Crónica N°092

Na “Barrage de Moiry” descobri a minha nova vocação, “salta montanhas”…



Diz o povo na sua extrema sabedoria que “mais vale só do que mal acompanhado” e acreditem, por vezes é quando um tipo pedala só que se se fazem as mais bonitas descobertas.

 

Já quase no final de Setembro 2017, e após quase um mês sem pedalar, resolvi dar um salto para os lados da “Barrage de Moiry” a 2’249 mts, em solitário isto porque sabia de antemão que não iria ser uma volta fácil e porque também não sabia que condições climatéricas iria encontrar portanto a ter de sofrer gosto de sofrer sozinho sem prejudicar outrem 😊.

 

Quando desenhei o track no Google Earth, pensei que se trataria de uma volta tipo triângulo, isto é, sobe-se de um dos lados e depois desce-se do outro lado; azar o meu, lá em cima quando eu pensava já ter atingido o topo, aguardava-me um “planalto inclinado” se é que se pode chamar assim, com algumas paredes de 20 a 25% a subir. A “cherry on top of the cake” foi quando desci dos 2.787 mts aos 2.383 mts aí apanhei com algumas descidas de 38%, confesso que me "bor..i" em algumas partes, mas BTT também é isso.

 

Para espelhar a minha felicidade, deixo-vos este pequeno texto do Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'.  

 

“Ninguém Tem Pena das Pessoas Felizes

 

Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os Portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. As pessoas com problemas são sempre mais interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes. Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos felizardos (a própria palavra tem um soar repelente, rimador de «javardo») vêem-se obrigados a fingir a dor que deveras não sentem, só para poderem «brincar» com os outros meninos.

 

É assim. Chega um infeliz ao pé de nós e diz que não sabe se há-de ir beber uma cerveja ou matar-se. E pergunta, depois de ter feito o inventário das tristezas das últimas 24 horas: «E tu? Sempre bem disposto, não?». O que é que se pode responder? Apetece mentir e dizer que nos morreu uma avó, que nos atraiçoou uma namorada, que nos atropelaram a cadelinha ali na estrada de Sines.

 

E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, sobretudo, de «culpa». Se elas estão felizes, rodeadas de pessoas tristes, é lógico que pensem que há ali qualquer coisa que não bate certo. As infelizes acusam sempre os felizes de terem a culpa. É como a polícia que vai à procura de quem roubou as joias e chega à taberna e prende o meliante com ar mais bem disposto. Em Portugal, se alguém se mostra feliz é logo suspeito de tudo e mais alguma coisa. «Julgas que é por acaso que aquele marmanjo anda tão bem disposto?», diz o espertalhão para outro macambúzio. É normal andar muito em baixo, mas há gato se alguém andar nem que seja só um bocadinho «em cima». Pensam logo que é «em cima» de alguém.

 

Ser feliz no meio de muita gente infeliz é como ser muito rico no meio de um bairro-de-lata. Só sabe bem a quem for perverso.

 

Infelizmente, a felicidade não é contagiosa. A alegria, sim, e a boa disposição, talvez, mas a felicidade, jamais. Porque a felicidade não pode ser partilhada, não pode ser explicada, não tem propriamente razão. Não se pode rir em Portugal sem que pensem que se está a rir de alguém ou de qualquer coisa. Um sorriso que se sorria a uma pessoa desconhecida, só para desabafar, é imediatamente mal interpretado. Em Portugal, as pessoas felizes sofrem de ser confundidas com as pessoas contentes.”

 

Julgo que depois de verem estas fotos compreendem melhor o porquê de não me chatear pelo facto de demorar quase 3h00 a chegar ao local de arranque da volta, tendo esta iniciado pelas 11h00. É preciso gostar mesmo muito de BTT.

Dados da volta:

- Total distância – 48,60 Kms
- Altitude mínima – 491 mts
- Altitude máxima – 2.787 mts
- Acumulado subida – 1.120 mts
- Acumulado descida – 2.615 mts
😊

 

Afim de vos preparar para o que der e vier, termino esta crónica com esta belíssima tirada de Marie Curie "Não importa o que se fez, só importa o que falta fazer."

 

Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

 

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

 

 

P.S:

 

1. Podem visualizar esta crónica na íntegra com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT (clicar no link) e ler o Post (resposta) #838 e 839.