Omnia: o melhor da música pagã atual

Por Wallace William "Kunvelin"

Música pagã. Como definir um conceito tão difícil quanto esse? Parece uma coisa simples: música pagã é música feita por pagãos; mas dentro deste espectro, vemos agregados diversos estilos musicais que nem sempre tem algo realmente a ver com o paganismo. Cantoras de New Age, grupos de música folclórica, artistas de gêneros musicais modernos (notadamente, o rock/heavy metal), dentre outros, possuem sempre relações fortes com a cultura e a espiritualidade pagã. Mas provavelmente nenhum deles se enquadre com tanta perfeição ao rótulo de “música feita por pagãos” quanto os grupos do chamado Neofolk. Esse rótulo, bastante abrangente, pode agregar artistas completamente distintos entre si, mas que tem em comum o uso da música folclórica para o resgate de identidades culturais e (em muitos casos) espirituais antigas. Grupos como Krauka, Daemonia Nymphe, Faun e muitos outros podem, em maior ou menor grau, ser agregados sob esse rótulo, no sentido de buscarem o resgate das antigas tradições. Mas um artigo completo sobre a cena musical pagã não é o objetivo aqui (haverá um futuro artigo sobre isso), e sim falar sobre aquela que é aquela que, atualmente, é aquela que melhor se encaixa nesse rótulo, aquela que melhor merece o titulo de “música feita por pagãos” e, mais do que isso, para pagãos: estamos aqui para falar do grupo holandês Omnia.

Não vamos nos deter em uma longa descrição biográfica do grupo; isso pode ser encontrado no site oficial da banda; por enquanto, basta dizer que ele foi formado na Holanda por Steve "Sic" e Jenny, com o objetivo de passar uma mensagem de respeito à natureza, liberdade pessoal, de expressão e de pensamento para todos, utilizando as religiões antigas e a espiritualidade pagã moderna como foco. A banda hoje é formada por Steve "Sic", Jenny, Maral, e Phillip. O que pretendemos analisar é a música da banda, uma das mais instigantes já vistas na cena da música folclórica mundial. É muito comum que as pessoas chamem o Omnia erroneamente de “música celta”. Ainda que, de fato, haja uma influência forte deste gênero musical, sua temática enfoca diversas culturas, e isso se reflete na música também. Talvez isso fosse mais prontamente observável no seu primeiro albúm, Sine Missione, que chegou a ser regravado e relançado, que mostra uma banda fazendo algo que poderia REALMENTE ser chamado de música pagã: ainda que não houvesse um grau profundo de pesquisa sobre a música antiga (como ocorre com grupos como Imbraxton, Psalteria e Daemonia Nymphe), as letras, o clima, a ambientação, tudo ligava a banda aos velhos deuses e às velhas tradições. Prayer for Apollo (Sacrificium) não é o mesmo que ouvir uma canção falando sobre Apolo: ela é, literalmente, uma oração (em Latim) ao deus solar romano. Morpheus é uma canção onírica, lenta e atmosférica, tocada na flauta de Pan e no bonzouki, mais do que digna de nos lembrar o deus dos sonhos, é capaz de nos fazer sonhar com o antigo mundo grego, principalmente se pensarmos na vida fora da pólis. A céltica, bélica e alegre Epona faz alguém que conheça a história da terra onde essa deusa foi cultuada se lembre da guerra gálica, com sua percussão forte no bodhrán trazendo uma atmosfera marcial à bela melodia de flauta, que nos lembra a alegria extravasada dos Celtas, que sempre constrangeu tanto aos seus vizinhos. Morrigan é um hino, iniciado com uma descrição poética sobre a guerra na Irlanda antiga e sua deusa sobrevoando suas colinas e campinas em busca dos mortos, seguida por uma bela melodia na tradicional flauta irlandesa tin whistle, mas com um ritmo muito mais tribal que a música irlandesa contemporânea, e culminando com os gritos por Morrigan, a Anciã da Guerra, junto às ações de guerra, demonstrando que eles reconhecem a deusa da guerra, não a suavização que muitos buscam Nela. Dionysos outra canção instigante, tocada na flauta de pan, com os gritos da bacantes ao fundo, como que saindo em procissão enfurecida. Prayer for Ísis é outra oração, desta vez em egípcio, em honra a Aseth, e poderia ser facilmente transcrita para algum ritual do Khemetismo. Uma bela melodia céltica marca Cernunnos. Outras canções completam essa obra-prima pagã, que vão desde belíssimas melodias (Priapus, In Taberna Pomona...) ao humor bem sacado (Mars e Mars Reprise são impagáveis). Por problemas legais, a banda não toca ao vivo músicas deste albúm, apenas aquelas que foram regravadas, mas esse é, de longe, o álbum que melhor merece o título de música pagã já lançado.

Crone of War, de 2004, vem somar mais um momento genial à carreira da banda. Após a introdução, vem a bela The Wylde Hunt, que reaproveita a melodia de Cernunnos de maneira genial, fazendo com que a música cresça com o número de flautas, e com uma percussão que também vai se tornando mais intensa ao longo da canção. Uma música que é digna de lembrar Herne cavalgando pelas florestas, Odin pela tempestade seguido pelos einherjar,  ou Gwynn ap Nudd trotando pelas colinas com os cães de Annwn uivando atrás . A bela Mabon nos lembra da lenda do filho de Modron, o jovem deus solar que aguarda em calma o momento de ser libertado, no dissipar do inverno. Taranis é um chamado aos deuses do trovão Indo-Europeus, não apenas a divindade que dá o nome à canção. Extremamente ritualizada e tribal, é um exemplo de como se dirigir à entidades como essas, deuses normalmente guerreiros que  são próximos àqueles que não se ajoelham e mostram sua força. The Bold Fenian Men nos cita os Fianna, a elite guerreira tribal da Irlanda antiga, em uma canção de louvor, digna dos bardos. Auta Luonto é uma canção instigante, que reproduz um dos encantos encontrados no Kalevala finlandês. Há também uma regravação de Morrigan, além da dançante Sidhenearlahí Set, a divertida Fidhe Rá Hurí, a interessante Jenny in’t Fogge e a bela Namdemans-ola.


O álbum seguinte,  Pagan Folk, conta com uma produção musical muito superior ao anterior, e inicia com uma das músicas mais incríveis já composta por essa banda incrível: Tine Bealtaine. A variação entre violão e harpa em um melodia que é, de fato, simples, mas eficiente, nos traz à mente o festejo, a alegria, a dança ao redor de fogueiras da maior  festa de fertilidade do mundo céltico. Mas as mudanças são visíveis, e os louvores aos deuses dão lugar às lendas medievais (muitas dos quais, claro, com fundo pagão,  como sabemos) em The Well,  o hurdy-gurdy (maravilhosamente tocado) surge em Pagan Polska (outra que parece ter nascido para ser dançada em um festejo ritual) e Etrezomp Ní-Kelted (cantada em Bretão Armoricano) nos traz uma bela demonstração de espírito  céltico, música feita para cantarolar junto. Teutates, é outro grande momento, em gaitas-de-fole, um louvor céltico ao deus protetor  da tribo na Gália, uma canção para ser dançada ou tocada em meio a uma simulação de luta ritualizada. Lughnasadh traz o vento frio do outono, com sua melodia calma e sua repetição longa, nos lembrando da estação em que tudo começava a parar no mundo antigo, e as pessoas  se recolhiam a suas casas. A melodia vai ficando mais e mais forte conforme vai sendo lembrado desta festa, marcada por disputas físicas, jogos de guerra e competições, os últimos antes do Inverno, instituídos pelo deus Lugh em honra à sua mãe Tailtiu, a terra que fenece e vai para o seu descanso. Dil Gaya utiliza uma gaita-de-foles típica do Oriente Médio para celebrar a Mãe Terra helênica, e consegue uma bela canção mediterrânea. Outras belas canções são as tracionais  Twa Corbiez e An Dro (tipo de dança Bretã) que, mesmo não sendo de autoria da banda, ganharam belas roupagens.

Alive (2007)  já costuma ser visto como uma virada na carreira da banda, algo que a desvirtuaria e a tornaria algo diferente do que era. Se pensarmos no Sine Missione,  realmente haverão pouquíssimas  semelhanças entre os dois álbuns. Mas desde o início, o Omnia foi sempre uma banda de espírito constante e estilo mutante. Sua música sempre foi se transformando, e adquiria sempre novas nuances, e a mudança não alterava a força da banda. Assim, Witches’ Brew inicia mais uma jornada pagã, dando uma nova profundidade às três bruxas de MacBeth, em uma canção que evoca diversão e mistério. The Raven traz à tona a magnifica musicalidade do poema de Edgar Allan Poe, em uma interpretação maravilhosa. Alive é outra canção incrível, uma demonstração pura de espírito pagão, daqueles que não temem se alegrar por estarem vivos, e que encontram na terra motivos para sua felicidade. The Elven Lover  é mais uma canção inspirada, que nos lembra os sidhe, mas não é tão empolgante quanto Satyr Sex, mais uma bela demonstração de que não se deve ter medo de viver a vida com alegria. Fairy Tale nos lembra de toda a beleza e antiguidade que se ocultam por trás dos contos de fadas. Equinox, Richard Parkers Fancy e Were you at the rock? completam o album. Ainda em 2007, na verdade, mesmo antes do Alive, foi lançado o álbum Cybershaman, com canções remixadas. Polêmico, criticado, mas para quem acompanha a trajetória da banda, longe de ser totalmente inesperado.

Em 2010, a música do Omnia continua a se transmutar, pois a banda nunca conseguiu restringir sua própria versatilidade. Por isso, em Wolf Love, a maior polêmica se dá com Dance Until We Die, uma música em estilo hip-hop que, obviamente, não agradou aos fãs das canções mais tradicionais. De fato, um passou ousado, que não atende aos ouvidos da maior parte dos fãs do Omnia, pelo menos na parte musical. Mas basta seguir a letra e entendemos que o Omnia continua o mesmo. Quanto mais seu estilo musical varia, mais seu espírito permanece o mesmo, contestador, libertário e totalmente pagão. O Omnia de hoje não é mais aquele dos primeiros discos, vê-se pouquíssimos traços daquela intenção de trazer de volta um passado pagão. O objetivo hoje é ver esse passado pagão integrado à realidade moderna. Nisso, encontramos obras de arte como Teachers e Love in the Forest, mas é com a poderosa Taranis Júpiter que a banda satisfaz o fã antigo, ao atualizar a velha Taranis para uma invocação ainda mais impressionante aos deuses do trovão, além de Shamaniac, uma mostra de respeito aos cânticos xamanicos ancestrais fino-ugrianos. Wolf Song, tão artística e bela também pode agradar a todos. No geral, é o mais variado de todos os álbuns da banda, o mais audacioso, mas pouco surpreendente para um grupo que nunca teve medo de ousar.


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