emozão

"Emozão"

... ou eterno confronto entre Razão e Emoção / Emoção e Razão

texto de: Marieta Barbosa e Virgínia Rafael

Emoção:
Comovo-me.
Eu sou a comoção.
Contemplo.
O sol caído no horizonte, a estrela
que cintila no céu negro, o campo
que se estende...
Quieta, muda, observo e comovo-me
com gestos simples.

Razão:
Oh, sim, sim,
tão simples que perdes a
importância que poderias ter, que deverias ter!

Emoção:
Frívola, deixo-me vaguear...
A emoção...
E tu sempre pronta a lembrar o que
está certo. Ai, não te atrevas, não te
atrevas...

Razão:
O quê? Aqui quem dá ordens sou eu!
Nem tentes! Não te atrevas tu!

Emoção:
Queres-me hirta, rigorosa, lúcida,
bem comportada.
Como posso?

Razão:
Podes, claro que podes. Escuta-me, segue o meu exemplo. Eu nunca me envolvo nas coisas do coração. Sabes porquê? Porque não quero sofrer! A vida é demasiado efémera e fugaz para que não a viva com tranquilidade.

Emoção:
Ouve! Eu resido no âmago. No silêncio sombrio.

Razão:
Levanta-te, ouviste? Eu quero que te levantes! A comoção esmaga-te.
Escuta-me! Escuta-me!

Emoção:
Eu sou o riso simples de quem é feliz.
A mão dada a um adolescente
apaixonado.
A pirueta pueril da criança que finta
o amigo.
O rubor do primeiro beijo.
O bater leve e lento de um coração
que se desprende.

Razão:
Ah, sim.

E por isso também és
a decepção, a frustração, a raiva
a ira, a dor, a angústia. Quer
queiras, quer não, és
desassossego permanente.

Emoção:
Sabes lá como eu sou...

Razão:
Sei pois!

Emoção:
Sou a fome daquele corpo vítima do
poder de outros.
Sou a mulher retalhada que se
desdobra na vida.
Sou a mácula deixada no rosto
da criança maltratada.
Sou o homem vertical prestes a
desmoronar-se.
Não podes saber como fazem.
Porque tu não és..
.

Razão:
Não, realmente não sou, não quero ser
e jamais serei um joguete
nas tuas mãos.

Eu penso e porque penso, logo existo;
E se existo, logo quero, posso e mando!

Emoção:
Eu trago-os dentro de mim.
Eles levam-me sempre com eles.

Quando se recolhem nos seus
quartos o que nasce?

Razão:
Lá vai ela sentir.
Que maçada! Que maçada!

Emoção:
A raiva contida
O amor sofrido,
A palavra magoada,
A luta desistida,
As ilusões vendidas,
A esperança encarcerada,
A nódoa negra…
A nódoa negra que entope a alma.

E choram...E eu choro...

Razão:
Sois todos uns fracos!
Como me envergonham!
Não valem nada!
Não chegam sequer a ser nada.

Emoção:
Curvam-se sobre o ventre e doem as
entranhas
Rasgam-se as entranhas
Odeia-se, ama-se, resiste-se
E o ventre apoderado de dores
Saca do peito o coração
E ventre e coração anestesiam-se
mutuamente...

E homens e mulheres,
Adolescentes e jovens,
Crianças e velhos
Recolhidos no seu quarto
Desprendem-se de ti.

E choram... E choram...
E sentem…E sentem...


Razão:
Sim, sim, mas só enquanto eu permito e me interessa.
Quando me escutam,
seguem-me rigorosa e cegamente.
Cumprem escrupulosamente o que eu quero,
nem que para isso tenham de se anular,
vivendo como mortos vivos, em caixas de matéria
que vai apodrecendo e cheira mal.
A mim nada disso me incomoda. Eu não tenho sentidos.
Jamais poderei vivê-los. Eu sou antes o rigor, o método
a disciplina, o que se deve ser e
não o que se é ou se quer ser. E eu vencerei! Vê como o mundo me segue. Onde está a Tolerância? A Justiça, a Fraternidade, o respeito pela Vida, pela Natureza, pelo Eu que os habita? Não tens outra saída. Eu venço sempre!

Emoção:
Eu sei o que lhes pedes:
Não chores
Não mostres a tua fraqueza,
Não te curves,
Não lances a mão à cintura,
Não praguejes,
Não grites,
Não fales alto,
Não te comprometas,
Não sintas,
Não te comovas.
Ora, não te envolvas.
Mas ofende sem rubor,
Magoa com educação,
Lixa os outros e olha-os de soslaio.

E homens e mulheres,
Adolescentes e jovens,
Crianças e velhos
Vivem em partes de si
Amortalhados
Na aparência podre, suja…
Alguém os convenceu
Que se se comoverem são fracos,
Vulneráveis, frágeis…

Razão:
E não é verdade? Vê como eu impero.
Já ninguém quer ser fraco, vulnerável ou frágil.
Por isso assistimos a um mundo onde já ninguém chora ou ri: o mundo do faz de conta.
O mundo que eu quero que exista; porra!
Eu tenho que ter,
eu tenho que brilhar,
eu tenho que ter sucesso,
nem que para tal te abafe, te esmague, te destrua.

Eu sou a fama,
eu sou o poder,
eu sou tudo a qualquer preço.

Só me falta a glória!

Emoção:
E eu a que assisto?
A gente doente de tão séria
Muros intransponíveis
Carácteres reservados
Frios, agrestes, enlutados, feios,
horrorosos.

E eu comovo-me
Ao ver como estou neles
Pertinho da explosão
E aí até tremo
Meu Deus eles vão perder a cabeça
porque nasceu-lhes nela o coração.

Mas não.
Controlam-se.
Retrincam-se.
Fabricam-se.
Comportam-se.

Razão:
E porquê?
Porque eu sou mais forte. Eu
tenho aliados e o interesse e a
ganância fazem o resto! Eu só
dou um empurrãozinho,
mostro-lhes um filme com um
final feliz e ei-los! Até se
esmagam, se atropelam, se trincam,
se espezinham, se destroem...

Sou ou não sou poderosa?

Emoção:
E o ódio espalha-se pelo corpo.
Preparam a fisga para nova
investida.
Depois vão para o quarto
E choram... E choram...

Razão:
E o mundo do faz de conta
continua!...Não tenho eu
razão? Tenho pois!

Emoção:
E eu que vivo neles e por causa deles.
Não me apetece chorar...

Razão:
Pois não, porque eu te espreito a cada momento e até tu serás minha!
Estou prestes a consegui-lo.
Tu serás minha! Camões escutou-te, mas os homens seguiram-me.
Pessoa escutou-se e tu venceste outra vez.
Até com Reis conseguiste o
«carpe diem», mas os homens continuam a seguir-me em linha, todos direitinhos ao abismo.

Chegou a tua hora.

Também serás minha!
Eu serei a dona do mundo e dos homens, nem que tenha que te matar para sempre!

Emoção:
Como te enganas!
Quando eles se acobardam..,
Aí, enrolam-se-me os membros e grito-lhes:

Eu sou o tudo e o nada,
A dor e o prazer,
A vida e morte.
Eu sou o teu porto de abrigo,
Teu quarto sombrio e calado.
Eu sou o saco de água pura
Que trazes escondido no teu olhar
À espera que a barragem se deixe soltar.
Eu sou a tua lágrima pressentida,
A tua dor sucumbida,
A tua alegria desbravada,
A tua raiva merecida,
A tua mágoa sofrida,
A tua gargalhada estridente,
O teu amor embalado.
Eu sou o teu pecado e a tua
redenção.

Eu sou A EMOÇÃO!
Eu sou a EMOÇÃO!


Razão:
Ai não, não, larga-me! Não me atinjas!
Eu quero dominar-me
Eu quero vencer!

(A Razão, já prostrada, chora. A emoção contempla-a e abraça-a. Fundem-se numa só e, num grito final, exclamam: Nasceu a EMOZÃO)

 

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