Excertos

A Demanda de Dom Fuas Bragatela

Livro I

Capítulo 1

"PARA TI, MEU FILHO, deixo esta poética estória que, sendo a da minha vida, com teu entendimento dela possas tirar exemplo e proveito. Pois a tão grandes e fantásticas cousas assisti e ouvi que tomei trabalho não as deixar cair no esquecimento, tendo este povo a memória tão curta como os dias. Delas te darei conhecimento, se para tanto me ajudarem as musas e as minhas potências, de forma ordenada, para que compreendas os meus caminhos e as minhas opções, sem acrescentar mais ponto nem mais vírgula a tudo o que me sucedeu, deixando-te assim apenas aquilo que gostaria de dizer-te.

Sei que ainda não me conheces, mas possa este canhenho contar-te aquilo que fui e aquilo que fiz. Que em boa verdade o digo: quis chegar ao alto, vindo de baixo, por virtude e engenho próprios e cobrei para mim o melhor que sabia e podia, que toda a criatura nasce com sua ventura, e levei vida airada e de nada me arrependo."

 

Livro II

Capítulo 1

Por muito que o asno queira ser cavalo, há-de ser sempre asno, que não há nada de bom nesta vida, que andamos sempre a perder. Nascer é morrer, e a única cousa certa e segura que se ganha ao longo de tão árduo caminho é a morte, além de fomes, pauladas e enganos, que foram cousas que nunca me faltaram, se bem que mais as queria para os outros do que para mim.

Com estes e outros maus pensamentos ocupei grande parte da fuga e da estrada. Que quando as cousas começavam a tomar rumo e a endireitar a vida torta que levava, vi-me novamente na necessidade de fugir e largar tudo para trás. Não sei se fugia aos orates de Trancoso, se ao danado enguiço de minha vida, se à peçonha que alastrava por todos os lados.

Para agravar a situação, mais do que já estava, tinha-me safado como um apóstolo, só com um ligeiro brial branco e completamente descalço, que com a vida de santo que levava em casa do judeu, e sem nunca sair à rua, as minhas vestes e as minhas sapatas por lá ficaram esquecidas a um canto. Agora, depois destes acontecimentos, deveriam ter-se purificado com o fogo daqueles fariseus de má memória.”

 

Livro III

Capítulo 1

Só mais tarde, com a devida distância que o tempo sempre permite, avaliámos e percebemos os acasos da vida e os encontros que eles proporcionam, como se tudo fizesse parte de um livro há muito escrito. Parece então que todos os nossos passos, que pensamos não nos levam a lado nenhum, afinal nos conduzem ao nosso destino, à realização de nós mesmos. E naqueles dias, sem o saber, o encontro que adreguei ter com Maria dos Prazeres fora um dos mais importantes da minha vida, aquele que iria revelar-se como o mais providencial e enriquecedor para o pouco tempo que cá andamos. Mas, pelas minhas barbas, deixemos estas considerações e de nossa narrativa não nos apartemos, que sobre estas e outras matérias no seu devido capítulo as irei apresentar. Por ora, meu filho, voltemos às nossas aventuras e desventuras por terras de Coimbra, que ainda muito nos sucedeu, para mal dos nossos pecados.”

A Demanda de Dom Fuas Bragatela

Paulo Moreiras

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