novo sermão de S. António...

pregado na Biblioteca da Escola Secundaria Alcaides de Faria

                                                                                                                  Dez.07 

Jovens, sois vós a luz da Terra! Mas ela está às escuras. Ou é porque os homens são cegos, ou é porque a luz é fraca. Ou é porque os homens não querem ver, ou é porque a luz se esconde. Ou é porque não a acendem, ou é porque ela se apaga.

Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

Perante isto, o que é que se há-de fazer?

(toca um sino)

Já Camões sentiu a Terra às escuras.

E a alma grande! Faltava iluminá-la para que todas a vissem, mas continua sem luz.

Jovens, onde está a inspiração?

Ó Deuses, iluminai-os! Dai-lhes o uso, que só têm a Razão. Há que vencer o monstro outra vez.

Eu vi, eu vi o Gama combater e o leme vencer. Eu estava lá, tinha caído na nau, porque a onda que me lançara era gigante! Atordoado, quase esmigalhado, da noite de breu se fez luz e a Índia sorriu. Uma Índia bela, rica… sonhos infindos…

Vede, jovens, quão importante é passar além do Bojador! Quanto mais longe dos medos, melhor!

Vencemos, passamos e o Império se fez!

Mas os homens não merecem o que ganham e conquistam.

Vede a cobiça, a ganância, a hipocrisia, a mentira; o que fazem com elas…

E o Império se desfaz! Volta o monstro e os medos. Ah! Camões, grande Camões, jamais o merecerão.

São fracos os homens, hipócritas, vis, desprezíveis…

Ó luz da terra, salvai-a que está de novo às escuras! Honrai o Portugal Bandarra; o Portugal Vieira, sagrados por Deus os profetas que nunca mais passam de sinais.

Posto isto, é pois a vós, jovens, que caberá a missão de enterrar definitivamente

El-Rei D. Sebastião que impede os homens e portugueses de avançar no caminho, porque ainda hoje contam com ele para os salvar. Olhai em volta. A terra está doente, os homens cegos; os espíritos perdidos vagueando ao fedor do tempo podre, 2007, século XXI… e eu, peixinho do mar… eu… eu vi, eu estava lá. Eu vi o Gama vencer o monstro:

-“Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas?”

-“Aqui ao leme sou mais do que eu: sou um Povo que quer o mar que é teu.” E eu, peixinho do mar… eu vi, eu vi… eu sofri… para quê tanta dor?

“Ò mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantas filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso  ó mar!”

Vede, jovens, luz da Terra, “valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor.”

Eis o terceiro sinal profético: Portugal Pessoa!

É pois a vós, jovens, que caberá ainda a missão de dominar os medos que cegam os homens:”

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

E então valerá finalmente a pena!

E a alma será finalmente grande!

(Salta alguém da plateia que grita)

- Impostor, quem és tu?

- Eu sou o  peixe que escutou o jesuíta Vieira, em S. Luís do Maranhão, a 13 de Junho de 1654 e que aprendeu o que tu, homem, desprezaste, sim, e que agora fala para ver se escutas, tu, o que o uso sem Razão tem para te dizer. Por isso, quero hoje voltar-me do mar à terra e já que os homens se não aproveitam, pregar aos jovens.

E para que vejais o quanto podeis ser luz no mundo dos homens, não vos esqueçais, jovens, dos maus exemplos apontados aos meus irmãos peixes, por António Vieira: aos roncadores, que simbolizam os homens que incham pelo poder e pelo saber; aos pegadores, como os parasitas da sociedade que sugam os seus semelhantes até ao tutano; aos voadores, que não se contentando com a sua condição, se deixam levar pela ganância e se auto-destroem e ao polvo que simboliza a traição entre os homens. Só que enquanto nos peixes isto é a lei da Natureza, nos homens é a perversão e a corrupção do espírito.

E a corrupção do espírito leva à escuridão e às trevas, por isso, numa réstea de esperança, vós, a Luz da Terra, salvai-a! (Ainda é tempo!)

                                                                                                                                                                                                            Por Méssá

(interpretado na BE/CRE da ESAF, por Rui de Campos, em 12.Dezembro.2007, numa sessão lúdico-cultural enquadrada nas actividades regulares de dinamização da Biblioteca Escolar – Projecto: “Biblioculturarteliteratura”)