Fahrenheit 451
 

A realidade que Fahrenheit 451 nos dá a ler/ver é a de um tempo e de um espaço, num futuro incerto, em que a tecnologia está ao serviço do totalitarismo e tudo controla, as pessoas, as suas mentes, a realidade. Num mundo de personalidades unidimensionais, onde até a felicidade é aferida segundo normas impostas à consciência, toda e qualquer emergência da liberdade de pensamento é pura e simplesmente punida e abafada. Os seres humanos que ousem ler e pensar por si, são vistos como perigosos para uma sociedade que nos diz a todo momento qual o caminho mais curto para se ser “feliz”, não pensando.

Nesta “distopia” (afinal o lado negro da Utopia) quem ousa ler, fá-lo clandestinamente. A denúncia é uma prática comum e o livro considerado um objecto maldito e altamente nefasto que urge queimar até às cinzas. Trabalho realizado, paradoxalmente, por brigadas de “bombeiros” que, em vez de apagarem fogos, incendeiam livros. Sempre em guarda face às denúncias e às suspeições, cumprem escrupulosamente, sem se questionarem, as ordens para a queima de livros e a prisão daqueles que ousam ler.

Porém, neste corpo de bombeiros, afinal queimadores de livros, um dos seus membros, depois de uma conversa com uma jovem que o faz reflectir sobre os livros que queima, irá pela primeira vez tentar descobrir afinal o que contêm os livros que incinera. Depara-se com algo que irá abalar todas as suas convicções. Uma experiência que o faz descobrir os sentimentos, que o faz pensar criticamente e reflectir, que o faz questionar os alicerces da sociedade totalitária em que vive, que o faz ter uma outra perspectiva sobre o que é ser humano. Depois disso tudo se precipitará neste filme que nos toca e que nos faz olhar para os livros de um outro modo. Que afinal a literatura é um reduto onde nos revemos como humanos complexos, multifacetados, tocados pela chama da beleza e da magia que em certos momentos nos surge depois de um virar de página.

Os livros, esses, continuam nos cérebros de alguns seres humanos que persistem em guardar na memória a beleza de um diálogo, de uma ensaio, de uma peça, de um poema…

E tu, que livro gostarias de ser?

JD / 08