Em todo o mundo, a liberdade está em perigo

Enquanto os EUA celebraram neste fim de semana o nascimento de sua liberdade, em grande parte do resto do mundo a liberdade e a democracia estão em recuo. - Por Fred Hiatt

 

Durante a última década, os governantes autoritários refinaram suas técnicas para permanecer no poder, aprendendo uns com os outros e a pensar dois passos à frente das forças democráticas. Despreparados para essa resposta sistemática ao avanço da democracia a partir da década de 1970 até a década de 1990, os governos democráticos ainda não formularam uma resposta coerente.

 

"Uma recessão política mundial" é como Tom Melia descreve o atual estado das coisas. Melia é diretor adjunto da Freedom House, uma organização sem fins lucrativos que, anualmente, mede o estado de liberdade em cada nação - e que tem encontrado “mais países em declínio de sua liberdade em geral", do que com ganhos nos últimos anos, disse Melia na semana passada.

 

O mundo fez a transição de uma posição “de ir de um a outro grande avanço" em um "período contínuo no qual estamos vendo regressões e retrocessos”, disse ele.

 

Melia fez estas declarações durante um evento co-patrocinado pela Radio Free Europe e a Rádio Liberty, em Washington, onde expôs sua visão sobre o declínio particularmente pungente: uma análise da situação da liberdade em parte do mundo que inspirou as maiores esperanças, há 20 anos, o ex-império soviético.

 

Na Freedom House, Christopher Walker relatou que a notícia é "muito sombria". A Liberdade sofreu uma erosão ao longo do ano passado em 14 dos 29 países que faziam parte da União Soviética ou do Pacto de Varsóvia. Onze das 12 não ex-repúblicas soviéticas estão piores do que há uma década. "Nenhum país da região tem sofrido uma diminuição mais aguda que a Rússia”, disse ele - e dentre os 12, na Ucrânia, o governo recém-eleito foi implacavelmente empurrado na direção errada nos últimos meses.

 

"É notável”, observou Walker, que 20 anos depois da queda do Muro de Berlim como o "autoritarismo estrutural” se enraizou tão profundamente. E também é importante para os Estados Unidos e outras democracias – sugeriu, ele -, porque é difícil imaginar que uma cooperação frutífera possa ser sustentada com nações que "operam na coerção e no capricho”.
 

Fortalecidos pela democratização de muitos países asiáticos na década de 1980 e depois da queda do comunismo em toda a Europa e da Ásia Central, houve uma tendência na década de 1990 para assumir que as ditaduras restantes no mundo iriam cair com o tempo. Eram os dinossauros esperando por sua vez. A Internet tinha tornado impossível o controle autoritário no longo prazo, e a globalização só poderia acelerar a propagação da liberdade.

Mas os dinossauros não ficaram esperando sentados por sua extinção inevitável. Eles reconheceram a ameaça e se mobilizaram, com métodos antigos e novos. Da China ao Egito, para Cuba, adversários políticos foram neutralizados, como sempre foram, pelo confisco dos bens, da prisão e da tortura, com os exemplos de um castigo de poucos para muitos. Os erros de um regime absurdo – que permite as eleições antes de assumir o controle total da máquina eleitoral, como na Birmânia, em 1990 - foram devidamente anotados e não mais repetidos.

 

Os ditadores aprenderam uns com os outros como acabar com qualquer gomo da sociedade civil independente, por meio das leis fiscais e de supostos regulamentos neutros. Com a China na liderança, eles aprenderam não só a neutralizar a World Wide Web, mas também a transformá-la em uma arma eficaz para a propaganda, o acompanhamento e a repressão dos seus próprios cidadãos, e os ataques contra os rivais democratas. Aproveitando-se de seu controle sobre a televisão, mobilizaram as ideologias do nacionalismo e da luta contra o terrorismo para socavar a retórica da liberdade.

 

Assim, ao final na década, a correlação de forças, como os comunistas costumavam dizer, parece sombria. Três poderes assertivos - China, Rússia e Irã - não apenas resistiram à democratização, mas procuram disseminar ativamente seu modelo de governo autoritário em suas esferas de influência. A Europa, o motor de democratização da década de 1990, olha para dentro, mais interessada em apaziguar a Rússia do que em reformá-la. Mais recentes ou democracias menos ricas, como a África do Sul, Turquia, Brasil e Índia parecem estar presas em uma mentalidade anticolonialista que desestimula a cooperação para promover a democracia. E o governo Obama segue assustadiço sobre a adoção de uma agenda de liberdade.

 

Felizmente, existe um fator mais forte do que todos esses: o desejo das pessoas de serem livres. Apesar de novos métodos de opressão, apesar da irresponsabilidade e da desunião dos governos democráticos, apesar de tudo, o impulso para a dignidade e para a autonomia surge novamente e novamente. No Líbano, em 2005, na Birmânia em 2007, no Tibet, em 2008, no Irã no ano passado, as pessoas comuns assumem riscos inimagináveis e confrontam com o perigo mortal porque não querem viver como prisioneiros.

 

Cada um desses movimentos pode ter falhado, por agora, mas em cada um desses países, a ânsia pela liberdade está depositada, e não está extinta. Durante o fim de semana, ativistas pela democracia e funcionários democratas, incluindo a secretária de Estado Hillary Clinton, estiveram reunidos na Polônia em uma conferência destinada a ajudar os países a formularem uma resposta aos ferozes regimes autoritários dos últimos anos. A Cortina de Ferro caiu, observou Clinton. “Mas devemos ser cautelosos com o torniquete de aço - com o qual muitos governos em todo o mundo estão pouco a pouco tentando esmagar a sociedade civil e o espírito humano. "
 
Reconhecendo o desafio é um bom começo.
 

fredhiatt@washpost.com

Segunda-feira, 5 jul 2010 - washingtonpost.com >Opinião

 

Tradução de Arthur MC

 

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