Jana Moroni Barroso (Cristina)

Jana Moroni Barroso nasceu em 10 de junho de 1948, em Fortaleza, Estado do Ceará, filha de Benigno Girão Barroso e Cyrene Moroni Barroso. Morou em Petrópolis na sua infância e mudou-se para o Rio de Janeiro para completar seus estudos, estudando Biologia na UFRJ. Foi na universidade que se engajou na vida política do país, fazendo parte da União da Juventude Patriota (UJP).  

Como militante do Partido Comunista do Brasil, Jana foi responsável pela imprensa clandestina do Partido no Rio, trabalhando junto a outros companheiros.

Quando foi para o Araguaia chamou a mãe e o pai e disse que eles precisavam entender, que aquele era um trabalho muito sério. Seu pai pediu que ela levasse a mãe, mas  Jana explicou que não podia e deu à mãe o  livro ‘A Mãe’, de Máximo Gorki, com uma pequena carta pedindo que ela só lesse depois que ela tivesse partido. Os dois irmãos a levaram à rodoviária. Segundo depoimento de Cyrene Moroni, sua mãe, ela nunca podia supor que jamais veria a filha novamente. Conta que na carta Jana lhe explicava que aquela era uma questão de ideologia e talvez a mãe não a tivesse de volta.

Em abril de 1971, cumprindo a decisão de levar às últimas conseqüências seus compromissos revolucionários, Jana  mudou-se para a localidade conhecida como “Metade” no sul do Pará, passando assim a atuar no Destacamento A da Guerrilha do Araguaia. Este destacamento teve seu nome alterado posteriormente para “Helenira Rezende”, em homenagem à heróica guerrilheira morta pelas FFAA – Forças Armadas – em setembro de 1972.

Na região do Araguaia, Jana Moroni ficou conhecida como Cristina e desenvolveu amplo trabalho político entre os camponeses. Além de atuar no trabalho da roça e da caça, foi professora primária e alfabetizou várias pessoas, entre adultos e filhos dos camponeses. Na luta, conheceu o camarada e companheiro Nelson Lima Piauhy Dourado, com quem se casou. Nelito, como Nelson ficou conhecido, também era combatente do Destacamento Helenira Rezende das FFGG – Forças Guerrilheiras do Araguaia.

 Com a última campanha de cerco feita pelo exército reacionário brasileiro à guerrilha do Araguaia, em 8 de fevereiro 1974 Jana foi presa e depois assassinada.  O “Relatório sobre a luta do Araguaia” de Ângelo Arroyo, dirigente do Partido Comunista do Brasil e membro da Comissão Militar das FFGG, traz a seguinte descrição de um ataque, que foi o último com a presença de Jana na região:

“No dia 18, J., Zezim e Edinho encontraram Duda, do grupo do Nelito. Ele contou que os tiros do dia 2 tinham sido sobre o grupo em que ele estava. Disse que, depois do almoço desse dia, Nelito e Duda estavam juntos e que Cristina [Jana Moroni Barroso] e Rosa [Maria Célia Corrêa] haviam se afastado por um momento. Carretel estava na guarda. Na véspera, Duda e Carretel tinham ido à casa de um morador. A casa estava vazia. Quando se retiravam viram que vinham chegando os soldados. Avisaram Nelito. Imediatamente afastaram-se do local. Mas caminharam em trechos de estrada, deixando rastros. Dia 2 [Janeiro], Nelito tinha ido a uma capoeira apanhar alguma coisa para comer. Trouxe pepinos e abóbora numa lata grande que lá encontrara. A lata fez muito barulho na marcha de volta. Às 13:30 hs ouviram-se rajadas. Os tiros foram dados sobre Carretel, que saiu correndo. Nelito não quis sair logo. Se entrincheirou, talvez pensando nas duas companheiras. Mas os soldados se aproximavam. Então ele correu junto com Duda, mas foi atingido. Assim mesmo, ainda se levantou e correu mais uns vinte metros. Foi novamente atingido e caiu morto. Duda conseguiu escapar. Não sabe o que houve com as duas companheiras, nem com Carretel."

De acordo com moradores da região, em depoimentos colhidos por sua mãe Cyrene Moroni, Jana foi levada para Bacaba, localidade às margens da Transamazônica onde foi construído um centro de torturas das Forças Armadas, local em que também se encontra um cemitério clandestino. Segundo relatos, Jana estava quase nua e com muitas arranhaduras pelo corpo. Foi amarrada, colocada em um saco e içada por um helicóptero. Isto teria se dado nas proximidades de São Domingos do Araguaia.

Em 1980, uma caravana de familiares de mortos e desaparecidos políticos, esteve na região do Araguaia para colher mais informações sobre seus parentes desaparecidos, A mãe de Jana que esteve nesta caravana, faz emocionada, a seguinte declaração que colhemos no Dossiê, feito pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil:

Durante a caravana fiquei muito emocionada porque pude falar com uma camponesa que era vizinha dela. Jana deu aula para as três crianças dessa mulher e cobrava 5 cruzeiros por mês, uma quantia simbólica. Ao que parece ela morreu entre março e abril de 1974. Recebeu um tiro pelas costas na Transamazônica. Embora sinta saudades, estou profundamente envaidecida com a atuação de minha filha. Ela seguiu os ideais de nossa família que são de desenvolver os princípios da justiça social. E foi trabalhar num local onde a população era particularmente carente. Há dez anos, numa carta, ela me dizia que estava muito feliz, fazendo o que sempre quis.

Sua irmã Lorena Moroni Girão Barroso escreveu sobre a vida e militância de Jana Moroni, sobre a luta de sua família na busca por ela e posteriormente para esclarecer sobre sua morte e desaparecimento, bem como a luta por justiça, que envolve os familiares e o movimento popular:

 “Também no Congresso Nacional, inúmeras foram as ações feitas para resolver a questão dos mortos e desaparecidos políticos, mas sempre esbarrando no interesse dos militares, que se colocavam, em princípio, negando até a própria existência da Guerrilha do Araguaia e, posteriormente, negando a existência de informações sobre aquele período, negativa esta que subsiste até os dias de hoje. Todos os tipos de tentativa de obter informações acerca do ocorrido com Jana foram feitas, nos campos político, jurídico e até espiritual, tamanho era o desespero de minha mãe. Mas a morte de meus pais veio antes das informações.”

Em sua homenagem o nome da  antiga Rua 07, no Residencial Cosmo I, em Campinas, no dia 20 de novembro de 1997 passou a ser  Jana Moroni Barroso. Também foi homenageada pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ com a Medalha Chico Mendes de Resistência – 1992.

Nós, do Movimento Feminino Popular, fazemos coro e nos somamos à luta dos familiares de mortos e desaparecidos do regime militar para que seja feita justiça, levantando mais alto o nome destas heroínas e heróis combatentes da verdadeira causa democrática que somente a Revolução pode alcançar: uma nova sociedade livre da exploração do homem pelo homem e da opressão de classe. Causa esta que não aceita e nem corrobora com nenhum esquecimento, nem perdão, nem conciliação e que exige punição para os criminosos do regime militar.

Jana Moroni, heroína do povo e da Revolução Brasileira! Presente!