Helenira Rezende de Souza Nazareth (Fátima, Preta)

“A História do Brasil assinala poucas atitudes tão heróicas por parte de uma mulher como a desta corajosa guerrilheira. Três gestos marcam sua trajetória de lutadora da liberdade e da emancipação nacional. O primeiro foi sua incorporação voluntária às FF GG do Araguaia, fato que, por si só, revelou imenso destemor. O segundo consistiu na denodada decisão de enfrentar sozinha uma força numerosa para garantir a segurança de seus irmãos de ideal, liquidando, apesar da enorme inferioridade de armas, dois inimigos. O terceiro se expressou na posição serena de preferir a tortura e a morte a trair seus companheiros.

Trecho da nota produzida pelo Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia aos Destacamentos (20 de Outubro de 1972)

 

Helenira Rezende nasceu em Cerqueira Cesar, São Paulo, no dia 11 de janeiro de 1944, filha de Adalberto de Assis Nazareth e Euthália Rezende de Souza Nazareth. Em 1967 ingressa no Partido Comunista do Brasil e por volta de 1969, muda-se para a região do Araguaia, sendo uma das primeiras militantes a chegar ao local. Ingressa nas Forças Guerrilheiras como combatente do destacamento A, tendo chegando a comandar um grupo com sete companheiros durante os combates da guerrilha, sempre expressando firmeza, decisão e dando exemplos de bravura como atestam vários relatos. Após sua morte, o destacamento ao qual pertencia, passou a se chamar Helenira Rezende, em sua homenagem.

Um trecho do diário* de Mauricio Grabois - Dirigente do Partido Comunista do Brasil, membro de seu Comitê Central, da Comissão Militar e Comandante da Guerrilha - sobre o episódio da morte de Helenira, revela o caráter desta militante e combatente guerrilheira e seu prestígio entre o povo da região do Araguaia:

Seu comportamento causou grande admiração entre a massa. Esta informa que um capitão dissera que se nossa companheira tivesse uma boa arma teria liquidado boa parte dos 16 militares. Não há dúvida de que a combatente Fátima revelou grande bravura e notável firmeza revolucionária. A história de nosso povo revela poucos exemplos de semelhante heroísmo. Sozinha, com absoluta inferioridade de armamento, enfrentou quase duas dezenas de soldados muito bem armados e matou dois. Arrostou com coragem seus captores e preferiu serenamente a morte a conservar a vida delatando seus irmãos de luta. Que o exemplo da Fátima seja seguido por todos os combatentes das FF GG do Araguaia e por todos os jovens revolucionários brasileiros! Fátima, cujo verdadeiro nome era Helenira, pertencia ao P desde 1967. Era filha de um médico baiano, radicado no interior de S. Paulo, de tendências de esquerda. Paulista de nascimento, quando ginasiana era excelente jogadora de basquete. Sempre se rebelou contra as injustiças sociais e, em 1968, teve participação ativa nos movimentos de massa daquele ano. Foi delegada ao Congresso da UNE realizado em Ibiuna, atacado e dissolvido pela polícia de S. Paulo. Posta em liberdade, era eleita para diretoria daquela entidade estudantil. Antes de vir para o Araguaia, atuava na Bahia e em todo o Nordeste. Desfrutava de grande popularidade. A reação a procurava intensamente. Os tribunais da ditadura tinham-na condenado a 8 anos de prisão. Morreu em 2 de outubro de 1972, gloriosamente, com 27 anos de idade.”

Por ocasião de sua morte, foram emitidos dois comunicados, sendo o Comunicado Nº 6 destinado à população e o que segue, aos destacamentos.

Em comunicado às Forças Guerrilheiras do Araguaia, foi emitida a seguinte nota por seu Comando:

 

UMA HEROÍNA DO POVO

Em luta contra forças militares da ditadura, a 29 de setembro de 1972 morreu a valorosa combatente das Forças Guerrilheiras do Araguaia HELENIRA REZENDE NAZARRETH, conhecida entre seus companheiros pelo nome de FÁTIMA e nas cidades onde desenvolveu atividade revolucionária pelo apelido de PRETA.

No dia 28 de setembro, em plena selva, Helenira deslocou-se com o Destacamento a que pertencia para participar de operação contra o inimigo. Ao cruzar o caminho que leva à pequena corrutela de S. José, o chefe de seu grupo colocou-a de guarda no alto de um barranco a fim de vigiar a passagem de toda unidade guerrilheira. Depois de passar o primeiro grupo e enquanto esperava a passagem do segundo, viu surgir 16 soldados do Exército. O que vinha à frente, possivelmente o comandante, parou a tropa e com mais 2 praças, resolveu pesquisar o terreno. Dirigiu-se para o lado da jovem combatente. Esta decidiu enfrentar os adversários com o objetivo de avisar seus companheiros. Com uma arma de caça abateu mortalmente o sargento, armado de FAL e granadas. Ao se retirar foi ferida nas pernas. Então, entrincheirou-se como pôde e, usando um revólver 38, matou um soldado fortemente armado que se aproximava. Até que terminou sua munição, lutou com o grosso da tropa do governo.

Aprisionada, Helenira portou-se com dignidade própria dos melhores revolucionários. Os militares a maltrataram de modo brutal para que dissesse onde se encontravam os outros combatentes. Respondeu que podiam matá-la, pois nada diria. No dia seguinte, depois de sofrer as mais bárbaras torturas, foi friamente assassinada por seus algozes.

Helenira, antes de vir para as matas do Araguaia era destacada líder estudantil. Como universitária de Filosofia em São Paulo teve ativa participação nas grandes manifestações de massas de 1968. Mais recentemente, pertenceu à diretoria da União Nacional de Estudantes, atuando em diferentes Estados. Por fim, ingressou no movimento guerrilheiro para combater, de armas nas mãos, o governo despótico dos generais. Desfrutava de muita popularidade entre os estudantes de São Paulo, Bahia e Ceará.

A vida de Helenira é um exemplo de valentia, desprendimento e dedicação à causa do povo. É motivo de inspiração para toda juventude, para todos os democratas e patriotas. A História do Brasil assinala poucas atitudes tão heróicas por parte de uma mulher como a desta corajosa guerrilheira. Três gestos marcam sua trajetória de lutadora da liberdade e da emancipação nacional. O primeiro foi sua incorporação voluntária às FF GG do Araguaia, fato que, por si só, revelou imenso destemor. O segundo consistiu na denodada decisão de enfrentar sozinha uma força numerosa para garantir a segurança de seus irmãos de ideal, liquidando, apesar da enorme inferioridade de armas, dois inimigos. O terceiro se expressou na posição serena de preferir a tortura e a morte a trair seus companheiros.

Não foi em vão o sacrifício de Helenira. Sua atitude despertará um número sempre maior de jovens na luta contra a ditadura, pela democracia e pela libertação do Brasil do jugo imperialista. Impulsionará o ânimo combativo dos que já se opõem à tirania e ao domínio da Nação pelos monopólios estrangeiros. Ajudará a revolução a avançar. O lugar deixado por Helenira nas fileiras da guerrilha, no correr do tempo, será ocupado por milhares e milhares de novos lutadores. Uma causa que faz surgir pessoas com as elevadas qualidades morais desta destemida revolucionária só pode, mais dia menos dia, ser vitoriosa.

As FF GG do Araguaia orgulham-se de terem tido como um dos seus membros uma combatente como Helenira. Por isso, o Destacamento a que estava incorporada terá, de agora em diante, seu honrado e glorioso nome.


Em algum lugar das selvas da Amazônia, 20 de outubro de 1972

O Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia.

 

 

Vida e luta de Helenira Rezende

 

 “em que leito de rio correrá seu sangue?” “Lenira, para uns... Preta para os colegas da USP... Nira entre os familiares, Fátima para os companheiros do Araguaia... Helenira foi, acima de tudo, uma cidadã brasileira consciente de seus atos, que empunhou a bandeira da justiça e da liberdade, lutando obstinadamente até a morte.”

Helenalda Rezende, irmã de Helenira em sua homenagem

 

Num importante depoimento registrado no Dossiê de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil, organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, sua irmã Helenalda revela aspectos de sua biografia.

Relata que Helenira iniciou sua militância revolucionária no movimento estudantil. Dedicada ao estudo da teoria marxista, desde cedo sua presença se fez sentir como liderança que, com posições avançadas defendia com firmeza suas propostas. Fundadora e Primeira Presidente eleita do Grêmio Estudantil da Escola onde estudava, ainda adolescente, já se pronunciava politicamente nos palanques e na Rádio Difusora de Assis (SP).

Ingressou na Faculdade de Filosofia da Rua Maria Antônia, no Curso de Letras onde, através dos movimentos estudantis, passou a viver intensamente a vida política do país. Foi vice-presidente da UNE, em 1968, quando tinha vinte e quatro anos, grande oradora nos congressos e nas manifestações de rua dos anos 60.

Fotografia registra a participação de Helenira – de pé falando em uma assembléia estudantil no restaurante do CRUSP em 1967

 

Como professora de Português em duas escolas estaduais, uma no Jardim Japão e outra em Guarulhos, preparava peças de teatro com seus alunos que eram consideradas subversivas na época. Incentivava o debate político em suas aulas e não abria mão de afirmar suas convicções.

Helenira foi presa pela primeira vez quando conclamava os colegas a participarem de uma passeata em maio de 1968, em São Paulo. Um ano antes havia sido detida e fichada por realizar uma pichação no muro da Faculdade Mackenzie com a frase “ABAIXO A DITADURA!”

Ainda no ano de 1968 mais uma vez foi presa, no 30° Congresso da UNE, em lbiúna com outros 800 estudantes. Nesta ocasião, quando o ônibus que os transportava passava pela Avenida Tiradentes, conseguiu entregar a um transeunte um bilhete que foi levado à sua residência à Rua Robertson, no Cambuci, avisando à família de sua prisão.

Procurada pelos policiais como Nazareth e apontada como sendo uma das líderes do movimento, foi transferida do Presídio Tiradentes para o DOPS onde caiu nas garras do famigerado Fleury, que a jurou de morte. Outra mensagem foi entregue então, à sua família avisando sua localização e a de seus  companheiros da época. A polícia continuava negando sua prisão, enquanto um policial não identificado atuava como mensageiro entre o DOPS e o Cambuci. Após alguns dias de ‘vai e vem’ ao DOPS, o contato direto com Helenira foi conseguido por intermédio da advogada Maria Aparecida Pacheco. Alguns dias depois a ‘estudante’, como era chamada pelo carcereiro, foi transferida para o Presídio de Mulheres do Carandiru, onde ficou detida por dois meses. Seu Habeas Corpus foi conseguido um dia antes da edição do AI-5.  A partir de então passou a viver na clandestinidade, tendo residido em vários pontos da cidade e do país, antes de se dirigir ao Araguaia.

Com o ataque das Forças Armadas à Guerrilha do Araguaia em 28 de Setembro de 1972, Helenira é presa após ser metralhada nas pernas, sofrendo bárbaras torturas é assassinada aos 28 anos, no dia 29 de Setembro de 1972. Segundo depoimentos de testemunhas, teria sido enterrada na localidade de Oito Barracas.

No Relatório do Ministério da Marinha está a cínica e canalha “informação” de que ela se encontra foragida. No arquivo do DOPS/PR, o nome de Helenira consta em uma gaveta com a identificação: “falecidos”. Declarações da ex-presa política Elza de Lima Monnerat, em Auditoria Militar, à época, afirmou que “... Helenira, ao ser atacada por dois soldados, matou um deles e feriu outro. Metralharam-na nas pernas e torturaram-na barbaramente até a morte...” outros depoimentos mesmo de militares da época dizem que a coragem dela irritou as tropas assassinas.

Helenira era muito popular e estimada pelos moradores da região e em sua homenagem várias famílias deram seu nome de guerra – Fátima – às filhas nascidas após a Guerrilha.

As cidades de São Paulo (SP) e Campinas (SP) homenagearam a combatente comunista Helenira Resendo dando seu nome a ruas nos bairros Cidade Ademar e Grajaú, na capital paulista e Vila Esperança, no interior do estado. A cidade de Guarulhos (SP) também deu seu nome a uma de suas ruas.

 

Helenira Rezende de Souza Nazareth, heroína do povo e da Revolução Brasileira!  Presente!

________________________________________________________________________

 * Documento apresentado em matéria da revista Carta Capital nº 643, de 21 de abril de 2011. A revista informa que tal documento seria uma cópia datilografada por pessoal do Exército do manuscrito subtraído dos pertences de Maurício Grabois após o assassinato do mesmo.