Crónica Nº086

Dos “Arcos de Valdevez” fui até “Sistelo”, o pequeno Tibete português…


Há mais de 20 anos atrás Steve Jobs disse algo tão simples como isto “Não me interessa vir a ser o homem mais rico no cemitério... Ir à noite para a cama dizendo a mim próprio que fiz algo de maravilhoso... é isso que me interessa”.

Pois bem, é assim que me sinto desde há alguns anos a esta parte, não sei se é pelo facto de estar a envelhecer e me aperceber agora que a vida é muito mais do que aquilo que vivemos, talvez seja pelo facto de me aperceber que caminho a passos largos para os 50, talvez seja esta a crise dos 50 que afinal não ocorre apenas no ano em que fazemos 50, mas sim uns anos antes, ou talvez ainda esteja a ficar “crazy” sempre que pego na caneta J… pois são tantos os sentimentos que vagueiam pela minha mente e tanto mais ainda a vontade de os partilhar convosco.

No mês passado regressei às Terras Lusas pois tinha-me dado uma vontade louca de comer umas papas de sarabulho, vá-se lá saber porquê, que eu saiba não me encontro grávido J… A deslocalização tem destas coisas e como não podia deixar de ser, contactei o amigo Pereira para lhe pedir um track à maneira BDP.

Como não podia deixar de ser, o Pereira apresentou logo 3 alternativas, uma para cada tipo de tempo. Este ano e após mais de 6 visitas a Portugal, tive sorte, não apanhei chuva, aliás apanhei um tempo primaveril com temperaturas de +/- 20ºC, as fotos falarão por si.

Acabei por selecionar uma volta não pela sua dureza como até agora mas sim pelo facto de já não andar nessa zona (Terras do Vez) há quase 10 anos, sendo assim, decidimos ir fazer os trilhos da ecovia dos Arcos de Valdevez e alcançar a mítica aldeia de “Sistelo”, também apelidada do pequeno “Tibete” Português.

A minha opção deve-se ao facto de ter visto há uns meses atrás na net um vídeo sobre esta aldeia, mais informações em https://www.youtube.com/watch?v=qMhhn-ogaJ4.

Espero que gostem! Digam lá se não vos arrepia e vos dá vontade de lá ir! Isto é o Portugal que tanto gosto, lembrança de uma outra época!

“Sistelo” para quem desconhece é uma aldeia junto à nascente do rio “Vez” em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês. Famosa pelas suas paisagens em socalcos, onde se cultiva o milho e pasta o gado de raça cachena. O Castelo de Sistelo é o ex-libris da aldeia, tratando-se de um palácio construído nos finais do século XIX onde viveu o Visconde de Sistelo, de seu verdadeiro nome Manuel António Gonçalves Roque. 

A ideia era arrancar dos “Arcos de Valdevez” a 33 mts e ir almoçar a “Sistelo” a 275 mts à única tasca existente cujo nome agora não me alembro (la prise d’âge est bien foutu!), perfazendo no total (ida e volta) cerca de 40 kms.

Acontece que volta realizou-se num dia da semana e quando lá chegamos por voltas das 13h00, fomos informados que almoços somente ao fim de semana. Oh caneco e agora! Perguntamos a alguns “maçons” que lá estavam a que distância ficava o restaurante mais próximo. Uns diziam a cerca de 5 kms e outros a 8 kms e todos confirmavam que eram apenas 2 a 3 kms a subir, coisa pouca para vossemecês segundo eles J

Tem piada, já não é a primeira vez que os kms para os nativos não tem todos o mesmo comprimento, o problema é que quando olhávamos a subida que tínhamos de efetuar (a 3ª foto a contar do fim já vos dá uma ideia do que tivemos de subir e aí ainda estávamos a metade do desnível a vencer J) para depois aproveitar a descida até ao restaurante, esta não dava mesmo vontade, mas como sabem, a fome fala sempre mais alto J

O companheiro Viegas, sabe-se lá porquê sugeriu mesmo regressar de imediato em sentido inverso ao ponto de partida e segundo ele dentro de hora e meia estaríamos no destino.

Opção de imediato posta de parte por mim e pelo Pereira. Aprendi uma coisa ao longo destes anos que levo de BTT, rolar em terreno difícil é uma coisa mas rolar com o estômago vazio é outra, prefiro de longe a primeira; aliás a partir do momento em que a minha mente se deixa toldar pelo sentimento de afagar ou “mamar” uma loira, tudo o resto passa a segundo plano J

Pois bem meus amigos no final para almoçarmos tivemos de fazer 10,5 kms (3,5 a subir + 7 a descer) e mais de 300 mts de desnível para cada lado até a aldeia de “Merufe” onde almoçamos uma vitela estufada com cenourinhas da Bonduelle (passo a publicidade) no único restaurante/talho existente o todo regado com umas “balentes malgas” de vinho verde (ver penúltima foto J). Trata-se de um prato mesmo muito simples mas que dadas as circunstâncias soube melhor do que um prato 5*.

Como diz o povo “tudo o que sobe, desce”, pelo que nem vos falo do regresso a “Sistelo”, aquilo é que foi destilar, e aqui o energúmeno ainda antes de desalapar, alembrou-se de tomar como dizem os franceses “une eau de vie” para ajudar a digestão.

Tens razão Pereira há gajos que nunca aprendem, são como os ramos que nascem tortos e que nunca mais endireitam!

Regressar a “Sistelo” era a primeira parte do regresso (fiz de propósito J) sendo que a partir daí tínhamos ainda mais 30 kms até aos Arcos de Valdevez.

No final esta volta saldou-se em +/- 63 kms e +/- 1.250 mts de acumulado positivo. Aquilo que mais nos marca nesta volta para além das paisagens envolventes são os diversos passadiços em madeira que temos de percorrer, alguns com graus de inclinação e alturas fantásticas. Deixo aqui os meus parabéns aos mentores deste projeto assim como aos responsáveis da manutenção, nada a dizer tudo em perfeito estado de funcionamento.

 

Termino esta minha crónica parafraseando o Nelson Mandela “Honestidade, sinceridade, simplicidade, humildade, pura generosidade, ausência de vaidade, prontidão para servir os outros – qualidades que estão ao fácil alcance de toda a gente -, são o fundamento da vida espiritual.”

 

Esta volta convida mesmo à contemplação introspetiva e é um puro prazer. Obrigado companheiro Viegas pela companhia (nem de propósito)!

 

Obrigado Pereira, dedico-te a última foto “en guise de remerciement” por mais esta bela aventura, e porque para mim representas o espírito que norteia cada uma das nossas saídas J!

 

Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

 

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

 

P.S:

 

1. Podem visualizar esta crónica na íntegra com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT (clicar no link) e ler o Post (resposta) #662.