Crónica Nº082

Em “Mauvoisin” vislumbrei um pouco do paraíso...

Miguel Esteves Cardoso escreveu certa vez que “Viver é um favor que não se sabe quando acaba - nem como pagar - mas que se sabe, logo à partida, que vai acabar antes de nos apetecer. Todos os dias sinto que foi mais um dia que me foi dado e, ao mesmo tempo, mais um dia que me foi subtraído, que jamais hei-de recuperar”.

Este país dá muita importância à energia hidroelétrica pelo que foi construindo várias barragens ao longo dos anos sobretudo na zona do “Valais” onde eu encontro “mon bonheur”, vai daí achei que seria uma boa ideia começar a programar voltas que me conduzissem a esses fantásticos monumentos.

Após algumas pesquisas a sorte recaiu nestas três (para mais informações, clicar p.f. nos textos).

“Barrage de Mauvoisin” com 250 mts de altura e encontrando-se a 1'975 mts de altitude.

“Barrage de la Grande Dixence” com 285 mts de altura e encontrando-se a 2’365 mts de altitude.

“Barrage de Moiry” com 148 mts de altura e encontrando-se a 2’249 mts de altitude.

O grande handicap para um tipo como eu que não possui carro é o fator transporte e respetivas ligações entre comboios e autocarros. Para esta volta falamos de cerca de 2h40 em transportes (comboio + autocarro) só para atingir o ponto de partida J, para além de que a partir de uma certa altura do ano embora haja comboios, não há autocarros a circular. Esta situação deve-se a que falamos de estradas de montanha bastante estreitas em que normalmente só passa um veículo de cada vez. Imaginem-se n’aqueles filmes de aventuras que se passam na América do Sul em que quando olham através do vidro só vem a ribanceira, pois aqui embora na Europa é a mesma cena. Admiro sinceramente a capacidade de condução destes motoristas, por vezes são apenas 5 cm que fazem toda a diferença. Neste caso foram cerca de 40 min de viagem desde a última paragem de comboio até ao local de início da volta. Já agora os enjoos e vómitos são garantidos para aqueles que como eu sofrem com o ziguezaguear da estrada.

A volta arrancou na barragem de “Mauvoisin” a 1’975 mts, daí seguimos junto ao lago até à extremidade, depois prosseguimos até à “Cabane de Chanrion” a 2’462 mts e como se fazia tarde e o tempo estava a mudar muito depressa, decidimos regressar pelo mesmo caminho acabando por abandonar o regresso pela outra encosta.

Quando idealizei a volta pensava realizar +/- 30 kms, mas como no final não estávamos satisfeitos (eu e o companheiro Luís), decidimos que pedalaríamos até “Le Châble” a 710 mts onde apanharíamos o comboio que nos conduziria a Lausanne; acabamos finalmente por realizar cerca de 50 kms.

Efetuamos cerca de 1.010 mts de acumulado de subida (somente em quase 15 kms) e +/- 1’980 mts de desnível negativo.

Como poderão constatar pelas fotos, foi um daqueles dias, com muito sol em todo o percurso, não esquecer que estamos em alta montanha em finais do mês de Agosto de 2016, portanto andamos por zonas desprovidas de árvores e ao mesmo tempo apanhamos zonas com muita sombra (encosta) em que realmente tivemos frio, aliás as temperaturas previstas para o dia eram de 7°C mínima e 14°C de máxima.

Confesso que há já quase uma semana que “je tourne autour du pot” sem conseguir encontrar a inspiração ou as palavras certas para descrever todos os sentimentos e emoções que sinto quando revejo estas fotografias.

Não sei se já passaram por isso, mas por vezes quando os locais visitados são de tal maneira belos e absorventes e mesmo que sejamos detentores de um vocabulário copioso não há palavras que consigam descrever o que realmente vivenciamos. Só mesmo estando lá. Assim sendo, compreenderão melhor a expressão adulterada “uma imagem vale mais que mil palavras mas neste caso não” J.  

 

Termino esta crónica com uma tirada de Ricardo Reis “Amo o que vejo porque deixarei qualquer dia de o ver”.

 

Em verdade vos digo, enquanto por cá andar, hei-de cá regressar por diversas vezes “alone” ou acompanhado, para além de que ainda não consegui como poderão constatar em crónica oportuna a minha “circum-pedalação” da zona J.

 

Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

 

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

 

 

P.S:

 

1. Podem visualizar esta crónica na íntegra com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT (clicar no link) e ler o Post (resposta) #764 e 765.