Duas lições que aprendi sobre pecuária

postado em 21 de fev de 2017 08:52 por Carta Pecuária

Acredito que duas lições são importantes e gostaria de partilha-lhas aqui.


A primeira é a noção que a oferta de gado no geral não é contínua ao longo do tempo.


A oferta de gado se amontoa e se agrupa em alguns anos e formam o conceito de onda de oferta (ou falta dela).

O estudo desses grupos de oferta é o estudo do ciclo pecuário, que é a resposta da cria ao lucro na atividade. Mas isso é outra história. Vamos nos concentrar nas ondas.

A magnitude dessas ondas, tal qual uma onda do mar, é uma noção esclarecedora.

Quando a gente olha pra uma onda e vê ela alta, a gente na realidade está vendo a escassez do animal, ou seja, na alta nos preços do bezerro está contida a falta dele.

A gente detecta essas ondas olhando para os preços do bezerro com prazos bem longos de tempo. Quanto mais longo, melhor.

Quando a onda é de alta e os preços do bezerro subiram é porque houve falta de bezerros naquela época.

Essa falta não desaparece... ela irá permanecer e gerar uma onda de preços altos que desembocará em bois gordos nos frigoríficos eventualmente.

Essa onda não pode ser revertida, nem contida por nenhuma medida que os pecuaristas nem os frigoríficos tentem fazer.

Mas ela pode ser atenuada. Consegue-se amenizar parcialmente os efeitos dela, tal qual um guarda-chuva te protege pouco de ser molhado em uma chuva forte.

A gente está vendo isso acontecer, correto? Frigoríficos fecharam plantas e diminuíram abates. Pecuaristas modificando a velocidade de engorda. Criadores revendo seus planos de aumentar a cria.


A segunda noção é que o bezerro é a origem dessa onda.

Os preços de sua arroba, mais precisamente. Quando o bezerro está sendo negociado com uma arroba cara, o boi gordo no futuro, que nada mais é que o bezerro de hoje, irá buscar esses preços da arroba do bezerro. É a onda da escassez caminhando na cadeia pecuária.

Daí foi que cunhei a frase que "O bezerro é o teto do boi".

Existem várias maneiras de enxergar isso. A que mais tenho gostado é pegar uma engorda em que o animal é abatido com 24 meses, ou seja, pegar um bezerro de dois anos atrás e colocar a sua arroba da compra como se fosse hoje.

Observe o gráfico. Clique na imagem para expandir se quiser.






Chamo isso de "Viradas de Mercado".

Temos as viradas de baixa quando o boi gordo está acima do bezerro.

Temos as viradas de alta, quando o bezerro está acima do boi gordo.

Estamos passando por uma virada de alta dessas em 2017.

O "brabo" disso é que essas coisas tomam tempo, anos até, para se concluírem, mas elas não param.

Por exemplo, a arroba bateu 145 reais em São Paulo agora e parece que achou um piso.

Será "O" piso? Não sei.

Mas sei que quanto mais os preços do boi gordo quiserem cair, maior será a pressão para arroba do boi ir buscar a arroba do bezerro no futuro.

Abraços,

Rogério.

Quais foram os anos bons e ruins para os preços do boi gordo? - Parte 2

postado em 20 de fev de 2017 16:59 por Carta Pecuária   [ 20 de fev de 2017 17:43 atualizado‎(s)‎ ]

Um querido leitor me mandou a seguinte indagação referente ao artigo "Quais foram os anos bons e ruins para os preços do boi gordo":


Rogério,

Você não acha que esse ano de fato é bem diferente da maioria, ou todos que já vivemos, dado o tamanho da crise interna que estamos vivendo, e faz sentido preços mais comprimidos (Mercado abaixo da média dos piores anos)?

Ou você acredita mais que o mercado está sobre vendido e você acredita mais em uma recuperação?



Excelente colocação.

Deixe-me tentar expor as coisas do que vejo.

Longe de estar com a razão, por favor, a gente aqui acompanha esse tipo de sequenciamento de bons/médios/ruins há um pouco mais de vinte anos, então vai-se com o passar do tempo se formando uma ideia, fazendo conexões imprecisas na cabeça, insights... porém aos trancos e barrancos o limitado conhecimento que puxamos disso nos tem sido suficientemente para os negócios no decorrer dos anos.

Daí vou dividir com vocês o que aprendi na base da tentativa e erro analisando essas coisas.


1ª coisa -- No curto prazo temos a tal crise.


Se a 'crise' de alguma forma desemboca nos preços da arroba do boi... Se a 'variação' nos preços do boi pode ser usada para medir o tamanho de uma crise... então essa atual está sendo de fato forte.

São três anos 2015/16/17 com um desempenho nos preços dentro do ano ruins.

Está sendo a PIOR sequência de anos ruins desde o início do plano real?

Não.

Tivemos uma sequência de quatro anos, 2003/04/05/06, como recorde negativo até aqui.

Resumo: A coisa está "braba", mas até aqui já vimos coisa pior.

Isso não significa que não possa piorar, mas vamos continuar o texto.


2ª coisa -- Quanto maior a pressão para baixo, maior (em dobro) a pressão para cima.

Ocasiões em que a arroba do boi é pressionada para baixo ou fica por bastante tempo perto das médias dos 'piores anos' ou até mais baixo que isso, na sequência do ano seguinte ou até mesmo dentro do ano a gente vê uma explosão de preços para cima.

Isso se deve a três motivos.

O primeiro é a Inflação, pois a carne é um produto que acompanha o ganho médio da população.

O segundo é a Demanda. São necessários em média entre 400 e 500 mil animais sendo abatidos todos os anos A MAIS simplesmente para tentar manter o consumo estabilizado por habitante.

O terceiro são os Custos do estoque preexistente. Não influencia muito agora o boi magro ou o bezerro estar barato.

O grosso da oferta de gado gordo já foi comprada há três, dois, um ano atrás, caro leitor. Esse gado hoje que está desaguando nos currais dos frigoríficos possui um custo de produção extremamente próximo aos preços de venda praticados atualmente. Na casa dos 130/140 reais por arroba é seguro colocar esses custos.

Na história quando isso ocorreu foi sinal de mudanças de mercado.

Resumo: Quando a gente junta isso tudo, como em 2017, há pressão para baixo você gera automaticamente uma pressão maior anda para cima no decorrer do tempo.

2º semestre desse ano? 2018? Não sei. Só sei que a oportunidade que se apresenta em 2017 para "compra", seja de boi gordo pelos frigoríficos ou de boi magro, bezerro pelos invernistas não é de se jogar fora.


3ª coisa -- Aqui é importante notar que a crise está acontecendo e contida dentro dos movimentos pendulares e cíclicos da dinâmica do ciclo pecuário (ele outra vez!).

Tivemos sorte. A 'crise' pegou a pecuária na sua fase de retenção de matrizes a partir do final de 2013.

Isso é importante. Para dar um prognóstico e entender para onde andará o mercado é necessário enxergar para o que acontece com as fêmeas.

Para "derrubar" o boi, é necessário paralelamente o abate de fêmeas estar em alta.

O abate de fêmeas está em alta? Nas leituras de curto prazo sim. Porém é necessário tomar isso com uma pitada de sal e colocar isso em contexto. Nas leituras dos anos anteriores em que tivemos uma decorrência parecida na fase atual do ciclo pecuário também acontecia exatamente assim da oferta aparecer grande.

Isso é preocupante?

SIM, é preocupante porque a tendência da cria mudou. Passou de segurar o máximo possível de fêmeas nos pastos para começar a vender as fêmeas e enxugar o estoque. Quando isso ocorre, esse movimento fica ativo por muito tempo.

NÃO, não é preocupante aqui porque é necessária MUITA, mas muita oferta de fêmeas consistentemente aumentando por vários anos para mudar o transatlântico pecuário de curso.

Ele irá mudar, sim, mas como exemplo, da última vez que tivemos uma diminuição na retenção de fêmeas para inversão ao abate nos padrões do atual movimento, em 2008, a "oferta" de fêmeas demorou cinco anos, de 2008 até 2013, para refletir negativamente nos preços dos machos.

Resumo: "Quem manda no boi é a vaca".

Esse ponto é tão importante que merece uma explicação melhor.

Veja o gráfico abaixo, por gentileza.

Existe um descarte natural zootécnico de fêmeas. E existe um descarte "econômico" delas, onde a variação ano-a-ano nesse descarte influencia os preços da pecuária em função no aumento de carne de fêmeas no mercado.

Achei o número de +10% de aumento nos abates como a virada entre descarte/retenção.





Retenção (pouca oferta de fêmeas, abates < +10%) é sinal de aumento forte nos preços dos machos.

Abate (muita oferta de fêmeas, abates > +10%) é sinal de aumento suave/queda nos preços dos machos.

Hoje o abate anualizado está em -9%, então temos um longo caminho até isso impactar nos preços dos machos.

Nos períodos de abates de fêmeas a arroba do boi gordo oscilou, respectivamente, +3%, -15% e +20%.

Nos períodos de retenção de fêmeas as oscilações foram +46%, +36%, +101% e +32% (essa última, menor em relação as anteriores, aí sim, creio, impactada até aqui pela tal 'crise')
.

A pergunta que se deve fazer é: a crise continuará?

Não creio.

Já há sinais bem fortes de mudança de rumo já aqui em 2017 e também para frente, acumulando-se melhorias que impactarão no humor e na renda das pessoas aos poucos.

Esse "aos poucos" daí já estamos falando um pouco mais já 2018, nítido em 2019 e evidente em 2020, certo?

Olha só, se o Brasil estiver "bem" lá, de novo, a pecuária vai dar sorte.

Iremos estar em plena oferta de fêmeas para abate com um mercado consumidor ávido para consumi-las.

É uma boa noticia, não?

O que você acha?

Quais foram os anos bons e ruins para os preços do boi gordo?

postado em 20 de fev de 2017 02:20 por Carta Pecuária

Quer saber o quanto o boi subiu (ou caiu) no decorrer dos anos anteriores?

O jeito mais simples e prático de enxergar isso é colocar todas as variações de preço dentro do ano na base 100.

O que é base 100?

Significa que o primeiro preço do ano e de todos os anos começa sempre com 100.

Daí a gente pega a variação real e original dos preços dentro daquele ano em cima desse preço inicial.

Então... se os preços até outubro, por exemplo, subiram 20%, lá irá marcar 120.

Se os preços para maio, sei lá, caíram 10%, então a leitura é 90 nos gráficos.

Certo?

Faça isso para todas as arrobas de todos os anos desde 1994 e você terá um quadro bem interessante.

Além disso, porque pararmos aí?

Que tal classificar também cada ano em "bom" ou "ruim"?

A gente já sabe que a arroba desde 1994 para cá se valoriza ao redor de 8%...

Seremos conservadores aqui.

Um ano bom foi quando a arroba fechou pelo menos com 105, ou seja, com 5% de alta.

Se não fechou acima de 105 consideramos um ano ruim.

Você verá a junção dessas coisas na figura abaixo.

Como está se comportando 2017 frente a história?

Muito parecido com um ano ruim.... até agora, pelo menos.

Ah, sim, clique na imagem para vê-la em tamanho grande.




Quanto vale um gráfico?

postado em 16 de fev de 2017 17:35 por Carta Pecuária

Quanto vale um gráfico pecuário?

Depende do que você quer fazer com os seus animais gordos.

Vale pouco se a venda do gado é por precisão.

Tem que vender? Que seja! Não dá para esperar. Nessas horas a gente fecha os olhos e fazer acontecer. Coloca o dinheiro no bolso, paga as as contas e, se sobrar, comprar uma reposição.


Vale muito se a venda do gado é por opinião.

Se o gado é para ser negociado, se a venda quiser ser feita em um bom preço, tem horas que vale a pena esperar até conseguir um preço melhor com eles no pasto?

Bom, poucas vezes na história a resposta para isso foi "sim". Mais precisamente, apenas oito vezes nos últimos dezesseis anos....

São poucos os momentos, são raras as janelas de oportunidade. Por isso são importantes.

Quer saber? Estamos passando pela nona vez agora.

Observe o gráfico abaixo.










Quando o ágio da arroba do bezerro atingiu seus picos, em até trinta dias depois dos picos a arroba do boi gordo subiu em todas as ocasiões nos últimos dezesseis anos.

Como disse, essa é a nona vez (em verde).

Teremos a repetição do que aconteceu antes?

Ou dessa vez é diferente?

O que fazer aqui?

Esperar e pagar para ver?

Ignorar e vender?

Um pouco dos dois?

É... um pouco dos dois é  uma boa.

Carta Pecuária nº 659

postado em 9 de jan de 2017 11:22 por Carta Pecuária   [ 9 de jan de 2017 11:22 atualizado‎(s)‎ ]


https://drive.google.com/file/d/0By89o6YJo4i6Mm9yZTNWOFpLekk/view?usp=sharing



Prezado leitor,

A edição nº 659 da Carta Pecuária está disponível para leitura!

Para acesso completo do texto (assinantes apenas) clique aqui.

Para saber mais sobre o que é a Carta Pecuária e o que fazemos clique aqui.

Para conhecer as nossas publicações clique aqui.

Para saber os valores de assinatura clique aqui.


Resumo da edição atual:


Piso nos preços do boi gordo.

Os preços do boi gordo passam agora por um teste ferrenho do seu piso recente. Esse mesmo piso foi testado mais duas vezes nos últimos doze meses e não foi rompido. O que acontecerá agora?

Mercado futuro pessimista.

Mercado futuro trabalha atualmente em média abaixo dos preços do mercado físico. Isso faz sentido? Ou é apenas uma indecisão momentânea?

Retorno aos fundamentos.

Tem algo estranho com o mercado. Vimos isso na edição passada. Na edição atual colocamos mais ingredientes nesse mistério.


Isso e muito mais na edição atual!

Clique aqui para abrir (assinantes).

Se você não é assinante, clique aqui.





Melhore sua Comercialização de Gado.

O que acontece quando o bezerro faz um pico de preço?

postado em 15 de dez de 2016 19:16 por Carta Pecuária   [ 15 de dez de 2016 19:25 atualizado‎(s)‎ ]

O bezerro fez seu pico mais recente no ano passado, caro leitor, ao redor de 1500 reais por cabeça. Valores aferidos pelo indicador Esalq/BVMF do bezerro, preços à vista.

De lá para cá a cotação desse pequeno animal não conseguiu romper esse valor. O bezerro oscila atualmente uns 300 reais abaixo disso ao redor de 1200 reais por cabeça pelo indicador Cepea.

O que isso significa? Esses picos são importantes?

São de extrema importância. Mostram um rito de passagem do mercado. Mostram "Ei, olhe até onde eu fui!"

Quando olhamos para a história dos preços esses picos se tornam ainda mais importantes e informativos.

Observe a figura abaixo.






Aqui coloco os valores corriqueiros do bezerro, ou seja, os valores nominais (em preto).

Em vermelho coloco esses mesmos valores corrigidos pela inflação.

A inflação corrige a corrosão da moeda, caro leitor. Assim a gente compara banana com banana. Compara um preço de um bezerro de 300 reais lá em 2002 e vê o que isso valeria hoje.

E parece que esse bezerro valia em valores atuais ao redor de 700 reais. Foi ali que aconteceu seu pico de 2002.

Agora chego onde queria chegar. O que acontece quando o bezerro faz um pico de preço?

Ele demorou seis anos para conseguir rompê-lo.

É sério. Não estou brincando. Repare que nas duas últimas ocasiões de picos bem definidos nos preços do bezerro, em 2002 e em 2008, o bezerro só conseguiu romper para cima o seu pico anterior depois de seis anos!

O que isso nos diz do mercado atual? O bezerro fez seu pico em 2015. Estamos há dezoito meses aproximadamente em que essa "regra" está funcionando.

2021, alguém?

Com certeza muitos dirão: "Dessa vez é diferente."

Foi o que disseram nas ocasiões anteriores também.

Não estou fazendo juízo de valor. Só demonstrando que no mercado pecuário as coisas demoram mais tempo do que a gente imagina.

Especialmente no mercado do bezerro, pois quando ele entra em uma tendência, no caso, de baixa, ele demora muito tempo para reverter o movimento. E quando ele sobe também o faz por bastante tempo.

O que fazer com uma informação dessa?

Sempre é bom saber, penso.

Agora, o que realmente fazer dentro da fazenda dependerá do seu negócio, se é cria, ciclo completo, engorda, etc.

E as decisões são antagônicas. Para quem engorda os preços estão bons para comprar bezerros.

Para o criador esses valores de 1200 reais estão perigosamente próximos do custo de produção e ruins de vender.

Mas o mercado é soberano e irá onde quer ir.

Veremos para onde. E veremos se repetirá a história.

Guia Prático da Carta Pecuária - Parte 4 de 13 - Ranking Cepea

postado em 13 de dez de 2016 12:31 por Carta Pecuária   [ 13 de dez de 2016 12:43 atualizado‎(s)‎ ]

Guia Prático da Carta Pecuária

Parte 4 de 13

"Ranking Cepea"





Nesta quarta etapa do guia continuaremos a olhar para as praças regionais, porém agora iremos inverter a ordem das coisas. Se nas Fichas Regionais (Parte 3 de 13 - Clique aqui) falamos sobre as praças e seus respectivos mercados, agora a ordem será o ranking dos mercados no Brasil. Você pode pegar as partes anteriores aqui (Parte 1 de 13) e aqui (Parte 2 de 13):

O intuito é estabelecer quem é quem. Qual a arroba mais cara hoje? Qual a mais barata?

Aonde se encontra o bezerro mais barato? Onde está o boi magro mais caro?

E assim adiante. A apresentação para os assinantes da Carta Pecuária desse documento é mostrada abaixo.






Em cada praça catalogamos nove maneiras de ver o mercado pecuário local, na ordem de leitura:


Boi Gordo R$/@
Diferencial de Base do Boi Gordo
Escala de Abate de cada região
Vaca Gorda R$/@
Desconto na arroba da Vaca pelo Boi Gordo
Boi Magro em R$ por cabeça
Taxa de Reposição do Boi Magro (Quantos bois magros se compram com a venda de um boi gordo de 19@)
Preço do Bezerro em R$ por cabeça
Taxa de Reposição do Bezerro (Quantos bezerros se compram com a venda de um boi gordo de 19@)
A forma correta de ler o documento é mostrada abaixo.









Qual a função desse documento, caro leitor? É simples. Imagine que você fosse um pecuarista no Tocantins. O que olharíamos aqui?






A primeira coisa que olharia é onde está perante o Brasil a arroba da minha região. Vejo que aqui o Tocantins se encontra no "fundão" das arrobas, próximas dos menores preços, porém ainda acima de 130 reais.

Em seguida gostaria de dar uma olhada nas escalas de abate médias do estado.






Hmm, aqui a coisa não está nada boa para o Tocantins. Repare que as escalas de abate da região hoje são as mais longas do Brasil. A leitura nos diz que a escala andou muito e hoje temos que esperar doze dias para os animais serem abatidos.

Escalas de abate longas significam oferta de gado gordo para os frigoríficos, mas também significam que os frigoríficos estão querendo ficar com escalas desse tamanho, caro leitor. Existem os dois lados da moeda aqui. De qualquer forma, a leitura não deve ser isolada. É por isso que existe a construção do raciocínio e esta é a quarta parte desse raciocínio.

Seguimos em frente para olhar o diferencial de base do Tocantins para a base, São Paulo.






Aqui a mesma coisa se repete, o diferencial de base está entre os maiores atuais. Porém, não está tão baixo assim para um estado com tanta oferta aparente de gado.






Para quem vende vacas, acima também vemos que a posição nacional de arroba de fêmea também acompanha as dos machos e se encontra entre as mais baixas do país para o Tocantins.

A seguir vamos colocar essa conta da vaca relativa à arroba do boi gordo.






Repare que a vaca no Tocantins está trabalhando com um desconto ao redor de -5% para a arroba dos machos. Não é dos menores, mas também não é dos piores. Interessante é ver Rondônia, que a arroba está até mais barata da vaca está trabalhando com um deságio bem menor.

Até aqui vimos os preços e o mercado de venda de gado. Vimos que o Tocantins não se encontra entre os melhores preços de hoje. Vimos também que é a escala de abate mais longa do país.

É importante ter em mente que essas coisas são móveis, caro leitor. Nem sempre o Tocantins está ali no final do ranking. Ao contrário, as praças possuem dinamismo. As oportunidades de negociação aparecem. Tem horas, acredite, o Tocantins sobe vertiginosamente no ranking. Essas são as janelas para a gente ficar de olho. Como elas são furtivas, ou seja, aparecem e desaparecem com muita velocidade você, que é profissional de engorda e faz seu negócio com seriedade com certeza faz seu dever de casa e sempre monitora as condições de mercado da sua região, certo?

Essa é uma pergunta retórica, não precisa responder. Mas fica aí uma forma de acompanhamento do mercado da sua região que, a meu ver, traz uma visualização do cenário pecuário nacional que você não conseguiria de outra forma.

Seguindo em frente vamos virar da venda para a compra e olhar para o boi magro e bezerro.






Acima temos o ranking dos preços do boi magro Brasil afora. Repare que nesse quesito, quanto menor, melhor, certo?

É um alívio ver o Tocantins bem baixo na tabela aqui. O seu boi magro está entre uns dos mais baratos do Brasil hoje. O mais barato é Rondônia.






Aqui a alegria durou pouco, a taxa de reposição do boi magro até que não está ruim, ao redor de 1,50 bois magros por boi gordo estamos embolados ali no centro dessa conta.

Aqui começa a análise. Repare Rondônia. É o boi magro mais barato do Brasil. Será que compensaria a gente comprar boi magro em Rondônia e enviar para o Tocantins? Lá o boi magro gira ao redor de 1.500 reais. No Tocantins, 1.700 reais. Consigo colocar esse animal lá gastando menos de 200 reais entre frete, impostos e comissão?

Não sei a resposta. Talvez enviar para o Tocantins não vale à pena. Mas será que valeria a pena enviar para Três Lagoas, MS? Lá o boi magro gira ao redor de 2.100 reais.

Entendeu o raciocínio? Aqui nesse painel abre-se o leque de possibilidades de compra de gado. Atiça a necessidade de olhar além dos 300 km de raio da fazenda. Tem saído bastante negócios de gado magro de longa distância, caro leitor. A razão é a disparidade de preços no Brasil. Acredito que essa disparidade ainda é pouco aproveitada por quem engorda gado.





Acima temos o ranking de preços de bezerros no país. O Tocantins está em vermelho. O bezerro lá atualmente encontra-se, segundo o Cepea, ao redor de 1.150 reais. É um dos bezerros mais baratos do país, perdendo apenas para o Pará e Rio Grande do Sul.






O bezerro também ocupa a região central do ranking de reposição valendo ao redor de 2,15 bezerros pela venda de um boi gordo de 19@. Aqui não tem muito o que fazer. As alternativas de compra de bezerro são do Pará, mas por uma diferença pequena e Rio Grande do Sul, que ficaria inviável enviar para o norte. Mas não está ruim. Você consegue repor por uma taxa parecida que se consegue em Dourados e no Paraná hoje.

Um resumo.

Se olhássemos para o Tocantins teríamos a fotografia do comportamento dessa praça hoje perante o resto do país. Tem horas que a praça está bem colocada, tem horas que está mal colocada. Nos mercados de "venda" como boi gordo, vaca gorda, escala de abate, desconto da vaca para o boi e diferencial de base o estado encontra-se em uma posição na parte de baixo do ranking nacional no momento. Isso significa que o mercado está com oferta na região.

Ao mesmo tempo, o momento dos preços de venda está refletindo nos preços dos mercados de "compra", no caso boi magro e bezerro. O estado está bem posicionado, seus preços estão bons para quem está querendo comprar gado no momento. Para quem está querendo vender reposição, no caso, o criador, é hora de trabalhar muito bem essa venda.

Experimente fazer essa mesma análise para a sua praça.







Na parte 5 desse guia seguiremos para um ajuste fino dessa oferta entre as praças. O intuito aqui já é caminhar para o momento de negociação.

Grande abraço,

Rogério Goulart.





Carta Pecuária nº 658

postado em 12 de dez de 2016 19:31 por Carta Pecuária

Área do Assinante



Prezado leitor,

A edição nº 658 da Carta Pecuária está disponível para leitura no site.

Para acesso completo das publicações abaixo (assinantes apenas) clique aqui.

Para saber mais sobre o que é a Carta Pecuária e o que fazemos clique aqui.

Para conhecer as nossas publicações clique aqui.

Para saber os valores de assinatura clique aqui.


Destaques da edição atual:


Mercado futuro

O mercado está pressionado para baixo, oscilando ao redor de 150 reais por arroba há algum tempo. Esse valor é significativo e o mercado futuro está, depois de três anos, em uma encruzilhada. O que vai ser?

Arroba a R$ 150 não vale nada?


Os custos de produção mexeram com o mercado. O que antes era uma boa venda ao redor de 150 reais agora não é mais. E o que se pode esperar do interior, onde o diferencial de base joga os preços para o intervalo de 130 até 140 reais por arroba. Os custos de produção de um boi gordo já estão encostando nisso, e isso significa margens baixas de engorda. O que aconteceu nas ocasiões anteriores em que isso ocorreu?

A bolsa está doente.

Tem algo estranho com o mercado. Esse algo começou timidamente em 2008 e se intensificou a partir de 2011. O mercado futuro, que é por definição um mercado derivativo do boi gordo, está falhando em entregar duas das três premissas que o tornam saido. Quais são essas premissas?


Isso e muito mais na edição atual. Clique aqui para abrir (assinantes).

Se você não é assinante, clique aqui.





Melhore sua Comercialização de Gado.

Guia Prático da Carta Pecuária - Parte 3 de 13 - Fichas Regionais

postado em 5 de dez de 2016 06:47 por Carta Pecuária   [ 5 de dez de 2016 06:59 atualizado‎(s)‎ ]

Guia Prático da Carta Pecuária

Parte 3 de 13

"Fichas Regionais"



Na parte 1 desse guia (clique aqui) levantamos a questão das razões para a gente ter comprado ou vendido gado naquele "dia". Com "dia" quero dizer qualquer dia... sempre que você tomou a decisão de negociar animais imagino que alguma coisa passou pela sua cabeça para executar essa negociação.

A proposta da Carta Pecuária é formalizar isso. Tornar a decisão de compra e venda de gado baseada em critérios técnicos. Vender gado quando os preços estão bons para serem vendidos. Comprar gado quando está bom para comprar gado. Isso parece simples. Parece fácil à primeira vista. Basta acompanhar os preços, certo? Qual a dificuldade de enxergar isso?

Bom, fazem duas décadas que faço isso, caro leitor. Nunca achei fácil decidir a hora de comprar e vender, porque não possuía subsídios concretos que me diziam que realmente, ali, naquele momento, estava bom historicamente para se vender.

O que quero dizer é que a negociação baseada em emoção, e aqui defino emoção como o contrário da decisão técnica, a emoção nem sempre é nosso melhor guia.

Simplesmente nossas emoções nos arrebatam --- quando o mercado está subindo e em alta queremos mais. Queremos dois reais a mais para vender. Daí os dois reais chegam e não mais queremos vender ali. Já vem aquele sentimento "e se...", e se o mercado subir mais um pouco? "Vou esperar."

O que queremos é a possibilidade de comprar e vender sem emoção. É claro, a emoção sempre estará lá. Mas a decisão de compra e venda deve ser baseada em coisas verificáveis. Até porque se você precisar explicar para outra pessoa o que te levou a vender ou a comprar ali, você poderá colocar na mesa os fatores que levou em consideração para tal decisão.

Isso torna sua decisão registrável. Você pode ver com o passar do tempo se está sendo consistente consigo mesmo. Isso, em minha opinião, é o caminho para uma boa negociação de gado.

Depois disso, na parte 2 desse guia (clique aqui) começamos a desvendar os caminhos para chegar a tal decisão. Falamos sobre os preços gerais do boi, bezerro, milho e carcaça bovina. Colocamos também uma explicação básica de como funciona um estudo de gráficos --- linhas de tenência, suporte, resistência.

Nessa parte 3 de 13 do Guia Prático da Carta Pecuária para negociação de gado iremos para o outro extremo, caro leitor.

Iremos falar do "micro". Iremos abordar separadamente cada uma das praças dispostas e medidas pelo Cepea. Qual é a ideia? A ideia é que, depois de olhar o geral, iremos olhar o local. Ou seja, depois de observarmos o ambiente geral dos preços, como a minha praça, o meu local está se comportando?

O meu local está em linha com o geral? Ou seja, se o ambiente é de baixa, minha praça está subindo ou caindo? Imagine que você está em uma praça que está contradizendo o geral. Imagine que o geral está subindo, mas a sua praça está caindo. Imagine o contrário, sua praça está subindo, mas o geral está caindo. O que você tira disso?

O documento que é enviado aos assinantes chama-se "Fichas Regionais".

Quais são as praças de preços de pecuária do Cepea? Entenda "praça" como uma região geográfica relativamente coesa.

  1. Araçatuba
  2. São José Do Rio Preto
  3. Bauru / Marília
  4. Presidente Prudente
  5. Noroeste Do Paraná
  6. Três Lagoas
  7. Campo Grande
  8. Dourados
  9. Cassilândia
  10. Pantanal
  11. Triângulo Mineiro
  12. Goiânia
  13. Rio Verde
  14. Norte De Goiás
  15. Tocantins
  16. Pará
  17. Cuiabá
  18. Rondonópolis
  19. Cáceres
  20. Colíder
  21. Oeste Da Bahia
  22. Itamaraju
  23. Rondônia
  24. Rio Grande Do Sul

Em cada uma dessas praças criamos uma ficha. Em cada uma dessas fichas colocamos o acompanhamento dos preços e indicadores abaixo:

  1. Boi Gordo
  2. Vaca Gorda
  3. Desconto da arroba da vaca para o boi
  4. Boi Magro
  5. Bezerro
  6. Escala de Abate
  7. Reposição de boi magro
  8. Reposição de bezerro
  9. Diferencial de base

Uma explicação rápida de cada um desses itens, pode ser?

Para o Boi gordo e vaca gorda usamos o boi gordo à vista de cada praça.

O desconto da arroba da vaca para o boi diz quanto a arroba da vaca está mais barata que a do boi.

Para os preços do Boi magro e bezerro usamos os valores à vista por cabeça.

A Escala de abate afere quantos dias os frigoríficos estão estocados com animais gordos comprados.

A Reposição do boi magro e bezerro mostra como está o poder de compra de bois magros e bezerros, respectivamente, com a venda de um boi gordo.

O Diferencial de base mostra quanto a arroba da praça vale abaixo ou acima da arroba do Indicador Esalq/BVMF (não mostrado aqui), que é o preço geral para o estado de São Paulo e é o valor utilizado na Bolsa de Mercadorias e Futuros (onde é negociado o contrato do boi gordo) para o fechamento dos preços dos contratos no final de cada mês.

A forma que o documento é enviado para os assinantes é essa abaixo. No exemplo explicativo a seguir iremos usar a praça do Triângulo Mineiro.







A leitura desse documento é feita assim:








Para cada praça as informações são colocadas da mesma forma e sequência. Isso facilita a visualização.

Em seguida vamos pegar essa praça do Triângulo e estudar os gráficos um a um.




Comecemos pelo boi gordo. Observe que o mercado vinha em alta até ao redor de R$ 145 e ali achou um pico. O boi gordo está resistindo a alta aqui. Os preços não conseguiram romper para cima a resistência formada ao redor essa reta vermelha.




Em seguida vemos os preços da vaca gorda. A movimentação está parecida com os preços do boi, uma alta que foi interrompida com a formação de uma resistência estabelecida ao redor de 137 reais. Na arroba da vaca, entretanto, a formação mostra um triângulo ascendente nos preços. Triângulos ascendentes são formações com perfil altista.




Quando olhamos para o desconto na arroba da vaca para a arroba do boi gordo vemos que esse desconto está diminuindo ao longo do tempo. Isso significa que a arroba da vaca está ficando mais valorizada, que a vaca está mais demandada agora em dezembro. A mesma formação de triângulo ascendente vemos aqui.




Em seguida olhamos para os preços do boi magro e a sua taxa de reposição. Em algumas praças a apuração diária desses animais de reposição se torna errática, caro leitor. Nem todos os dias os colaboradores Cepea (que pode ser qualquer um, incluindo você) reportam negócios no mercado físico naquele dia. Nesse caso, a análise técnica fica prejudicada. Nem todas as praças possuem esse comportamento, entretanto.

O que podemos fazer? Ainda assim dá para usar a informação quando cruzamos ela com o gráfico da taxa de reposição. Veja que desde setembro até agora a taxa de reposição de boi magro no Triângulo Mineiro encontra-se no melhor momento.




A mesma coisa vemos acima o bezerro. Repare que os preços oscilam ao redor de 1200 reais, caro leitor. Tem sido assim desde setembro e também a taxa de reposição está muito boa para o passado recente.




Quando olhamos as escalas de abate do Triângulo vemos que elas estão trabalhando entre um pico de oferta ao redor de 9 dias e um piso ao redor de 6 dias. Atualmente a oferta dessa praça está caindo vindo dos 9 dias para baixo e hoje se encontra ao redor de 7 dias de bois comprados pelos frigoríficos.





Para finalizar a ficha do Triângulo Mineiro, observe o movimento no diferencial de base. O diferencial de base mede o desconto que a arroba da praça local possui em relação a "base" que, aqui, no caso, é o indicador Cepea, que é medido em São Paulo. Então basicamente é o desconto do Triângulo para São Paulo que o temos aqui. Observe que também vemos a formação de um triângulo ascendente. A base parou de subir ao redor de um desconto de -3%, porém aos poucos o desconto de um modo geral vem subindo ao longo dos meses.

Depois de olhar cada mercado e indicador de forma isolada, o que tiramos de informação do conjunto da ficha do Triângulo Mineiro?

Minha leitura é que o mercado está pressionado para cima, porém não encontra brecha para subir. Ao mesmo tempo, o momento da região favorece a reposição.

Agora abaixo coloco todas as fichas.

Clique nas imagens para expandi-las.





Aqui termina a parte 3. No próximo texto continuaremos a olhar as praças regionais, só que com outro tipo de visualização no documento "Ranking Cepea".

Um abraço e até mais.


Rogério Goulart.

Guia Prático da Carta Pecuária - Parte 2 de 13 - Preços da Pecuária

postado em 30 de nov de 2016 11:51 por Carta Pecuária

Guia Prático da Carta Pecuária

Parte 2 de 13

"Preços da Pecuária"




Na Parte 1 de 13 (clique aqui) desse Guia fizemos uma pergunta. Porque você vendeu ou comprou gado hoje? Essa é uma pergunta justa, a meu ver.

Uma resposta clara para isso não é coisa simples. Uma resposta clara necessita que a gente formalize a decisão. Dê a ela uma justificativa igual na época da escola que você tinha que justificar as suas respostas.

O que vemos é normalmente a compra e venda de gado seguindo o caminho zootécnico, ou seja, para não deixar os pastos vazios compra-se gado depois que se vende os animais gordos.

E quando olhamos a venda isoladamente a tendência é que ela seja feita somente quando o gado está gordo.

Esse tipo de comportamento te leva, imagino, a vender gado quando todo mundo está vendendo por causa do clima. E a comprar gado quando todo mundo está comprando. Lembre-se, os animais engordam do mesmo jeito no Brasil inteiro obedecendo os períodos de águas e secas.

Será possível modificar essa atitude nas duas pontas? É possível vender gado não quando ele está gordo, mas no melhor preço, que pode acontecer dias ou meses antes do animal estar efetivamente gordo?

É possível comprar gado melhor, no sentido de que nem sempre logo após quando vendo os animais gordos, o gado magro está bom de preço? Posso comprar melhor depois?

O que propomos aqui é começar a construção desse raciocínio. O documento que escolhi aqui para começar nosso Guia Prático da Carta Pecuária chama-se "Preços da Pecuária".

Esse documento nasceu da necessidade de se mostrar rapidamente em um painel único os principais preços e indicadores que usamos para aferir o comportamento do mercado.

Uma das coisas mais importantes em mercado é você poder ter bate pronto as informações que precisa. O intuito desse tipo de informação é modificar o modelo mental. Com a rotina de sempre olhar para uma informação de mercado baseado em gráficos, os gatilhos técnicos vão se fixando na nossa cabeça.

Isso traz para o acompanhamento do mercado algo que falta demais. Contexto. Os preços não agem aleatoriamente, caro leitor. Eles sempre agem dentro de um contexto. Então, ao vermos um mercado subindo já sabemos de antemão as razões técnicas dessa alta, ou seja, você está a par da situação e não é pego de surpresa.

O documento "Preços da Pecuária" serve para isso. Para te colocar a par da situação. Te dar subsídio técnico ao ver os gráficos.

Os preços utilizados dentro da publicação são:

  •     Boi Gordo à Vista
  •     Bezerro à Vista
  •     Carcaça à Vista
  •     Preço do Milho à Vista

Os indicadores usados são:

  •     Ágio (desconto) a arroba do boi gordo (atual) vs bezerro (ano passado)
  •     Ágio (desconto) a arroba do boi gordo (atual) vs bezerro (atual)
  •     Taxa de Reposição do Boi Gordo
  •     Relação do Boi Gordo vs Milho

O bezerro é onde começa a pecuária, ele vira boi comendo milho (hoje em dia) e é vendido em forma de carcaça (uma das formas).

Esses são os pilares da pecuária de engorda. É por isso que os escolhemos para esse documento. Uma visualização do que impacta diretamente nos preços do nosso negócio.

Os indicadores servem para dar contexto, relativizar as relações entre os preços e adicionar uma camada técnica no acompanhamento.

É importante dizer para esse documento usamos os preços do Cepea como base de dados. As razões do uso do Cepea nesse e em outros documentos dessa série estão aqui.

Abaixo está o documento "Preços da Pecuária" que iremos falar hoje. É dessa forma que ele é enviado aos assinantes.

Em seguida falaremos separadamente sobre cada uma dessas figuras.






Como exposto acima, esse documento é composto por uma sequência de quatro mercado e quatro indicadores técnicos. Porém, antes de entrarmos diretamente em cada um deles vamos fazer a explicação do que compõe cada uma dessas coisas.

Cada gráfico é composto dessa forma:







A forma de ler corretamente cada uma dessas informações é assim:





Cada um dos oito gráficos é composto e construído da mesma forma para facilitar a uniformidade da visualização.

A primeira coisa que vemos é o título do gráfico. É aqui que a gente se localiza. No caso desse exemplo estamos falando do gráfico da evolução dos preços à vista da carcaça bovina na praça de São Paulo.

Depois disso você pode reparar que a figura é composta por três gráficos diferentes. Cada um desses gráficos possui dois eixos.

O primeiro que falaremos é o eixo horizontal que marca o tempo. No nosso caso, temos alinhados um abaixo do outro a sequência de longo prazo, que mostram os últimos cinco anos dos preços. Abaixo dele temos o gráfico de médio prazo, que nada mais é que um "zoom" do gráfico anterior e aqui mostrando os últimos doze meses do mercado. Abaixo dele temos um "zoom" maior ainda, com o gráfico de curto prazo colocando os preços dos últimos trinta dias.

O outro eixo é o vertical que marca os valores da carcaça à vista em São Paulo.

Seguindo em frente a gente tem as duas anotações técnicas. A primeira é a marcação no gráfico está feita em amarelo. Ela mostra o objetivo potencial do movimento do mercado naquele momento. A gente vai entrar em detalhes nisso mais para frente. A segunda marcação técnica são as retas de tendência. Repare que elas aparecem em todos os gráficos e é para ser assim mesmo.

Vamos usar alguns conceitos de análise técnica aqui, caro leitor. Acabei de falar três -- o "tempo" de cada gráfico, o objetivo potencial do movimento e as retas de tendência. Como esse documento é pensado para ser visto todos os dias não adianta carregar demais de informações aqui.

O que vai acontecer agora é que estes conceitos de análise técnica irão se repetir em todos os gráficos do "Preços da Pecuária", porém, cada um irá mostrar alguma coisa diferente, espero. Até porque o mercado, cada mercado aqui composto está em uma velocidade e direção diferente. É isso que buscamos aqui, o contexto atual de cada um desses pilares da pecuária.

Vamos lá. Iremos destrinchar cada um desses gráficos agora. O que irei fazer aqui é te dizer como leio cada um deles, mas irei fazer isso de forma didática, devagar, para facilitar a absorção do conteúdo.

Antes de mais nada, caro leitor, sendo você já assinante da Carta Pecuária ou não, se quiser trocar ideia sobre essas coisas ou se quiser tirar alguma dúvida, segue aqui meu e-mail: cartapecuaria@gmail.com



Destrinchando a coisa: gráfico por gráfico


Nesse primeiro gráfico irei fazer passo a passo a leitura. Segue abaixo o gráfico do boi gordo à vista em São Paulo. O famoso Indicador Esalq/BVMF (Indicador Cepea).





Aqui vemos os últimos cinco anos nos preços da arroba do boi gordo em São Paulo.

A primeira coisa que olhamos é o movimento dos preços, caro leitor. A linha laranja. A arroba saiu de 2012 ao redor de 90 reais em seu ponto mais baixo e foi subindo ano após ano oscilando para cima e para baixo, porém com um viés dos preços cada vez indo mais alto. Essa coisa contínua aqui, no causo, alta, a gente chama de "movimento de alta", usamos "movimento" para dizer que o mercado está andando e "alta" no caso para dizer que a direção que o mercado está andando é de alta.

Isso pode parecer bobo, mas não é. Dentro de análise técnica dos preços, um movimento fica ativo (em alta ou baixa) até a gente falar explicitamente que ele acabou. Isso ajuda a dar contexto e saber o que está acontecendo internamente no mercado. Pois bem, esse movimento de alta que começou em 2012 se estendeu até 2016 quando a arroba atingiu seu maior preço ao redor de 160 reais. Hoje os preços estão abaixo de 160 reais.

O que tiramos daqui? A arroba subiu nos últimos anos. Ela não está mais subindo.

Vamos adicionar mais uma camada de análise. Não falamos que a arroba veio subindo de 2012 até 2016? A definição técnica de alta são os pisos cada vez mais altos. Como assim? Os piores preços, os preços mais baixos daquele momento são maiores hoje do que os pisos anteriores. Vão formando degraus cada vez mais altos.








Você pode ver acima os pisos do mercado foram sendo formados cada vez mais altos nos últimos cinco anos.

Agora, cada piso se torna um suporte, caro leitor. Suporte é o nome que é dado para o piso do mercado, onde se ele romper para baixo desse piso daí o mercado nos indicaria baixa.

Repare que o piso do mercado atualmente gira ao redor de 148 reais. Ou seja, se a arroba se segurar acima disso eventualmente ela irá subir. Se romper abaixo disso o objetivo passa a ser o piso anterior.

Então, mais uma informação. Se o mercado quiser subir ele tem que se segurar acima de 148 reais por arroba no indicador do boi gordo.








Seguindo em frente agora vamos olhar para os picos dos preços. Os picos são onde arroba fez seu maior preço naquele momento. Veja que temos três picos bem definidos nos últimos cinco anos. Um em 2014 ao redor de 130 reais. Outro em 2015 por volta de 150 reais. E outro agora em 2016 valendo 160 reais.

O pico é a mesma história do vale. A arroba após estabelecer um preço máximo ela tende a voltar, a cair um pouco. Eventualmente o mercado é de alta, então os preços voltam a subir e romper para cima o pico anterior. É o que tivemos em 2014 e em 2016.

Em 2016, porém, a história não está completa. Tivemos um pico esse daí ao redor de 160 reais e a arroba, por enquanto, se recusa a buscar novamente esse valor. Todo rompimento de pico deve ser respeitado e representa um mercado firme.

Agora vamos unir os dois gráficos.








Então, aqui você tem a leitura dos picos e vales completa. Atualmente o mercado está trabalhando entre 148~160 reais, caro leitor.

Estar trabalhando entre dois preços que já existiram, entre um pico e um vale dessa forma como está aí acima é costume dizer que o mercado está, no longo prazo, é importante dizer, o mercado está sem tendência. É como se o mercado estivesse nesse momento digerindo uma comida pesada (arroba de 160 reais) e precisasse de tempo para fazer a digestão. Porém, ao mesmo tempo, os vendedores não estão aceitando (até aqui) preços abaixo de 148 reais.

Aí temos esse impasse. Impasse em análise técnica é um mercado sem tendência. Um mercado que não está se movimentando. No jargão do mercado financeiro isso daí seria um mercado "de lado".

Nesse primeiro momento de análise de longo prazo iremos parar aqui. Nas próximas edições vamos enriquecer ainda mais essa visão olhando também para o lado da oferta e demanda da pecuária e a relação disso com o ciclo pecuário.

Porém, no boi gordo ainda temos dois tempos para serem analisados. O médio prazo e o curto prazo.

Abaixo coloco o médio prazo. A partir daqui vamos acelerar um pouco mais a coisa, pois temos muito o que cobrir nesse texto.








Sabemos que no longo prazo estamos sem direção. O mercado não sabe para onde quer ir, se cai ou se sobe. A gente busca entender melhor isso e desvendar a direção dos preços quando aproximamos o olhar, ou seja, deixamos de olhar para os anos e olhamos para os meses.

Aqui acima vemos o comportamento da arroba do boi gordo desde novembro de 2015. Repare que da mesma forma que o gráfico de longo prazo, aqui também a arroba está trabalhando entre duas tendências conflitantes. Temos a tendência de alta que começou em 2015, se confirmou em agosto de 2016. Temos a tendência de baixa que começou em março de 2016, se confirmou em junho passado.

A projeção das duas tendências para os dias de hoje é que nos interessa. A tendência de alta projeta hoje uma arroba ao redor de 148 reais (coincidentemente o mesmo valor do longo prazo nos gráficos anteriores). Já a reta da tendência de baixa projeta os preços hoje ao redor de 156 reais.

Isso significa o que? Significa que realmente 148 reais é um piso superimportante que deve ser resistido. Ao mesmo tempo, no médio prazo, a arroba voltará a estar em alta somente se subir acima de 156 reais. Até lá, como agora, que estamos entre esses dois pontos, o mercado no médio prazo também está indefinido e a arroba não sabe para onde quer ir.

Aparentemente podemos ver que os preços estão ciscando mais próximos da reta amarela, de baixa. Isso significa que existe uma probabilidade maior de queda do que de alta aqui?

Não, necessariamente. Para isso temos que dar um zoom maior ainda no gráfico. Vamos olhar para o curto prazo?









No curto prazo, que olha para os últimos trinta dias de mercado, o que vemos? Vemos os preços com um piso bem definido ao redor de 149 reais por arroba. Nesses últimos dias o mercado tentou várias vezes subir, com você pode ver nesses repiques para cima nas cotações, mas passava o repique os preços voltavam a cair.

A leitura que faço aqui é que o mercado estabeleceu esse piso de 149 reais e à princípio, hoje, ele não quer cair mais. Sob essa leitura, já que não quer (ou se recusa) a cair, o que ele pode fazer? O mercado no curto prazo está querendo subir.

Então, caro leitor, vamos embrulhar a leitura do boi gordo? Eis aí o gráfico completo, do jeito que ele é enviado para análise. Longo prazo acima, médio prazo no meio e curto prazo embaixo. Imagino que a leitura deve ter ficado mais fácil e as informações mais claras para serem extraídas.










Seguindo em frente vamos falar do próximo mercado. O bezerro à vista medido pelo indicador do bezerro do Mato Grosso do Sul do Cepea.








No bezerro e daqui adiante já vamos fazer a leitura direto dos três tempos de mercado, ok?

Longo prazo, mercado sem tendência definida. Suporte no piso ao redor de 1200 reais com uma tendência de baixa nos picos. Mercado voltaria a estar em alta com bezerro acima de 1400 reais.

Médio prazo, a mesma figura do longo. Preços indefinidos, suporte em 1210 reais com uma tendência de baixa que joga os projeta os preços de hoje ao redor de 1270 reais. Repare o bezerro beliscando para romper essa tendência de baixa. Se o bezerro romper nos próximos dias isso daí, só depois de efetivamente romper é que a tendência de baixa do médio prazo estará violada.

Curto prazo, entretanto, confirma o movimento recente dos preços quererem beliscar os 1270 reais, ou seja, mercado com leve alta. Porém o suporte está fraco. Repare que é um suporte meio querendo cair. Isso não joga a favor de uma alta prolongada.

O próximo conjunto de gráficos é a o da Carcaça bovina aferida pelo Cepea em São Paulo. A carcaça é importante porque as movimentações nos preços da carcaça tendem a se refletirem eventualmente nos preços do boi gordo, caro leitor. Isso significa que a arroba do boi não subirá se a carcaça não subir, e vice-versa. (Veremos mais sobre isso em outra edição deste Guia)









Longo prazo, mercado estava em tendência de alta até o primeiro semestre, estabeleceu um pico ao redor de 10,50 reais, caiu até ao redor de 9,25 reais e hoje a carcaça vale 10 reais. Ou seja, estamos entre os dois extremos da mesma forma que se encontram o boi gordo e o bezerro.

Médio prazo, mercado estabeleceu um piso ao redor de 9,90 reais, porém os preços estão próximos dele já que a tendência de baixa nas cotações desde agosto está sendo forte até aqui. Aqui também aparece uma coisa diferente. Veja que coloco um quadrado chamado "Objetivo potencial". A gente faz isso para mercados que estão com clara tendência de queda, caro leitor, e os objetivos potenciais seriam os teóricos "pisos finais" do movimento de queda. A conta é baseada no que se chama regressão Fibonacci. (Mais sobre Fibonacci aqui. Sobre regressão Fibonacci aqui.)

Então o objetivo potencial situa-se entre 9,90 e 9,70 reais por quilo de carcaça. Se os preços chegarem lá ou se trabalharem dentro desse quadrado a gente vai ficar de orelha em pé. Afinal, já sabemos de antemão que ao redor disso o mercado pode parar de cair. É claro, o mercado pode parar de cair onde quiser, porém a regressão Fibonacci é muito confiável em vários mercados e a gente usa ela muito na Carta Pecuária quando dá para ser usada.

Curto prazo, preços dentro de um canal de baixa, confirmando o momento fraco do mercado. Para romper essa baixa a carcaça tem aqui que passar a valer acima de 10,05 reais. Ela confirmará a baixa se vier abaixo de 9,95 reais.

Agora vamos falar do último mercado antes de entrarmos nos indicadores. Vamos analisar o milho.









Longo prazo, o milho fez uma montanha russa entre 2015 e 2016! Repare na alta histórica do cereal atingindo 55 reais por saca ao redor de junho. Tivemos dois pisos bem estabelecidos aqui, um ao redor de 25 reais e outro em 40 reais. Porém, aqui é um exemplo perfeito de um piso sendo rompido, caro leitor. Observe que o rompimento de fato quebrou a alta do milho e colocou ele em modo aparente de baixa. No longo prazo, porém, o mercado está trabalhando entre a tendência de alta e o pico.

O objetivo potencial dessa queda situa-se entre 35 e 33 reais por saca.

Médio prazo, a tendência de baixa nas cotações do milho se confirmam com o rompimento em agosto da tendência de alta de médio prazo. Agora estamos sob a influência da reta de tendência de baixa, ou seja, o olhar para o milho é para baixo aqui. Não para cima.

Curto prazo, o milho aqui também confirma a queda nas cotações ao trabalhar abaixo (e acelerando-se) da tendência de baixa.

A próxima análise faremos sobre dois indicadores ao mesmo tempo.









Aqui temos a divisão entre as arrobas do boi gordo e do bezerro. A única diferença está na arroba do bezerro. No gráfico da esquerda uso os preços do bezerro de um ano atrás dividido pela arroba de hoje. À direita usamos o boi e bezerro de hoje.

Longo prazo, primeiro olharemos os dois separadamente. Na direita repare que o ágio está elevado, próximos dos picos. Historicamente esse ágio é previsível, quando alto desse jeito (acima de 30%) ele tende a cair, e vice-versa.

Qual a razão disso? A razão está na aceleração e direção desse indicador, caro leitor. Observe nos dois gráficos de longo prazo, o do bezerro do ano passado o ágio está ainda alto. Isso significa que o estoque de animais do ano passado dentro das fazendas está caro. Só que quando olhamos para o ágio atual vemos que a tendência é de queda nesse ágio. Ou seja, os estoques nas fazendas estão com tendência a ficarem mais baratos em 2017 exatamente porque o que se gasta para comprar um bezerro está menor do que era antes.

Marquei essa dinâmica com o rabisco rosa.

Esse gráfico da direita também mostra que o bezerro hoje está com um ágio entre 10%e 20% sobre a arroba do boi. Isso foi explorado essa semana no texto semanal da Carta Pecuária. Estamos em um momento de pouco ágio do bezerro sobre o boi. É uma boa notícia para quem quer comprar reposição.

Médio prazo, os dois gráficos encontram-se dentro de suas tendências, ou seja, estão de lado. Sem novidades aqui.

Curto prazo, a mesma coisa, os dois mercados se comportando dentro de suas tendências.

Resumo: o mercado de bezerro completamente sem direção. Ou seja, ele pode subir ou cair. É ruim quando isso acontece, mas faz parte.

O próximo indicador é a famosa Taxa de Reposição entre o boi gordo e o bezerro. A pergunta é: quantos bezerros se compram quando a gente vende um boi gordo?









Longo prazo, aparentemente compram-se menos bezerros que se comprava lá em 2012. Estávamos em tendência de baixa nesse indicador até meados desse ano, caro leitor. O rompimento ocorreu ao redor de 2,00 bezerros/boi. Agora o mercado está em alta. Estamos sob influência da tendência de alta na reposição.

Médio prazo, a leitura aqui mostra um triângulo ascendente se formando. Triângulos ascendentes são formações técnicas que mostram picos relutantes em ceder terreno, enquanto no ínterim os pisos vão ficando cada vez mais altos. Triângulos ascendentes normalmente, mas nem sempre, indicam continuidade, ou seja, o mercado quer continuar a subir.

Curto prazo, só que essa alta não é para amanhã, aqui a reposição está indo contra a tendência, está caindo nesse último mês.

Aqui na reposição bezerro/boi a leitura é de alta. Ambos longo e médio prazo parecem confirmar isso. Com essa informação a gente ignora o curto prazo em baixa, caro leitor, e foca no que os outros dois tempos dizem. A reposição está melhorando.

Isso da reposição estar melhorando faz parte do estágio atual do ciclo pecuário. Mas sobre isso falaremos em outra ocasião.

Para finalizar, eis a relação de troca entre uma arroba de boi gordo e uma saca de milho. Quantas sacas de milho uma arroba compra?









Longo prazo, aparentemente o pior momento da relação de troca passou ao redor de 3 sacas/arroba no meio do ano. Apesar da coisa ainda estar longe dos picos ao redor de 6 sacas/@, o objetivo potencial dessa alta do mercado recente situa-se entre 4,5 e 5,0 sacas/@. Para quem comprará milho no ano que vem isso é uma boa notícia.

Médio prazo, confirmamos aqui a tendência de alta nessa relação observando a formação do canal de alta. Enquanto os preços estiverem dentro desse canal, o mercado está em alta para esse indicador.

Curto prazo, também confirma o movimento de alta e atualmente está trabalhando em tendência de alta.

Essa foi a análise do documento "Preços da Pecuária", caro leitor. Como disse no início ele serve para colocar a pecuária dentro de um contexto de preços. Dá para puxar a história dessa forma, e usar isso a nosso favor.

Nos vemos na parte 3 de 13 - Fichas Regionais.

Grande abraço,

Rogério Goulart.

1-10 of 93

Comments