Abril em Embrião por Virgínia Rafael

Script da performance apresentada na Biblioteca Escolar aquando da celebração da Revolução dos Cravos 2008

 Portugal

Eu sou Portugal. Sou um homem.

«País à beira mar plantado». Rectângulo incerto numa ponta da Europa. Voltado para o mar. Sou descendente de grandes nomes. Viriato, Afonso Henriques, Vasco da Gama.

Perfilhei Salazar, filho obediente. Durante meio século, escondi dos outros meus filhos o mar, porque nele se encetam voos e sonhos que não me convinha realizar.

Fiquei com os cofres cheiinhos de ouro. Meu filho queria para mim riqueza. Que importava estar sós no mundo? Estávamos orgulhosamente sós – dizia ele. Os portugueses tinham o que precisavam  - Deus, Pátria, Família. E sobretudo alguém que sabia o que era melhor para eles.

Eu sabia que alguns olhavam para o mar e até sonhavam. Mas logo tratei de lhes indicar o bom caminho. Para que precisavam de sonhos?

 

«Não hei-de morrer sem saber a cor da liberdade»

 

 

Liberdade

Eu sou a Liberdade.

Sou uma mulher. Não tenho rosto. Sou o rosto dos homens. Caminho no pensamento dos que me amam e no coração dos poetas, dos artistas, do homem e da mulher simples, do adolescente, do jovem, do velho perdido nos seus socalcos. Ando descalça, cabelos em desalinho, braços estendidos e mãos abertas. Nunca me sinto só. Colho almas e vidas, ideias e filosofias, gemino ciência e modernidade. Sou uma lança que aponta o futuro.

Todos me querem. Fizeram-me estátuas, deram o meu nome a ruas. Mas, na verdade, uns desejam-me mais do que outros. 

Sou poesia, música, romance interdito, filme proibido, pensamento atrevido.

Sou doce e terna. Eterna. E de todos os tempos. E de todos os espaços.

Quando alguns, na História, tentaram agrilhoar-me, nunca o conseguiram. Podem prender corpos, colocá-los em celas, gradeá-los. E eu continuo igual a mim mesma. Descalça e doce vagueando pelas artérias, rumo ao coração.

Moro em todos os lugares. Também moro em Portugal. Sou maltratada por ele. Com a sua virilidade inebria todos para que não me reconheçam. Mas há quem me ame nesse lugar inóspito, nesse deserto de ideias. Há quem me leve em silêncio e comigo se deite enroscado numa noite de estrelas, luzes, vozes, cânticos…Aqueles que me proclamam são castigados e esse castigo é feito exemplo para todos os que pensam amar-me.    

«Falta cumprir-se Portugal»

 

Poeta

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país                           
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam                 
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país                              
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento               
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia             

canções no vento que passa.

 

Mesmo na noite mais triste                  
em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste      

há sempre alguém que diz não.      

 

 

Mãe

Levaram-na…Vieram na calada da noite e ao romper da aurora, levaram-na…Amanhece o dia, amanhece a esperança, mas eles levaram a filha que criei. Dizem-me que ela anda com más companhias, que na fábrica se reúne com outros, que diz palavras perigosas. Tantas vezes lhe perguntei o que fazia. Temia uma filha ladra, uma filha assassina. Logo me apaziguou. Falou-me de coisas novas que eu não entendia, mas aquele brilho no olhar dizia-me, a mim, sua mãe, que  minha filha sonhava.

 Levaram-na…Levaram-na como se de um monstro se tratasse…E a minha filha tem palavras belas e doces ... Os meus sonhos não são quimeras impossíveis dizia-me ela. Sonhava com a liberdade, sonhava com o povo culto e sem fome, sonhava com um país onde os homens pudessem dizer o que sentiam e pensavam, sonhava com um Portugal com cheiro a cravo.

Levaram-na…Caxias, Tarrafal, Peniche…Fortes que aprisionam os corpos, mas não prendem as almas.

Quando fui vê-la, o seu corpo estava minguado, as mãos atracadas ao peito, mas no olhar o mesmo verde da esperança «Não me tiraram tudo, mãe».

Estou cansada.

Vou descalça, junto todos os tostões para lhe levar pão e fruta. À passagem do calabouço, atiro-lhe um tostão para que saiba que estou a chegar. Não me deixaram vê-la…Estremeci «mataram-na». Implorei, roguei, rezei. Só queria ver minha filha amada. Estes monstros que proclamam a família, ridicularizam o meu sofrimento. Arre, monstros, almas vendidas… A minha filha vale mais que vós. Creio em Jesus libertador. O meu Deus, o Deus do povo, o Deus do amor, o Deus homem que na cruz padeceu a morte não é esse Deus que vós proclamais e dizeis que amais sobre todas as coisas. Deus é misericórdia, mas a vós castigar-vos-á pelos cristos que na terra fazeis…

Quando me via desesperada e chorosa chegava-se a mim e dizia palavras de poetas. Parece-me ouvir a sua voz a entoar um poema que me ensinara …

 

     NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

 

Portugal

Parece-me que me transformo…Sinto-me frágil, adoentado. Morreu meu filho, outro o substituiu. Com o dedo em riste, veio dizer-me que eu agora sou um estado novo. As searas remexem-se, dos campos os gritos intensificam-se. Atordoam-me… Tudo em mim pulula numa contradição que não compreendo. Que quer este povo? Então não se está bem assim? Os soldados segredam. Eu bem os vejo. Irra.

Eu quero sossego. Estou farto de partir em naus. Servir reis orgulhosos, infantes loucos em viagens sem fim, republicanos de boas intenções, ditadores que se dizem misericordiosos.

Eu sou Portugal.

Vestido de verde sou as florestas de Portugal e de vermelho represento o sangue dos que morreram pela independência da Nação.

Eu sou Portugal. Eu sou Portugal.

Velho, balofo, caduco? Cansado, sim, cansado. Tanta história, tantas vitórias, tanta grandiosidade… Deixei-me ficar no meu canto. Que me governassem! Ouço ao longe passos…Adivinho novidades.

(passos ténues)  

 

Liberdade

Como és louco. Aprisionaram-te nessa governação. Convenceram-te que eras grandioso, humilde ao mesmo tempo, sério, honesto, convenceram-te que bastava estares quieto e que te vestiriam com essas cores. Florestas e mortos pela independência!?

 

 

Portugal

Passas a vida a desafiar-me. Seduzes-me. Às vezes até parece que estou apaixonado por ti. Quero-te e não te quero. Sei que se me entregar a ti corro riscos sérios. Tu és atrevida, volátil, doce, perfumada com cheiro a cravo…Eu nasci para dominar e tu és bem menina para me quereres dominar…

 

Liberdade

Nasceste para dominar? Acorda. Tu és dominado há meio século por esse filho e seus descendentes que tão bem acolheste.

Não temas. Eu sou liberdade-menina, liberdade-mulher, liberdade -mãe. Eu cuido dos que me querem, embalo-os.  Mostras-te altivo, intransponível, mas sei que todas as lágrimas que se derramam são «lágrimas de Portugal». Sabes tão bem como eu que esse verde de que te vestes é o despertar da vida, é a esperança mansa que embebeda quem já sente que a perdeu. Esse vermelho é a paixão que nutres pelos teus filhos, é o fogo que dança na mudança que agora pressentes. Deixa as florestas e os heróis. Outros heróis estão para chegar, abraça-os…

 

Portugal

Ouves os passos?

 

(passos mais vigorosos)

 

Liberdade

Ouço. Há muito mais tempo do que tu. Estes passos duram há cinquenta anos. Eram ténues, é verdade, mas eu ouvia-os. Agora são muitos e estão próximos.

 

Portugal

Sabes ao que vêm?

 

Liberdade

Não tarda que saibas ao que vêm. Abraça-me.

 

Mãe

Filha amada! O teu sofrimento não foi em vão. Adivinham-se novos tempos, os tempos por ti sonhados. Ouvem-se passos. Neles ouvem-se os gritos abafados de homens e mulheres que desejaram um Portugal livre.

 

 "Não Passarão

Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!»

 "Não tardes, que se faz tarde, Portugal!"

 

Uma voz

22h55m

24 de Abril de 1974

Emissores Associados de Lisboa

1ª senha:

Ordem de partida para a saída dos quartéis.

 

Canção

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

 

 (passos fortes)


Outra voz

0h20m

Programa Limite, da Rádio Renascença,

Transmissão da canção "Grândola Vila Morena" de José Afonso

Confirmação do golpe

Início das operações.

 

Todos os intervenientes cantam (José Afonso)

 

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

 

 

 

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra d’uma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

 

 

Cravo

Eu sou o cravo. Fui fecundado do amor entre Portugal e a Liberdade, do gesto simples de florista. Sou dádiva a soldado que ruma em paz.

Sou vermelho como o sangue derramado na guerra colonial, vermelho como o sangue que circula nas veias dos homens. Vermelho como o fogo que dança na mudança.

Adormecido no ventre da minha mãe, pressentia que o meu pai, Portugal austero, não me queria deixar nascer.

Um filho bastardo impunha as suas leis e regras, exercia a autoridade de tal modo que Portugal vergava-se, sujeitava-se, vivia na penumbra de si e do mundo.

Nos campos, os ventos faziam dançar as sementeiras de um tempo novo, nas fábricas o som das máquinas abafava sussurros de esperança. Aqui e ali ecoavam vozes que sonhavam com a minha mãe. Minha mãe-Liberdade…

E no ventre da minha mãe eu era pronuncio… Sinal…

Hoje sou vida, sonho, liberdade, cantiga, Portugal renovado, alegria nos rostos dos homens, gargalhada das crianças, admiração no olhar dos velhos, festa nas mãos das mulheres…

Tenho orgulho deste povo, o povo da revolução dos cravos…

ABRIL …ABRIL… Abril Primavera de esplendor nascido. Abril porta da vida. Abril semeado, Abril arado, Abril da apanha da flor reinventada.

25, 2+5 igual a sete, número da perfeição, número da busca e da capacidade interior,

7 dias da Criação do Mundo,

os 7 Raios da Luz Sem Fim,

o “7º Céu”,

os 7 Arcanjos do Trono de Deus,

os 7 degraus da Escada de Jacob,

7 cores do Arco-Iris,

os 7 dias da semana,

as 7 notas musicais,

7 virtudes humanas,

os 7 pecados capitais…

Sete que foi vinte e cinco…

Cumprir-me-ei sempre que exista alguém que diga não.


 

Alguém diz (Sophia de Mello Breyner)

Porque os outros se mascaram mas tu não           Joana
Porque os outros usam a virtude                           Ana Isabel  
Para comprar o que não tem perdão.                     Inês
Porque os outros têm medo mas tu não.                Sofia
Porque os outros são os túmulos caiados             Joana
Onde germina calada a podridão.                          Joana 
Porque os outros se calam mas tu não.                 Inês

Porque os outros se compram e se vendem          Ana Isabel
E os seus gestos dão sempre dividendo.              Ana Isabel
Porque os outros são hábeis mas tu não.             Sofia

Porque os outros vão à sombra dos abrigos         Inês
E tu vais de mãos dadas com os perigos.             Inês
Porque os outros calculam mas tu não..                todas

 

 

Uma voz

Trinta e quatro anos volvidos,

tantas esperanças esmorecidas,

tantos sonhos jazidos,

tantos cravos esquecidos.

 

Trinta e quatro anos

Abril menino

Abril criança

Abril adolescente

Abril adulto

E tantas almas em luto

Tantos braços erguidos

À espera de mudança.

 

Os ideais foram ficando à porta.

Adormecido o menino!

 

Embevecidos, alimentamo-nos do teu seio

Buscamos rios nos teus festejos de solenidade

com gente mascarada que finge o teu valor

e jura que tudo faz em nome da nação.

Abril só em embrião.

E agiganta-se o receio

Adensa-se a saudade

E baixinho balbuciamos não.

 

Abril quinto império.

Abril traz abrilada

Rasga o céu com outra asa

Repõe nesta terra a verdade

Abril, Abril sem idade.

A memória é ténue e manhosa

Nada como  te sepultar.

Inventaram para o meu país outros destinos

Abertura ao mundo

Obediência a outros valores.

 

As sevícias são outras

Economia e modernidade

Tecnologia

Globalização

Avanços da democracia

Empacotados em papel de ilusão

Sem lugar para a poesia.

E Abril, afinal, ainda em embrião.

 

Portugal continuas cansado.

Soergue-te deste jugo

O teu povo segue calado.

 

Portugal navegador de naus

De chão sem fundo.

Portugal tantas vezes adormecido

Com membros entorpecidos.

Portugal resgatado

Entregue ao desbarato.

Portugal de riqueza fingida

Estático num painel bordado.

 

Abril quinto império.

 

Este povo está doente.

Pensa e desiste

Sente e resiste

Age e está triste.

 

Abril Abril

Revolve as tuas águas

Entra na alma da minha gente

Mostra-lhe o caminho

Rumo à  fraternidade

Apazigua-lhe as mágoas

Diz-lhe onde mora a LIBERDADE.

 

 

Dito por vários intervenientes (Ary dos Santos)

 

"Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz                        
dos povos à beira-terra.

 

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas                        
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

 

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo          
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

 

Era a semente da esperança                
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

 

  

Era já uma promessa                           
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

 

Posta a semente do cravo                   
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

 

Foi esta força sem tiros                           
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

 

 

Foi esta força viril                                                            

De antes quebrar que torcer

Que em vinte e cinco de Abril

Fez Portugal renascer.

 

 

De tudo o que Abril abriu         
ainda pouco se disse                  
um menino que sorriu               
uma porta que se abrisse           
um fruto que se expandiu         
um pão que se repartisse           
um capitão que seguiu              
o que a história lhe predisse      
e entre vinhas  sobredos           
vales  socalcos  searas            
serras  atalhos  veredas            
lezírias  e praias claras             
um povo que levantava              
sobre um rio de pobreza           
a bandeira em que ondulava     
a sua própria grandeza!            


De tudo o que Abril abriu                        
ainda pouco se disse                                
e só nos faltava agora                               
que este Abril não se cumprisse."