozes de além-túmulo, fazendo-se ouvir em seus próprios lares, promovem a necessária mudança que simples considerações filosóficas não conseguem imprimir no caráter e no pensamento da criatura humana. (PP. 357 a 360)

            152. Falando ainda a respeito da Carta Pastoral publicada pelo Bispo de Argel, Kardec faz as seguintes considerações: I) O Espiritismo deve ser aceito livremente, atraindo as pessoas para si pela força de seu raciocínio, sem jamais violentar consciências. II) Em todas as suas refutações, ele nunca visou os indivíduos, porque as questões pessoais morrem com as pessoas. III) O Espiritismo vê as coisas mais do alto; liga-se às questões de princípios, que sobrevivem aos indivíduos. IV) O clero não é unânime na reprovação ao Espiritismo. A propósito da posição do clero, Kardec relata dois fatos bastante curiosos envolvendo dois padres favoráveis às idéias espíritas. (PP. 360 a 363)

            153. Reafirmando que a pastoral do Bispo de Argel não conseguira deter o impulso do Espiritismo naquela região, Kardec transcreve na Revista duas cartas  que comprovam  sua informação  de que os sermões  virulentos concorrem  mais do que se

pensa para a expansão do movimento espírita e do número de seus adeptos. (PP. 364 a 366)

            154. Se Elias e João Batista são o mesmo Espírito, com qual dos corpos ele ficará no dia do juízo final, para se apresentar, segundo a Igreja, ante Jesus Cristo? Kardec responde a esta questão, que fora proposta a um confrade pelo cura de determinada cidade. Depois de transcrever e comentar a passagem evangélica em que os Saduceus fizeram curiosa pergunta a Jesus, a respeito da mulher que tivera sete esposos, o Codificador esclarece que o corpo utilizado pelos Espíritos, após sua desencarnação, é o corpo espiritual, a que Paulo se refere em sua 1a Epístola aos Coríntios, e não o corpo carnal, sujeito à decomposição e ao desaparecimento. (PP. 366 a 369)

            155. Paulo de Tarso -- o São Paulo dos cristãos católicos -- é considerado por François-Nicolas Madeleine precursor do Espiritismo. “Como os espíritas, e antes dos espíritas -- assevera Madeleine --, foi ele o primeiro a proclamar esta máxima que vos constitui uma glória: Fora da caridade não há salvação!”  Além disso, Paulo descreve na carta dirigida aos Coríntios as principais faculdades mediúnicas, que ele chama de dons abençoados do Espírito Santo. Kardec acrescenta à comunicação os ensinamentos dados pelo Apóstolo dos gentios a respeito do corpo espiritual -- o corpo fluídico, ou perispírito, que reveste a alma, segundo nos ensina o Espiritismo. (PP. 370 a 372)

            156. Um caso de possessão -- o da senhorita Júlia -- é examinado por Kardec, que aproveita o ensejo para retificar assertiva sua, relativa à possessão, constante de suas primeiras obras. “Temos dito -- assevera o Codificador -- que não havia possessos, no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito errante a um encarnado.” (P. 373)

            157. Kardec divide as fases de desenvolvimento do Espiritismo em seis períodos, a saber: 1o) o da curiosidade, caracterizado pelas mesas girantes;  2o) o filosófico, marcado pelo aparecimento d’ O Livro dos Espíritos; 3o) o da luta, do qual o auto-de-fé de Barcelona foi, de certo modo, o sinal; 4o) o religioso; 5o) o intermediário, conseqüência natural do precedente e que receberá, mais tarde, sua denominação característica; e 6o) o da regeneração social, que abrirá a era do século vinte. (N.R.: Kardec foi bastante otimista nesta e noutras previsões, como aquela em que previu que o número de espíritas superaria em poucos anos o número de católicos na França. Talvez por isso ele tenha modificado mais tarde a classificação ora posta e sua ordem.) (PP. 377 a 379)

            158. Na seção “Instruções dos Espíritos”, Erasto, que foi na Terra discípulo de Paulo de Tarso, adverte os espíritas a respeito das dificuldades que deveriam enfrentar -- ciladas, embustes, torturas, calúnias, na defesa dos ideais espíritas. “A hora é grave e solene -- afirma Erasto --; para trás, então, todas as mesquinhas discussões, todas as perguntas ociosas e todas as vãs pretensões de preeminência e de amor-próprio; ocupai-vos dos grandes interesses que estão em vossas mãos e cujas contas o Senhor vos pedirá.” (PP. 379 e 380)

            159. Erasto assina também uma mensagem denominada “Os Conflitos”, em que afirma haver naquele momento uma recrudescência de fenômenos obsessivos, resultado da luta que, inevitavelmente, devem sustentar as idéias novas. “De todos os lados -- diz Erasto -- surgem médiuns com supostas missões, chamados, ao que dizem, a tomar em mãos a bandeira do Espiritismo e plantá-la sobre as ruínas do velho mundo, como se nós viéssemos destruir, nós que viemos para construir.”  “Quase todos os médiuns, em seu início, são submetidos a essa perigosa tentação”, assevera Erasto. (PP. 381 a 383)

            160. Diante da situação por ele descrita, Erasto esclarece que todo edifício que não se assenta sobre a base sólida da verdade cairá, porque só a verdade pode desafiar o tempo e triunfar de todas as utopias. Os espíritas deveriam estar atentos, portanto, não só aos ataques dos adversários vivos, mas também às manobras, ainda mais perigosas, dos adversários desencarnados. “Fortificai-vos, pois, em estudos sadios e, sobretudo, pela prática do amor e da caridade, e retemperai-vos na prece. Deus sempre ilumina os que se consagram à propagação da verdade, quando estão de boa-fé e desprovidos de toda ambição pessoal”, disse o iluminado Instrutor espiritual, aduzindo: “Jamais julgueis uma comunicação mediúnica pelo nome que a assina, mas apenas por seu conteúdo intrínseco”.  (PP. 383 e 386)

            161. Encerrando o número de dezembro e o volume do ano de 1863, a Revista transcreve duas comunicações. Na primeira, Lázaro fala sobre o dever, lembrando que, se o dever é penoso nos seus sacrifícios, o mal é amargo nos seus resultados. Essas dores, quase iguais, têm, no entanto, conclusões muito diferentes: uma é salutar, como os venenos que restauram a saúde; a outra é nociva, como os festins que arruínam o corpo. Na segunda comunicação, Lamennais, reportando-se à alimentação do homem, diz que pode ser-se bom cristão e bom espírita e comer a gosto, desde que seja razoável. Os grandes sábios alimentavam-se só de frutos e raízes. Os temperamentos naturalmente muito fortes para viver como os anacoretas fazem bem em adotar esse regime, porque o esquecimento da carne leva mais facilmente à meditação e à prece; mas, para viver assim, é necessário normalmente uma natureza mais espiritualizada, o que é impossível com as condições terrestres. (PP. 386 a 388) 

Astolfo Olegário de Oliveira Filho

Londrina, agosto de 2005

Revista Espírita de 1858 a 1869 (Allan Kardec


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