Esta pagina, um trecho de meu livro, é dedicada ao Club de Pipafumadores del Uruguay que está desenvolvendo un importante trabalho sobre cachimbos indígenas e ao amigo Jorge W. Garcia, Secretário Geral do Clube.

O uso do cachimbo entre os nativos das Américas

 

Lendas e rituais interligando tabaco, sociedade e religião fazem parte também da cultura dos nativos da América do Sul e, devido ao fato de que a planta do tabaco originou-se neste subcontinente, é até possível que sejam mais antigos que na América do Norte.

Nas tribos Guaranis existe um ritual associado ao tabaco e ao cachimbo, como as cerimônias da nominação, na quais as crianças recebem um nome e assumem um papel e uma identidade na tribo (Chamorro Arguello 2004). A cerimônia, realizada na casa de reza, inicia-se com uma dança dos lutadores da tribo, os xondarós, com duração de três horas. Terminada a dança, o líder dos xondarós pega seu cachimbo, chamado petynguá, feito com um nó de madeira de pinho, e enche-o com o fumo; os outros fazem o mesmo. As mulheres acendem os cachimbos, e os xondarós começam a dançar em círculo em torno de um altar com uma cruz de madeira, soprando a fumaça em cima da cruz. Na continuação da cerimônia, quando as crianças recebem o nome, a fumaça do cachimbo é soprada em cima das cabeças dos meninos à guisa de batismo. O cachimbo é fumado também nas cerimônias de boas-vindas e nos conselhos da tribo.

A cerimônia da jurema ou da ajucá, antigamente praticada pelos povos Jê (ou Tapuias) e Kariris, e hoje ainda praticada por descendentes caboclos, provavelmente com muitas modificações no esquema original, é baseada no consumo de uma poção alucinógena, preparada com a raiz da árvore jurema (Mimosa hostilis); o pajé, de posse de um cachimbo com a boca do fornilho virada para baixo soprando em cima da superfície espumosa da poção avermelhada, chamada por isso de “vinho de jurema”, forma uma cruz e marca um ponto em cada um dos quadrantes formados pelos braços da cruz. Em outros rituais, a fumaça do cachimbo, feito de madeira de raiz de jurema e enchido com tabaco misturado a folhas de jurema, é soprada nos quatro cantos da casa para desalojar os maus espíritos.

 

A ligação entre os deuses dos quatro cantos do mundo e a possibilidade de enviar mensagens e receber respostas e inspiração por parte deles por meio da fumaça do tabaco é presente em grande parte das culturas indígenas das Américas. Incluem-se aí as religiões Maia e Asteca da América Central, sugerindo uma comunicação cultural ou uma tradição comum a todos os nativos das Américas, que possivelmente acompanhou a difusão do uso do tabaco. Ao mesmo tempo, disseminou-se o uso de outros  derivados vegetais com efeito alucinógeno, capazes de provocar o transe visionário durante o qual os pajés achavam  poder melhor comunicar-se com os deuses. Na opinião de Wilbert (1994), o uso do tabaco e de drogas psicotrópicas pode ter iniciado com a extinção dos grandes mamíferos e a passagem para a horticultura, acontecimento datado entre seis e oito mil anos atrás. Mas é também possível que já no estágio de caçadores-coletores tivessem conhecido casualmente as propriedades do tabaco, passando depois para um estágio de procura consciente para chegar finalmente ao cultivo.

Figura 1: Cachimbo tubular simples 

 

 

 


Na opinião de Rival (1986), a primeira menção de um cachimbo na Europa teria sido feita na Canção dos pilotos de Jean Ango (1525), e, se isso é verdade (eu não tive a oportunidade de ler esta obra), o cachimbo observado nas mãos de um marujo e descrito como  “um objeto em barro branco que parecia um tinteiro com um longo cano”  pode ter sido trazido da viagem de descobrimento de Giovanni da Verrazzano. Este navegador tocou as costas norte-americanas e, na região da Carolina do Norte (Morison 1976), observou um índio oferecendo o que lhe pareceu uma “vareta acesa” e que, na realidade, devia ser um cachimbo oferecido em sinal de paz. Provavelmente a vareta era um cachimbo tubular (fig. 1), a forma considerada a mais antiga, encontrada em escavações arqueológicas tanto na América do Norte quanto na do Sul, do Canadá até a Patagônia. O cachimbo tubular é um simples cano em madeira, osso, pedra ou barro, geralmente mais grosso na extremidade onde era colocado o tabaco (o fornilho) e mais fino na outra, de onde era aspirada a fumaça (a piteira).

Figura 2: Cachimbo tubular com cabeça diferenciada

  

 

 

 

A evolução do cachimbo tubular é representada pelo aumento de tamanho do fornilho, às vezes bem diferenciado da piteira (fig. 2).  

A passagem do cachimbo tubular para o cachimbo angular ou “a cotovelo”, onde a cabeça, na qual é cavado o fornilho, forma um ângulo com o cabo, foi provavelmente motivada por razões funcionais, como a exigência de não fazer cair o tabaco aceso e diminuir o comprimento.

A antiguidade do cachimbo ultrapassa com certeza os 3.000 anos: Wilbert (1972) atribuiu à cultura olmeca  (1200-900 AC) alguns cachimbos encontrados no México

No Brasil, os cachimbos tubulares e angulares são encontrados em sítios pré-históricos  de todo o país (Prous 1992), mas infelizmente, em poucos casos, temos datações aceitáveis: um dos casos mais bem documentados é o sítio arqueológico de Canindé do São  Francisco, onde foram encontrados cachimbos em camadas com datações obtidas por meio de técnicas do radiocarbono entre 2530 ± 170 e 1280 ± 45 AP (Luna 2001). É importante observar que a nicotina é o único alcalóide encontrado nos restos de fumo combusto, o  que demonstra que os nativos daquela área fumavam tabaco sem misturá-lo a substâncias alucinógenas. A maioria dos antropólogos culturais, encabeçados por Wilbert (1994), afirma que os índios fumavam somente com fins religiosos e para entrar no transe visionário. É uma colocação fundamentalista, difícil de acreditar, que só os europeus descobriram o prazer do fumo: é possível que umas tribos tivessem este hábito, mas evidentemente o uso “secular” do tabaco era conhecido pelos Arawak das Antilhas, que passeavam de charuto na mão, e pelos Tupinambás, que enrolavam tabaco em folhas de palmeira e fumavam esse cigarro primitivo na frente do padre francês Thevet, no século 16.

O Museu Goeldi, em Belém, possui um grande acervo de cachimbos pré-históricos encontrados em pesquisas arqueológicas na Amazônia e recentemente estudados do ponto de vista morfológico, num belo trabalho (D’Aquino, 2001), que documenta como o hábito de fumar cachimbo era comum na Amazônia, provavelmente já em época pré-cabralina.

Os iroqueses, tribo da América do Norte que foi uma das que mais tiveram contato com os primeiros europeus, ficaram famosos pelo número e variedade dos cachimbos que produziam. Cada homem da tribo possuía seu cachimbo, feito com vários materiais (pedra, osso, chifre), com prevalência do barro. Os cachimbos que usavam em cerimônias tinham cabeça em pedra vermelha, como o cachimbo sagrado dos Lakhotas, fato que poderia indicar  uma deliberada diferenciação entre o uso místico e o uso secular do tabaco. Na cultura Asteca, onde o tabaco era usado pelos sacerdotes que oficiavam os sacrifícios humanos, o tabaco era também usado em cachimbos tubulares depois dos banquetes dos nobres. Podemos, portanto, concluir que o uso prazeroso ou secular do tabaco coexistia  com o uso ou abuso para fins místicos. Isso ratifica o fato que os europeus aprenderam  a fumar charutos e cachimbos enchidos com tabaco, a cheirar pó e a mastigar tabaco com nativos  das Américas, que já praticavam esse hábito e que diferenciavam  o sagrado do profano, não só no tipo de cachimbo, mas também no tipo de tabaco usado.

Bibliografia

Chamorro Arguello, G. O rito de nominação numa aldeia Mbyá-Guarani do Paraná. Diálogos, 2: 201-226, 1998

D’Aquino, G. O fumo e os cachimbos cerâmicos na pré-história da Amazônia Brasileira: os “sambaquieiros” de Alenquer e os Tapajós de Santarém (Tese de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, 2001).

Luna, S. As populações ceramistas pré-históricas do Baixo São Francisco (Tese de Doutorado, Universidade Federal de Pernambuco, 2001).

Morison, S.E. Storia della Scoperta dell’America  (Rizzoli, Milano, 1976).

Paper, J. Cosmological implications of Pan-Indian sacred pipe ritual. Canadian Journal of Native Studies 7: 297- 306,  1987. 

Rival. N. Tabac Miroir du temps (Librairie Académique Perrin, Paris, 1981).

Wilbert, J. The Cultural Significance Of Tobacco Use In South America, (em Gary Seaman & Jane S. Day (eds), Ancient Traditions: Shamanism in Central Asia and the Americas. Denver: University Press of Colorado & Denver Museum of Natural History, pp 47-76, 1994).