A Anta Grande do Zambujeiro na memória do arqueólogo Henrique Leonor Pina


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Foto: © IPM/DDF. Fotógrafo José Pessoa

 

 

Fragmentos de placa de ouro para adorno ME 4386/1-2

 

 

vaso com decoraçao simbólica ME 3816

 

 

B I B L I O G R A F I A

Pina (1961a), Henrique Leonor, “A Anta da Herdade do Duque em Reguengos de Monsaraz” in Revista de Guimarães, volume LXXI, n.ºs 1-2. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 1961.

Pina (1961b), Henrique Leonor, “Nota sobre as indústrias líticas da foz do Leça, Leixões” in Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências de Lisboa, n.º 9, Lisboa: Faculdade de Ciências de Lisboa, 1961.

Pina(1962), Henrique Leonor, “A Anta da Azinheira em Reguengos de Monsaraz” in Trabalhos de Antropologia e Etnografia, volume XIX, fascículo 1. Porto: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnografia e Faculdade de Ciências do Porto, 1962.

Pina, Henrique Leonor, e Carvalho, Galopim de (1962), “A Anta da Velada das Éguas, Barrocal, Évora in Boletim da Junta Distrital de Évora, n.º 2, Évora: Junta Distrital de Évora, 1962.

Pina (1971), Henrique Leonor, “Novos Monumentos Megalíticos do Distrito de Évora” in Actas do II Congresso Nacional de Arqueologia. Coimbra, 1971.

Pina (1976), Henrique Leonor, “Cromlechs und Menhire bei Évora in Portugal” in Madrider Mitteilungen n.º 17. Heidelberg: F. H. Kerle Verlag, 1976.

Vasconcelos (1898), José Leite de, Antas dos Arredores de Évora.

 

L I N K S  

 Grupo de Estudos do Megalitismo Alentejano 

 Câmara Municipal de Évora (arqueologia)

 Instituto Português do Património Arquitectónico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Nos anos 60, o arqueológo Henrique Leonor Pina, na companhia do Galopim de Carvalho e de José Pires Gonçalves, entre outros, protagonizou uma série de achados arqueológicos que enfatizaram a importância e extensão da cultura megalítica no território do Alentejo Central.

O ponto culminante da sua acção foi, sem dúvida, em 1964, a descoberta e as escavações arqueológicas realizadas na Anta Grande do Zambujeiro, um dos maiores monumentos funerários da Península Ibérica. Esse trabalho deu origem a um importante espólio – a colecção Henrique Leonor Pina -, que hoje integra as colecções do Museu de Évora, num inventário que abrange cerca de duas mil entradas.

Do seu trabalho faz parte, ainda, a identificação de um importante conjunto de menires, cromeleques e monumentos funerários, só possível pela estreita ligação do arqueólogo com a população local, que Leonor Pina entendia como verdadeiros interlocutores. Com os pastores, agricultores e caçadores criou uma rede de prospectores do território, entre os quais recrutou os auxiliares para participar nas escavações e com quem, numa perspectiva antropológica universalista, discutia as interpretações simbólicas dos achados arqueológicos.

Ao contrário do que é comum pensar-se, a Anta Grande do Zambujeiro sofrera um longo processo de alterações, e a escavação arqueológica, realizada com escassos meios, defrontou problemas complexos não só devido as dimensões do monumento, mas também pela imediata necessidade de intervir para conservar a sua coerência estrutural.

Com o seu cunho muito pessoal e emotivo, Henrique Leonor Pina reconstitui nessa entrevista, sempre a volta da Anta Grande do Zambujeiro, a memória desses anos, permitindo nos vivenciar o contexto no qual as escavações foram realizadas, num tempo em que a acção do arqueólogo passava muito pelo empenhamento individual, mas que também estava aberto a uma utopia comunitária. Como muitas vezes defendeu, havia uma estreita ligação entre os diversos monumentos megalíticos, numa ocupação estruturada e simbólica da paisagem, e só uma forte ligação da população local com esse património disperso é que se poderia pensar no conhecimento e preservação desse conjunto, intimamente ligado a ocupação do território.

 

 Podemos deixar de lado o suspense e ir directo ao assunto. Como é que o Henrique Leonor Pina descobre a Anta Grande do Zambujeiro?

Em Março de 1964, a Anta do Barrocal, na freguesia da Nossa Senhora da Tourega, em Évora, está numa situação crítica, ameaçando ruir, por causa de umas chuvadas muito intensas que tinha havido, e eu vim aqui fazer o trabalho de consolidação para impedir a sua queda. Levantaram-se um pouco os esteios, veio um homem das pedreiras ensinar como se fazia aquilo, e consolidou-se a estrutura. A Anta havia sido estudada no tempo do Leite de Vasconcelos (1898) e já estava classificada como Monumento Nacional. De maneira que fiz ali uma primeira sondagem, apareceram muitos fragmentos de ídolos-placa. A escavação foi realizada em condições muito adversas, porque chovia muito, estava tudo enlameado.

Foi nessa altura, no dia 24 ou 25 de Março, que me aparece o guarda da Mitra, o Sr. António Rebocho, mais conhecido como o “ti” António Gadunhas, um verdadeiro camponês arqueólogo, que veio me dizer: senhor fulano, ainda bem que aqui está. Se viesse cá no Verão, eu poderia lhe mostrar algumas coisas. Chovia que Deus a mandava. Esperar pelo Verão? Não, vamos já a isso. Eu tinha um dois cavalos, fomos com o dois cavalos. A primeira coisa que vamos fazer, disse-me ele, chamam-lhe o cabeço da Anta, mas não é anta nenhuma, há um chapéu, mas não vejo nenhuma anta. Eu, quando cheguei lá, fiquei com os olhos em bico. Passámos a ribeirinha de Valverde, subimos, fomos ver aquilo, depois viemos atrás, ver a entradinha. Aqui está uma Anta, sim, mas tem… dez metros de altura!

 E teve a certeza, desde o início, que era uma Anta?

Tive a certeza. Primeiro, aquilo era um monte artificial. Passados alguns dias, eu pedi ao Galopim de Carvalho que passasse por lá e identificasse qual daqueles montes não era um monte natural. Ele chegou aí a uns cinquenta metros e confirmou logo aquele como um monte artificial.

Antes de contar-nos como se realizaram as escavações arqueológicas, podemos recuar um pouco no tempo. Quando é que começa a interessar-se pela arqueologia?

Muitos dizem: nasci arqueólogo, o que não é mais que um mito. Quando fiz o sexto ano do liceu, em Montemor, vim para Évora, morar no princípio da Rua dos Penedos. Ainda fiz exame de admissão para Direito em Lisboa, mas não me adaptei aquilo, e preferi seguir o Magistério Primário. Lembro que uma vez fui ao Alto de São Bento e, aí sim, admito que fosse um certo fado, encontrei um machado neolítico, fragmentado, que esteve muito tempo em cima da mesa, até que a minha mulher o deitou fora. Talvez tenha sido o meu primeiro contacto, mas isso não foi de nascença.

E os primeiros trabalhos em arqueologia?

Exactamente, quando é que eu vou fazer o meu primeiro trabalho? Cinco ou seis anos mais tarde, quando a minha filha já era nascida, por volta de 1955, é quando eu faço o estudo da Anta da Herdade do Duque, em Reguengos de Monsaraz. Pedi uma carta ao Manuel Heleno, que era director do Museu Nacional de Arqueologia, pensei que deveria ser o responsável por aquilo… e portanto esse foi o meu verdadeiro início na arqueologia, que depois é publicado na Revista de Guimarães (Pina: 1961a). Escavei em companhia do meu amigo Manuel Sapatarra, e depois entregamos os achados ao padre Júlio de Monsaraz.

Trabalhei depois com o Galopim de Carvalho na foz do Leça, no Porto de Leixões (Pina, 1961b). Estávamos a trabalhar por grupos, um constituído por biólogos, estudavam os materiais que diziam respeito a micro flora e a micro fauna; um outro grupo estudava a parte física da geologia; e o Galopim de Carvalho que estudava, digamos assim, a parte “móvel” da geologia, o movimento das areias e do lodo; e eu que ia a procura das pedras. Tive a sorte de encontrar, mesmo ao lado do mercado de Matosinhos havia umas barreiras, e encontrei umas pedras roladas que serviriam para pesos de rede, sobretudo para poderem ser lançadas. Desse trabalho fiz um estudo com um sistema de classificação identificando as variantes segundo o peso e tamanho.

Depois foi a Anta da Velada das Éguas, da Herdade do barrocal, na Freguesia da Tourega, no concelho de Évora, com o Galopim de Carvalho, publicada no Boletim da Junta Distrital, em 1962. Aquilo está muito bem publicado porque o Galopim de Carvalho desenhou aquelas placas todas, por um sistema que ele inventou, realizando os desenhos a partir dos negativos.

Com o é que surgiu o projecto de escavar a Anta Grande do Zambujeiro? Foi um projecto pessoal, ou foi decidido pela junta Distrital…

Foi um projecto pessoal apoiado pela Junta Distrital, que só pagava aos trabalhadores e a gasolina do dois cavalos. Eu fui lá com o Armando Perdigão, presidente da Junta Distrital e da Câmara Municipal de Évora, mostrei-lhe aquilo, depois o fotógrafo da Câmara, o David de Freitas fotografou-a.

E quem era a equipa, onde é que foi recrutar a equipa?

A equipa era constituída exclusivamente por camponeses. O Galopim de Carvalho não podia, estava em França, realizando o doutoramento, e esteve ausente três, quase quatro anos. Foram cinco anos, cinco campanhas, e foi num desses anos em que participou o Bragança Gil, não me recordo exactamente, acho que foi no terceiro. Alguns eram parentes daqueles que tinham escavado comigo a Anta da Velada das Éguas (Pina e Carvalho, 1962). Eram muito novos, e alguns deles morreram em combate na Guiné, outros dispersaram. Havia ainda parentes do Augusto Machado, que passou a funcionar como o chefe da equipa, ele está vivo, e a Joaquina, que está um pouco doente.

Os trabalhadores são recrutados em Valverde. E quanto tempo durava as campanhas? Eram as suas férias…

Três semanas, eu só tinha quatro semanas de férias no Verão. O material era requisitado previamente. Eu escrevia ao presidente da Junta Distrital, o Armando Perdigão: preciso de tantos carrinhos, tantas pás, picaretas, picolas, etc. Fazia uma lista dessas coisas, e ele, por sua vez, requisitava à Junta Autónoma das Estradas. Trabalhavam homens e mulheres, porque as mulheres eram importantes, até para fazer a comida, para buscar a água, e para estar a peneirar, e é por isso que uma delas encontra os fragmentos da jóia de ouro e as esconde no avental: Ah, julgava que isso fossem cápsulas (risos).

E como é que evolui o processo de escavação? Só para lembrarmos da situação inicial, a anta encontrava-se completamente coberta dentro de uma mamoa com cerca de 50 metros de diâmetro, e só os topos dos esteios da câmara funerária estavam visíveis.

No primeiro ano foi limpar a área, aquilo era extenso, no princípio eu não tinha tempo, e então pedi que viessem com uma máquina para remover a terra, a parte de cima que tinha sido lavrada, havia muito mato. Eu fiz ali sondagens, não havia espólio nenhum, nada.

Só depois desses trabalhos é que começa a aparecer o chapéu, antes só umas pontas dos esteios que durante muito tempo apresentavam uma coloração diferente, porque apanhavam sol.

Logo abaixo desse nível começam a aparecer coisas que eu julgo que já são da Idade do Ferro. A certa altura aparece um fragmento de vidro fenício, talvez proveniente de trocas comerciais.

Eu digo, bom, isso vai ser uma coisa notável, e depois vamos continuar, continuar, continuar, de maneira que no segundo ano, já se começa ver a hipótese de entrar no corredor, tirando-lhe o miolo, porque uma parte de cima era escorrimento das águas, quer dizer, as águas iam se infiltrando, e a parte de cima era sobretudo um composto de areias lavadas, numa camada com cerca de trinta centímetros.

Então, no terceiro ano a escavação avança lentamente pelo corredor, que tem cerca de 12 metros de comprimento, um metro e meio de largura por dois de altura, coberto pelas, comparativamente, pequenas lajes que se uniam umas às outras.

Isso. A lâmina de bronze foi encontrada na parte superior, mesmo sobre as pedras da cobertura do corredor, foi uma das primeiras coisas que encontrei. Aliás, o corredor estava dividido em dois. Um deles estava completamente tapado pelo lado Sul, entulhado, porque aquilo tinha desabado. Em algum momento deixou de estar funcional, e ali praticamente não encontrei espólio. E havia uma parte, ainda lá está, com aqueles esteiozinhos a sustentar as pedras do corredor. Mas, quando chegámos lá a frente, próximo da padieira, eu vejo que nós não podemos avançar mais, havia o risco de ficarmos soterrados.

Como sabem, a câmara funerária é formada por sete esteios, com cerca de 8 metros a partir da superfície do solo, coberta por uma única pedra.

Mas a pedra de cobertura da câmara, o chapéu, estava partido desde o início das escavações?

O chapéu estava partido, aliás pode-se ver, os fragmentos estão lá sem nenhum prejuízo, porque a única coisa que fizemos foi desloca-lo para o lado de fora, porque a partir de uma certa altura eu tinha receio que aquilo caísse. Escoramos, levantamos aquilo tudo, tanto que as coisas estão lá. As varas de aço de furar para por dinamite que se usavam nas pedreiras ali ao lado, foram introduzidas nos esteios para servir de escoras.

Mas quem dinamitou? Tinha sido dinamitado antes?

Não, não, ninguém dinamitou. Havia uma pedreira da GRAEL ao lado, e havia um senhor que já faleceu, o Francisco Mendes, que dirigia o corte das pedras, era canteiro de profissão. Então, ele foi lá com um guincho mecânico, e com outros dois manuais e fizemos as movimentações das pedras.

O chapéu estava fragmentado e abateu, o que, na minha opinião, deve ter sido causado por um terramoto, porque para uma estrutura daquelas enterrada fragmentar-se, é preciso um abalo sísmico enormíssimo. Bom, a certa altura aquilo abate-se e passa a haver enterramentos em cima, porque não se podia entrar pela parte debaixo, porque um dos esteios, o quarto, havia colapsado para o interior.

A pedra de cobertura da câmara estava deslocada e fragmentada, havia necessidade de intervenção na estrutura do monumento a medida que se escavava. O processo era muito complexo…

Nós, antes de fazermos os levantamentos, fizemos, pela parte de fora, o que eu chamava escavar a raiz, quer dizer, a base do esteio, que estava quebrado, e encontro por baixo cerca de dois metros e tal, três metros, de brita e areia, e eu me lembro de ficar emocionado, ao pensar que essa terra desde que foi posta aqui, há cinco mil anos, nunca mais ninguém lhe mexeu.

Houve ainda necessidade de fazer uma outra modificação, um esteio do corredor, ou melhor, onde encostava a pedra padieira. Havia uma pedra que estava numa posição instável, que eu chamo a pedra de padieira. Era a pedra que tapava a diferença entre a altura do corredor e a altura da câmara. Sendo assim aliviou-se esse esteio para esse lado e levantou-se, puxou-se esse que estava inteiro, para garantir um paralelismo em relação ao outro.

Bom, uma vez, eu estava muito entusiasmado, quando começamos a levantar a pedra, eu estava muito entusiasmado ao lado do guincho, quando um dos cabos se rompeu e a pedra abateu cinquenta centímetros. Se me caísse em cima, tinha sido morto no campo de batalha, não é, enterrado com todas as honras dos ladrões de túmulos (risos).

De todos os materiais que encontrou qual foi aquele que o mais surpreendeu na Anta Grande do Zambujeiro?

Um deles foi o ídolo de cerâmica com olhos da idade do ferro, outra, a taça ou vaso com decoração simbólica (ME 3816). Quando se encontrou o primeiro fragmento… eu discutia os achados com os meus homens, homens e mulheres, não é, porque o senso comum é útil para a interpretação simbólica. O que é que vêem? E eles me disseram: Isto é um sol. Todas as pessoas estavam apontando para um símbolo, é natural que fosse assim. Eu disse: isto é um olho. Quando, no ano seguinte, aparece o segundo fragmento da peça, vieram logo dizer: Olhe, está cá, o senhor dizia e era verdade, cá está o outro fragmento com a representação do olho. As duas partes fazem um olhar.

Eu conhecia materiais já escavados, encontrados pelo Veiga Ferreira, vasos com aquelas formas, com o nariz, no fundo uma representação humana. Hoje discute-se se aquele triângulo-nariz não seria a representação do ser feminino, o púbis, o que é possível porque uma coisa é pensar-se no vaso como a representação de uma face e outra coisa é pensar-se na representação de um corpo. Portanto, eu tinha uma interpretação diferente, a minha interpretação era mais cultural que o das outras pessoas. E para quê eram os olhos? Para ver, como acontece com os barcos que tem um olho de um lado e do outro, que é para verem o caminho. As pessoas continuam a por o São Cristóvão para ajudar no caminho, continuam a fazer as mesmas coisas. Essas eram as nossas conversas e isso era importante.

Não há nenhuma ossada completa no espólio da Anta Grande do Zambujeiro?

Havia o problema da recolha e de levantamento dos ossos. Nós levantamos o que foi possível. Nós embrulhamos os fragmentos de ossos que iam se desfazendo. Mas não há propriamente nenhum conjunto, uma ossada. Havia tíbias, costelas…

E o Marcelino?

Chamavam-lhe o Marcelino, porque era o mais próximo de um indivíduo, via-se que estava ali, sei que ele tinha a cabeça caída, muito próxima da bacia, mas era sobre as coxas. Sim, há na colecção restos de dentes, maxilares, e algumas costelas. O Marcelino não tinha placa. A mandíbula estava caída sobre as coxas, o que dava a ideia de ele estar encostado, talvez tenha sofrido um processo de mumificação, com ervas e salitre, um pouco a semelhança das práticas da América do Sul. Mas o Marcelino estava com pedras à volta, o que significava que o corpo não se segurava, não havia rigidez cadavérica, porque não foi feito assim. É a única coisa que eu posso concluir, porque desapareceram as articulações, etc. Também pode acontecer que houvessem mumificações fora da Anta, e que colocassem os ossos em colecções, porque houve forma de inumações em que o corpo era representado somente pelas partes mais duráveis.

E como é que organizava as suas pesquisas de campo, que incluem a identificação de muitas antas e menires? Além do Cromeleque dos Almendres que é concomitante a Anta Grande do Zambujeiro, podemos mencionar a descoberta, em 1966, do Cromeleque da Portela de Mogos, em 1967, o menir da Herdade das Reboladas, em 1969 o menir da Herdade da Correia, etc., ao ponto de ficar conhecido como o “pai dos menires”?

Foi o Otávio Veiga Ferreira, do Museu dos Serviços Geológicos que brincava: aqui está o homem que inventou os menires, o homem descobridor dos menires. Encontrei, encontrei como as pessoas encontram as coisas, têm o olho orientado em determinado sentido. Além disso, eu tenho uma rede enorme de colaboradores. Esses colaboradores são os caçadores, os guardas rurais, os pastores, são as pessoas com que eu ando. Eu contei o caso da Anta Grande do Zambujeiro, mas depois eu fazia passagens de slides, nas aldeias, e vinha tudo, os gaiatos a correr, eu a Maria de Jesus Zorrinho a passar aquilo, era preciso que eles vissem aquilo, e depois aparecia um homem e dizia: ah, eu estive a trabalhar num olival… Um homem que estava a trabalhar me disse que havia uma quantidade de coisas como estas… uns cilindros, estavam uns cilindros ao pé da horta, foi quem me mostrou o menir da Herdade do Pinheiro.

Foi a primeira pessoa a tomar atenção aos menires, a sua localização e ver que havia um padrão para o seu levantamento.

É como eu costumo dizer, às vezes, a gente olha mas não vê. Quando o senhor António Gadunhas veio me indicar o que era um dólmen enterrado, e outra coisa que era o Cromeleque dos Almendres, eu chorei, fiquei muito comovido, mais com o cromeleque do que com a própria Anta Grande do Zambujeiro. Porque com a Anta era uma espécie de proposta que eu havia de encontrar coisas em condições diferentes. E foi, eu fiquei convencido que, nos grandes dólmens, a maior parte da riqueza pode estar na parte exterior da mamoa…

…No átrio.

Se eles já desapareceram, como aconteceu com as antas menir, desapareceu com ela essa informação. Não é na parte de dentro que está a arca das libras. Aí podem estar os últimos enterramentos, e há dados que podem ser fundamentais para uma datação. O que pode acontecer com a Anta Grande do Zambujeiro, que pode datar o sismo que eu julgo que afectou, e muito, o monumento…

A escavação da Anta Grande foi o seu último trabalho de campo?

Foi. Nos dias da escavação, havia ao fim da tarde uma exposição do material que tinha aparecido. As pessoas de Valverde, o Augusto Farjado, a Joaquina, o António Sabina, o Daniel Garrinho, toda a gente da comunidade, os homens, as mulheres, os gaiatos, toda a gente vinha ver o que estava a acontecer nas escavações. E eu depois disse ao Armando Perdigão que o que havia a fazer era dar a guarda do monumento à comunidade de Valverde. Era a única forma de manter a salvaguarda do monumento. O presidente do Instituto de Agronomia, o Aires de Azevedo, me disse que a melhor coisa a fazer era uma espécie de cobertura, e fazer uma exposição local com réplicas de peças encontradas e uns painéis explicativos. Houve mesmo, nessa época, uma exposição em Évora, em que as peças foram apresentadas como “artesanato pré-histórico”, mas foi importante para a população da cidade, todos vieram ver a exposição.

E depois o material é depositado na sua casa…

Quando me entregaram o material em casa, eu estava de mudança para o Porto. Os materiais estiveram então na minha casa no Porto, depois vieram comigo de novo para o Sul, mas eu não tinha condições de empreender uma investigação daquela envergadura, nem sequer de espaço, eu trabalhava como professor, e era preciso a formação de uma equipa universitária. Em 1988, mais uma vez respondendo as solicitações das entidades púbicas, deposito, ou melhor, o espólio da Anta Grande do Zambujeiro é transferido para aos Serviços de Arqueologia do Sul, e logo de seguida fica em depósito no Museu de Évora.