Animais Totemicos: Ursos, Raposas, Cães e Lobos

 Dentre todas as características que a espiritualidade céltica tem em comum com o xamanismo, talvez o totemismo seja a mais prontamente visível. A relação dos celtas com animais totemicos pode ser vista já nos registros clássicos, quando nos é dito que migrações de partes da tribo ocorriam através do augurio feito por animais sagrados. Etmologicamente, tribos inteiras em todas as terras célticas tinham referências a seus animais totemicos (como os Epidii, da Gália, a “tribo do Cavalo”) registradas nos seus nomes, e essa tradição permanece até hoje em algumas famílias e clãs. A tradição permanece nos nomes de deidades célticas, como o galês Brán, o Abençoado (literalmente, “corvo”), e a gaulesa Artio (a “deusa-urso”), que pode também ser a deusa chamada de Andarta, além do Bom Deus Dagda, cujo nome é Eochaid Ollathair (“o Cavaleiro Pai-de-Todos”, uma ligação com cavalos), e da deusa do rio Boyne, Boann, cuja origem é Bó-Vinda (“a Vaca Branca”). E a tradição culmina nos nomes de grandes heróis célticos, que incorporam características de animais místicos, como o chefe dos Fianna, Finn MacCumhail, que por nascimento era Demné (“cervo”, o animal associado à realeza e soberania), que teve por esposa a corsa mágica Sadb, mãe de seu filho Oisín (outra denominação gaélica para “cervo”); e talvez aquele que seja o mais famoso de todos, Cúchulainn, “o Cão de Culann”, maior de todos os heróis gaélicos, que tantas epopéias teve registradas em seu nome. Mesmo o lendário Rei Arthur incorpora aspectos dessa tradição céltica, assumindo o urso como seu animal-totem (expresso no seu nome, arth), sendo, em sua lenda, o rei que volta da morte após o repouso, como o urso retorna após a hibernação.

O simbolismo associado aos animais é muito vasto. Muito dele pode ser descoberto dentro da própria tradição céltica. Alguns aspectos mais profundos podem ser vistos dentro do xamanismo, que tem o totemismo como um de seus principais aspectos. Mas deve ser sempre lembrado que nem todas as culturas totemicas interpretam animais da mesma forma. Os animais que iniciam a nossa série de artigos sobre o assunto foram escolhidos por partilharem muitos aspectos dentro da simbologia céltica, da biologia ou mesmo da etmologia. E são todos animais que estão entre os mais comuns dentro do totemismo.

Iniciando com o Urso, ele é um dos animais com o mais antigo simbolismo dentro do continente europeu. O homem primitivo admirava a capacidade do urso de “ressucitar” após o inverno, além, é claro, de sua força e ferocidade. O urso foi um dos primeiros animais a ser divinizado, e possui os mais primitivos aspectos de culto entre os Indo-Europeus. Na Gália, dois deuses-urso nos mostram que esse culto sobreviveu até a chegada dos celtas, Artaius (masculino) e Artio (feminino). A deusa Artio, especificamente, que é comumente retratada servindo um urso com uma cesta de frutas, teve um centro de seu culto onde hoje é Berna, na Suiça. Quando os germanos chegaram, reconheceram de pronto a importância do culto da deusa céltica no local, e o mantiveram, dando o nome de Berna à cidade, onde a raiz germânica ber- significa “urso” (equivalente ao art- dos celtas). Mesmo após a dominação por outros povos, a Ursa ainda era ali louvada. A raiz do nome continuaria no lendário rei Arthur (talvez, de art – uiros, “o homem urso”). Apesar de ser principalmente uma lenda, Arthur engloba diversos simbolismos pagãos dentro de sua conceituação, e o totemismo do Urso, que lhe empresta o nome, está presente. Não apenas por sua ferocidade como rei-guerreiro, a lenda arthuriana incorpora esse aspecto ao fazer de seu rei o herói que vai descansar no Outro Mundo para um dia retornar, quando seu povo dele precisar, como um urso parte para a hibernação e um dia “retorna à vida” quando a primavera chega. Outra ligação do Urso com os nobre guerreiros pode estar sugerida no rei arquetípico irlandês, Cormac Mac Aoirt, o “Filho do Urso”. O folclore britanico nos mostra que muitos vilarejos valorizavam a posse de um urso, o que pode ser um resquício pagão que remontaria aos celtas ou saxões, uma vez que ambos os povos valorizavam tais animais. Infelizmente, o costume foi pervertido na Idade Média, e os animais eram frequentemente maltratados pelos aldeões. Mas o Urso, o totem, sempre foi a representação do nobre guerreiro, aquele que luta durante a vida, mas parte para o Outro Mundo, para voltar em dias de glória.

O simbolismo da raposa é mais difícil de verificar, e nós o vemos mais na arqueologia do que no folclore. A raposa costuma ser vista pela população rural européia como uma demonstração de selvageria, de um animal indomesticado que ainda representa riscos ao rebanho (principalmente ovino), mas que, nessa selvageria, possui uma beleza e nobreza dignas de nota. Quando o homem de Lindow Moss foi descoberto, ele usava um bracelete de pele de raposa, o que fez com que os arqueólogos logo entendessem que se tratava de um nobre. O fato de ele parecer ter sido sacrificado ritualmente pode sugerir uma importância espiritual para a pele da raposa. É comum dentro das culturas nativas usar a pele de um animal totemico como proteção em uma jornada ao mundo dos mortos. No santuário funerário de Aulnay-aux-Planches, foram encontrados os restos de um urso, um cão e uma raposa sacrificados, mostrando a sua importância ritual. Infelizmente, o significado nos foi perdido, mas há uma sugestão que o cão seria para guardar a viagem ao Outro Mundo, a raposa para guiar com astúcia e o urso para prover um caminho de volta. Raposas sacrificadas também aparecem nas escavações de Winklebury, Mirebeau, e Ribemont. O nome da Raposa pertenceu a vários chefes celtas, e Louernius (“raposa”) foi o nome de um grande chefe gaulês reconhecido por sua generosidade. Outros dois chefes britanicos também carregaram esse nome. Mas o significado da Raposa está sempre ligado à astúcia (e por isso, ela pode ter sido escolhida para o Lindow Man) na grande maioria das culturas, e alguns chefes gaélicos eram chamados de “raposas” por sua capacidade diplomática. A raposa surge também como animal totemico de um clã irlandês, os Uí Caharney, que eram chamados de “raposas” pelas outras famílias gaélicas. O folclore da Bretanha Armórica nos reserva algo interessante sobre a raposa: ele nos diz que as raposas guardam uma pedra preciosa que traz boa sorte. Hoje em dia, a boa sorte está na oportunidade de encontrar um desses belos animais, guardiões da astúcia.

Os cães, por outro lado, possuem a maior iconografia dentro de toda a cultura céltica. Não é estranho isso, uma vez que foram os animais mais valorizados dentre os celtas de todas as regiões. Desde os primeiros registros clássicos, cães estiveram ao lado dos celtas. Os embaixadores que Alexandre, o Grande recebeu eram acompanhados por grandes cães de guarda. Chefes celtas britanicos tinham a distinção do nome do Cão em seus epítetos, como Cunoglassus e Cunobelinos. Os campeões irlandeses podiam receber a honra de ser chamados de cães por seus serviços na guarda, como o mítico CúChulainn (Cão de Cullan) de Ulster. Ainda na Irlanda, haviam as chamadas “tribos dos cães”, dos quais os homens de Connacht descendiam. Em Kerry, os Concheannaich (cabeças de cães) também foram uma tribo conhecida por seus valores tribais de coragem e lealdade. O cão sempre simbolizou a lealdade acima de tudo, além de sempre ter sido o animal de guarda por excelência. Por isso, há a tradição britânica do Cão Negro, um animal que patrulha os ermos, e cuja aparição prenuncia a morte. O Cão também é o guardião do Outro Mundo, e pode ser aquele que vem buscar os mortos neste mundo. A Caçada Selvagem no País de Gales (que podia ser levada a cabo por Gwynn ou Arawn), era composta principalmente pela matilha dos Cwn Annwn, “os Cães de Annwn”, que passavam uivando pelas vilas e coletando as almas dos mortos. Tão grande era a importância dos cães para os chefes célticos que muitos deles tinham seus cães de estimação enterrados junto a eles. É entendido que o motivo disso era para contar com a proteção do animal em sua jornada ao Outro Mundo, e nenhum animal o faria melhor do que o leal cão. Cães são comumente retratados em túmulos célticos, mostrando que a eles era atribuido o papel que os egípcios atribuíam ao gato. A mitologia e os contos célticos sempre apresentam a lealdade dos cães como insuperáveis, mesmo que o homem nem sempre a compreenda de todo. Mas o grande papel do cão na cultura céltica é realmente o do totem dos grandes guerreiros, e o maior exemplo disso é simplesmente o do maior guerreiro da mitologia gaélica, Cuchúlainn. Cuchúlainn, enquanto criança, foi atacado pelo terrivel cão do ferreiro Cullan. Com as mãos nuas, ele matou o animal, e jurou ao ferreiro que ele mesmo guardaria sua casa até ter outro cão, recebendo assim o seu nome (“Cão de Cullan”) de Cathbad, o Druida. Assim, ele assume o Cão como seu totem, tornando-se proibido de matar um animal com seu nome, e chega ao seu fim quando é persuadido por três bruxas a comer a carne de um cão. Outra versão nos diz que, após ferido em batalha, ele mata uma lontra que bebia no mesmo riacho que ele. Nesse momento, ele sabe que está para morrer, pois a lontra, em gaélico, é a dobhrachú, “o cão d'água”. Ele mata um animal com seu nome, e mais, um cão “da água”, o elemento do Outro Mundo. Enquanto foi o Cão de Cullan, porém, ele foi o protetor leal de sua tribo, exatamente como todo Cão, o guardião deste e do Outro Mundo.

Os lobos costumam ter um simbolismo menos amplo na mitologia céltica do que na de seus vizinhos nórdicos. Lobos existiam nas Ilhas, bem como no continente (ainda eram comuns na Galícia até poucos séculos atrás), mas não na quantidade que havia nas frias terras dos germanos, bálticos e eslavos, que possuem uma ligação com lobos consideravelmente maior. Mas ainda há tradições interessantes sobre os lobos na cultura céltica. A exemplo da tradição romana, é dito que o rei arquetípico irlandês, Cormac mac Aoirt, fora criado por uma loba junto de seus filhotes, e que lobos nunca o ameaçavam, podendo implicar em uma ligação totemica entre o rei guerreiro e os lobos. Celtas tinham o hábito de cruzar cães e lobos para criar seus grandes mastins de guerra. E uma das formas usadas pela deusa Morrighan para lutar contra Cuchúlainn foi a de uma loba, mostrando que os celtas reconheciam o valor guerreiro do Lobo. Mas o lobo é muito mais do que isso, pois é um animal de fortes laços sociais e de lealdade a própria matilha. Um dos dons que a deusa Henwen (para alguns, outra forma de Ceriddwen) dá ao País de Gales é um filhote de lobo, que representa a união do povo. O lobo também é associado aos frios e proibitivos tempos do inverno nas terras célticas, e no calendário tradicional escocês, o mês mais frio é o chamado Faoilleach (“o Tempo do Lobo”). No inverno também, Merlin, em sua loucura, encontrou um velho lobo na floresta, e desfrutou um pouco de sua companhia. Lobos se tornaram totens familiares comuns na Escócia, e famílias como os MacTyres, MacLennans e MacMillans trazem a distinção de descender de lobos em seus nomes. No País de Gales, nomes e sobrenomes comuns também trazem ligações com os lobos, como Bledyn e Bleddri. Pelo menos uma tribo irlandesa dizia ter sua origem nos lobos também, mostrando que lobos eram ancestrais valorizados. Tão valorizados que ele é um dos animais retratados no Caldeirão de Gundestrup, estando ao lado da divindade de chifres. O Cernunnos é o Senhor dos Animais e das Feras, e um de seus grandes representantes no mundo é certamente o leal e selvagem Lobo.


Comments