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Tourada, a tradição mais polêmica da Espanha

Ao lado do flamenco e do jamón, a tourada é um dos signos de identidade da Espanha mais conhecidos do mundo. Entretanto, por razões políticas (os símbolos nacionais são rechaçados em muitas partes do país), por defender a vida dos touros ou simplesmente por não gostar de ver sua nação associada a clichês, muitos espanhois preferem ignorar essa atração que move paixões dentro e fora de suas fronteiras.

Apesar de ser uma imagem reconhecida internacionalmente, as corridas de toros (como são conhecidas as touradas em espanhol) ainda despertam muitas dúvidas. Em que época se pode ver uma? Por que se diz “olé”? Posso beber e comer durante o espetáculo? Hoje começa a Feira de San Isidro (veja o calendário aqui), um dos principais eventos ”de touros” da Espanha, e, abaixo, dou algumas pistas para compreender um pouquinho essa complexa tradição.

- As melhores e mais sérias touradas se realizam em Madri, na Andaluzia e em algumas cidades das Castilhas (como Salamanca). Não procure por elas em Barcelona, onde recentemente proibiram essa atração.

- Em Madri, a temporada oficial (que eles chamam de feria), com os melhores toureiros, começa em abril e vai até o verão, mas é possível ver corridas de março e até outubro. Outras cidades fazem calendários alternativos. Confira no portaltaurino.com e no mundotoro.com.

- A Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri, é a maior e mais conhecida do país. Fora da temporada, é utilizada para outros eventos, como shows e festivais (entre eles, o Oktoberfest de Madri). Nesse espaço, prepare-se para dividir o banco com muitos, muitos turistas, que nem sempre sabem o que vai acontecer durante uma faena (luta do toureiro com o touro).

- Os preços podem variar muito, de três a vinte euros, em média. Mas há entradas de até 300 euros. Isso depende da atração (José Tomás e Cayetano Rivera estão entre os toureiros mais famosos), da época e do lugar. No sol é mais caro que na sombra, por exemplo.  Não se pode entrar quando a tourada estiver rolando, portanto, se você chegar a atrasado, terá que esperar o intervalo.

- Uma vez lá dentro, não convém fazer baderna. É permitido beber e comer, em silêncio. Há quem leve seu lanchinho, mas o mais tradicional é comer pipas, as sementes de girassol, e jogar as cascas no chão. Você pode comprar cerveja dentro da própria praça de touros, nos bares ou com os ambulantes. Durante o espetáculo, eles sobem e descem as escadinhas, mas não passam na frente de quem está sentado. Se quiser algo, terá que passar o dinheiro de mão em mão e receber o produto da mesma forma.

- Em cada tourada, se apresentam seis touros e três toureiros, cada um com sua cuadrilla (“time”). As quadrillas são formadas pelos banderilleros, que cansam o touro cravando-lhe banderillas (espetos enfeitados). Em seguida, entra o picador, a cavalo, que continua o serviço de irritar e esgotar as energias do bicho. Só depois entra o matador, que, depois de torear, deve matar o touro com uma estocada na nuca.

- Se o touro não reage muito, pode ser desclassificado. Esse é o melhor destino que ele pode ter, pois significa que sairá da arena escoltado por várias vaquinhas e não vai lutar com o toureiro. Mas, na maioria das vezes, o bicho vai até o final. No caso de ser muito guerreiro, o touro também pode ser indultado, a pedido do público. Nesse caso, também vai pra casa com vida.

- Não se grita olé por qualquer coisa. Na verdade, não é fácil diferenciar um movimento sensacional de um qualquer. Mas normalmente se grita quando o touro tira um fino do toureiro. Preste atenção nos espectadores locais antes de soltar um por sua conta.

- Se o toureiro matar o bicho com sofrimento, o público vai reclamar. O bom toureiro acaba com a história com uma estocada.  Quando gostam do espetáculo, os assistentes acenam com lenços brancos ao presidente da tourada, que decide como será a premiação e se o toureiro pode cortar a orelha do animal. O auge é cortar as duas orelhas e o rabo e em seguida sair da Plaza carregado pela multidão.

SANGUE E AREIA

As touradas não são para qualquer um. Bom, não são para mim, pelo menos. Eu nem sou uma defensora dos animais fanática, mas achei um espetáculo muito chocante. Dá muitíssima pena ver o bicho cambaleando com as banderillas e o final é impactante. Mas acho que o mais triste é vê-lo caído e sendo arrastado no fim. O rastro de sangue na areia é uma das piores lembranças que tenho da Espanha. Não consegui assistir a mais de uma e saí da arena depois da primeira corrida, rumo ao primeiro bar de Ventas porque minha Madri é a das cañas (chopps) e tapas e não a dos touros.

Quem gosta do show argumenta que é muito pior cortar os testículos do boi e fazê-lo comer até explodir para depois virar bife. De fato, os touros de arena tem uma vida de rei antes de partir pro sacrifício. Uma coisa curiosa é que os toureiros são celebridades na Espanha, têm fãs e vida similar às de artistas e jogadores de futebol.

Os aficionados às touradas são chamados de taurinos, algo cada vez menos comum em cidades como Barcelona, por exemplo. Há um movimento na capital catalã para proibir as touradas há muito tempo e sua praça de touros deve virar em breve um shopping. Mas bem é verdade que quando um toureiro famoso se apresenta, a paixão se reacende por lá, como foi o caso de José Tomás recentemente (este toureiro, um “herói” para os aficionados, está atualmente se recuperando de uma cornada que levou no México). Nas ilhas Canárias a tourada está vetada desde 1991, mas em Madri, Valência e Múrcia a atração foi declarada Bem de Interesse Cultural.

PICASSO, VINHO E SANFERMINES

Se depender da quantidade de manifestações culturais que os touros inspiram na Espanha, a tourada não vai acabar nunca. Um dos principais pintores do país, Pablo Picasso, eternizou a tauromaquia em diversas gravuras realizadas antes da Guerra Civil Espanhola. Essas obras se caracterizavam por um forte conteúdo violento e sensual.

Os touros também influenciam o vocabulário dos espanhois. Várias gírias e expressões nasceram das touradas, como faena (trabalho duro), torear (duelar, discutir com alguém) ou coger el toro por los cuernos (encarar o problema, o desafio). Uma das imagens mais comuns do país é um desenho que imita a sombra de um touro, muito difundido em camisetas. Esse desenho se inspirou em uma propaganda clássica do vinho xerez Osborne, que mantém outdoors gigantes dessa imagem nas rodovias espanholas. A loja Kukuxumusu também faz camisetas hype sobre touros, mas com desenhos fofinhos e próprios.

Além das touradas, outra festa popular relacionada aos touros desperta polêmica: as celebrações de San Fermín na cidade de Pamplona. Para quem não está ligando o evento à cidade, se trata daquela loucura de soltar touros pelas ruas enquanto um bando de gente sai correndo na frente deles. Normalmente os que levam cornadas são estrangeiros. A regra é ir todo de branco, com um lencinho vermelho no pescoço.

Mas nem todo mundo que vai pra essa festa tem que arriscar a vida correndo dos touros. Os sanfermines são mais ou menos equivalentes a um carnaval em Salvador. Todo jovem espanhol sonha com passar essa semana (de 6 a 14 de julho, em pleno verão) em Pamplona, bebendo todas e dando muito beijo na boca. No primeiro dia, milhares de pessoas munidas com suas garrafas de cava, vinho, cerveja e misturas etílicas se reúnem perto da prefeitura para ver o alcaide da vez anunciar o início das festas, chamado txupinazo. Daí pra frente, Pamplona se enche de gente por todos os cantos, a maioria bêbada. Há uma estranha tradição de dormir na rua (principalmente nos dois últimos dias, que é quando chega mais gente) e se você passar pela cidade nessa época vai ver gente desmaiada em bancos de praça, na grama, em caixas eletrônicos ou estacionamentos. Reza a lenda que se você for flagrado entrando em um hotel, vira alvo de ovadas. Mas eu não conheço ninguém que tenha passado por isso, ou seja, se ficou interessado, garanta seu alojamento. 
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