Walquíria Afonso Costa (Vera, Wal)

Walquíria Afonso Costa nasceu em Uberaba no Triangulo Mineiro dia 2 de agosto de 1947, filha de Edwin Costa e de Odete Afonso Costa. Seu pai foi funcionário do Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, em Pirapora, mas em 1997, morreu aos 87, de enfisema pulmonar. Sua mãe ainda resistiu durante anos de sofrimento à procura de informações e de justiça, mas infelizmente também faleceu há alguns anos atrás.

Walquíria fez o curso primário na Escola Normal de Patos de Minas (MG) e o ginásio em Bom Jesus de Itapapoama, Rio de Janeiro. Com a mudança de sua família, terminou o ginasial e fez o Curso Normal de formação de professores em Pirapora, Norte de Minas Gerais. Lecionou em alguns grupos escolares da cidade. Prestou concurso público para o Estado em 1966 e nomeada na primeira chamada, transferiu-se para Belo Horizonte, onde passou a lecionar.

Prestou o vestibular para o Curso de Pedagogia, na Universidade Federal de Minas Gerais, classificando-se em segundo lugar. Inicia a militância política e junto com outros companheiros funda o Diretório Acadêmico da Faculdade de Educação, em 1968. Neste período, importantes lutas são levantadas contra cortes de verbas, contra os acordos MEC-USAID, o fechamento de Restaurantes Universitários, o Decreto-Lei 477* que visava a perseguição com forte retaliação a qualquer estudante ou professor dentro das instituições de ensino, que fossem considerados subversivos pelo Estado.

As perseguições políticas começaram a se intensificar. O prédio da Faculdade de Educação foi cercado, professores e estudantes foram obrigados a prestar depoimentos no DOPS, muitos deles foram presos e torturados.

Walquíria, vice-presidente do Diretório Acadêmico, teve a casa de sua família invadida por agentes da repressão (DOPS/MG), sob a alegação de seu envolvimento em reuniões estudantis. Devido à intensificação das perseguições, ela não concluiu o curso de pedagogia, freqüentou apenas os três primeiros anos, sendo procurada pela polícia e já militante do Partido Comunista do Brasil, entra para a clandestinidade.

Sua Vida e Luta na Guerrilha do Araguaia

Cumprindo a decisão do Partido Comunista do Brasil – do qual era militante – pela luta armada no campo, Walquíria, muda-se para a região do Araguaia em janeiro de 1971. Juntamente com ela, vai o também militante e seu companheiro Idalísio Aranha, mineiro da cidade de Rubim, também estudante da UFMG.

Quando já estava na região do Araguaia, em julho de 1973, foi julgada à revelia pela Auditoria da 4.ª Região Militar, em Juiz de Fora, num processo que acusava os estudantes de “subversão”.

Já na localidade de Gameleira, região do Araguaia, Walquíria e Idalísio se integraram ao Destacamento B, comandado por Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão). Sua família conta que ela tinha talento para tocar acordeon e gostava muito de cantar e tocar junto com seu companheiro. No trabalho com as massas camponesas, lecionava e alfabetizava, trabalhava nas roças e ajudava nas tarefas cotidianas. Tudo isto, ajudou a criar um vínculo com os moradores da região, além de servir como preparação para os combates que foram travados com as FFAA – Forças Armadas do velho Estado brasileiro que atuaram feroz e brutalmente, assassinando aqueles jovens lutadores do povo e enterrando temporariamente o sonho de uma nova sociedade, de novas relações de solidariedade, de justiça e democracia verdadeira que estavam sendo criados ali.

Com o início dos combates armados estes jovens combatentes demonstraram todo o significado de servir ao povo, se entregando às mais duras condições de vida na selva amazônica. Walquíria assumiu com toda plenitude sua posição de combatente pela liberdade e mesmo quando se viu sozinha, após o desbaratamento de seu grupo de combate e seu destacamento, não se rendeu. Passando fome e sede, com armamento precário, se deslocou pela selva à procura de seus companheiros e já bastante debilitada foi presa, quando após meses de marcha, procurou ajuda numa casa de camponeses.

Fato conhecido e inclusive reconhecido por fontes oficiais é que após o término da segunda campanha em outubro de 1972, os serviços de inteligência das FFAA infiltraram vários agentes na região, disfarçados de funcionários do INCRA e outros órgãos federais, bem como de comerciantes ou lavradores. Segundo estas mesmas fontes, coube a esses agentes levantar a atuação dos destacamentos, bem como o rol de moradores que pudessem estar colaborando com eles. Após sitiar uma vasta região durante a terceira e última campanha de cerco aos guerrilheiros, na qual Walquíria foi presa e assassinada, os militares prenderam vários moradores. Dentre estes muitos foram torturados ou tiveram seus familiares feitos reféns, como represália e para tentar obrigá-los a dar informações.

Desde a chegada dos militares na região, a violência contra os moradores era método corrente das FFAA para tentar cercar e aniquilar o movimento guerrilheiro.

Inclusive, conforme investigação do MPF – Ministério Público Federal, noticiadas na imprensa, há comprovação de que o serviço de inteligência do Exército atua até hoje na região, se impondo, coletando e controlando as informações que circulam sobre a Guerrilha do Araguaia ou sobre interessados no assunto, “acompanhando” de perto os ex-guias e qualquer movimentação que possa fornecer informações sobre a atuação das FFAA à época ou sobre a localização dos corpos.

No relatório do MPF de investigação sobre a Guerrilha do Araguaia, da atuação dos militares a partir da segunda campanha de combate à Guerrilha, consta que:

nessa fase houve prisões em larga escala, especialmente de lavradores e comerciantes que, de alguma forma, tivessem tido contato com os militantes do Partido Comunista do Brasil. Bastava a notícia de que um comerciante vendera produtos aos guerrilheiros para justificar a sua prisão. Ou, ainda, que um lavrador tivesse alimentado ou deixado alguém dormir em sua morada.”

Sobre esta questão, é notória a aproximação e apoio das massas camponesas da região aos guerrilheiros, a identidade política entre eles e a Guerrilha, o companheirismo e o afeto que cercavam estas relações e o fato de que vários se embrenharam nas matas, integrando-se na luta armada.

Sobre a repressão aos moradores, o relatório mencionado cita o seguinte:

 “... Dessa forma, muitos moradores foram presos sem sequer compreender o motivo. Alguns apenas sabiam que era porque mantinham contato com os “terroristas”. Outros foram presos por terem deliberadamente ido para a mata com os guerrilheiros. Ocorrida a prisão, muitos camponeses e comerciantes foram submetidos a espancamentos e outras torturas. Embora não tenha sido possível identificar, pelos depoimentos, o critério utilizado para selecionar os que seriam mais duramente interrogados, é fato que boa parte da população presa sofreu violências físicas, morais e psicológicas.”

Alguns moradores morreram ao se negarem a dar quaisquer informações, outros sumiram e nunca mais foram vistos. Há relatos de pessoas que ficaram com seqüelas graves, resultado das torturas físicas e psicológicas e houveram aqueles que por medo, guiaram tropas dos militares das FFAA para localizarem os guerrilheiros, alguns forneceram informações ou foram usados como iscas para capturaram combatentes. É fato também que afora os agentes militares infiltrados na região que se aproximaram por diversos meios, algumas pessoas foram cooptadas para servirem ao serviço sujo de busca e captura dos combatentes, recebendo recompensas por isto.

A prisão e morte da valorosa combatente

Foi nestas circunstancias de cerco da terceira campanha que a destacada e corajosa guerrilheira Walquíria, foi presa por um colaborador do Exército e levada de helicóptero para a base militar de Xambioá.

Nesta base, segundo matéria noticiada na Folha de São Paulo, o ex-recruta Adaílton Vieira Bezerra declara que Walquíria chegou muito debilitada fisicamente, foi interrogada pelo general Hugo Abreu, mas se recusou a responder qualquer pergunta. Nas palavras do ex-recruta: “Ela ignorava completamente as perguntas. Nesta mesma base foi morta a tiros em outubro 1974.

Moradores da região ainda hoje lembram com saudades dos estudantes que viveram ali, ficando assombrados com tamanha selvageria promovida pelas FFAA contra aquela juventude tão simples e abnegada, que havia deixado suas casas para viver com eles.

Como outras dezenas de militantes, seus restos mortais até hoje não foram entregues à família. Walquíria Afonso Costa – “... de muitas lembranças e tantas saudades, alta, clara, cabelos castanhos e lisos, rosto ovalado, inteligente e leal...” (por sua irmã Valéria Afonso Costa) dá nome à rua no bairro Nova Pirapora, em Pirapora, Minas Gerais.

Em sua homenagem, a cidade de Campinas (SP) deu seu nome a uma rua localizada na Vila Esperança. Em Belo Horizonte (MG) uma rua no bairro Braúnas recebeu seu nome. Foi agraciada com a Medalha Chico Mendes de Resistência, em 1º de abril de 2004, pelo GTNM/RJ – Grupo Tortura Nunca Mais-Rio de Janeiro.  Em sua homenagem, o Diretório Acadêmico de Pedagogia da UFMG onde estudou, recebeu o seu nome e também foi homenageada na abertura do 26º Enepe – Encontro Nacional de Pedagogia, pela Executiva Nacional de Pedagogia em Belo Horizonte no ano de 2005.

Walquíria Afonso Costa, heroína do povo e da Revolução Brasileira!  Presente!

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* Decreto-lei nº 477, de 26 de fevereiro de 1969: Define infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando das atribuições que lhe confere o parágrafo 1.º do Art. 2.º do Ato Institucional n.º 5, de 13 de dezembro de 1968, DECRETA:

Art. 1.º Comete infração disciplinar o professor, aluno, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino público ou particular que:

I - Alicie ou incite à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação de atividade escolar ou participe nesse movimento;

II - Atente contra pessoas ou bens tanto em prédio ou instalações, de qualquer natureza, dentro de estabelecimentos de ensino, como fora dele;

III - Pratique atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados, ou dele participe;

IV - Conduza ou realize, confeccione, imprima, tenha em depósito, distribua material subversivo de qualquer natureza;

V - Seqüestre ou mantenha em cárcere privado diretor, membro de corpo docente, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino, agente de autoridade ou aluno;

VI - Use dependência ou recinto escolar para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral ou à ordem pública.”