Espanha‎ > ‎

Roteiro de carro pela Andaluzia

Cádiz, Jerez de la Frontera, Málaga, Granada, Sevilha e Córdoba: era esse o nosso roteiro inicial para uma viagem de pouco mais de dez dias de carro pela Andaluzia. Granada, Sevilha e Córdoba eram cidades que nos fazíamos questão de conhecer. As outras entraram no caminho como pousos seguros, para não ficarmos horas demais nas estradas.

Nosso ponto de partida foi Algeciras, onde desembarcamos da saída do Marrocos. Chegando à cidade em plena siesta, tivemos que fazer hora por ali, almoçamos, demos uma voltinha e constatamos que a cidade portuária não precisa mesmo de muito mais que isso.

Pit-stop na escondida Bolonia – A bordo de um Fiat Punto (o carro mais básico da locadora, com ar, direção hidráulica e CD player) seguimos nossa rota rumo a Cádiz, onde chegamos em pouco mais de duas horas. Cádiz é uma pequena cidade litorânea, cujo caminho tem praias escondidas por estradinhas perpendiculares. Seguindo o conselho de um espanhol que conhecemos no trem Marrocos-Tangier, paramos em Bolonia, apontada como uma das mais bonitas da região.

Sim, Bolonia é bonita, mas para quem mora no Rio de Janeiro e já foi
a dezenas de praias no Nordeste, está longe de impressionar. Constatação feita, colocamos o pé na estrada de novo e enfim chegamos a Cádiz. Cidade medieval, a entrada da cidade é marcada por uma espécie de portal que encanta logo na chegada.

A litorânea Cádiz – O Centro de Cádiz – de frente para o porto – é um labirinto que para nós foi impossível de ser cruzado de carro. Cádiz tem dezenas de bares do tipo mais tradicional na Espanha. Estabelecimentos até que foram abertos séculos atrás. Dizem que um dos pontos mais interessantes da cidade é a Câmara Oscura, uma torre onde existe uma espécie de telescópio que lhe oferece uma vista panorâmica da cidade. Mas boa parte disso a gente só ouviu falar.

Nos hospedamos num quartinho fofo de uma pensão qualquer, que
encontramos batendo perna na rua mesmo e, no dia seguinte, tivemos nossos planos turísticos interrompidos por uma greve geral. Vale dizer que greve geral em Cádiz é geral mesmo: bancos, estabelecimentos comerciais, repartições públicas, nada funcionava. Sem nem ter onde tomar café da manhã, optamos por uma volta na praia – bem mais bonita que Bolonia, diga-se de passagem – e encurtamos nossa estadia por ali.

Almoço em Jerez de la Frontera – A segunda parada foi Jerez de la Frontera, mais conhecida pelo autódromo que abriga provas de automobilismo e testes da Fórmula 1. Quando saímos do Brasil, nossa ideia era passar uns dois dias na cidade. Mas Paco, um espanhol que conhecemos no deserto do Saara, nos demoveu da ideia, convencendo-nos a ir para Arcos de la Frontera.

Como a greve geral de Cádiz teve adesão de diversas cidades da região, só em Jerez, que tem quase 200 mil habitantes, conseguimos um lugar para comer. Depois do almoço, um breve passeio confirmou o que Paco já tinha dito. Não é que Jerez não valha uma visita, mas é que ela não tem tantos “sítios” de interesse quanto outras cidades mais próximas. De barriga cheia, partimos para Arcos.

Pueblos Blancos – A chegada a Arcos de la Frontera impressiona. A cidade compõe uma região chamada Pueblos Blancos de Andaluzia. São séries de casinhas brancas espalhadas por colinas – pense em Santorini mas com oliveiras, vinhedos e campos tomados por moinhos de vento no lugar do mar. Mas, ao vivo, é bem mais bonito do que na sua imaginação, pode ter certeza.

Arcos não tem nem 30 mil habitantes e é praticamente dividida em parte alta (histórica) e parte baixa. Medieval e cheia de ruelas, a cidade tem um tráfego de carros bem complicado por pura falta de espaço. Mas se você não for a pessoa ao volante, pode até achar isso simpático.

‘Sopa’ de caracoles – Em Arcos ficamos numa pensão bem simples que pertencia ao dono do bar ao lado, o Zindicato. Foi mais um dos lugares em que ficamos sem nenhuma indicação e que acabou sendo uma ótima – embora bem simples – surpresa. O Zindicato tem um dono simpático, boa comida, cerveja a bom preço e toda quarta-feira tem um especial que faz o bar lotar: caracoles. É um caldo de caracóis que, pelo que vi, ao menos umas 100 pessoas tomaram naquele dia.

Ver tanta gente provando a mesma coisa despertou minha curiosidade e meu apetite, e valeu muito a pena. Provei um caldinho quente, superbemtemperado e a ‘brincadeira’ de chupar os caracóis de suas conchas é divertida e saborosa. Pode acreditar.

Do morro para a praia – O “casco” histórico de Arcos de la Frontera traz as fachadas todas pintadas de brancos, muitas com vasos de flores presos à murada. À noite o silêncio na rua permite até que se pense em fantasmas e a iluminação amarelada das ruas favorece e muito o romance. Depois de duas noites, porém, era hora de pegar a estrada de novo, rumo a Málaga.

Málaga também é litorânea e tem como um dos pontos mais
interessantes a Alcaçaba, uma fortaleza que data do Império Romano e no século XI serviu de base para governos mouros durante a invasão árabe. A disputa entre árabes e espanhóis é o que marca a Andaluzia – sua história e sua cultura, já que muitas construções foram concebidas na época dos conflitos e outras trazem uma nítida (e bela) mistura de referências.

A fortaleza de Alcaçaba – No alto da cidade, a Alcaçaba rende um longo passeio, oferece uma vista incrível da cidade, guarda relíquias, bonitos jardins e muitos arcos e entalhes ricos da cultura árabe. O centro de Málaga, moderno, também é bem interessante, com sua rua para pedestres que tem um caminho de luzes no chão que surpreende.

Mas Málaga não entrou para nossa lista de lugares preferidos da Andaluzia. Com quase 600 mil habitantes, foi a cidade onde nos sentimos mais inseguros – e as manchetes dos jornais sobre invasões de domicílios e roubos de carros reforçaram a sensação. Além disso, a praia, apesar do Mar Mediterrâneo, não é das mais impressionantes. Nada que a visita à Alcaçaba não compense.

Frustração em Granada – De Málaga, seguimos para Granada, que guarda a mais importante e imponente herança árabe na Espanha: Alhambra. Trata-se de um complexo com mesquita, palácios, banhos árabes, fortalezas e mais eu não sei dizer porque cometi ali o erro mais grave da viagem.

Contrariando todas as recomendações, não comprei ingressos com
antecedência. E não havia nada disponível para os três dias que passamos na cidade. O resultado disso é que Granada não chegou a nos encantar, e acabou virando mais um lugar para deixar o tempo passar com calma e planejar melhor o restante da viagem.

Tourada: a grande roubada – Granada é uma cidade cheia de estudantes, mas nós estivemos lá nas férias de abril. Os dias estavam cinzentos, frios e meio chuvosos e nosso único programa autenticamente espanhol foi uma decepção das grandes. Completamente desavisados, fomos a uma tourada. Nâo sabíamos que se tratava de um massacre de touros, nem de “esporte” tão sanguinário. Acho que foi a soma de todos esses fatores que nos deixou meio bodeados ali e acabou apressando nossa partida para Sevilha.

Sevilha, ao lado de Arcos, é minha cidade preferida na Andaluzia. É
animada, organizada, tem gente simpática e muito bonita, agito
noturno, construções históricas impressionantes e lá também se come
bem e barato. Como chegamos à cidade pouco antes do começo da Feria – a maior festa da cidade – os preços de hospedagem estavam exorbitantes e acabamos ficando muito mal alojados num quarto de pensão ruim com donos bem poucos simpáticos.

Sevilha, com direito a futebol – Felizmente, em Sevilha tem-se muito o que fazer e nós ficamos o mínimo possível na pensão. Quarta maior cidade da Espanha, ela guarda duas construções das mais impressionantes: Reales Alcázares (uma fortaleza composta de palácios, pátios e jardins que misturam culturas árabe e espanhola) e a Plaza de España, uma enorme área em semicírculo construída em 1929, que traz representações de todas as províncias espanholas num rico trabalho de azulejos. Não fosse o sol forte, teríamos ficado um dia inteiro ali admirando os detalhes. Também foi na cidade que vi meu primeiro jogo de futebol na Europa: Sevilha 4 x 1 Atlético de Bilbao.

Foi em Sevilha que provei o melhor montadito (pequeno sanduíche, no
pão de leite) da minha vida: camarão com creme de alho e queijo. Até
hoje fico com a boca cheia d’água ao lembrar e só ele já seria um
excelente motivo para voltar a Sevilha. O outro é a Feria, que por
falta de informação deixamos de visitar. Diziam que só valia a pena
se tivésssemos convites para as barracas, mas que eles eram dados e
não vendidos. Quando deixamos a cidade, pela TV, vimos que
apenas ter circulado entre as barracas, visto espanhóis vestidos
como dançarinos de flamenco e provado mais da cozinha da região já
teria sido um programão. Agora, só indo de novo.

Mesquita-Catedral em Córdoba – Nossa última parada andaluz foi Córdoba, cidade cujo centro histórico faz a gente se sentir no século passado – inclusive pela quantidade de gente circulando por ali. A grande atração de Córdoba é a Mesquita Catedral, uma mesquita construída em 756 e que ao longo dos séculos serviu como lugar de oração de muçulmanos e cristãos.

Logo na entrada do salão principal a geometria de colunas e arcos
árabes impressiona. E impressiona muito também a mistura de
elementos católicos, que datam da retomada da região pelos
espanhóis.

A catedral, sem dúvida, é o principal motivo para se visitar Córdoba, que também tem uma “Plaza Mayor“, entre outros pontos de interesse. Mas depois de mais de dez dias com o pé na estradas, a cidade também foi um ótimo pouso para relaxar, deixar o tempo passar sem pressa. O Hostal Maestre, onde ficamos, foi nossa melhor parada na Andaluzia, a um preço bem melhor que nas outras cidades. Depois de dois dias ali, seguimos para Madri, para a etapa final – e mais mochileira – da viagem.

O bom e o ruim de pegar a estrada – Viajar de carro é uma curtição, mas como tudo na vida tem aspectos positivos e negativos. O melhor é a liberdade de ir e vir, a chance de descobrir um cantinho simpático com uma vista bacana a ser apreciada (Castillo de la Duquesa, no nosso caso) e a possibilidade de deixar na mala toda aquela tralha que não será usada – presentes e roupas sujas, por exemplo.

O lado negativo é o estacionamento e a dificuldade de se transitar
pelos centros históricos das cidades. Não foram poucas as vezes em que nos deparamos com becos sem saída ou ruas tão estreitas que o carro não passava, também nos perdemos um tanto em labirintos
medievais. Mas o pior sem dúvida é encontrar vaga para deixar seu
carro, já que a maior parte dos hostais mais baratos não oferece estacionamento.

Gasto e cansaço que compensam – Em Cádiz e Málaga, pagamos pelo pernoite num subterrâneo (e em Málaga isso nos custaria 24 euros, não fosse o convênio do hostal). Nas outras cidades, conseguimos vagas na rua, mas nos sentíamos obrigados a diariamente ir checar se estava tudo bem com o carro.

Outra coisa que deve ser avaliada é o desgaste do motorista e o investimento em combustível. Lembro que à época (abril de 2007), os preços do diesel na Espanha equivaliam aos da gasolina no Brasil.
Além disso, fazer a mesma viagem de ônibus, trem ou outros meios de transporte coletivo seria muito mais cansativo.

Para evitar cansaço de quem estava ao volante, fizemos um roteiro em que nosso tempo máximo de estrada foram quatro horas – e já no caminho final, de Córdoba a Madri. No mais, viajar pela Espanha é uma delícia, as paisagens são lindas (muitos campos de margarida) e as estradas são impressionantemente bem conservadas e sinalizadas. Se sua vontade é se jogar na estrada, vai fundo.
Comments