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Ilha Graciosa

A Graciosa é uma ilha situada no extremo noroeste do Grupo Central do arquipélago dos Açores, 37 km a nordeste da ilha de São Jorge e 60 km a noroeste da Terceira, com o seu centro aproximadamente nas coordenadas geográficas 28° 05’ W e 39° 05’ N. A ilha tem uma área aproximada de 62 km² e uma forma grosseiramente oval, com 12,5 km de comprimento e 8,5 km de largura máxima. É a menos montanhosa das ilhas açorianas, atingindo 402 m de altitude máxima no bordo leste da Caldeira. Esta baixa elevação confere à ilha um clima temperado oceânico, caracterizado pela menor pluviosidade do arquipélago.

Tem 4 780 habitantes (2001), na maioria concentrados na sede do único concelho da ilha, a vila de Santa Cruz da Graciosa, cujo centro histórico constitui, pela riqueza e equilíbrio da sua arquitectura, uma zona classificada. A baixa pluviosidade leva à relativa secura da ilha, o que lhe dá no fim do estio uma tonalidade esbranquiçada, que associada ao casario branco das povoações lhe deu o epíteto de ilha Branca, lançado por Raul Brandão na sua obra Ilhas Desconhecidas. Quando a população foi muito superior à actual, a falta de água constituiu um sério problema, levando à construção de reservatórios e cisternas de vária natureza e aos emblemáticos tanques que são hoje a marca da praça principal de Santa Cruz.

A paisagem da Graciosa é de grande beleza, conjugando o verde das pastagens com o branco das casas isoladas e das povoações. O ex-libris da Graciosa é uma formação rochosa de grandes dimensões, existente frente ao farol da Ponta da Barca, com uma configuração muito parecida com uma baleia vista de perfil. Possui campos férteis e aplainados que produzem hortícolas, fruta e vinho e onde se cria gado bovino, hoje a principal fonte de riqueza da ilha.

Geomorfologia e geologia

Ilha Graciosa vista do Toledo, ilha de São Jorge.
A Graciosa vista do sul. A povoação no centro é a freguesia da Luz; no extremo direito o Maciço da Caldeira.
As falésias da Serra Branca vista de SE. A povoação na outra costa é Santa Cruz da Graciosa.
A famosa baleia de pedra da Ponta da Barca (um dique basáltico que resistiu à abrasão marinha).

A ilha Graciosa situa-se no extremo noroeste da estrutura tectónica designada por Rifte da Terceira, que atinge aquela zona do Atlântico com uma direcção geral sudeste-noroeste, coincidente com o eixo geral do arquipélago. A presença do Rifte da Trceira leva a que a ilha Graciosa assuma uma configuração alongada ao longo do eixo do rifte, formando uma ovóide com 12,5 km de comprido por 8,5 km de largura máxima.

A linha de costa, muito acidentada e recortada por pequenas calhetas, é em geral baixa, com excepção do troço noroeste, correspondente à Serra Branca, onde a falésia excede os 200 m de altura. Na costa abrem-se duas baías pouco profundas, uma a sueste, onde se situa o porto de Vila da Praia, o porto comercial e de pescas da ilha, e outra a sudoeste, correspondente ao pequeno porto piscatório da Folga. A nordeste na zona de Santa Cruz da Graciosa abrem-se algumas pequenas calhetas, muito expostas ao mar, onde se anicham os portos de Santa Cruz, hoje abandonado, e da Barra, antigo porto baleeiro e comercial, hoje reduzido ao recreio náutico.

O território da ilha apresenta um relevo em geral aplainado, marcado por numerosos cones de escórias que lhe dão um carácter marcadamente vulcânico, com um relevo mais acentuado na parte meridional. A ilha Graciosa pode ser dividida em quatro unidades geomorfológicas:[1]

  • O Maciço da Caldeira, no extremo sueste da ilha, constituído por um vulcão bem conservado, com uma caldeira central bem definida;
  • A Serra das Fontes, ao longo da costa nordeste, muito escarpada e muito alterada pela tectónica local;
  • O Complexo da Serra Dormida e da Serra Branca, ocupando o terço centro-meridional da ilha, também muito desmantelado e alterado pela tectónica local;
  • A Plataforma de Santa Cruz, ocupando a metade noroeste da ilha, caracterizado por um relevo adoçado, com altitude máxima em torno dos 50 m e pontuado por numerosos cones de escórias.

Maciço da Caldeira

O Maciço da Caldeira ocupa o terço sueste da ilha, com uma morfologia nitidamente diferenciada do resto do território, do qual está separado por um longo vale que se estende desde a vila da Praia até à Folga, seguindo pela região da Canada Longa e das Pedras Brancas. Com a sua morfologia bem determinada pelo Rifte da Terceira, a maciço alonga-se ligeiramente no sentido sueste-noroeste, tendo no seu interior uma caldeira de bordos bem marcados, também ela ovóide, com cerca de 1 600 m de comprimento e 900 m de largura. No centro desta caldeira situa-se a Furna do Enxofre, uma cavidade vulcânica de grandes dimensões que contém no seu interior um lago e um pequeno campo fumarólico.

As vertentes do maciço são de forma regular, com um declive que se acentua com a aproximação do bordo da caldeira, o qual é marcadamente assimétrico, atingindo a cota máxima de 402 m acima do nível do mar no seu extremo sueste (o ponto mais alto da ilha) contra apenas 250 m no bordo noroeste.[2] Sobre as vertentes do maciço, especialmente sobre as suas faldas sueste e sul, está instalada uma densa rede de drenagem radial que em resultado da pequenez das bacias hidrográficas não ganha grande expressão em termos de caudal.

Inserem-se nesta unidade geomorfológica os ilhéus da Praia e do Carapacho, restos de cones periféricos, fortemente palagonitizados, muito desmantelados pela força erosiva do mar.

Na costa sueste e sul do maciço encontra-se diversas nascentes termais, uma das quais, a do Carapacho, é aproveitada nas Termas do Carapacho, um dos mais antigos estabelecimentos termais dos Açores.

A Furna do Enxofre, situada quase exactamente no centro da Caldeira, é acessível por uma pequena abertura no seu tecto, pela qual se tem acesso a uma torre construída no interior da Furna, pela qual se desce até às margens do lago que ocupa a sua parte central. O tecto é uma imensa abóbada de basalto, da qual se desprenderam ao longo dos tempos gigantescos blocos que agora juncam o chão da gruta. O campo fumarólico sito nas imediações da torre, e a lama em ebulição que o rodeia, liberta grandes quantidades de gases, incluindo monóxido de carbono, que já causou algumas mortes entre os visitantes e obrigou à instalação de um sistema de monitorização de gases.

Serra das Fontes

A Serra das Fontes ocupa a face norte da região central da ilha, apresentando um relevo complexo, muito alterado pela tectónica, com escarpas abruptas nos seus limites sudoeste e leste, sugerido a existência de falhas com um grande rejeito vertical. A altitude máxima deste maciço, 375 m apenas, é atingida no Pico do Facho, um cone de escórias bem conservado.

O litoral sueste do maciço é marcado pelo Pico do Quitadoro, um cone de bagacina em parte desmantelado pela erosão marinha. Ao longo do vale que separa a Serra das Fontes do Maciço da Caldeira existe uma escoada basáltica recente (<2 000 anos)[3] que forma o mistério que marca a periferia norte da vila da Praia.

A complexidade do relevo e a pequenez das bacias hidrográficas leva a que nesta região a rede de drenagem superficial seja incipiente, não apresentado qualquer curso estruturado. A zona mais alta da Serra apresenta algumas camadas superficiais relativamente impermeáveis, resultantes de paleo-solos soterrados e da formação de horizontes plácicos cimentados por óxidos de ferro e de manganésio. Estas camadas menos permeáveis constituem os aquitardos que permitem o aparecimento de múltiplas pequenas nascentes, muito valorizadas dada a escassez hídrica da ilha, que deram ao maciço o nome de Serra das Fontes, dado seu aproveitamento para abastecimento de água.

Complexo da Serra Dormida e da Serra Branca

O maciço da Serra Branca e da Serra Dormida é formado por duas linhas de relevo, as duas serras que lhe dão o nome, separadas por uma depressão quase linear de orientação noroeste-sueste.

A Serra Dormida, que constitui o flanco norte do maciço, é um alinhamento de cones vulcânicos, com as respectivas crateras, formados essencialmente por bagacinas basálticas avermelhadas, que atinge a sua maior altitude no Pico Timão (308 m), um grande cone detrítico encimado por uma cratera bem definida.

O flanco sul do maciço constitui a Serra Branca, também esta um conjunto de estruturas vulcânicas grosseiramente agrupadas em torno de um alinhamento paralelo ao eixo do Rifte da Terceira, com a sua cota máxima (360 m) no Pico das Caldeirinhas, no cume do qual se encontra um profundo algar contendo nas suas paredes um recobrimento vegetal de grande interesse.

As escarpas da Serra Branca constituem o troço mais elevado da costa da ilha, com uma falésia com mais de 200 m de altura, em grande parte compostas por depósitos espessos de material pomítico esbranquiçado, que dá o nome à Serra, na base da qual durante muitos anos se fez a extracção industrial da pedra pomes utilizada no fabrico de abrasivos.

A rede de drenagem desta região, apesar da pequenez das bacias drenantes, apresenta algum grau de organização.

Plataforma de Santa Cruz

A plataforma de Santa Cruz é uma região aplainada, com cotas médias em torno dos 50 m, pontuada por cerca de 40 cones vulcânicos de bagacina basáltica, com grandes declives e crateras bem definidas. O mais alto dessas cones é o Cabeço das Caldeiras (181 m). De entre os cones destacam-se o Pico Jardim e o Monte de Nossa Senhora da Ajuda, que flanqueiam a vila de Santa Cruz.

Devido ao seu fraco declive, esta região da ilha é desprovida de rede de drenagem superficial, sendo uma área de grande infiltração, contribuindo para a produtividade do aquífero basal da ilha, o qual aflora ao longo do litoral e é captado em múltiplos poços de maré.

Os solos desta região são de grande fertilidade, a que se associa a sua planura e baixa altitude, produzindo condições muito propícias à produção hortícola, com destaque para a produção de meloa e de alhos, produtos que em tempos deram fama à ilha. As zonas recobertas por lavas recentes são ocupadas por vinhedos, os quais foram em tempos a principal fonte de riqueza da ilha e que ainda justificam que a Graciosa seja uma região demarcada onde se fabricam vinhos licorosos de qualidade produzido em região determinada.

Geologia

A ilha Graciosa é um edifício vulcânico composto por três unidades denominadas:[3] (1) Complexo Vulcânico da Serra das Fontes; (2) Complexo Vulcânico da Serra Branca; e (3) Vulcão Central. O edifício é predominantemente basáltico, com características que indiciam um vulcanismo predominantemente de baixa explosividade, embora apareçam alguns depósitos de natureza traquítico que indiciam fases de alguma explosividade.

A parte emersa da ilha terá sido iniciada há cerca de 600 000 anos com a formação de um vulcão em escudo, que ainda aflora no Complexo Vulcânico da Serra Branca, a parte mais antiga da ilha. A essa fase seguiram-se períodos de maior explosividade, associados às fracturas que percorrem a zona, que resultaram a formação de numerosos cones de escórias vulcânicas soldadas que constituem a maior parte das actuais Serra Dormida e Serra das Fontes.

O tipo de vulcanismo alterou-se radicalmente há cerca de 350 000 anos, com a formação de um vulcão de tipo central com caldeira, ligado a uma câmara com magma diferenciado, do qual resultaram erupções de grande explosividade que deram origem aos espessos mantos de pedra pomes que constituem a Serra Branca.

Em período bem mais recente reactivou-se o vulcanismo basáltico, resultando na formação de um novo edifício vulcânico caracterizado pela sua baixa explosividade, que formou a Plataforma de Santa Cruz, com os seus numerosos cones, e os numerosos mantos basálticos subaéreos que recobrem o centro e o norte da ilha. Esta fase evoluiu para sueste da ilha, dando origem ao maciço da Caldeira e às estruturas que lhe estão associadas, bem como a diversas erupções surtseianas na periferia da ilha, das quais resultaram os actuais ilhéus e diversas estruturas submarinas próximas à costa. A última erupção desta fase ocorreu há cerca de 2 000 anos, dando origem ao Pico Timão e às escoadas basálticas que lhe estão associadas.

Povoamento e demografia

O território da ilha Graciosa constitui um único concelho, o de Santa Cruz da Graciosa, dividido em quatro freguesias:

  • Vila de Santa Cruz, a sede do concelho e principal povoação da ilha;
  • Vila da Praia, uma vila histórica que foi sede do concelho com o mesmo nome, extinto no século XIX;
  • Guadalupe, a maior povoação rural da ilha;
  • Luz, freguesia conhecida localmente por Sul, localizada ao longo da costa sul da ilha.

A ilha Graciosa, tal como acontece com a generalidade do território açoriano, tem uma estrutura de povoamento que, apesar da sua dispersão aparente, é fortemente condicionada pela rede viária. Este povoamento disperso orientado,[4] típico da zonas de colonização recente, como são as ilhas, levou a que a estruturação urbana da Graciosa se tenha produzido ao longo de grandes eixos, correspondentes aos vales da ilha, e, por consequência, às estradas que ao seu longo afluem às duas vilas da ilha.

Em consequência surgiu um desenvolvimento urbano claramente condicionado pela geomorfologia,com os seguintes eixos:

  • (1) ao longo da vale que separa o maciço da Caldeira do resto da ilha, entre a vila da Praia e o Carapacho, a Fonte do Mato, as Pedras Brancas e a Luz;
  • (2) em torno da Serra das Fontes, o eixo que saindo de Santa Cruz por Santo Amaro, inclui as Fontes e Guadalupe, dividindo-se aí num ramo que pelo Pontal via até às Pedras Brancas e noutro, mais a sudoeste, que inclui as Almas, Manuel Gaspar, Ribeirinha e Brasileira;
  • (3) ao longo da via que saindo de Santa Cruz pelo Rebentão, contorna o Pico da Hortelã, indo até à Vitória no noroeste da ilha;
  • (4) pelas Dores vai até ao Bom Jesus e ao litoral da Vitória, numa paisagem muito aplanada e de povoamento muito disperso, bastante diferente do resto da ilha.

Estes quatro grandes eixos incluem mais de 80% da população da ilha, deixando de fora apenas alguns povoados marginais, em geral satélites das vilas.

A evolução demográfica da ilha Graciosa entre 1844 e 2001 foi a seguinte:

Evolução da população da ilha Graciosa

1844 1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001
Guadalupe 3 032 2 690 2 616 2 676 2 718 2 485 2 479 2 732 3 087 3 223 3 013 2 562 1 736 1 554 1 306
Luz 1 797 1 746 1 812 1 803 1 905 1 819 1 830 2 052 2 248 2 277 2 005 1 535 1 000  887  735
Praia (S. Mateus) 2 020 1 849 1 709 1 732 1 588 1 374 1 301 1 448 1 580 1 634 1 547 1 320 1 034  965  901
Santa Cruz 2 808 2 433 2 308 2 229 2 148 1 925 1 867 2 238 2 278 2 383 2 104 1 955 1 607 1 783 1 838
Graciosa 9 657 8 718 8 445 8 440 8 359 7 603 7 477 8 470 9 191 9 617 8 669 7 420 5 377 5 189 4 780

Ao longo dos últimos dois séculos a evolução demográfica da Graciosa apresenta os seguintes períodos distintos:

  • 1800-1920 — Durante este período a população decresceu paulatinamente, passando dos mais de 9 500 habitantes de 1844 até menos de 7 500 em 1920, resultado da pobreza que se instalara na ilha devido à devastação da vinha pela filoxera, o que levou a uma forte corrente migratória para o Brasil, bem documentada nos numerosos brasileiros de torna-viagem, alguns deles histórias de grande sucesso, e para os Estados Unidos da América, ligada à baleação da Nova Inglaterra. Estas correntes migratórias, particularmente a que se dirigia à América do Norte, eram na maior parte constituídas por jovens emigrantes clandestinos, resultado da política de restrição à emigração, e de verdadeiro cerco para o recrutamento militar, seguida durante todo o século XIX, mesmo quando a fome grassava devido à sobrepopulação da ilha. A taxa média de decréscimo da população neste período foi de apenas -0,34% ao ano, uma das mais baixas do arquipélago.
  • 1920-1950 — A Primeira Guerra Mundial e depois a Grande Depressão da década de 1930, levam ao estancar das correntes migratórias, particularmente quando os Estados Unidos da América impuseram cotas que excluíam quase totalmente os cidadão portugueses, restrição que se prolonga durante a Segunda Guerra Mundial. Neste período há mesmo o regresso de algumas famílias da América do Norte, o que conjugado com o fim da emigração, leva a um rápido crescimento da população: em três décadas o número de graciosenses sobe dos 7 500 para mais de 9 500 em 1950, tendo ultrapassado em meados da década de 1950 os 10 000 residentes, número que se constitui o máximo histórico.
  • 1950-1980 — As décadas de 1950 e 1960 foram um período de profunda crise económica e social na ilha (como aliás no resto do arquipélago), marcadas por uma crescente pobreza, a que se veio juntar o endurecimento do recrutamento militar, consequência do dealbar da Guerra Colonial. Estes dois factores, ligados à excessiva pressão demográfica, criaram uma situação de enorme desânimo, levando primeiro à partida em massa para a ilha Terceira, onde a construção da Base das Lajes criava oportunidades de emprego,[5] e depois, graças à facilitação da emigração açoriana para os Estados Unidos em consequência do Kennedy-Pastore Act,[6] para aquele país. O resultado foi o declínio vertiginoso da população da ilha, com taxas de variação da ordem dos -1,70% ao ano (em média, -14,8% por década).
  • 1980- .... — Durante este período a quebra demográfica continuou quase ao mesmo ritmo do período anterior, agora já não alimentada pela emigração, que quase cessou a partir de 1990, mas pela redução drástica da natalidade, resultado do envelhecimento causado pela emigração selectiva no período anterior e da extraordinária melhoria nos padrões de vida que entretanto ocorreu. Esta tendência para o declínio está a abrandar, sendo de esperar a estabilização da população em torno dos 4 000 habitantes nas próximas duas décadas.

História

Em conjunto com as vizinhas ilhas do Grupo Central, a Graciosa foi explorada pelos navegadores portugueses durante o primeiro quartel do século XV, sendo desconhecida a data do seu primeiro registo visual. A data de 2 de Maio de 1450, frequentemente apontada como sendo a data de descobrimento da ilha, não tem qualquer suporte documental, sendo antes seguro que a primeira exploração aconteceu nas décadas anteriores. É contudo certo que no início da década de 1440, por ordem do donatário das ilhas, o Infante D. Henrique, já tinham sido lançados na ilha gados e porcos, criando condições para um mais fácil povoamento.

Também se desconhece quais terão sido os primeiros habitantes da ilha, embora seja de aceitar que por volta de 1450 terão chegado à ilha os primeiros colonos, provavelmente escravos e arraia miúda, embora deles, como aliás aconteceu nas restantes ilhas, não reste registo conhecido. O primeiro grupo de colonos de que há notícia, já enviados com sanção oficial do donatário, foi liderado por Vasco Gil Sodré, um homem bom natural de Montemor-o-Velho, que chegou à ilha acompanhado pela família e criados por meados da década de 1450. Foi assim o pioneiro e desbravador oficial da ilha, inaugurando o povoamento contínuo daquele território.

O primeiro núcleo populacional nasceu no Carapacho, uma zona de costa baixa e abrigada no extremo sudoeste da ilha, local onde terão aportado. Dada a baixa fertilidade dos solos na zona e a sua vulnerabilidade em relação ao mar, o povoado foi-se internando para o interior da ilha, aproveitando os solos férteis e aplainados do interior. Em poucos anos o principal núcleo populacional acabou por se fixar na costa norte da ilha, aproveitando as facilidades de desembarque que as calhetas da Barra e de Santa Cruz ofereciam a facilidade com que era possível escavar poços de maré naquele litoral. Nascia assim o povoado que viria a ser a actual vila de Santa Cruz da Graciosa.

Embora Vasco Gil Sodré tenha diligenciado no sentido de obter o cargo de capitão do donatário na ilha, e de ter mesmo construído uma alfândega, diligências em que foi sucedido por seu cunhado Duarte Barreto do Couto, apenas logrou, e mesmo isso não é seguro, governar a parte sul da ilha, estruturada em torno do que viria a ser a vila da Praia.

A capitania da parte norte da ilha, sita em terras bem mais férteis e amplas, foi entregue a Pedro Correia da Cunha, natural da ilha do Porto Santo e co-cunhado de Cristóvão Colombo, que a partir de 1485 obteve o cargo de capitão do donatário em toda a ilha, unificando a administração. Fixando-se com a família em Santa Cruz, tal levou a que aquele povoado suplantasse a Praia como sede do poder administrativo na ilha. Logo no ano seguinte, Santa Cruz é elevada a vila e sede de concelho, abrangendo todo o território da ilha e, com ele, as duas paróquias então existentes: Santa Cruz e São Mateus da Praia.

Iniciado povoamento e estruturadas as primeiras povoações, assiste-se, num fenómenos semelhante ao ocorrido nas restantes ilhas açorianas, a um rápido aumento da população, graças ao sistema de dadas que permitia aos capitães entregar parcelas de terra aos homens bons que as solicitasse e se comprometessem a tê-las desbravadas num período máximo de dois a cinco anos. Nesta fase, o influxo de povoadores fez-se, segundo alguns historiadores, das Beiras, do Minho e da Flandres, levando o povoamento e prosperidade da ilha ao ponto de permitir a instalação dos primeiros órgãos municipais, o que foi feito através da concessão, logo em 1486 do foral de vila ao povoado de Santa Cruz. A cabeça da outra capitania, o lugar de São Mateus da Praia foi também elevado a vila por foral concedido por Carta Régia do rei D. João III, datado de 1 de Abril de 1546.

Com a criação do segundo concelho ficou completa a estruturação administrativa da ilha que ficou assim dividida: o concelho de Santa Cruz, abrangendo a vila do mesmo nome e os lugares da zona aplainada da metade noroeste da ilha que constituem a actual freguesia de Guadalupe; e o concelho da Praia, abrangendo a vila do mesmo nome e os povoados do Sul que constituem a actual freguesia da Luz.

A estrutura administrativa bicéfala da ilha sobreviveu até ao século XIX, quando por força da reestruturação administrativa que se seguiu à aprovação do segundo código administrativo do liberalismo, o concelho da Praia foi extinto em 1855, sendo o seu território integrado no concelho de Santa Cruz da Graciosa. Embora o decreto de extinção tenha apenas sido executado em 1867, com a extinção do concelho, a Praia perdeu a categoria de vila, estatuto que só recuperaria em 2003, por força do Decreto Legislativo Regional n.º 29/2003/A, de 24 de Junho, aprovado pelo parlamento açoriano.

Com costas baixas que permitem o desembarque em múltiplos pontos e uma população reduzida, a Graciosa foi durante os séculos XVI e XVII por diversas vezes atacada por corsários e piratas, que para além dos saques e destruições de edifícios fizeram diversas razias, levando cativos muitos habitantes.

Apesar disso, a ilha foi capaz de fixar uma população considerável, incluindo entre os seus povoadores famílias ligadas à pequena nobreza, com ligação preferencial à Terceira, cujos apelidos sonantes ainda hoje estão presentes entre os habitantes da ilha.

Como aconteceu nas restantes ilhas açorianas, desde o início do povoamento que a economia da Graciosa se fundou sobre a agricultura e o plantio da vinha. Dada a fertilidade do solo e a orografia favorável, a Graciosa já no século XVI exportava trigo, cevada, vinho e aguardente, mantendo um activo comércio com a Terceira, ilha que então já dispunha de um porto frequentado por navios de grande porte e era o centro económico e administrativo do arquipélago.

Apesar da sua pequenez no contexto do arquipélago, a sua posição a noroeste da Terceira, cujo porto de Angra foi durante alguns séculos a escala universal do mar ponente, na linha de navegação dos navios que demandavam aquele porto vindos de oeste, fez com que a Graciosa fosse deliberadamente ou não escalada por muitos navios. Tal levou a que por aquela ilha tenham passado algumas figuras de relevância histórica, entre as quais, em 1654, o padre António Vieira que, vítima de um naufrágio, perto da ilha do Corvo, do navio em que seguia para Lisboa, foi recolhido por um corsário holandês e lançado na Graciosa, onde esteve cerca de dois meses.

Em 1791 a ilha foi visitada pelo escritor francês François-René de Chateaubriand, que ali aportou aquando da sua passagem em direcção à América do Norte e esteve hospedado no convento franciscano de Santa Cruz, e que depois descreveu a ilha com mestria na sua obra.

Outro visitante célebre foi Almeida Garrett, que esteve na Graciosa em 1814, quando com apenas 15 anos visitou um seu tio que era juiz de fora em Santa Cruz. Reza a tradição que terá pregado um sermão na ilha, em óbvia contravenção da lei, e que ali terá escrito versos já reveladores do seu talento de poeta.

Também em 1879 a ilha foi visitada pelo príncipe Alberto I do Mónaco, que no decurso dos seus trabalhos de hidrografia e estudo da vida marinha, aportou à Graciosa no seu iate Hirondelle. Durante a sua permanência na ilha, desceu à Furna do Enxofre, no interior da Caldeira, tendo sido uma das primeiras vozes que se levantaram na defesa da criação de um acesso adequado que permitisse potenciar aquele local como atracção turística.

Ao longo da sua história a ilha foi por diversas vezes assolada por secas avassaladores, que provocaram grande sofrimento, incluindo, segundo alguns historiadores a morte de muitos habitantes. Já no século XIX, e por iniciativa de José Silvestre Ribeiro, então administrador geral do distrito de Angra do Heroísmo, procedeu-se ao envio por navio de água a partir da Terceira para combater a sede que ali grassava. De facto, no Verão de 1844 ocorreu uma seca que para além de afectar gravemente as produções agrícolas pôs em risco a sobrevivência de pessoas e animais. José Silvestre Ribeiro proveu a ilha prontamente com 90 pipas de água e mandou abrir poços e valas. Na noite de 20 de Agosto uma forte chuvada veio aliviar a crise.

A ilha foi por diversas vezes vítima de sismos destruidores, calamidades que provocaram grande destruição. Foi o caso do ano de 1730, quando a 13 de Junho um sismo causou destruição generalizada na freguesia da Luz, danificando a maioria das habitações e arruinando a igreja paroquial. Novas crises sísmicas ocorrerem em Março de 1787 e em 1817 sem, contudo, causar danos consideráveis. Já em 1837 houve na ilha grande susto por causa dos terramotos que a visitaram de 12 de Janeiro aos fins de Fevereiro; o de 21 de Janeiro foi tão grande na vila da Praia que não deixou casa sem alguma ruína. A igreja da Luz ficou quase por terra e os povos experimentaram um viver de martírio.

Ao anoitecer do dia 13 de Julho de 1929 capotou durante uma aterragem de emergência, tentada nuns campos próximos do lugar da Brasileira, um avião biplano Amiot 123 que tinha como tripulantes os aviadores polacos Ludwik Idzikowski e Kazimierz Kubala. O avião tinha partida na madrugada daquele dia do campo de Le Bourget, nos arredores de Paris, com destino a New York, na segunda tentativa polaca de fazer o primeiro voo transatlântico de leste para oeste. O major Ludwik Idzikowski morreu no acidente e o co-piloto Kazimierz Kubala sofreu ferimentos ligeiros. O avião ardeu quando, durante a operação de resgate, alguém aproximou um archote dos destroços. Um cruzeiro marca o lugar do acidente.

A freguesia da Luz, em especial o lugar do Carapacho, e alguns lugares da freguesia do Guadalupe foram severamente atingidos pelo Terramoto de 1980, sofrendo destruição generalizada do seu parque habitacional.

Devido à emigração para os Estados Unidos da América durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, e à migração interna que ainda afecta a ilha, a Graciosa entrou num rápido processo de recessão demográfica que na actualidade condiciona em muito a sustentabilidade socio-económica da sociedade graciosense. Apesar disso, voltada para a agricultura, pecuária e lacticínios, a Graciosa mantém as suas características de ilha rural e tranquila, tendo-se aberto ao mundo pela construção na década de 1980 do aeródromo da Graciosa e do porto comercial da Praia. Para além disso, a ilha tem sido recentemente beneficiada por um conjunto de investimentos estruturantes, que incluíram a requalificação da sua escola secundária, a construção de uma nova fábrica de lacticínios e de um porto de pescas e de recreio na Praia. Está em curso o processo que levará à requalificação das Termas do Carapacho, à construção de um novo hotel e de um novo centro de saúde.

Ambiente e conservação da natureza

Esta Ilha foi declarada em Setembro de 2007 como Reserva da Biosfera pela UNESCO, na sequência de uma candidatura apresentada para esse fim pelo Governo Regional dos Açores. Esta importante classificação confirma a qualidade da biosfera desta ilha que é muito variada possuindo uma rica floresta típica da macaronésia.

Esta classificação foi aprovada pelo Beureau do Concelho Internacional de Coordenação do programa da UNESCO que foi reunido em Paris e levou à criação do Parque Natural da Ilha Graciosa que por sua vez levou à criação de 8 áreas protegidas divididas por 4 categorias: [7]


Referências

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