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Como usar o cachimbo


Para os nativos norte-americanos fumar um cachimbo era algo quase místico e que precisava de cuidados especiais, Como vimos em outro capitulo a piteira era encaixada na cabeça do cachimbo sagrado simbolizando a união do céu e da terra e o fornilho era enchido por picadas, cada pitada sendo dedicada aos espíritos dos quatro cantos do mundo. Apesar de ter perdido os significados espirituais atribuídos pelos nativos a operação de preparar um cachimbo para uma fumada ainda mantem a necessidade de respeitar umas regras básicas.

Comprei meu primeiro cachimbo quando (muitos anos atras!) era um aluno de Biologia na universidade de Roma. Numa fria noite de inverno estava de passeio com a minha garota da época, a mesma que ficou sendo a mulher de minha vida. Paramos na frente da vitrina de uma tabacaria onde estavam a mostra uns cachimbos e a minha garota falou que sempre tinha gostado daqueles que fumam cachimbo. Obvio, entrei na tabacaria comprei um pequeno buldogue, um tabaco Clan, um calcador e uma caixa de fósforos. Depois de sair da tabacaria, abri a bolsa do tabaco, peguei uma pitada e coloquei no fornilho, passei a chama do fósforo encima do tabaco, aspirei pela piteira:.. e nada de fumaça. Aparei o tabaco e acendi de novo e desta vez a fumaça saiu, mas tão quente que queimou minha língua. Minhas tentativas acabaram por ai. Uns dias depois assisti a uma aula de bioquímica e no fim da aula o professor extraiu de sua maleta um belo cachimbo curvo e começou a enchê-lo pegando pequenas pitadas de tabaco de uma bolsinha, pressionando pouco a pouco o tabaco com o dedo indicador e depois de ter enchido o fornilho deu uma boa calcada com o polegar. Depois pegou um fósforo, esfregou-o na caixinha, esperou um pouco enfim encostou a chama na superfície do tabaco acendendo-o completamente, tirou dois ou três pequenos bufos de fumaça, amassou um pouco o tabaco com o calcador, usou outro fósforo para acender melhor e saiu da sala esbanjando redondas baforadas.

Maravilha! Alem de uma bela aula de bioquímica, tinha assistido uma palestra magistral sobre como encher, acender e fumar um cachimbo!

Chegando em minha casa peguei o meu pequeno cachimbo e repeti tudo que tinha feito o professor de bioquímica e...milagre! Iniciei a fumar e continuei por uns cinco minutos. Teve que usar uns 6 ou sete fósforos para acender de novo até consumir todo o tabaco daquele pequeno fornilho. Mas minha língua estava ardendo e a cabeça do cachimbo estava quente demais. Era obvio que algo estava errado, mas o que? Precisava de mais dicas e foi procurando nos sebos ( o meu orçamento de estudante não era grande coisa!) algum livro que pudesse ajudar-me: não encontrei nada!

Meu ultimo recurso para aprender mais sobre como fumar cachimbo era o professor de bioquímica, mas naquela época eu era muito tímido. Felizmente a sorte me ofereceu uma oportunidade inesperada, sendo que voltando de ônibus para casa encontrei-me sentado ao lado do professor. Cumprimentei o professor e pedi se podia fazer-lhe uma pergunta. “Claro! - respondeu - É sobre a ultima aula?” Quando soube que o assunto era o cachimbo, alegrou-se e se disponibilizou a responder a todas minhas perguntas. Mostrei o cachimbo e o tabaco que tinha comprado e contei como tinha enchido e tentado de fumar o cachimbo. As explicações que pacientemente me deu o professor permitiram-me de dar-me conta de todos meus erros:

  1. O meu cachimbo tinha um fornilho pequeno.

  2. O meu tabaco era seco.

  3. Não tinha aplicado uma pressão suficiente no tabaco.

  4. O ritmo das aspirações tinha sido rápido demais.


As dicas do professor me ajudaram muito e a experiencia pessoal ainda mais e iniciei a fumar o cachimbo muito melhor. Depois de umas décadas aprendendo, atrevo-me a dar umas sugestões.

Tudo o que precisa: cachimbo (1), calcador (2), fósforos (3), tabaco (4), escovilhões (5)


  • Compre o seu primeiro cachimbo numa loja especializada onde possa ser atendido por alguém que entenda do assunto, mas se não é possível, escolha um cachimbo direito ou ligeiramente curvo, com um fornilho de tamanho médio (abertura do fornilho de 18 mm). Certifique-se que o cachimbo seja de briar (italiano: radica; espanhol: brezo; francês: bruyère) e não gaste demais. Compre um tabaco que não seja nem seco nem úmido demais, um calcador, uma caixa de fósforos e um pacote de escovilhões.
  • Agora está pronto para encher o cachimbo e fazer sua primeira fumada. Mas lembre-se que seu cachimbo é novo, deve acostumar-se ao calor do tabaco aceso e para atingir esta finalidade deverá formar-se uma camada de carvão uniforme sobre as paredes do fornilho. Sendo que um fumador iniciante com o fornilho cheio tende a fumar só a parte de cima, a crosta se formaria antes na parte superior do fornilho que assim iria assumindo um perfil de garrafa, dificultando a fumada. Portanto será melhor encher o fornilho, no máximo, até a metade de sua capacidade.
  • Ponha uma folha de papel branca e limpa encima da mesa, bote sobre a folha a quantidade de fumo que acha precise para encher o cachimbo até a metade e espalhe o tabaco na folha soltando os pedacinhos um do outro; depois disso pode de novo agrupar o tabaco no centro da folha.
  • Pegue uma primeira pequena picada de tabaco e introduza-a no fornilho simplesmente apoiando-a  no fundo, pegue uma segunda picada e ponha encima da primeira com uma leve pressão só para achatá-la ; a terceira tem que ser calcada um pouco mais , a quarta mais um pouco e assim por diante até chegar à metade do fornilho.
  • Agora ponha a piteira na boca e aspirando experimente o fluxo de ar: se o fluxo é como se não tivesse colocado nada no fornilho, coloque mais um pouco de fumo no fornilho e calque para comprimir até chegar a metade do fornilho. Se o fluxo de ar ainda continua o mesmo, adicione mais tabaco e calque mais forte até chegar à perceber alguma resistência no fluxo. Se o fluxo de ar é travado, esvazie o fornilho e comece de novo: um bom enchimento é o segredo para uma boa fumada sem muitos apagamentos.
  • Depois de ter experimentado o fluxo de ar verificando que o tabaco no fornilho oferece uma ligeira resistência, está pronto para acender seu cachimbo novo. Use somente fósforos para acender, postergando o uso de isqueiros para quando estiver mais treinado. Seria melhor que os fósforos fossem do tipo longo (5cm) para ter mais tempo para acender. Acenda um fósforo e deixe soltar o cheiro de enxofre antes de aproximá-lo à superfície do tabaco no fornilho. Movimente circularmente a chama e aspire com moderação até que a superfície do tabaco seja uniformemente acesa. Continue dando pequenas aspirações e ao mesmo tempo aproxime o calcador à superfície do tabaco acesa, calcando ligeiramente até achatar uniformemente a superfície. Si o tabaco apaga, acenda de novo repetindo as operações anteriores; não se preocupe com o apagamento do cachimbo porque o numero de vezes que pode reacendê-lo é limitado somente pelo numero de fósforos na sua disponibilidade. Fume com aspirações curtas, lentas e rítmicas até reduzir em cinzas todo o tabaco. No curso da fumada ajude a combustão calcando o fumo e removendo as cinzas em excesso que são aquelas que caem naturalmente ou depois de ter mexido com o alfinete da ferramenta só na superfície das cinzas: vire o seu cachimbo de cabeça para baixo em cima do cinzeiro dando golpezinhos com os dedos no fundo do cachimbo
  • Esvazie o cachimbo ajudando-se com o alfinete e com a colherzinha ou a lamina de seu calcador; examine as cinzas para avaliar a sua fumada: si as cinzas são finas e claras, quase brancas, você está muito bem encaminhado, mas si as cinzas são pretas, grossas e úmidas, você terá que avaliar seus erros e providenciar os remédios.
  • Agora limpe bem seu cachimbo: tire a piteira do cabo rodando no sentido horário e ao mesmo tempo puxando-a por fora. Introduza uma escovilhão na piteira através  do buraco do lado onde se põe a boca e passe-a até fazê-la sair do outro lado. Pegue agora a cabeça do cachimbo e limpe o fornilho com o limpador sem arranhar a parede; pegue uma tira de papel de jornal, faça um cartucho entorno de seu dedo indicador (se o dedo indicador é grande demais para o fornilho escolha outro dedo!) e introduze-o no fornilho, movimentando-o circularmente varias vezes até limpar de todas as cinzas. Pegue de novo a escovinha usada para limpar a piteira introduze-a através do furo do cabo até que a ponta apareça no interior do fornilho; limpe bem a passagem do ar com um movimento de vai-e-vem; deixe a ponta do escovilhão aparecendo dentro do fornilho e tente de dobrá-la para cima até podê-la agarrar com os dedos e puxá-la fazendo-a sair pelo fornilho. Para não se sujar pode-se usar uma pinça ou um pequeno alicate.
  • Encaixe de novo a piteira no cabo, sempre rodando no sentido horário.



O cachimbo, depois de ser limpo, deverá ser deixado a descansar por, pelo menos, 48 horas, o que significa que se quer continuar a fumar neste período de aprendizagem deverá ter mais cachimbos.

Na primeira fumada enchemos o cachimbo até a metade do fornilho: continuaremos a encher até esta altura por mais quatro ou cinco vezes e depois disso chegaremos a carregar até dois terços da capacidade, continuando assim por mais quatro ou cinco vezes. Só depois disso será possível encher completamente o fornilho, cuidando de manter o nível do tabaco um meio centímetro abaixo da borda interna. Evite chegar até o topo porque poderia queimar a borda externa da cabeça ou, pior, poderiam cair fagulhas

Este procedimento de encher gradualmente o fornilho em fumadas sucessivas é feito com a finalidade de formar uma camada uniforme de carvão sobre as paredes internas do fornilho que representará uma proteção para o cachimbo e melhorará o gosto do tabaco, razão pela qual é chamada bolo (cake em inglês)

O êxito de uma fumada depende, em resumo, dos seguintes fatores:

  • Ter um bom cachimbo de qualidade media.

  • Carga do tabaco no fornilho, feita por camadas e aumentando a pressão gradualmente de baixo para cima; veremos como deve ser modificada a carga em relação ao corte do tabaco.

  • Um acendimento uniforme do tabaco obtida movimentando circularmente a chama do fósforo ou do isqueiro; pode-se controlar o acendimento da superfície num espelho: aspirando lentamente a brasa deve aparecer distribuída em toda a boca do fornilho; si a brasa não é completa, encostar de novo a chama do fósforo para estendê-la. O tabaco aceso se levanta um pouco e deve ser aparado com o calcador.

  • Uma aspiração ritmada. Um pouco mais acentuada nos primeiros minutos depois do acendimento e depois mais lenta e suave. Si o cachimbo apaga não tem problema: tirar a cinza, aparar a superfície do tabaco e acender de novo.

  • Um bom uso do calcadorque tem que ser empregado com parcimônia: quando tem muita cinza em cima do tabaco é melhor deixá-la cair no cinzeiro virando a cabeça do cachimbo para baixo e depois aparando de novo mais o menos com delicadeza a brasa então que se continua aspirando; uma socada no tabaco é necessária também quando a resistência a aspiração é mínima.

  • Uma correta manutenção do cachimbo que deve ser limpo e seco

 

Uma lenda metropolitana conta que um cachimbo, antes de ser estreado na primeira fumada deve ser “preparado”, aconselhando métodos às vezes ridículos, como aquele de mergulhar o cachimbo inteiro na cachaça, no uísque ou no rum; os mais moderados destes conselheiros sugerem de colocar o licor somente dentro o fornilho e os sofisticados aconselham de encher o cachimbo com tabaco molhado no licor.

Estes e outros conselhos que não vou mencionar, por rações de decência, são métodos certos para danificar seu cachimbo novo em briar que para ser bem preparado precisa somente de ser bem fumado, evitando que esquente no curso da fumada, deixando-o descansar entre uma fumada e outra e mantendo-o limpo e seco.

Uma preparação, não estritamente necessária, mas possivelmente de alguma utilidade para ajudar a formar a camada de carvão ou bolo que com o tempo e as boas fumadas, irá revestir o interior do fornilho, é o mel. Para fazer isso, mergulhe a ponta de um dedo no mel liquido e passe depois o dedo revestindo com uma leve camada de mel. Deixe impregnar a madeira com o mel por 24-48 horas, remova o excesso de mel no fornilho com um guardanapo de papel ou com um pano de algodão e comece a carregar o cachimbo como acima mencionado.

A camada de carvão que vai se formando é muito importante para a qualidade da fumada, mas sua espessura deve ser a mesma seja na parte baixa que na parte do fornilho e não deve ser deixada aumentar sem controle. A uniformidade da espessura é atingida com  o enchimento gradual do fornilho nas fumadas sucessivas, então que o excesso é controlado com uma raspagem com o instrumento mostrado na figura que se adapta as diferentes larguras de fornilho. Este aparelho deve ser movimentado circularmente com delicadeza e cuidado até reduzir a crosta de carvão à espessura desejada. Depois de completar a raspagem, limpar o fornilho com papel para eliminar a pó de carvão.





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