Maria Lúcia Petit da Silva (Maria)


 


 

Maria Lúcia Petit nasceu em Agudos, Estado de São Paulo, a 20 de Março de 1950, filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva.

Era militante do Partido Comunista do Brasil, combatente do destacamento guerrilheiro C, das Forças Guerrilheiras do Araguaia, junto com seus dois irmãos Lúcio Petit e Jaime Petit, também militantes do Partido Comunista do Brasil e mortos na Guerrilha.

Maria, como era conhecida, foi assassinada no dia 16 de junho de 1972, aos 22 anos de idade, enterrada clandestinamente pelos militares no cemitério de Xambioá no Tocantins, durante a primeira campanha das Forças Armadas, realizada no período de abril a julho do ano 1972.


Vida e luta


Maria Lúcia ingressou no Partido Comunista do Brasil ainda como estudante secundarista. Em 1969, prestou concurso para o Magistério e foi uma apaixonada professora primária, atuando na escola municipal na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.

Em inícios de 1970, Lúcia Petit, cumprindo a decisão do Partido Comunista de iniciar a luta armada no campo, muda-se para a região do Araguaia, primeiramente em Goiás, onde hoje é o estado de Tocantins, e depois para o Sul do Pará na cidade de Caianos.

Como parte da implantação dos guerrilheiros e integração das massas camponesas na luta, Lúcia Petit, dedicou grande esforço atuando como professora, politizando a luta contra a exploração e opressão dos latifundiários e realizando trabalho na roça junto com os camponeses e seus companheiros. Lutou para se adaptar àquela região de mata, conquistando grande admiração e simpatia dos moradores da redondeza.

Quando ocorreu o cerco e ataque das Forças Armadas à região, em inicio de 1972, vários camponeses da região já estavam envolvidos e haviam se incorporado àquela luta, como a sua própria luta pela sobrevivência, contra o saque, a miséria e humilhações, imposta pelos grileiros.

Segundo consta no livro “Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964 – 1985)”, ao se aproximar da casa de um camponês, no dia 16 de junho de 72, Maria Lúcia foi fuzilada por tropas do Exército, sob o comando do general Antônio Bandeira, da 3.ª Brigada de Infantaria.

No Relatório Arroyo, consta o seguinte relato: 
 
"Em meados de junho, três companheiros dirigidos por Mundico [Rosalindo Souza] procuraram um elemento de massa, João Coioió, para pedir-lhe que fizesse uma pequena compra em São Geraldo. Coioió já tinha ajudado várias vezes os guerrilheiros com comida e informação. Ficou acertado o dia em que ele voltaria de São Geraldo para entregar as encomendas. À noitinha desse dia aproximaram-se da casa Mundico, Cazuza [Miguel Pereira dos Santos] e Maria [Maria Lúcia Petit], mas perceberam que não havia ninguém. Cazuza afirmou que ouvira alguém dizendo baixinho: 'pega, pega'. Mas os outros dois nada tinham ouvido. Acamparam a uns 200 metros. Durante a noite ouviram barulho que parecia de tropa de burro chegando na casa. De manhã cedo, ouviram barulho de pilão batendo. Aproximaram-se com cautela, protegendo-se nas árvores. Maria ia na frente. A uns 50 metros da casa, recebeu um tiro e caiu morta. Os outros dois retiraram-se rapidamente. Dez minutos depois, os helicópteros metralhavam as áreas próximas da casa.”

Segundo entrevista de sua irmã, Laura Petit, durante vários anos após a morte de Maria Lúcia, sua mãe Julieta que vivia em São Paulo como costureira (falecida em 2007), acreditava que seus três filhos estivessem presos ou vivendo no exterior, impossibilitados de se comunicarem com ela. Que ao lado de um retrato de Maria Lúcia, colocava sempre uma flor no dia do aniversário da filha, que só retirava quando as pétalas caiam.

A luta dos familiares

Em 1991, familiares de mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia exumaram duas ossadas no cemitério de Xambioá, uma das quais poderia ser a de Maria Lúcia. O material foi levado para a Unicamp. A informação chegou a Laura Petit, irmã de Maria Lúcia e por muitos anos a família Petit lutou para que fossem feitos exames na ossada que ficou guardada no Departamento de Medicina Legal da Unicamp, sob a alegação do perito Badan Palhares de falta de indícios consistentes para a identificação.

Numa entrevista, Laura Petit, afirmou: “Na volta do cemitério de Xambioá para São Paulo, Badan Palhares parou em Brasília e conversou com Romeu Tuma. Consta que, nessa época, Tuma teria recomendado a Palhares que não identificasse ossadas de nenhum guerrilheiro do Araguaia. Assim, a atitude dele mudou completamente depois daquela primeira entrevista para a TV Manchete” (nesta entrevista o legista afirmara que pelas características, o corpo seria de uma guerrilheira).

Cinco anos depois, reportagens sobre a guerrilha trouxeram fotos de combatentes presos e assassinados, entregues anonimamente ao jornal O Globo. Laura Petit, ao examinar as fotos, concluiu: “Era uma foto da Maria Lúcia deitada em um paraquedas com um saco plástico cobrindo seu rosto. Eu reconheci claro que era a Maria Lúcia. E aparecia a calça de brim e o cinto com fivela de metal que estavam com a ossada na Unicamp. Além disso, aqueles restos mortais haviam sido achados envoltos em um paraquedas”.

No livro de Élio Gaspari (Ditadura Disfarçada), há uma indicação clara sobre o significado destes fatos: "Os militares enterraram Maria num cemitério de Xambioá, com o corpo embrulhado num pedaço de pára-quedas e a cabeça envolta em plástico. A ditadura fixara um padrão de conduta. Fazia prisioneiros, mas não entregava cadáveres. Jamais reconheceria que existissem. Quem morria, sumia. Esse comportamento não pode ser atribuído às dificuldades logísticas da região, pois a tropa operava de acordo com uma instrução escrita: 'Os PG [prisioneiros de guerra] falecidos deverão ser sepultados em cemitério escolhido e comunicado. Deverão ser tomados os elementos de identificação (impressões digitais e fotografias)'"

Única desaparecida na Guerrilha do Araguaia cujos restos mortais foram resgatados

A identificação dos restos mortais de Maria Lucia Petit desmente a farsa montada pelos militares de que os corpos teriam sido incinerados em 1975.

Seus restos mortais foram trasladados finalmente para o jazigo da família em Baurú, em 16 de junho de 1996. Maria Lúcia Petit da Silva foi a única desaparecida na Guerrilha do Araguaia, que teve resgatados os seus restos mortais.

Em sua homenagem, seu nome foi dado a ruas em São Paulo (no bairro Jardim Toca); Belo Horizonte (bairro Jardim das Nações); e Campinas (no bairro Visconde do Rio Branco);  no Rio de Janeiro, há uma praça no bairro Santa Cruz com seu nome. Também uma escola primária na Freguesia do Ó, em São Paulo, passou a se chamar Maria Lucia Petit da Silva.

Rendemos nossas homenagens a Maria Lúcia Petit da Silva, lembrando o significado, o papel e destemor desta corajosa combatente da causa de libertação do povo brasileiro, afirmando que jamais será esquecida e que escreveu com seu próprio sangue esta página heróica da história do Brasil.

Combatente Maria Lúcia Petit da Silva! Presente!