poema de natal

 Natività _Giotto

 (fresco,200x185, 1303-1304 - Padova, Cappella degli Scrovegni)

Tanta luz
Tanto brilho
Ouro que ofusca
Olhos em desvario
Certeza de um coração imenso
Apenas porque é natal.


Avé, Maria.                                           
Nasce Menino.
Sonha outro caminho.


E eu!
Eu sou pecadora, Senhor.


Quando me encontro a sós Contigo
Envergonho-me desta fraqueza
Assustada Te procuro
E quanto mais Te conheço
Prostro-me perante a grandeza
Ilumino o obscuro
Quedo-me e obedeço.


Avé, Maria.
Nasce Menino.


Oculta as luzes
Apaga a festa
Inventa um homem novo.

 
Tanto brilho
Tanta luz.
Tantas mesas de lugares vazios.


E eu!
Eu sou pecadora, Senhor.


À luz da tua manjedoura
Rasgo estradas no coração
Reinvento horizontes
Renasço em cais de partida
Busco em mim uma nova dimensão.

 

Tanto ouro.
Tanto nada.


Avé, Maria.
Nasce Menino.
Desbrava os céus com azevinho.


E eu!
Eu sou pecadora, Senhor.


Quando olho este campo cultivado
Encontro ervas daninhas que o consomem.
Tanto mar tempestuoso.
Tanta mesquinhez, tanta miséria!
E se me interrogo «porque me fizeste assim?»
Descubro que o campo é amado
E em ti, Senhor,
Encontro o meu repouso
Renascendo no âmago de mim.


Tanto de tanto.
Tanto de tão pouco.
Ouro que ofusca
Olhos em desvario
Certeza de um coração imenso
Apenas porque é natal.


Avé, Maria.
Nasce Menino.
Envolve o mundo
De outra luz.


E eu!
Eu voltarei a pecar, Senhor.


E no silêncio da minha alma
Buscarei em Ti a força para semear,
Serei operária da vida
E tecerei de luz e esperança
A conjugação do verbo amar.


Sou pecadora, Senhor.
E o meu pecado é saber que voltarei a pecar!

 

Avé, Maria.
Nasce Menino.
Rompe as águas
E inventa outro destino.


Tanto ouro.
Tanta luz.
Tanto nada.


Busca de uma paz
A banir todo o mal
Sonhos com sabor a mirra.
Sonhos de Natal.

  Virgínia Rafael