Como pão p'ra boca ...


Regularmente, esta página vai dar a conhecer poemas e poetas. São para nós como o pão p'ra boca...  

                                                                                                                                                                                                                          Home

 

 

 

                                                                                                                                                                                                               

 

 

A BE - instalações

A Equipa

Página do Patrono

Notícias

Plano Anual

Regulamento

Guias de Utilização

Biblioteca OnLine- Links Temáticos

Entra no Blog

Endereços úteis

Novidades na Biblioteca

Um livro de vez em quando

Como pão p'ra boca ...

Filmes que podes ver

Podemos aprender com os

outros 

E-Livros

 

 

 

 

 

O baile da Biblioteca

 

Sou o vosso professor

e sei dum baile de gala

que se dá todas as noites

nas estantes da vossa  sala

Olha Ulisses o argonauta

a dançar com o mar à proa

Aquele é o senhor Fernando

 a dançar com a sua Pessoa

Olha o mestre Gil Vicente

entre a rainha e o bobo

aquele à frente é o Aleixo

é o poeta do povo

É o baile da biblioteca

Sai o Zorro de rompante

duma lombada de couro

a declarar-se emigrante

para a Ilha do Tesouro

Ao piano o Conde d' Abranhos

não dá sinais de abrandar 

e é preciso o sol nascer

para o baile acabar

 

Ouve-se então Dom Quixote

largando da mão a lança

Vamos dormir criaturas

que amanhã também se dança

 

                  Carlos Tê

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A poesia está à nossa volta. Em momentos bons...ou maus, com muita alegria ou grande tristeza, levantando a voz para denunciar a injustiça ou baixando-a para falar de Amor.

A poesia anda por aí. Alguma veio ter à biblioteca e ficou por cá.

Para nosso prazer e deleite.

 

                  Memória sobre os teus olhos, António Gedeão

   Magníficos.
   como os jactos que aguardam no aeroporto o iminente sinal da partida,
   seus grandes olhos imensos escorvam, impacientes,
   o subsolo da imagem pressentida.
   Perfurantes como as brocas dos mineiros,
   pontas de aço-vanádio
   que o cubro alcançam sem perder o gume,
   um fogo o olhar o queima, um mar invade-o,
   um lume feito de água, água de lume.
   Súbito, seus grandes olhos imensos descolam e levantam voa.
   Ei-los que sobem.
   Seu movimento é como se apenas as coisas deles se afastassem,
   é como se move o tempo, sem agravo nem estrago,
   como boiam as folhas na dormência do lago,
   como bate o coração do homem enterrado no chão.
   Na estática subida a que se entregam
   são o próprio silêncio em que navegam,
   são a curva do espaço,
   a quarta dimensão.
   Cá em baixo,
   onde as superfícies se avaliam
   multiplicando pi por érre dois,
   um formigueiro de bois
   desenha na planície coloridos talhões.
   Cumprem-se as sementeiras.
   As cores são as bandeiras;
   os regos, os limites das nações.
   Um rabiar de células,
   Cultura de bactérias num capacete de aço,
   ziguezagueiam, obstinadas como libélulas,
   num charco de sargaço.
   Entretanto,
   seus grandes olhos imensos olham, e olhando,
   no desígnio frontal que não hesita nem disfarça,
   com linhas de olhos vão bordando a talagarça.
   Sento-me à secretária,
   preparo-a, limpo-a, esfrego-a
   na aflita busca do mais puro espaço,
   e com o esquadro e a régua,
   o lápis e o compasso,
   construo os olhos d'Ela.
   Deliberada e escrupulosamente
   ergue-se a construção de arquitectura mansa,
   quase cinicamente,
   como quem premedita uma vingança.
   (Aliás
   o engano, a ilusão,
   a mentira, a falsidade,
   o perjúrio, a invenção,
   tudo, em Amor, é verdade.)
   Eis os mais lindos olhos deste mundo.
   O Amor os fez.
   Proas de galeões de velas pandas,
   meninas a correr que chegam às varandas
   olhando o mundo pela primeira vez.
   Dou-lhes uns toques nas íris, um tempero
   na plácida inocência,
   um miligrama de cianeto, morte sem desespero,
   acicate da humana permanência.
   Sobre o fundo sombrio um tom de folha seca
   de plátano, uns veios
   de clorofila,
   mancha irisada
   em redor da pupila,
   óleo vertido no asfalto da estrada.
   Encosto o rosto às mãos, e embevecido
   contemplo a construção de linhas,
   e finjo-me esquecido
   como se não soubesse que são minhas.
   Como se não soubesse
   comovo-me e entrego-me no sorriso total,
   Construo o meu real
   conforme me apetece.

 
 Busque Amor…”, Camões

 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

Para matar-me, e novas esquivanças,

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar perdido lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal que mata e não se vê;

 

Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê.

 

 

 

     Lúbrica, Cesário Verde

 

Mandaste-me dizer,

No teu bilhete ardente,

Que hás-de por mim morrer,

Morrer muito contente.

 

Lançaste no papel

As mais lascivas frases:

A carta era um painel

De cenas de rapazes!

 

Ó cálida mulher,

Teus dedos delicados

Traçaram do prazer

Os quadros depravados!

 

Contudo, um teu olhar

É muito mais fogoso,

Que a febre epistolar

Do teu bilhete ansioso:

 

Do teu rostinho oval

Os olhos tão nefandos

Traduzem menos mal

Os vícios execrandos.

 

Teus olhos sensuais,

Libidinosa Marta,

Teus olhos dizem mais

Que a tua própria carta.

 

As grandes comoções

Tu neles sempre espelhas:

São lúbricas paixões

As vívidas centelhas…

 

Teus olhos imorais,

Mulher, que me dissecas,

Teus olhos dizem mais

Que muitas bibliotecas!

 

 

   “Os versos que te fiz”, Florbela Espanca  

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim para te oferecer.

 

Têm dolências de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder…

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu amor, eu não tos digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu não te dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

 

 

    "Quinta Canção em Lisboa”,  Joaquim Pessoa

 

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada

e depois, eu sei lá, enlouquecer.

Que a loucura é quase um grão de nada

e tu tens um nome de mulher.

 

Ou dizer que és a minha namorada.

Devagar. Não vá alguém saber

que fizemos amor de madrugada

e tu trazes um filho por nascer.

 

Se eu inventar de noite a liberdade

de poder beijar-te os olhos e morrer,

no teu ventre não há fado nem saudade

mas apenas os filhos que eu fizer.

 

E pode ser que eu guarde a tempestade

de ter que aqui ficar. E então dizer

que sobre a minha boca ninguém há-de

pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

 

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada

e depois, eu sei lá, enlouquecer…

 

 

“Saudade do teu Corpo, António Patrício

 

Tenho saudades do teu corpo: ouviste

correr-te toda a carne e toda a alma

o meu desejo – como um anjo triste

que enlaça nuvens pela noite calma?...

 

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)

sempre comigo: deita-se ao meu lado,

dizendo e redizendo que não mentes

quando me escreves: «vem, meu todo amado…»

 

É o teu corpo em sombra esta saudade…

Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:

a luz do seu olhar é escuridade…

 

Fecho os olhos ao sol pra estar contigo.

É de noite este corpo que me assombra…

Vês?! A saudade é um escultor antigo!

 

 

     

      “Canção”, Fernando Pessoa

 

Dá a surpresa de ser.

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver

Seu corpo meio maduro.

 

Seus seios altos parecem

(Se ela estivesse deitada)

Dois montinhos que amanhecem

Sem ter que haver madrugada.

 

E a mão do seu braço branco

Assenta em palmo espalhado

Sobre a saliência do flanco

Do seu relevo tapado.

 

Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?

 

 

“Fado”, Natália Correia

 

Falam de nós na cidade

Porque dizem que te ofereço

Coisas de que não disponho,

Como se fosse maldade

Dar-te os olhos para berço

E os cabelos para sonho.

 

Dizem que quando eu me deito

Contigo uma lua negra

Vem fazer o casamento.

Como se fosse defeito

Saber que a vida não chega

Para o nosso sentimento.

Lá porque o nosso passeio

É uma fuga das grades

Que em cada gesto partimos,

Dão um nome muito feio

Àquelas intimidades

Em que ficando, fugimos.

Dizem que este desatino ´

É a maldita lembrança

Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino

E mesmo que seja herança

É legado natural.

Porque é virtude tocar-te

Tu és mais puro que um deus

Purificas o que afagas.

Meu amor, só de afagar-te

A minha mão chega aos céus

E sou mais forte que as pragas.

 

 

“Última Canção de Amor”, Leonel Neves

 

Se chamo por ti,

já não há espadas, saudades, tédio ou solidão:

estás sempre aí

e és paz, esperança e perdão.

 

Mais que estrada, mais que estrela,

asa ou barco a me chamar,

o teu corpo é a courela

que o meu corpo quer lavrar.

 

Pões na minha a tua mão,

ao ouvires o teu nome.

Mais que um céu és como um chão

que me diz: repousa e come.

 

E é bom sentir fome

de ti como o único pão.

 

 

                 " O Rictus”, Ary dos Santos

 

           Meu amor                   meu amor

           gritar é proibido

          Por dentro do gemido

           teremos de passar

            como um nervo atingido

            do movimento ao esgar.

 

           Meu amor                   meu amor

          sofrer é proibido

         No tempo apodrecido

          só podemos estar

         mas sem outro sentido

               senão o de acabar.    

 

           Meu amor                   meu amor

          meu nó de sofrimento

          minha nau de ternura

          minha mó de tormento

este mar não tem cura          este céu não tem ar

  nós parámos o vento           não sabemos nadar

 e morremos           nascemos

      devagar           devagar 

 

 

                     “…”,Rosa Lobato de Faria

 

Afirmas que brigámos. Que foi grave.

   Que o que dissemos já não tem perdão.

   Que vais deixar aí a tua chave

   e vais à cave içar o teu malão.

Mas como vais destrinçar os nossos bens?

   Que livro? Que lembrança? Que papel?

   Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.

   Não te devolvo - é minha - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho.

   Não sei se o queres levar, já está no fio.

   E o teu casaco roto, aquele vermelho

   que eu costumo vestir quando está frio?

A qual de nós pertence este destino?

   Este beijo era meu? Ou já não era?

   E o que faço das praias que já não vimos?

   Das marés que estão lá à nossa espera?

E a planta que eu comprei e tu regavas?

   E o sol que dá no quarto de manhã?

   É meu o teu cachorro que eu tratava?

   É teu o meu canteiro de hortelã?

Dividimos ao meio as madrugadas?

   E a falésia das tardes de Novembro?

   E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

   De quem é esta briga? Não me lembro.

 

 

      “Nocturno”, David Mourão- Ferreira

 

O desenho redondo do teu seio

tornava-te mais cálida mais nua,

quando eu pensava nele…Imaginei-o,

à beira-mar, de noite, havendo lua…

 

Talvez a espuma, vindo, conseguisse

ornar-te o busto de uma renda leve

e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,

em ti, a branca irmã que nunca teve…

 

Pelo que no teu colo há de suspenso,

te supunham as ondas uma delas…

Todo o teu corpo iluminado, tenso,

era um convite lúcido às estrelas…

 

Imaginei-te assim à beira-mar,

só porque o nosso quarto era tão estreito…

- E, sonolento, deixo-me afogar

no desenho redondo do teu peito…

 

 

 

   Carta a Ângela, Carlos de Oliveira

 

 

Para ti, meu amor, é cada sonho

de todas as palavras que escrever,

cada imagem de luz e de futuro,

cada dia dos dias que viver.

 

Os abismos das coisas, quem os nega,

se em nós abertos inda em nós persistem?

Quantas vezes os versos que te dou

na água dos teus olhos é que existem!

 

Quantas vezes chorando te alcancei

e em lágrimas de sombra nos perdemos!

As mesmas que contigo regressei

ao ritmo da vida que escolhemos!

 

Mais humana da terra dos caminhos

e mais certa, dos erros cometidos,

foste de novo, e sempre, a mão da esperança

nos meus versos errantes e perdidos.

 

Transpondo os versos vieste à minha vida

e um rio abriu-se onde era areia e dor.

Porque chegaste à hora prometida

aqui te deixo tudo, meu amor!

 

 

               Um Fado: palavras minhas, Pedro Támen

 

Palavras que disseste e já não dizes,

palavras como um sol que me queimava,

olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus, e mais felizes.

 

Palavras que disseste e que diziam

segredos que eram lentas madrugadas,

promessas imperfeitas murmuradas

enquanto os nossos beijos permitiam.

  

Palavras que dizias sem sentido,

sem as quereres, mas só porque eram elas

que traziam a calma das estrelas

à noite que assomava ao meu ouvido…

 

Palavras que não dizes, nem são tuas,

que morreram, que em ti já não existem

- que são minhas, só minhas, pois persistem

na memória que arrasto pelas ruas.

 

 

  Teoria do Amor, Manuel Alegre

 

Amor é mais do que dizer.

Por amor no teu corpo fui além

e vi florir a rosa em todo o ser

fui anjo e bicho e todos e ninguém.

 

Com Bernard de Ventadour amei

uma princesa ausente em Tripoli

amada minha onde fui escravo e rei

e vi que o longe estava todo em ti.

 

Beatriz e Laura e todas e só tu

rainha e puta no teu corpo nu

o mar de Itália a Líbia o belvedere.

 

E quanto mais te perco mais te encontro

morrendo e renascendo e sempre pronto

para em ti me encontrar e me perder.

 

 

      Um Campo Batido pela Brisa, Fernando Assis Pacheco

 

A tua nudez inquieta-me.

 

Há dias em que a tua nudez

é como um barco subitamente entrado pela barra.

Como um temporal. Ou como

certas palavras ainda não inventadas,

certas posições na guitarra

que o tocador não conhecia.

 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo

para um lado misterioso e frágil.

Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe

contorno, peso. Destrói o meu corpo.

A tua nudez é uma violência

suave, um campo batido pela brisa

no mês de Janeiro quando sobem as flores

pelo ventre da terra fecundada.

 

Eu desgraço-me, escrevo faço coisas  

com o vocabulário da tua nudez.

Tenho “um pensamento despido”;

maturação; altas combustões.

De mão dada contigo entro por mim dentro

como em outros tempos na piscina

os leprosos cheios de esperança.

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete

que lanço com mão tremente desastrada

para rebentar e encher a minha carne

de transparência.

 

Sete dias ao longo da semana,

trinta dias enquanto dura um mês

eu ando corajoso e sem disfarce,

iluminado, certo, harmonioso.

E outras vezes sucede que estou: inquieto.

Frágil.

Violentado.

 

Para que eu me construa de novo

a tua nudez bascula-me os alicerces.

 

      “Morrer de Amor”, Mª Teresa Horta

 

Morrer de amor

ao pé da tua boca

 

desfalecer

à pele

do sorriso

 

sufocar

de prazer

com o teu corpo

 

Trocar tudo por ti

se for preciso

 

 

      Fado Alexandrino”, Fernando Pinto do Amaral

 

Se neste mundo o amor fosse paixão justa

bem repartida entre quem ama e é amado

ninguém faria tanta coisa que me assusta

ninguém cantava letras como a deste fado

 

Se para os homens o amor fosse coisa boa

que só lhes desse algum prazer e alegria

ninguém que muito amasse alguém andava à toa

e um coração apaixonado não doía

 

Se nesta vida o amor fosse um sentimento

que desse mais que a cada noite uma ilusão

nenhum amante lançaria assim ao vento

tantas mentiras e promessas sem razão

 

  Se cada amor fosse maior do que um desejo,

 do que esta febre que afinal não vale nada,

talvez o fogo que se acende em cada beijo

ainda brilhasse para lá da madrugada

 

 

 

 

             “Soneto do amor maior”, Vinícius de Moraes

 

Maior amor nem mais estranho existe

Que o meu, que não sossega a coisa amada

E quando a sente alegre, fica triste

E s a vê descontente, dá risada.

 

E que só fica em paz se lhe resiste 

O amado coração, e que se agrada

Mais da vida eterna aventura em que persiste

Que de uma vida mal-aventurada.

 

Louco amor meu, que quando toca, fere

E quando fere, vibra, mas prefere

Ferir a fenecer – e vive a esmo

 

Fiel à sua lei de cada instante

Desassombrado, doido delirante

Numa paixão de tudo e de si mesmo.

 

 

“Manhã”, Nuno Júdice

 

Estar contigo ao acordar, ver como

se abrem as tuas pálpebras, cortinas

corridas sobre o sonho, sacudir dos

teus lábios o silêncio da noite para

que um primeiro riso me traga o dia:

 

assim, amor, reconheço a vida que

entra contigo pela casa, escancara

janelas e portas, deixa ouvir os pássaros

e o vento fresco da manhã, até que voltas

para junto de mim, e tudo recomeça.

 

 

  Coração Habitado, Eugénio de Andrade

 

Aqui estão as mãos.

São os mais belos sinais da terra.

Os anjos nascem aqui:

frescos, matinais, quase de orvalho,

de coração alegre e povoado.

 

Ponho neles a minha boca,

respiro o sangue, o seu rumor branco,

aqueço-as por dentro, abandonadas

nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

 

Alguns pensam que são as mãos de deus,

- eu sei que são as mãos de um homem,

trémulas barcaças onde a água,

a tristeza e as quatro estações

penetram, indiferentemente.

 

Não lhes toquem: são amor e bondade.

Mais ainda : cheiram a madressilva.

São o primeiro homem, a primeira mulher.

E amanhece.