Áurea Eliza Pereira Valadão (Eliza)

Áurea Eliza nasceu no dia 06 de abril de 1950, na cidade de Areado, Sul de Minas Gerais, filha de José Pereira e Odila Mendes Pereira. Sua família morava na Fazenda da Lagoa, município de Monte Belo (MG), onde seu pai era administrador. Áurea, muito cedo, foi para o internato estudar e concluiu o ginasial na cidade de Areado. Segundo sua biografia no Dossiê de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil, uma colega sua de escola, disse que Áurea era brilhante aluna em matemática.

Mudou-se em 1964 para o Rio de Janeiro para cursar o 2º grau no Colégio Brasileiro, em São Cristovão, morando nesta época, com sua irmã Iara, com quem tinha laços muito estreitos e afetuosos. Em 1967, aos 17 anos, prestou vestibular para ingressar no Instituto de Física da UFRJ, onde pretendia estudar física nuclear. Por não ter ainda 18 anos, precisou de uma autorização especial de seu pai, para que pudesse fazer aquele curso.

Áurea participou intensamente do movimento estudantil durante os anos de 1967 a 1970 e neste período ingressou no Partido Comunista do Brasil. Foi membro do Diretório Acadêmico de seu curso e atuou junto com Antonio de Pádua Costa (o Piauí) e Arildo Valadão (o Ari) - ambos combateram na Guerrilha do Araguaia, onde foram assassinados, constando da lista dos desaparecidos políticos do Brasil.

Durante o tempo em que viveu no Rio, Áurea correspondeu-se regularmente com seus pais. Depois, quando as perseguições ficaram constantes, seus familiares deixaram de receber noticias pois Áurea teve de passar à clandestinidade.

Casou-se com Arildo Valadão em fevereiro de 1970, no interior de São Paulo, pouco antes de se mudar para a localidade de Caianos, na região do Araguaia.

Quando se iniciaram os combates na região do Araguaia, Eliza e Ari, como eram conhecidos por lá, se integraram ao Destacamento C das Forças Guerrilheiras do Araguaia, cujo comandante era Paulo Mendes Rodrigues. Eliza trabalhou como professora, alfabetizando e atuando no trabalho de propaganda revolucionária entre os camponeses, além de participar nas atividades de produção e cuidados com abastecimento (caça e armazenamento) e demais preparativos que os enfrentamentos posteriores exigiram.

O "Cordel da Guerrilha do Araguaia", de autoria de D. Nonato da Rocha assim se referiu a ela:

"Áurea era professora
E decidiu improvisar
Duma tapera, uma escola
Pra criançada estudar
Ela nada cobrava
Ensinava e brincava
Com as crianças do lugar."

 

Viveu e lutou intensamente durante a Guerrilha, enfrentou com altivez diversas dificuldades. Escapou por pouco do ataque sofrido por seu grupo em 3 de dezembro de 1973 e marchou pela selva, juntamente com os guerrilheiros sobreviventes durante cinco dias após perderem quase todos os seus apetrechos. Passaram dias de fome, dormindo ao relento ou em barracas improvisadas sendo atacados por insetos. Andaram com passos firmes, apesar de tudo, até conseguirem fazer contato num dos pontos de encontro com o Comando da Guerrilha, no dia 10 daquele fatídico mês de 1973. Estes e outros são relatos impressionantes que encontramos no diário1 de Maurício Grabois (Mário).

Em 13 de junho de 1974, “Eliza” foi presa na casa de camponeses, junto com o combatente Batista (camponês que havia aderido às Forças Guerrilheiras), segundo informações do Dossiê realizado por familiares de mortos e desaparecidos do Regime Militar no Brasil. Estavam bastante debilitados fisicamente, famintos e exaustos quando caíram numa emboscada armada por mateiros. Ainda segundo depoimentos prestados ao Ministério Público Federal (MPF) em 2001, os dois combatentes já estavam sem munições e por isso não atiraram no momento da prisão, tendo sido ambos levados para a base militar em Xambioá2 em um helicóptero do Exército.

Áurea foi vista viva por muita gente quando foi presa em 1974. Amaro Lins e sua companheira Neuza registraram esse fato logo que ele saiu da prisão. Amaro relata também que ouviu um policial dizer-lhe que arrumasse suas coisas, pois iria “viajar” (viajar seria um termo utilizado para designar execução). O Relatório do Ministério da Marinha dá como data da morte de Áurea 13 de junho de 1974, sem mais informações.

         Na memória do povo do Araguaia, dos democratas brasileiros, dos revolucionários e daqueles que têm compromisso com a luta por uma nova sociedade mais justa e humana, como a comunista guerrilheira Áurea, ficará para sempre registrado sua coragem, desprendimento e amor ao povo e à Revolução. Seu exemplo nunca será esquecido!

 

Áurea Pereira Valadão, heroína do povo e da Revolução Brasileira!  Presente!

 

 

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Notas:

1 - Documento apresentado em matéria da revista Carta Capital nº 643, de 21 de abril de 2011. A revista informa que tal documento seria uma cópia datilografada por pessoal do Exército do manuscrito subtraído dos pertences de Maurício Grabois (Dirigente do Partido Comunista do Brasil, membro de seu Comitê Central, da Comissão Militar e Comandante da Guerrilha), após o assassinato do mesmo.

2 - Na cidade de Xambioá (então Estado de Goiás, hoje Estado de Tocantins), às margens do Rio Araguaia funcionava uma base militar. Tinha pista de pouso e funcionou como prisão e local de “interrogatórios”. Serviu como base das operações das Forças Armadas pelo Rio Araguaia.