Guido Mondin

Um grande brasileiro: político, escritor, artista e ... cachimbeiro! 

Guido Fernando Mondin (1912 - 2000) foi político (Deputado Federal e Senador, Ministro, Vice-Presidente e Presidente do Tribunal de Contas da União), escritor, grande pintor e grande fumador de cachimbo como seu pai e seu avó.

Foi também poeta, deixando-nos uma comovente poesia que aqui transcrevo, por permissão da filha, Dona Talita Mondin Leyvas.


Cinzeiros e cinzas

Eram para ela o maior flagelo

de um sofrimento que não tinha paralelo,

aqueles cinzeiros cheios

e a cinza pelo chão.

Ah! Como o cheiro da cinza a irritava!

E ele, imperturbável, fumava, fumava...

(Maldito fumo! Quem o terá inventado?

Vicio odioso, tolo, que o marido

em tão má hora havia contraído!)

Se ele apenas fumasse antes de entrar em casa

e ao menos ela não visse aquela brasa

a arder e a fazer-se depois cinza!

Mas não! O prazer dele era o de encher cinzeiros

– aquele de alabastro, outro de porcelana,

e os mais de cobre, de mármore, de bronze,

de pedra e de cristal,

– numa só sala onze!

E cinza, cinza todo dia,

fizera-se martírio aquela vã porfia

de esvaziar cinzeiros e cinzeiros,

se ele era insensível

aos tremedais caseiros,

e fumava e fumava e dela ria...

Mas veio certa noite em que não era

de fumo o odor que ela sentia,

círios ardendo um outro olor traziam

por entre o das flores que aos poucos feneciam...

Pela manhã ela viu

com o seu olhar nublado

por tanto ter chorado,

– um cinzeiro vazio...

Lançou o olhar pelos demais cinzeiros:

estavam vazios os potes borralheiros

e, mais vazios ainda de sentido,

parecia também terem morrido.

Dizem, não sei, contam de tudo,

que ela foi vista a escavar sobre uma tumba

porque queria queimar restos do morto.

Repetia a louca que assim teria cinza

para voltar a encher velhos cinzeiros,

eis que só tarde, bem tarde compreendera

o quanto fora cega e descabida,

pois quando havia cinza nos cinzeiros

também havia vida na sua vida!...