Brán, o Abençoado

Brán, o Abençoado figura na mitologia de Gales. Como ocorre normalmente na mitologia Britânica, quando registrada pelos monges copistas, ele se torna um rei, praticamente destituído de uma origem divina. Mas as suas lendas nos mostram que, no caso dele, há uma deidade oculta por trás de seu manto régio. Sua lenda mais conhecida é aquela que figura no Mabinogion. Nela, seu nome é Bendigedfran fab/ap Llyr e isso significa “Corvo (brán, aqui lenizado para -frán no meio da palavra; pronúncia vrân) Abençoado (bendiged) filho do Mar”. Nessa lenda, ele possui dois irmãos, Branwen e Manawydan. Manawydan é claramente relacionado ao Irlandês Manannán mac Lir. Eles ainda possuíam dois meio irmãos, Nissien e Efnissien. O conto do Mabinogion onde Brán figura leva o nome de sua irmã, Branwen. Nele, Brán organiza o casamento dinástico de sua irmã, Branwen, com o rei da Irlanda. Por não ter sido consultado sobre isso, Efnissien, ataca os cavalos do noivo. Para que uma guerra não ocorra, Brán oferece ao rei um caldeirão mágico que restaura a vida dos mortos. Porém, após algum tempo de casamento, Branwen vem a ser maltratada pelo marido, e o gigantesco Brán parte em seu resgate. Brán é tão grande que vai andando de Gales até a Irlanda. Ali, ele e seu exército lutam contra os exércitos do rei da Irlanda, que é sempre superior pela posse do caldeirão que ressucita os soldados. Efnissien destrói o caldeirão, mas Brán é ferido na batalha, e é decapitado. Os sete sobreviventes de seu exército levam sua cabeça, que os entretem em Annwn por oitenta anos. Depois, sua cabeça é enterrada em uma colina no leste da Brittania.

Brán é citado pelo Bardo Chefe Taliesin. Ele diz, em um dos seus poemas, ter estado com ele na Irlanda, e visto um certo mordwyt tyllon ser morto. Não sabemos quem seria esse, mas normalmente é pensado como sendo o próprio Brán (seu nome pode ser derivado de “coxas perfuradas”). Em Geoffrey de Mounmouth, ele recebe o nome de Brennius, e é posto como um dos irmãos mais novos de Belinus, provavelmente retirado do deus Belenos, da Gália e da Brittania. Belenos pode ser também a origem do lendário Beli Mawr (Beli, o Grande), que é o ancestral divino das grandes famílias de Gales. Monmouth mescla o seu Brennius Britânico, baseado no Brán Galês, com o Brennos Gaulês, que invadiu Roma. Não há evidência de que tivessem alguma relação, mesmo porque o Brennos continental era um chefe apenas da tribo dos Senones (do norte da Itália), e sua fama dificilmente seria tão grande na Grã-Bretanha. Mas ainda há muitas ligações com o Brán Galês, como a sua generosidade e a rivalidade da mitologia Galesa entre a família de Llyr e a família de Beli. Há outro Brán figurando nas tradições Galesas, que possuía um “chifre da plenitude”, assim como o Caldeirão do Dagda. Ainda assim, ele é um personagem que não conhecemos bem, e nem temos certeza se ele pode ser realmente relacionado com Bendigedfrán, pois ele é um humilde que se transforma em rei por intermédio de Taliesin. Ainda sobre possíveis outras referências a Brán, temos o ciclo Arthuriano, principalmente o levado para as cortes Francesas através dos Bardos da Bretanha Francesa (que, por sua vez, tinham sua tradição originada na Grã-Bretanha). Ali, temos a figura do Rei Pescador, cujo nome é Bron (Brons, em algumas grafias). Ele guia os Cavaleiros da Távola Redonda, como Brán guia os Sete Sobreviventes ao Outro Mundo. Ele é associado com o mar, assim como Brán (filho de Llyr, deus do mar). Ele é o guardião do Santo Graal, assim como Brán possui o Caldeirão. De acordo com a maioria das teorias acadêmicas, o Cálice de Cristo, que traria novamente a fertilidade à terra, seria uma versão Cristianizada dos Caldeirões da Fartura que surgem ao longo da mitologia Celta, como o Caldeirão do Dagda, o Caldeirão que os homens de Arthur vão buscar no Outro Mundo, ou o próprio Caldeirão de Brán, capaz de trazer a vida de volta aos mortos.

O papel de Brán, na mitologia de Gales, é muito parecido com o do Dagda, na mitologia Irlandesa: um deus de grandes proporções, conhecido por seu caráter generoso e amigável, que é o possuídor do Caldeirão da Vida, ou seja, um dos árbitros da vida e da morte. Por ser capaz de dar a vida, ele pode também ter um caráter de fartura, que também ocorre no Dagda. Se a ligação com o Rei Pescador de fato for real (e não há tantos motivos assim para duvidar dela), ele é o guardião do Caldeirão que é substituído posteriormente pelo Graal Cristão, ou seja, aquele capaz de regenerar o reino e a Terra. O Dagda na Irlanda tem por irmã Brighid. Uma interpretação alternativa para o nome de Brán vem do brigantinos, que seria a origem da palavra Galesa para “rei” (brennin, ainda que algumas versões antigas ainda utilizem também a versão rhi), e essa raiz também estaria presente no nome de sua irmã, Branwen, o que poderia também liga-la a Brighid, ainda que não seja conclusivo. A ligação com Belenos é mais difícil de ser verificada, pois está apenas em Monmouth, mas se for conclusiva, o mostra como irmão de um dos deuses ancestrais dos Britânicos, partindo da também também discutida possibilidade de Beli Mawr de Gales ser uma sobrevivência de Belenos. Um deus da tribo e um da terra, irmãos e trabalhando pelo povo. Brán também possui uma ligação com o mar, e pode atravessar o mar para lutar. Na mitologia Celta, a travessia pelo mar é uma das formas de viajar ao Outro Mundo, e essa viagem só pode ser feita com a ajuda de entidades de além do nosso mundo. Brán simboliza isso em uma frase, quando ajuda o povo a atravessar uma área sem pontes: “Aquele que é o chefe, que seja a ponte.” O gigante Brán se curva então para que os homens atravessem sobre suas costas. Brán, então, tem a sugestão também do papel de psicopompo, aquele que guia as pessoas em suas viagens para o Outro Mundo, pois ele atravessa de um lado para o outro sem a necessidade de ferramentas. Como Manannán, ele também é “filho do Mar”.

Para a nossa triteza, os mitos de Gales são muito mais mundanizados pelos Cristãos do que os Gaélicos. Mas é difícil não ver o caráter divino de Bendigedvrán quando olhamos para a sua descrição no Mabinogi; quando os Irlandeses percebem sua aproximação, eles a descrevem como sendo uma montanha vindo pelo mar, com um altivo cume, e dois lagos em cada lado. Quando Branwen é consultada, ela diz que a montanha é seu próprio irmão, que vinha encolerizado para a Irlanda, e os lagos eram na verdade os seus olhos. Deus da vida e da morte, psicopompo, da fartura, generoso e amigável, mas que não foge da batalha quando necessário. Esses são os aspectos maiores de Brán, o Abençoado. Mas mais do que tudo, ele é um protetor da tribo. A tradição folclórica posterior nos diz que sua cabeça foi enterrada onde hoje estaria a Torre de Londres, e enquanto estivesse ali, ela protegeria a Grã-Bretanha contra invasões. Até hoje, é dito que, enquanto houverem corvos (brán é “corvo”, em Galês) na Torre, a Grã-Bretanha estará segura. Mas uma tradição literária nos diz que o Rei Arthur teria desenterrado a cabeça de Brán e assumido toda a responsabilidade pela proteção da ilha. Para onde a cabeça de Brán teria ido ? O ponto tradicional de enterro dos reis de Gales é o Monte Eryri. Ali, no norte montanhoso, onde a língua herdeira da antiga fala Britânica ainda sobrevive, Brán ainda impede a invasão. 

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