Os Maias em Podcasts

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Episódio 39

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Episódio 41

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Episódio 43

Episódio 44

Episódio 45


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Episódio 1- O panorama sociocultural do Portugal dos anos 60-70 (séc.XIX) e o surgimento da Questão Coimbrã

Bibliografia – Maria Leonor Carvalhão Buescu, “O regresso ao ‘Ramalhete’” in Ensaios de literatura portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1985, pp. 104-119.

  1. Jacinto do Prado Coelho, “Para a compreensão d’Os Maias como um todo orgânico” in Ao contrário de Penélope, Lisboa, Bertrand, 1976, pp. 167-188.
  2. Isabel Pires de Lima, “As máscaras do desengano. Para uma abordagem sociológica de “Os Maias” de Eça de Queirós”, Lisboa, Caminho, 1987.
  3. Isabel Pires de Lima (coordenação) Eça e “Os Maias”, Porto, Edições Asa, 1990.
  4. Óscar Lopes, “Três livros de Eça: “O Mandarim, A Relíquia, Os Maias” in Álbum de família. Ensaios sobre autores portugueses do século XIX, Lisboa, Ed. Caminho, 1984, pp. 69-114.
  5. Carlos Reis, Introdução à leitura d’”Os Maias”, 4ª ed., Coimbra, Almedina, 1982.
  6. Carlos Reis, “Pluridiscursividade e representação ideológica n’Os Maias” in Leituras d’”Os Maias”, Coimbra, Liv. Minerva, 1990, pp. 71-89.
  7. Carlos Reis, (coord.) Leituras d’”Os Maias”, Coimbra, Liv. Minerva, 1990.
  8. Alberto Machado da Rosa, “Nova interpretação de Os Maias” in Eça, discípulo de Machado?, 2ª ed., Lisboa, Ed. Presença, 1979.

Episódio 2 - As Conferências do Casino

Episódio 3 - O Realismo na Europa

Jean François Millet (1814-1875) – Pintor realista francês

Criou várias representações da vida no campo. Os seus quadros mais conhecidos são ” O Angelus ” e ” As Respigadoras ”. A partir de 1849, o pintor instala-se em Barbizon, perto da floresta de Fontainebleau. As suas manhãs eram passadas a cuidar do seu jardim, e as suas tardes eram dedicadas à pintura. Era muito admirado por Vincent van Gogh. Jean-François Millet queria mostrar ao mesmo tempo a rudeza e a nobreza do trabalho no campo. Ele representou muitas cenas da vida no campo, sem as idealizar, ao contrário do que faziam os seus contemporâneos. O pintor fazia no local os esboços que utilizava depois para compor os seus quadros.

Episódio 4 - Naturalismo / Realismo

O Fado – José Malhoa – 1910

José Malhoa inicia a actividade de pintor em 1881, quase sempre enaltecia a vida rural, sempre associada à temática central da sua obra. Malhoa foi o intérprete principal da vida no campo . O Fado foi o seu quadro de maior impacto junto do público, escapa no entanto, a essa dominância flagrante da vida rural por apresentar uma cena urbana, personagens lisboetas, um ambiente de interior, onde o sol (aspecto emblemático da pintura de Malhoa) aparece ausente. José Malhoa ao longo da sua obra teve algumas dicotomias como a da vida rural/ vida citadina e a cena exterior/ cena interior, sendo as primeiras as mais utilizadas pelo autor. A pintura de Malhoa é Portugal, nela vivem os nossos costumes, os nossos folgares, as nossas alegrias, as nossas festas e também as nossas mágoas e mesmo a tragédia. A pintura de Malhoa, especialmente a de paisagem sempre foi muito baseada no movimento artístico do Naturalismo Português.


Episódio 5 - Causas da Decadência dos Povos Peninsulares

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos três Séculos – Antero de Quental (Texto Integral)

Episódio 6 - O Realismo como Nova Expressão da Arte

A Literatura Nova – O Realismo como Nova Expressão da Arte – A quarta conferência proferida por Eça de Queirós nas Conferências do Casino

Episódio 7 - Síntese das ideias do Texto "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos três Séculos"

Diz Antero de Quental sobre si e dos tempos de Coimbra- O facto mais importante da minha vida durante aqueles anos, e provavelmente o mais decisivo dela, foi a espécie de revolução intelectual e moral que em mim se deu, ao sair, pobre criança arrancada ao viver quase patriarcal de uma província remota e imersa no seu plácido sono histórico, para o meio da irrespeitosa agitação intelectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as encontradas correntes do espírito moderno. Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungentes quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição. Se a isto se juntar a imaginação ardente, com que em excesso me dotara a natureza, o acordar das paixões amorosas próprias da primeira mocidade, a turbulência e a petulância, os fogachos e os abatimentos de um temperamento meridional, muito boa fé e boa vontade, mas muita falta de paciência e método, ficará feito o quadro das qualidades com que, aos dezoito anos penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.

Episódio 8 - Quem foi Eça de Queirós?

1845: Em 25 de Novembro, nasce na Póvoa do Varzim José Maria Eça de Queirós. - 1855: Entra como aluno interno no Colégio da Lapa, no Porto. - 1861: Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. - 1864: Conhece Teófilo Braga. - 1865: Representa no Teatro Académico e conhece Antero de Quental. - 1866: Forma-se em Direito. Instala-se em Lisboa, em casa do pai. Parte para Évora, onde funda e dirige o jornal Distrito de Évora. - 1867: Sai o primeiro número do jornal. Estreia-se no foro. Regressa a Lisboa. -1869: Assiste à inauguração do Canal de Suez. - 1870: É nomeado Administrador do Distrito de Leiria. Com Ramalho Ortigão, escreve O Mistério da Estrada de Sintra. Presta provas para cônsul de 1ª classe, ficando em primeiro lugar. - 1871: Conferências do Casino Lisbonense. - 1872: Cônsul em Havana. - 1873: Visita os Estados Unidos em missão do Ministério dos Negócios Estrangeiros. - 1874: É transferido para Newcastle. - 1876: O Crime do Padre Amaro. - 1878: O Primo Basílio. Escreve A Capital. - 1878: Ocupa o consulado de Bristol. - 1879: Escreve, em França, O Conde de Abranhos. -1880: O Mandarim. - 1883: É eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências. - 1885: Visita em Paris Émile Zola. - 1886: Casa com Emília de Castro Pamplona. - 1887: A Relíquia. - 1888: Cônsul em Paris. Os Maias. - 1889: Assiste ao primeiro jantar dos “Vencidos da Vida”. - 1900: A Correspondência de Fradique Mendes. A Ilustre Casa de Ramires. Em 16 de Agosto morre em Paris.

Episódio 9 - Como vê Eça de Queirós o seu romance Os Maias

A obra-prima de Eça de Queirós, publicada em 1888, é uma das mais importantes de toda a literatura narrativa portuguesa. Vale principalmente pela linguagem em que está escrita e pela fina ironia com que o autor define os caracteres e apresenta as situações. É um romance realista (e naturalista) onde não faltam o fatalismo, a análise social, as peripécias e a catástrofe próprias do enredo passional. A obra ocupa-se da história de uma família (Maia) ao longo de três gerações, centrando-se depois na última geração e dando relevo aos amores incestuosos de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Mas a história é também um pretexto para o autor fazer uma crítica à situação decadente do país (a nível político e cultural) e à alta burguesia lisboeta oitocentista, por onde perpassa um humor (ora fino, ora satírico) que configura a derrota e o desengano de todas as personagens.

Episódio 10 - Eça de Queirós um escritor polifacetado

 André Carrilho, Caricatura de Eça de Queirós, in Público, 12-12-2003

Episódio 11 - O que se disse d'Os Maias no séc. XIX e no séc. XX

 

Episódio 12 - Os Maias - Um Fresco Caricatural da Sociedade Portuguesa do Século XIX

A Caricatura, em sentido lato, é a intencional e irónica deformação de pessoas ou objectos e situações, abrangendo a noção de origem francesa caricature(representação de pessoas) e a noção anglo-saxónica de cartoon (representação de situações).

Falar de caricatura é falar no exagero, na sátira, na ironia, na inversão da ordem e em todas as contradições que a realidade tende esconder e que o artista quer mostrar. «Aponta os defeitos com subtileza, exalta as qualidades com um sorriso.» (Manuel Ribeiro, 1931, pp.10)

Questionar as contradições da realidade é o principal objectivo da caricatura, trazendo a lume questões sérias a sorrir. http://www.citi.pt/cultura/artes_plasticas/caricatura/antonio/caricatura.html

Episódio 13 - Roteiro de Leitura através das Categorias da Narrativa

Episódio 14 - A Arquitectura do Romance

Episódio 15 - Desenvolvimento dos Tópicos do Roteiro de Leitura

Os Maias – Veja aqui a obra integral

Episódio 16 - Aspectos Estruturantes da Acção - Níveis de acção

Episódio 17 - Estrutura de Novela / Estrutura de Romance

Episódio 18 - A Estrutura Trágica n'Os Maias 

Édipo é um personagem de uma fábula grega. Famoso por matar o pai e casar-se com a própria mãe. Filho de Laio e de Jocasta, pai de Etéocles, Ismênia, Antígona, e de Polinice. Segundo a lenda grega, rei de Tebas. Laio, que pertencia à família dos Labdácidas, sobre a qual pairava conhecida maldição, havia sido advertido pelo Oráculo de Delfos de que morreria às mãos do seu próprio filho. Por tal motivo, ao nascer abandonou a criança no monte Citeron onde seria recolhida por um pastor. Adoptado depois pelo rei de Corinto voltou a Delfos e, sem saber, matou seu pai. Após derrotar a Esfinge, monstro que atormentava Tebas, casou-se por acaso com a sua mãe, de quem teve quatro filhos. Anos mais tarde, após renunciar ao trono, foi expulso de seu reino pelos filhos Polinice e Etéocles. Cegou-se, foi acompanhado no seu exílio pela fiel filha Antígona até morrer em Colono anos mais tarde. A história está recolhida em Édipo Rei e Édipo em Colono de Sófocles. Vários escritores retomaram o tema.

 

Episódio 19 - A dimensão trágica presente em "Os Maias"

Episódio 20 - As Personagens de Intriga - Pedro da Maia e Maria Monforte

 

Pintura de Gustave Courbet – 1819 – 1877

Extracto d’ Os Maias Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada… Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n’um odio surdo áquella terra d’herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas portuguezas, para resar o terço agachada n’uma esteira – gosando ali, n’esse murmurio d’ave-marias em paiz protestante, o encanto de uma conjuração catholica! Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que era um collegio catholico! Não queria: aquelle catholicismo sem romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos, sem frades nas ruas – não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho não abandonaria ella á heresia; – e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capellão do Conde de Runa. O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a face d’Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d’alguma caçada ou das ruas de Londres, d’entre o forte rumor da vida livre – ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como do fundo d’uma treva: – Quantos são os inimigos da alma? E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando: -Tres. Mundo, Diabo e Carne… Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques, obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé sobre o joelho… Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, agarrava a mão do Pedrinho – para o levar, correr com elle sob as arvores do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a mamã accudia de dentro, em terror, a abafal-o n’uma grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a pouco, n’um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as folhas seccas – o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae vergando os hombros pensativo, triste d’aquella fraqueza do filho… Mas o menor esforço d’elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques – trazia logo á delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos entre as folhas do seu livro, tratado d’Addisson ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!... Os Maias, Cap. I

 

Episódio 21 - As Personagens de Intriga - Maria Eduarda

Pintura de Sidney Starr – 1857-1925

Maria Eduarda

Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se, caminhando depressa, uma senhora – que elle reconheceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n’uma toilette de serge muito simples que era como o complemento natural da sua pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcção, um ar casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez, apertado e fino como uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, n’aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como o requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n’essa tarde, lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições; apenas d’entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch assustador. Á maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela terra prendia-se-lhe á imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do Chanceller no Reichstag… Sim, era bem uma deusa. Sob o chapéo n’uma fórma de trança enrolada, apparecia o tom do seu cabello castanho, quasi louro á luz; a cadellinha trotava ao lado, com as orelhas direitas. – Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador… Steinbroken porém já deixara Bismark. Steinbroken agora atacava lord Beaconsfield. – Il est très fort… Oui, je vous l’accorde, il est excessivement fort… Mais voilà… Où va-t-il? Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte, mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.ª tinha encolhido os hombros… S. ex.ª não sabia… – Eh, oui! Beaconsfield est très fort… Vous avez lu son speech chez le Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà… Où va-t-il? – Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a arrefecer no Aterro… – Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo estomago e pelo ventre. E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher tambem, offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete. – Venha então jantar comnosco, Steinbroken. – Charmé, mon cher, charmé… A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n’um grande plaid escossez: – Pôs, Maia, fezemos um bello passêo… Mas este Atêrro no é deverrtido. Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n’essa tarde o mais delicioso logar da terra!

Os Maias, Cap. VII

Episódio 22 - As Personagens de Intriga - Carlos da Maia

Pintura de Henri Gervex – 1852-1929

Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo tão formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da Maia quizesse «ser medico a sério». – Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição, como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; educo-o para ser util ao seu paiz… – Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe parece a v. exc.ª que ha outras coisas, importantes tambem, e mais proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?... – Não vejo, replicou Affonso da Maia. N’um paiz em que a occupação geral é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber curar. – V. exc.ª tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o magistrado. E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério», pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as fórmas pittorescas das visceras – attrahiam-no agora estes lados militantes e heroicos da sciencia. Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) poz-lhe o nome de «Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panoplias d’armas, e um escudeiro de libré. Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d’estes confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava tambem o paiz uma choldra ignobil – os mais rigidos revolucionarios começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia uma enxerga e uma Biblia. Ao fim d’alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e Philosophos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanaz, encolhido no seu gabão d’Aveiro, com o seu grande barrete de lontra. Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala d’armas – porque n’aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um whist sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o Figaro, o Times e as Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas poltronas – havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquettes. Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto – e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n’um atelier improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a influencia da Salammbô. Além d’isso todas as tardes passeava os seus dois cavallos. No segundo anno levaria um R se não fosse tão conhecido e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente lhe deram um accessit. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d’esses medicos litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!

 

Episódio 23 - As Personagens de Intriga - Afonso da Maia

Pintura de Edvard Munch – 1863-1944

Extracto d’Os Maias – Afonso da Maia Toda essa manhã, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o impulso de paixão que o lançára de novo e para sempre, como esposo, nos braços de Maria; e, na confiança absoluta que o prendia ao Ega, revelára-lhe mesmo miudamente a historia d’ella, dolorosa e justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as sopas á Toca. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim começou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante as longas confidencias de Carlos: «É prodigioso!... Que estranha coisa, a vida!» E agora pela estrada, na aragem doce do rio, Carlos fallava ainda de Maria, da vida na Toca deixando escapar do coração muito cheio o interminavel cantico da sua felicidade. – É facto, Egasinho, conheço quasi a felicidade perfeita! – E cá na Toca ainda ninguem sabe nada? Ninguem – a não ser Melanie, a confidente – suspeitava a profunda alteração que se fizera nas suas relações: e tinham assentado que miss Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam régiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles partissem para Italia. – E ides então casar a Roma?... – Sim… Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso não falta em Italia… E é então, Ega, que reapparece o espinho de toda esta felicidade. É por isso que eu disse «quasi.» O terrivel espinho, o avô! – É verdade, o velho Affonso. Tu não tens idéa como lhe has de fazer conhecer esse caso?... Carlos não tinha idéa nenhuma. Sentia só que lhe faltava absolutamente a coragem de dizer ao avô: «esta mulher, com quem vou casar, teve na sua vida estes erros»… E além d’isso, já reflectira, era inutil. O avô nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que tinham arrastado Maria. Se lh’os contasse miudamente o avô veria alli um romance confuso e fragil, antipathico á sua natureza forte e candida. A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e não lhe deixaria apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber este caso d’um caracter nobre apanhado dentro d’uma implacavel rede de fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que o do avô… O velho Affonso era um bloco de granito: não se podiam esperar d’elle as subtis discriminações d’um casuista moderno. Da existencia de Maria só veria o facto tangivel: – cahira successivamente nos braços de dois homens. E d’ahi decorreria toda a sua attitude de chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma confissão, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e uma irreparavel separação domestica?... – Pois não te parece, Ega? – Falla mais baixo, olha o cocheiro. – Não percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo… Pois não te parece? Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava: – Sim, o velho Affonso é granitico… Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder ao avô o passado de Maria – e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S. Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M. de Mac-Gren. Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças d’um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas, Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa… Emfim, quando o avô estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo – elle, uma manhã, dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem, apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta terrível irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua indulgencia de velho enternecido a defender Maria – seria o primeiro a pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração… – Pois não te parece, Ega? Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria Eduarda tentára para com elle – e imitava sem o sentir os subtis raciocinios d’ella. – E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete… Senão, foi-se! passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue, eu os direitos do coração. E, vendo o Ega ainda silencioso: – Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem! O outro sacudiu a cabeça, como despertando. – Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja… É doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu, mas teu avô ha de morrer… Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a sua barba em bico. Espera; continua a vir á Toca, na tipoia do Mulato; e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem desgostos… Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, n’esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil! Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a conversão do amante no marido pelo laço d’estola que tudo purifica e nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração legal – que não fosse assim precipitada, dissimulada… Depois, tão recta e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia – mas diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações… – Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens immensamente razão! Essa idéa é genial! Devo esperar… E emquanto espero?...

Cap. XV

Episódio 24 - As Personagens de Ambiente ( As personagens da Crónica de Costumes)

Episódio 25 - As Personagens de Ambiente - João da Ega

Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente – ora reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada n’uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e rica tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo esse tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo da sua doença de entranhas e dos confortos d’esse padre Seraphim. Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da quinta, que elle escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias hereticas. João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas tambem na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a toda a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O esforço da intelligencia n’este sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os pêllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito – tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovára as tradições da antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca; embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido, atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ás vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias. Os Maias, Cap. IV

Logo na manhã s

Episódio 26 - As Personagens de Ambiente - Dâmaso Salcede

eguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao angulo, n’uma dobra simulada, o seu retratosinho em photographia, um capacete com plumas por cima do nome – DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras – COMMENDADOR DE CHRISTO, ao fundo a sua adresse – Rua de S. Domingos, á Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa – GRAND HOTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.º l03. Em seguida procurou Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se d’elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete. Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro d’um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a sua grande phrase – «chic a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, e só estava bem em Paris – sobre tudo por causa do genero «femea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que n’esse ponto a Providencia não o tratava mal. Gostava tambem do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chic, mas elle achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples… E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava chic ter um cab inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr.Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate. E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na solemnidade d’uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d’estalo a claque, vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, Damaso abandonou logo a partida, indifferente á indignação dos parceiros, para se vir collar á ilharga do Maia, offerecer-lhe marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N’uma d’essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás, com as mãos nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o dog-cart se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.

Os Maias, Cap. VI

Episódio 27 - As personagens da Crónica de Costumes

 

Episódio 28 - Duas concepções de Educação - a Portuguesa e a Inglesa

Pintor Renoir

Episódio 29 - O problema do adultério

 

Pintura de Renoir – Promenade

Excerto retirado da obra Uma Campanha Alegre de Eça de Queirós

 

Episódio 30 - A Crónica de Costumes - O Jantar no Hotel Central

Pintura de Renoir – Le dejeuner des Canotiers

Episódio 31 - A Crónica de Costumes - As Corridas de Cavalos

Quadro de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)- Le Quai Malaquais 

Episódio 32 - A Crónica de Costumes - O Jantar do Gouvarinhos

Episódio 33 - A Crónica de Costumes - A Corneta do Diabo e o Jornal a Tarde

 

Episódio 34 - A Crónica de Costumes - O Sarau no Teatro da Trindade

Teatro da Trindade – Lisboa

Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d’uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o. – É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo! – E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo. Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges… – Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica! E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés, segredando – sentiram logo um vozeirão tumido, garganteado, provinciano, de vogaes arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a alma religiosa de Lamartine!...» – É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que não passára da porta, com o charuto escondido atraz das costas. Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D’ambos os lados se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé, encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao vento; depois o marquez atabafado n’um cache-nez de sêda branca; e, n’um grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o Pinheiro, assistindo áquelle sport da eloquencia com uma mistura d’assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camelia na casaca mal feita. O gaz suffocava, vibrando cruamente n’aquella sala clara, d’um tom desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenço. E na extremidade da galeria, n’um camarote feito de tabiques, com sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate. No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o Anjo da Esmola que elle entrevira, além no azul, batendo as azas de setim…» Ega não comprehendia bem – entalado entre um padre muito gordo que pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se conteve:- «Sobre que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou, com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo: – Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime… Infelizmente está a acabar!

Os Maias, Cap. XVI

Episódio 35 - A Crónica de Costumes - O Passeio Final (Cap. XVIII) Público

Episódio 36 - O Espaço Físico - Exteriores e Interiores

Episódio 37 - Os Maias, um Romance Naturalista?

 

Pintura de Peder Severin Krøyer (1851-1909)

O Eça do início do romance é ainda naturalista, mas o do final d’Os Maias já não defende, de forma tão convicta, os mesmos cânones estéticos, por isso se tem afirmado que Os Maias são um romance de compromisso e também de uma certa desistência. Há, portanto, um afastamento progressivo dos cânones naturalistas a que as próprias personagens (Carlos e Ega) não são alheias.

 

Episódio 38 - O Tempo - Tempo da História e Tempo do Discurso/Tempo Psicológico/Tempo Histórico

Episódio 39 - O Narrador em Os Maias

Episódio 40 - O Espaço Social e Psicológico

Episódio 41 - Os Elementos Simbólicos em Os Maias

Episódio 42 - Linguagem e Estilo em Eça de Queirós

 

Episódio 43 - O Significado oculto de Os Maias

Episódio 44 - Os Maias Um Romance no Masculino

Episódio 45 - Conclusão do Estudo do romance Os Maias ( Capítulos comentados)

       Para este episódio servimo-nos dos “Aponatamentos Europa-América”, Eça de Queirós, Os Maias por José Tomaz Ferreira