Vida Após a Morte

 
 
“E digo-vos, amigos meus: não temais os que matam o corpo e depois não tem mais o que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei”. (Lucas 12:4,5).

 

 
 
VIDA APÓS A MORTE

 

INTRODUÇÃO

 

Esta crença é universal e está arraigada na História humana. Todos os povos antigos possuíam sua versão a respeito e hoje não é diferente, principalmente entre os povos não cristãos. Com o passar dos anos é que foram surgindo pessoas e grupos religiosos dissidentes. E, na realidade, há atualmente um número considerável de pessoas que não acreditam na vida após a morte.

 
Na época de Cristo existia os Saduceus (Mateus 16:1). Em sua maioria, eram sacerdotes e ricos aristocratas e é provável que tenham surgido no período macabeu[1]. Segundo Flávio Josefo, escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.C., “[...] a opinião dos saduceus é que as almas morrem com os corpos; que a única coisa que nós somos obrigados a fazer é observar a lei [de Moisés] e é um ato de virtude não querer exceder em sabedoria aos que no-la  ensinam[2] . Grifo e colchetes acrescentados. A crença na morte da alma, pelos Saduceus, é referida no livro de Atos 23:8. Os Saduceus eram inimigos ferrenhos dos Fariseus, que, por sua vez, acreditavam na vida após a morte. Apoiando os Fariseus nesta crença, estavam do mesmo lado os Essênios e os Zelotes (donde saiu Simão, um dos discípulos de Cristo: Lucas 6:15 e Atos 1:13).

 

A CONSTITUIÇÃO HUMANA

 

Biblicamente, o ser humano é tricótomo (corpo, alma e espírito):

  1. “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5:23).
  2. “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisäo da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intençöes do coraçäo.” (Hebreus 4:12).

 

Há, no entanto, correntes teológicas que defendem a dicotomia humana, ou seja, que o ser humano é constituído de corpo e alma-espírito, com base, principalmente, em Eclesiastes 12:7: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.

 

Acontece que numa cuidadosa leitura bíblica, contextualizando adequadamente os termos ‘alma’ e ‘espírito’, podemos perceber que, às vezes:

 

a)      alma pode significar a pessoa em si: Gênesis 2:7;

b)      alma pode referir-se ao sangue como vida: Levítico 17:14;

c)      alma pode ser usada para expressar: c.1) apetite físico (Números 21:5); c.2) emoções (Jó 30:25); c.3) vontade e ação moral (Deuteronômio 4:29; Gênesis 49:6); c.4) vida (Lucas 12:20); c.5) entidade que sobrevive à morte física (Mateus 10:28; Apocalipse 6:9);

 

O mesmo acontece em relação ao termo ‘espírito’, o que nos leva a concluir que a alma e o espírito são inseparáveis, porém divisíveis. 

 
Na prática, a alma é a sede das emoções humanas, e a representação exata da personalidade em si, a qual vai sendo construída, paulatinamente, durante toda a existência física. A alma manifesta-se no mundo material por meio dos órgãos sensoriais humanos. O espírito é a parte imaterial do ser humano, capaz de deixar o corpo e é o invólucro da alma. Sua principal função é salvaguardar a alma, daí a impossibilidade de separação.

 

ALMA IMORTAL E CONSCIENTE      

 

Cristo reafirmou a imortalidade da alma: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”. (Mateus 10:28).

 

O fato aqui é que o homem pode ‘matar’ o corpo, e só. A alma não pode ser morta pelo ser humano. A própria Bíblia revela que o termo ‘perecer’, usado nesta citação, não se refere ao aniquilamento da alma e do corpo, muito pelo contrário. Essa questão é abordada no tema "Estado Intermediário dos Mortos".

 

No livro do Apocalipse, o apóstolo João relata claramente, numa de suas visões: “E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E a cada um foi dada uma comprida veste branca e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos que haviam de ser mortos como eles foram” (Apocalipse 6: 9-11).

 

CRISTO E OS SADUCEUS

 

Como já mencionado na introdução acima, os Saduceus eram um grupo religioso da época de Cristo, que não acreditavam na vida após a morte e só aceitavam como Sagrados os escritos de Moisés, o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), e alegavam que tais escritos não ensinavam a esse respeito. Mas Jesus chegou a emudecê-los.

 

Todos os leitores da Bíblia conhecem o episódio em que Jesus foi interrogado pelos Saduceus acerca da ressurreição dos mortos (Mateus 22:23-33, Marcos 12:18-27, Lucas 20:27-40). Ora, nem sequer na ressurreição dos mortos os Saduceus criam, pois a alma morria com os corpos, segundo seus ensinos (Atos 23:8).

 

Os Saduceus tiveram a ousadia de ir à Cristo para ridicularizá-lo, com uma história (não se sabe se é verídica) bem interessante. Disseram que entre eles existiu uma mulher que fora tomada como esposa por sete irmãos, sem, contudo, terem deixado descendência nenhuma ao morrerem. Todos os sete irmãos a possuíram, sem deixarem descendência e, por fim, também morreu a mulher. Essa provável história tinha por base a lei do Levirato de Deuteronômio 25:5-10. Então, ironicamente, indagaram a Jesus: “Consequentemente, na ressurreição, de qual dos sete será ela a esposa? Pois todos a tiveram”. (Mateus 22:28).

 

Observemos a resposta de Jesus:

“Estais equivocados, porque não conheceis nem as Escrituras, nem o poder de Deus; pois na ressurreição, os homens não se casam, nem são dados em casamento, mas são como os anjos no céu. Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que vos foi falado por Deus, que disse: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ele é o Deus, não de mortos, mas de vivos. (Mateus 22:29-31).

 

O que podemos aprender a partir deste episódio?

 

Que os Saduceus realmente não conheciam as Escrituras. Diziam que as almas morriam com os corpos e que, portanto, não iria haver ressurreição. Só aceitavam como inspirados o Pentateuco, escrito por Moisés e, no Pentateuco, não havia nenhuma evidência duma alma que sobrevivesse à morte do corpo.

 

Por que os Saduceus não conheciam as Escrituras, conforme Jesus afirmou? Primeiro, porque simplesmente eles não discerniam, espiritualmente, que Deus, apesar de já ter se passado vários séculos da morte dos patriarcas, ainda declarou ser-lhes seu Deus, quando apareceu a Moisés no espinheiro, séculos depois (Êxodo 3:2-6). E acrescentou Jesus: “pois, para ele [Deus], todos estes [patriarcas] vivem”. (Lucas 20:38). Segundo, os Saduceus, de igual modo, ignoravam o poder de Deus. As mentes dos Saduceus eram tão materialistas, que eles não conseguiam admitir uma ressurreição onde os corpos dos ressuscitados fossem semelhantes aos corpos dos anjos de Deus, no céu, assim como Cristo afirmou. Eles não conseguiam imaginar isso pelo simples fato de também não acreditarem na existência dos próprios anjos, conforme Atos 23:8. Simplesmente, eles ignoravam as Escrituras e o poder de Deus que, através de Cristo, um dia irá “remodelar o nosso corpo humilhado para ser conforme ao seu corpo glorioso [de Cristo], segundo a operação do poder que ele tem, sim, de sujeitar todas as coisas a si mesmo”. (Filipenses 3:21).

 

O que tem a ver a ressurreição dos mortos com a imortalidade da alma? Ora, para haver ressurreição, necessário é haver um corpo a fim de novamente ser possível reunir os elementos que foram separados na Morte: corpo, alma e espírito, que equivale à completude  do ser humano.
 
 
 
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Autor: Valdi Machado da Nóbrega.

22 de fevereiro de 2009.       

 

[1] Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, p.1380.

[2] JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus, Livro Décimo Oitavo, I Parte, Antiguidades Judaicas. Tradução de Vicente Pedroso, Rio de Janeiro, CPAD, 1990, p.416.