poesia

Do Obscuro Ofício

Do Obscuro Ofício

de Paulo Moreiras

 

 

Rogério Carrola

 

Ao apresentar este conjunto de poemas, que foi Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, o Paulo Moreiras toca numa poiética da afectividade que merece ser continuada quer ao nível do texto poético, quer a outro nível em que o Paulo é esmerado.

Veja-se, a esse propósito, a obra singular que é A Demanda de D. Fuas Bragatela, (Lisboa: Temas e Debates, 2002, 307 págs.), e onde o autor não deixa de fazer coexistir a irreverência num turbilhão de acontecimentos burlescos e ridículos com a sedução que nos aproxima, afectivamente, quer dos personagens, quer da acção e acontecimentos tão aconchegados ao nosso corpo pela imagem arrebatadora das palavras.

Neste conjunto de poemas depuram-se os gestos, melhor, apuram-se os silêncios e alguns vazios tão necessários ao discurso poético.

Por isso mesmo, é na decantação do instante, apenas, que podemos sentir o toque universal da pele por uma comoção, do olhar, por um relance, do corpo, pela eternidade.

O Paulo enviou-me, em 1998, e entre muitos outros, um conjunto de poemas que ele intitulou As Palavras Silvestres. Falava, na abertura, da vida feita poema e dedicava essa antologia a todos os que acreditaram nele. Dizia, num dos poemas, que em segredo iluminaremos a noite.

Dessa imagem guardo a parte que me cabe e, fundamentalmente, este olhar sobre o caminho daquele que um dia foi meu aluno e acreditou também em mim, não sei sobre que objecto de mim, talvez apenas na minha presença, desajeitada na tentativa de, de quando em vez, falarmos de todas as coisas perdidas da Filosofia que, por um motivo qualquer oficial, não aconteceram naquelas longínquas aulas.

Continuei sempre a receber as palavras escritas do Paulo Moreiras e tenho sobre elas feito aquele silêncio de significação que agora aqui deixo expresso. Mas escrevi sempre uma nota ao lado, quer na Flor dos Terramotos, no Breviário de Hades, sobre o Umbigo de Eva ou No Fim do Poema, tão sublimemente lacrado de significação.

Em Viagem, de 1994, o Paulo dizia que aprendera a sentir nas palavras. Eu acrescentei com as palavras, com o seu sentimento de humanidade e olhar crítico, com o seu olhar as palavras como se elas fossem a descodificação de toda a beleza do mundo.

Um dia virá a colheita, para nos lembrar ou fazer reflectir que apenas erramos os caminhos não só pelo facto da nossa humanidade como também porque carregamos com a morte às costas.

O aviso que a poesia nos dá é o do pensamento humano que vagueia nos caminhos que trilha, pensamento como asa no vento ou corpo agarrado ao céu da boca, na procura quente da palavra que indique a voz, a música com que a curva se construirá, ou o equilíbrio de uma pertença a toda a Natureza.

Tudo isto, eu sei que o Paulo sente e sabe, já que, no obscuro ofício de conhecer o corpo, viajante de memórias e construtor das mesmas, nos tem deixado a nós, mas sobretudo àqueles que cá ficarão, um perfume tão concreto como íntimo desta língua que permite aos poetas esse dom próximo da fronteira dos deuses, onde pão e vinho anunciam eternamente a cada um de nós que é um pescador de instantes.

O Paulo Moreiras está no vento, ascende a voz um pouco mais alto para resfriar nesses lugares da construção da água e deixar então as palavras cair devagar, como se fossem figuras sólidas de geometria.

Somos, como leitores mas, acima de tudo, como humanos desejosos de outra transcendência, crianças de boca aberta ao céu, bebendo uma alegria que só determinadas palavras nos podem dar.

Só a poesia consegue esse feito de nos atirar o coração para as alturas e nos deixar a alma nessa boca de lua onde o repouso é procurado. O Paulo faz isso tudo como se nos estivesse a olhar do outro lado de lá.

Esse lado de um sentir original, como aquele que está oferecido, aberto de justiça e bem, na Pedra do Diabo, uma narrativa de 1997.

De facto, somos apenas e sempre uma folha à deriva no rio.

 

Deixo uma última palavra, lembrando aquele saboroso livro que o Paulo escreveu, o Elogio da Ginja. Pediu-me, para o mesmo, que lhe escrevesse o Posfácio e essa foi a melhor nota que um professor já alguma vez recebeu de um aluno. Por isso mesmo, como o escrevi então no final, e para o Paulo Moreiras,

ab imo corde...

 

a minha gratidão e eterna amizade.

 

 

 

de teus actos

extrais a agridoce

lama de meus dias

 

o alambique

destila o outro em nós

 

e tudo morre

como se não existisse

parto

 

p. 22

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de que cavidades profundas

provêm esses bandos de pássaros

que loucos me dilaceram a carne?

 

de que abismos em ti

reside essa fera que ruge

e me olha na imensidão dos olhos?

 

de que nascentes quentes

brotam esses rios

que me abraçam e me dão vida?

 

de que terra escura e fértil

nascem em tropel essas árvores

que me recebem no seu regaço?

 

talvez não o queiras revelar

para que eu parta na aventura

de o descobrir

 

p.37